sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Reconquista do Pacífico

De Guadalcanal a Tóquio

Na primavera de 1943, a terceira fase da guerra do Pacífico estava prestes a começar. Na primeira, o Japão conquistou todo o Sudeste Asiático e o Pacífico Ocidental. Na segunda, foi derrotado no Mar de Coral, em Midway, Guadalcanal e Papua. De agora em diante, o Japão estaria na defensiva.

A conquista do Pacífico, 1943 a 1945

Na primavera de 1943, o Sol Nascente ainda tremulava orgulhoso sobre a ampla extensão territorial do recém-adquirido Império Nipônico. A área de domínio japonês fora bastante ampliada, em tempo ridiculamente pequeno, com a captura de Hong-Kong, da Malásia, de Cingapura, das Índias Orientais Holandesas, da Birmânia e das Filipinas. O exército japonês espalhara-se pelo Extremo Oriente como tinta num mata-borrão particularmente absorvente, deixando a impressão, pelo menos por algum tempo, de que força alguma o bateria. Dentre as inúmeras conquistas que fez, dobrou, algumas vezes, forças numericamente mais poderosas, sempre confiante na vitória final e totalmente convencido da justiça da causa por que lutava. Com moral elevado, o exército nipônico fazia prevalecer o seu adestramento e a sua disciplina em combate sobre as forças que enfrentava, forças que, em desespero, pareciam afogar-se nas ondas de mar cheio levantadas pela máquina de guerra do Japão.

Mas, ainda na primavera de 1943, os japoneses já haviam provado o amargo sabor da derrota. Doze meses antes, em junho de 1942, eles haviam sofrido um grande revés, no encontro com a Marinha dos Estados Unidos, na Batalha de Midway. Os americanos complementaram o êxito obtido no mar com um ataque a Guadalcanal, em agosto - as primeiras demonstrações do vigor de um jovem gigante que em breve se transformaria na maior força do Pacifico. Começava agora o que o Dr. Kennedy chama de a "Terceira Fase" da guerra do Pacífico - a reconquista dos territórios anexados pelos japoneses.

Que caminho os americanos deveriam tomar? Seguir a linha Filipinas-Nova Guiné, ou atacar pelo Pacífico Central, capturando os vários grupos de ilhas da Micronésia? Qual destes dois eixos seria o mais eficaz na luta por subjugar o novo Império Japonês? Cada rota tinha seus defensores e na "Conferência Tridente", realizada em Washington em maio de 1943, decidiu-se em favor de um avanço pelos dois caminhos, o que acabou sendo uma escolha sensata e proveitosa. Com tantas e tão espalhadas possessões, os japoneses tinham dificuldade em prever a direção do próximo ataque americano e, com duas linhas de avanço para seguir, os americanos podiam mantê-los na incerteza.

A reunião de forças e material bélico suficientes para a ofensiva em duas pontas era, em si, uma tarefa de proporções gigantescas. Os Estados Unidos dispunham de recursos industriais para produzir as armas de guerra necessárias para lhes dar esmagadora superioridade material. E quando esta enorme capacidade industrial se somasse ao gênio natural para a organização do americano, poder-se-ia então prever o resultado da guerra no Pacífico. A derrota do Japão era inevitável.

Para se apresentar um quadro completo da guerra no Extremo Oriente, é preciso incluir as operações dos britânicos na Birmânia e as campanhas desenvolvidas na China. Na Birmânia, como nos outros locais, os japoneses lutaram sempre com muita coragem e obstinação, tornando a campanha extremamente difícil e violenta. Os britânicos haviam experimentado, nesta frente, inovações, como as colunas dos "Chindits", criação de Orde Wingate, que operavam independentemente, travando guerra de guerrilha atrás das linhas inimigas e recebendo os suprimentos de que necessitavam por pára-quedas. As tentativas feitas no sentido de ampliar este método de guerra com o estabelecimento de enclaves dominados pelos "Chindits" bem dentro do território inimigo tiveram menos êxito, mas o abastecimento por via aérea das tropas de terra revelou-se uma tática bastante proveitosa e contribuiu muito para que os britânicos conseguissem vitórias, como em Imphal e Kohima, quando o abastecimento das forças convencionais foi feito por este sistema.

Embora as operações britânicas na Birmânia fossem importantes, e muito contribuíssem para o desfecho que teve a guerra contra o Japão, seriam os americanos que desenvolveriam a grande estratégia e levariam a guerra cada vez mais para perto das ilhas metropolitanas japonesas. Eles detiveram a marinha nipônica numa série de grandes batalhas navais, das quais a de Midway e a do Mar das Filipinas foram indiscutivelmente as mais importantes do ponto de vista estratégico. Nesta última batalha, os japoneses perderam três porta-aviões, tiveram grande número de navios avariados e, talvez o mais importante, perderam praticamente toda a arma aérea da marinha. Foi esta grande derrota que deixou as Filipinas abertas ao ataque americano.

Assim, a guerra aproximava-se cada vez mais das ilhas metropolitanas do Japão, cujo povo sentia com mais vigor a realidade da guerra moderna, pelos constantes ataques aéreos. Quando os americanos, mudando a tática de bombardeio, passaram aos ataques noturnos de baixo nível, as cidades japonesas começaram a sofrer danos mais graves. Para atingir alvos pequenos e espalhados, o alto explosivo foi trocado por bombas incendiárias, com resultados devastadores. Uma única B-29 transportava 49 grupos de 38 bombas incendiárias, representando um potencial destrutivo assustador. Num ataque a Tóquio, quase 16 milhas quadradas daquela cidade foram destruídas por uma fogueira de que resultou um número de baixas mais tarde estimado em 83.000 mortos e 102.000 feridos.

Durante todo este período de reveses quase contínuos, incapazes de sequer aproximar-se, em termos de produção de armas e munições, dos índices alcançados pelos americanos, com a marinha mercante dizimada por ataques de submarinos e aviões, os japoneses, contudo, continuaram lutando com o mesmo vigor e a mesma obstinada coragem. Houve ataques-suicidas - Kamikazes - num esforço louco por reduzir a superioridade numérica das enormes esquadras americanas. Soldados japoneses jogavam fora a vida em cargas auto-destrutivas que não podiam, de modo algum, afetar o resultado da batalha; todo esse sacrifício foi inútil. Para o Japão a guerra estava perdida. Restava-lhe apenas encontrar um bom pretexto para dobrar os joelhos sem comprometer as aparências. E a primeira bomba nuclear foi lançada sobre Hiroxima. O fato de ele não se render imediatamente levou os Aliados a repetir a terrível prova de destruição em massa com uma segunda bomba, lançada sobre Nagasaki. O Japão cedeu, embora houvesse militares que defendessem a rejeição dos termos propostos pelos Aliados, talvez porque lhes fosse menos penoso o aniquilamento total que a perda da condição de semideuses que desfrutavam.

Este trabalho é uma interessantíssima seqüência do "Inferno no Pacífico" - onde vai narrada a espantosa coleção de vitórias colhidas pelos nipônicos. Com sua costumeira lucidez, o Dr. Kennedy aqui discorre sobre as vicissitudes que tiveram de ser superadas pelos Aliados no teatro de operações do Pacífico, até a cerimônia realizada no convés do USS Missouri que assinalou o dramático final da Segunda Guerra Mundial.





Preparando para a volta

Na primavera de 1943, a terceira fase da guerra no Pacifico estava prestes a começar. Na primeira, o Japão triunfou por toda parte, conquistou todo o Sudeste Asiático e o Pacífico Ocidental. Na segunda, tentou ampliar ainda mais o seu controle, buscando tomar a Austrália e o Havaí, experimentando derrotas decisivas, nas batalhas do Mar de Coral, Midway, Guadalcanal e Papua. Devido à perda de quatro porta-aviões da esquadra em Midway, dois couraçados e muitas belonaves menores em Guadalcanal, e de centenas de aviões e suas tripulações em todas as quatro campanhas, era evidente que o Japão teria, na terceira fase, que adotar técnica defensivista; aliás, as ordens operacionais para os comandantes japoneses no Pacífico Sudoeste salientavam que eles deviam "conservar todas as posições nas Salomão e na Nova Guiné". Pela primeira vez na guerra do Leste, os Aliados estavam com a iniciativa, se pudessem usá-la. Mas isto não quer dizer que o fim estivesse à vista para o Japão. Na verdade, a mudança para a defensiva, no começo de 1943, representava apenas a realização do plano originalmente defendido antes que o otimismo da Marinha Imperial a tivesse tentado ir mais além, contra Midway e as Salomão. Este plano - a defesa rigorosa de um anel de bases ilhoas poderosamente fortificado e o rechaço de todos os ataques americanos até que Washington finalmente concordasse em negociar uma paz que reconhecesse as partes essenciais das conquistas do Japão - seria agora submetido à prova.

Qualquer que fosse a rota (ou rotas) que os Aliados escolhessem para o retorno, todas sugeriam dificuldades militares. O Japão, com suas primeiras conquistas, cercara-se de anéis concêntricos de defesa que reduziriam a rapidez de qualquer ofensiva e lhe permitiriam explorar suas linhas internas de comunicação, enviar rapidamente reforços para as áreas ameaçadas. No mapa, as possibilidades pareciam muitas, mas a maioria podia ser logo posta de lado. Uma ofensiva da Rússia estava fora de cogitações, pela franca recusa de Stalin em travar guerra na Ásia até que a Alemanha fosse derrotada. Um ataque da China também foi excluído, após muita discussão, devido às dificuldades no abastecimento e à falibilidade geral dos chineses. A rota do Pacífico Norte, geograficamente a mais direta dos Estados Unidos, carecia de bases e estava sujeita a constantes tempestades e nevoeiros. Uma rota de retorno pelo Sudeste Asiático era uma possibilidade, mas não se podia levá-la em consideração, porque as tropas e equipamentos britânicos eram totalmente inadequados para essa tarefa e havia pouca possibilidade de qualquer reforço em grande escala; de qualquer modo, a campanha para tomar a Birmânia, a Sumatra, a Malásia e as Índias Orientais Holandesas poderia demorar muitos anos e, ainda assim, deixar os Aliados a milhares de quilômetros de Tóquio. Com todas essas possibilidades tão claramente inadequadas ou inadmissíveis, restava apenas uma contra-ofensiva pelas vastidões do próprio Oceano Pacífico.

Essa rota há muito era considerada a mais provável por outra razão - o fato de se ter evidenciado, desde que se examinara pela primeira vez a possibilidade de um retorno, que os Estados Unidos desempenhariam o papel decisivo. Contudo, ainda não se resolvera se este avanço liderado pelos americanos seria ao longo do eixo Nova Guiné-Filipinas ou através do Pacífico Central, passando diretamente pelos vários grupos de ilhas da Micronésia. As duas rotas tinham seus defensores.

O General MacArthur, Comandante Chefe do Pacífico Sudoeste, liderava a defesa da rota pela Nova Guiné. Ele afirmava que esta era mais lógica, não só por já estar sendo realizada pelas campanhas de Guadalcanal e Papua, mas também porque colocaria mais depressa os Aliados em condições de isolar o recém-conquistado império sul do Japão de suas ilhas metropolitanas, sustando, assim, a sua produção de guerra. MacArthur afirmou com veemência que os Estados Unidos tinham o dever moral de reconquistar as Filipinas o mais depressa possível - aliás, isto muitas vezes deixou ele a impressão de que era mais importante do que a própria invasão do Japão - e o caminho para Manilha estaria aberto assim que a Nova Guiné caísse. A rota alternativa não parecia oferecer nenhum objetivo estratégico vital e seria uma operação muito perigosa, expondo as forças de invasão a ataques de um grupo de bases navais e aéreas que os japoneses haviam construído nas ilhas administradas sob mandato. Por último, se se deixassem as forças inimigas ocupando a Nova Guiné e as Salomão, isto alarmaria os aliados dos Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia.

Por outro lado, a marinha americana via muito valor num avanço pelo Pacífico Central. Em primeiro lugar, isto lhe permitiria empregar seus velozes porta-aviões - cada vez mais numerosos - com muito mais eficiência do que nas apinhadas águas das Salomão e das Bismarcks. Ela rejeitou a noção de que esta rota seria mais perigosa, observando os desenvolvimentos muito importantes nas forças-tarefas de porta-aviões - que tinham o poder de ataque para isolar e dominar um grupo de ilhas e proteger os comboios de invasão - e do sistema de abastecimento flutuante da esquadra - que eliminava a necessidade de os porta-aviões retornarem ao porto a intervalos freqüentes. Além disso, se se deixassem intocadas as forças japonesas nas ilhas de mandato, isto exporia a proposta linha de comunicações Nova Guiné-Filipinas a poderosos ataques pelos flancos. De qualquer modo, uma arremetida pelo Pacífico Central provavelmente chegaria às Filipinas e cortaria os laços do Japão com o sul mais depressa da que uma batalha por etapas, subindo as escadas das Salomão-Bismarcks-Nova Guiné, que, sendo previsível, dava ao inimigo a oportunidade de se preparar para o ataque seguinte e envolveria uma luta acirrada. E, naturalmente em segredo, a marinha americana não gostava da probabilidade de colocar seus preciosos porta-aviões sob o controle de MacArthur, enquanto que este, por sua vez, não queria que o Comando do Pacífico Sudoeste fosse um teatro de operações subsidiário e nem que o exército fosse empregado unicamente para operações de "limpeza".

A solução finalmente aceita - sobretudo na "Conferência Tridente", realizada em Washington em maio de 1943 - foi um avanço pelas duas rotas, pois isto manteria os japoneses em dúvida quanto ao local de ataque real e dispersaria as forças inimigas, além de impedir quaisquer ataques pelos flancos ou a ida de reforço das ilhas sob mandato para Rabaul - ou vice-versa. De qualquer modo, as duas rotas terminariam nas Filipinas. Tecnicamente, esta decisão foi uma derrota para as tendências monopolistas de MacArthur; estrategicamente, ela se revelaria uma decisão realmente muito sensata. Por outro lado, uma ofensiva de duas pontas assim tão vasta precisava de enormes preparativos e da existência de vários meses de relativo impasse na guerra do Pacífico, enquanto as unidades estavam sendo treinadas, bases e aeródromos estavam sendo construídos, barcaças de desembarque e navios reunidos, novas belonaves preparadas e os planos finais organizados. Foi durante este "impasse" que os Estados Unidos recuperaram as Aleútas ocidentais.

Embora a impraticabilidade de grandes operações nessa área fosse óbvia a todos quantos a conheciam, ambos os lados eram extremamente sensíveis a avanços inimigos ali. A tomada pelos japoneses das ilhas de Kiska e Attu durante a operação das Midway provocou alarma nos Estados Unidos e fez o governo planejar uma contra-ofensiva imediata. Bombardeios das ilhas ocupadas pelos japoneses foram seguidos do bombardeio naval de Kiska, a 7 de agosto de 1942, da ocupação de Adak (336 km a leste de Kiska), a 30 de agosto, onde se construiu uma base aérea para ajudar num outro avanço, e da tomada de Amchitka (144 km a leste de Kiska), a 12 de janeiro de 1943. A etapa óbvia seguinte, a tomada da própria ilha de Kiska, foi evitada pelos comandantes americanos, o Contra-Almirante Kinkaid e o Major-General De Witt, porque a maior parte das suas forças navais e aéreas fora desviada para as críticas batalhas de Guadalcanal. Em vez disso, eles decidiram tomar Attu, situada ainda mais para oeste, depois que um bombardeio naval, a 18 de fevereiro, revelou sua falta de defesas.

Um esquadrão americano, formado pelos cruzadores Salt Lake City e Richmond e por quatro destróieres, comandado pelo Contra-Almirante McMorris, foi despachado para bloquear Attu no mês seguinte, mas a 26 de março ele encontrou uma força inimiga mais poderosa, composta de quatro cruzadores e quatro destróieres, que escoltava três transportes com reforços para a guarnição da ilha. Este grupo, comandado pelo Vice-Almirante Hosogaya, abriu fogo quando as belonaves americanas se aproximaram, iniciando assim a luta que recebeu o título grandiloqüente de "Batalha das Ilhas Komandorski". Durante três horas e meia as forças adversárias dispararam e manobraram a longa distância, até que os japoneses romperam contato. Nenhum dos lados sofreu qualquer perda, mas como os transportes foram obrigados a voltar, pode-se dizer que foi uma pequena vitória americana. Seis semanas mais tarde, a 11 de maio, uma força, sob o comando-geral do Contra-Almirante Rockwell, desembarcou em Attu, ajudada pelo nevoeiro e apoiada por um grupo de bombardeio, posicionado ao largo da ilha, do qual participavam três couraçados. Durante duas semanas a guarnição de 2.600 homens resistiu aos 11.000 soldados da 7a Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, embora fosse obrigada a recuar sistematicamente para as montanhas. Porém, a 29 de maio, após 24 horas de violenta luta, quando os japoneses restantes fizeram uma carga-suicida contra as posições americanas, os defensores foram quase que totalmente eliminados; somente 28 foram aprisionados, enquanto que os invasores perderam 600 homens.

A captura de Attu foi o primeiro exemplo de "pular carniça" (saltar de ilha em ilha) feita pelos americanos na guerra do Pacífico. A eficácia dessa tática logo tornou-se evidente porque, com uma base aérea americana construída rapidamente em Attu, os japoneses que compunham a guarnição de Kiska foram virtualmente isolados e submetidos a freqüentes bombardeios navais e ataques aéreos. Como o QG Imperial não queria travar uma grande campanha nas Aleútas, decidiu-se abandonar a ilha e, a 28 de julho, uma força de cruzadores e destróieres evacuou em apenas 55 minutos os 5.183 soldados que ali se encontravam, sob a proteção do habitual nevoeiro. Ignorando este acontecimento, os americanos continuaram bombardeando Kiska nas semanas seguintes; e na noite de 15 de agosto cerca de 34.400 soldados (incluindo 5.400 canadenses) desembarcaram para uma infrutífera busca de cinco dias, até perceberem que o inimigo já abandonara a ilha. Assim, as Aleútas foram retomadas, o que não é de surpreender, pois os americanos destacaram 100.000 soldados e uma grande força-tarefa naval, além da Força Aérea do 11o Exército, para a área do Pacífico Norte, cuja maior parte poderia ter sido empregada com melhores resultados em outros locais.

Nos Comandos do Pacífico Sudoeste e do oceano Pacífico, por exemplo, MacArthur e Nimitz estavam implorando por mais reforços antes de começar suas próprias ofensivas. Mas, embora nenhum dos dois fosse plenamente satisfeito, seus respectivos efetivos estavam começando a aumentar sistematicamente, à medida que a economia dos Estados Unidos se concentrava na produção bélica. MacArthur tinha sete divisões (três delas australianas) sob seu comando, com mais duas divisões americanas a serem enviadas e oito divisões australianas em treinamento; no Comando do Pacífico Sul, de Halsey (responsável perante Nimitz), havia quatro divisões do exército, duas dos fuzileiros navais e uma neozelandesa, com mais outra que deveria chegar pelo fim do ano. No ar, MacArthur controlava cerca de 1.000 aviões, enquanto que Halsey podia recorrer a 700 aviões do exército e 1.100 da marinha e dos fuzileiros navais. As forças navais variavam, pois, enquanto se concentrava uma esquadra anfïbia com escoltas para as duas campanhas, muitas das belonaves estavam, sob empréstimo, a curto prazo, adidas à força naval de Nimitz, em Pearl Harbor. Nessa época, Halsey tinha seis couraçados e dois porta-aviões sob seu comando.

Embora se tivesse concordado quanto à estratégia-geral da organização de uma poderosa contra-ofensiva na região da Nova Guiné-Salomão, ainda restava resolver as diferenças de comando e o curso exato das operações. O primeiro problema era complicado pelo fato de que o próprio grupo das Salomão separava os Comandos do Pacífico Sudoeste e do Pacífico Sul. Por outro lado, isto também obrigava os dois líderes da campanha e seus próprios superiores a cooperar mais estreitamente do que teria acontecido, pois não havia sentido em discutirem entre si enquanto combatiam um inimigo tão formidável como os japoneses. Portanto, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos logo concordaram que MacArthur teria o controle estratégico de toda a região da Nova Guiné-Salomão, mas Halsey teria o controle tático das Salomão, enquanto que todas as belonaves de Pearl Harbor em operação nessas águas permaneceriam sob o comando de Nimitz.

O objetivo estratégico da "Operação Cartwheel" (Roda de Carro) (originariamente chamada "Watchtower" - Torre de Atalaia) era romper a barreira das Bismarcks e tomar a grande base japonesa em Rabaul. Aqui, também, os Aliados poderiam aproximar-se ao longo de dois eixos principais, pela costa da Nova Guiné e pela cadeia das Salomão, com ataques alternativos que manteriam o inimigo confuso. Esperava-se que dentro de oito meses eles estariam prontos para tomar Rabaul propriamente dita. A primeira etapa seria empreendida pelas forças de Halsey, que ocupariam as ilhas Russell, para desenvolver ali uma base aérea e naval avançada. Então, as forças de MacArthur atacariam, tomando a ilhas de Woodlark e Kiriwina, no grupo das Trobriands, que seria uma base aérea e um ponto de parada entre os dois teatros de operações. Após estas ações preliminares, Halsey atacaria as ilhas da Nova Geórgia, para tomar a importante pista de pouso de Munda, enquanto que o Comando do Pacífico Sudoeste faria um grande avanço para expulsar os japoneses dos seus pontos fortes da Nova Guiné: Lae, Salamaua, Finschhafen e Madang. Nesse momento, as forças do Pacífico Sul já teriam passado para as ilhas Shortland e, depois, para o sul de Bougainville. A penúltima ação dos dois avanços seria a neutralização de Buka, pelo Comando de Halsey, e a tomada do cabo Gloucester, bem como da própria Nova Britânia, pelo Comando de MacArthur. Surpresa, rapidez e sincronização seriam fatores essenciais, mas os dois comandantes eram famosos pelo seu vigor e impetuosidade.

Também os japoneses estavam reunindo suas forças e reexaminando sua estratégia nos meses subseqüentes à desastrosa campanha de Guadalcanal. Após um longo e custoso período de alternação de prioridades no Pacífico Sudoeste, entre a Nova Guiné e as Salomão, decidira-se dividir aqueles teatros de operações em duas partes, com o 18o Exército encarregado da defesa da primeira e o 17o Exército da segunda, ambos sob o controle do 8o Exército de Área (General Imamura), baseado em Rabaul. Contudo, o exército ainda tendia a preferir a campanha da Nova Guiné, por considerar que aquela grande ilha era um amortecedor essencial para as Índias Orientais Holandesas e as Filipinas. Mas a marinha, com igual lógica, desejava dar prioridade à área Salomão-Bismarcks, pois a vitória ali abriria a grande base naval japonesa em Truk, nas Carolinas, a ataques aéreos americanos. Como o exército levava vantagem no QG Imperial, porém, uma diretiva datada de 25 de março de 1943 declarou que se deveria dar prioridade à Nova Guiné. Na verdade, a marinha assumiu a principal responsabilidade pela defesa das Salomão e o exército fez o mesmo com relação à Nova Guiné, concordando-se que a linha defensiva geral deveria ir desde Lae, na costa da Nova Guiné, até Isabel e Nova Geórgia, nas Salomão. O certo é que cada frente seria ferozmente defendida.

Por outro lado, as forças japonesas eram muito inferiores às dos Aliados. Havia três divisões (55.000 homens) na Nova Guiné e duas divisões, uma brigada e outras unidades (25.000 homens) nas Salomão; as 6a e 7a Divisões Aéreas, respectivamente anexadas a cada comando, só dispunham de 170 aviões, ao passo que a 11a Frota Aeronaval podia fornecer mais 240, pois as perdas na campanha de Guadalcanal haviam sido muito grandes; as forças navais compreendiam apenas cruzadores e destróieres, embora se pudesse recorrer rapidamente a belonaves maiores, em Truk. É verdade que, em seis meses, a área poderia ser reforçada por 10 ou 15 divisões, mais de 850 aviões e toda a marinha japonesa, tornando, portanto, uma operação de contenção bastante viável - mas, para que tal operação se constituísse em sucesso, era imperioso que houvesse tenacidade, flexibilidade de raciocínio e que os reforços fossem obtidos assim que se fizessem necessários. Independente do que acontecesse, parecia que o Japão já perdera a supremacia aérea nesta região: mas todos reconheciam que esta era o elemento essencial na guerra do Pacífico.

Mesmo no período do chamado impasse, houve considerável ação no Pacifico Sudoeste, sobretudo ação aérea. Já a 21 de fevereiro de 1943, as forças de Halsey passaram de Guadalcanal para as ilhas Russell, embora isto não passasse de apenas um exercício, pois os japoneses as haviam abandonado muito antes que os 9.000 soldados americanos nelas desembarcassem. Muitas vezes havia escaramuças navais na "Fenda", as águas muito disputadas que banham a cadeia das Salomão, e na noite de 6 de março, dois destróieres japoneses foram afundados por seus equivalentes americanos.

Houve uma grande luta na frente da Nova Guiné, onde os japoneses decidiram aliviar a pressão que sofria capturando a base aérea em Vau, defendida apenas por uma guarnição australiana, chamada "Força Kanga". Ali, porém, os Aliados demonstraram sua superioridade aérea, despachando de avião a 17a Brigada australiana para a cidade, a fim de repelir o inimigo, ação esta que de tal forma alarmou Imamura, que ele ordenou que o resto da 51a Divisão de Infantaria fosse transportada para a região do Golfo de Huon o mais depressa possível. A 28 de fevereiro, oito navios, transportando quase 7.000 soldados e escoltados por oito destróieres, zarparam de Rabaul; um dia depois, porém, eles foram avistados por um avião de reconhecimento americano, sendo então atacados por 207 bombardeiros e 129 caças do grupamento aéreo do Tenente-General Kenney, estacionado na Nova Guiné. Quase que ignorando os fracos esforços japoneses para proteger o comboio, esses aviões "bombardearam por ricochete" e metralharam os navios de transporte de tropas durante 48 horas, afundando todos eles, além de quatro destróieres, morrendo ali mais de 3.600 soldados nipônicos. Após esta "Batalha do Mar de Bismarck", o 8° Exército de Área foi obrigado a usar apenas submarinos, ou pequenas barcaças, para transportar homens e suprimentos nas águas da Nova Guiné.

O desastre ocorrido com este comboio fez o Comandante-Chefe Naval, Almirante Yamamoto, compreender que se o Japão não recuperasse imediatamente a supremacia aérea, ele perderia não só o Pacifico Sul, mas, também, a guerra. Assim, de despachou 300 aviões, dos porta-aviões da 3a Esquadra, de Truk para Rabaul, com ordens de atacar as bases aliadas e provocar batalhas aéreas em grande escala, para permitir ao Japão tomar o controle do ar. Esta "Operação I", como era chamada, iniciou-se a 1o de abril, com uma série de ataques a Guadalcanal, passando depois para a Nova Guiné, ainda no mesmo mês. O plano elaborado para provocar batalhas aéreas teve êxito, mas Yamamoto foi iludido pelos relatórios extremamente exagerados dos seus pilotos, que o levaram a pensar que as forças aéreas inimigas haviam sido dizimadas; na verdade, os Aliados perderam 25 aviões e os japoneses, 42, o que fez pender ainda mais a balança estratégica em favor das forças americanas.

Enquanto estava na região investigando o desenrolar da operação, Yamamoto decidiu visitar Bougainville, sendo descoberto pelo Serviço de Inteligência e de Decifração dos Estados Unidos. Preparou-se para ele uma emboscada e, a 18 de abril, o seu avião foi atacado por 18 caças Lightnings, que cobriram mais de 1.000 km para alcançar o ponto de interceptação. Mergulhando por entre os aviões de escolta, os Lightnings derrubaram o avião de Yamamoto; o almirante e a tripulação tiveram morte instantânea, quando o aparelho caiu na selva. Os corpos foram recuperados e as cinzas do almirante foram sepultadas em Tóquio, numa cerimônia realizada perante uma multidão de cidadãos. Para substituí-lo, foi designado o Almirante Koga, que se revelaria um substituto medíocre. O Japão perdera seu líder mais lúcido exatamente quando os americanos se preparavam para montar sua enorme contra-ofensiva de duas pontas pelo Pacífico.


Avanço para Rabaul

O avanço de duas pontas que os Aliados realizariam ao longo da costa da Nova Guiné e pelas Salomão, contra o posto de Rabaul, estava planejado para iniciar-se a 30 de junho de 1943. As forças de Halsey desembarcariam no grupo da Nova Geórgia; a Força Nova Guiné, comandada pelo Tenente-General Herring, desembarcaria tropas na baía de Nassau, perto de Salamaua, e a Força Álamo, sob o comando do Tenente-General Krueger, tomaria as ilhas Kiriwina e Woodlark, nas Trobriands. Esta última operação, realizada por duas divisões americanas, foi feita sem dificuldades, não havendo qualquer oposição inimiga, e a construção das pistas de pouso começou imediatamente. A força de Herring, composta principalmente de australianos, e contendo alguns regimentos americanos, encontrou mais dificuldades, mas beneficiou-se da indecisão dos japoneses. Dois meses antes, a guarnição australiana de Vau fora muito ampliada e seu comandante, o então Tenente-General Savige (3a Divisão australiana), recebera ordens para avançar sobre Salamaua, em apoio do desembarque do 162o Regimento americano na baía de Nassau. Temendo a ação de Savige, os japoneses não reagiram ao desembarque dos americanos com volume muito grande de tropas que, apesar do caos inicial nas praias e da inexperiência das tropas na selva, foi bem sucedido. Com os americanos avançando costa acima e os australianos vindo do interior, os 6.000 soldados japoneses foram sendo gradualmente repelidos para os arredores de Salamaua, em meados de agosto. Savige então recebeu ordens para manter sob pressão a cidade, para atrair forças inimigas que guarneciam Lae, que era o objetivo principal, mas que não a tomasse enquanto não estivessem sendo feitos os desembarques principais na península de Huon.

Comparada com esta, a campanha da Nova Geórgia foi muito mais difícil. Este grupo de ilhas, com sua importante pista de pouso, em Munda, sua guarnição de uns 10.000 japoneses e seu terreno montanhoso, úmido e coberto de selva, revelou-se quase tão difícil de tomar quanto Guadalcanal - sobretudo porque o QG Imperial insistira muito na sua defesa. Além disso, não era fácil invadir a ilha principal, pois toda a sua parte nordeste era cercada de recifes e em seus flancos oeste e sul havia ilhas menores que lhe proporcionavam meios de defesa. A primeira medida teria que ser necessariamente contra as ilhotas, o que alertaria os japoneses, ou, então, correr o risco de deixar as forças inimigas intactas no flanco do assalto à Nova Geórgia propriamente dita.

O plano dos americanos era dividir suas forças em três grupos de desembarque, na esperança de confundir a guarnição defensora. O corpo principal desembarcaria no lado norte ou na ilha de Rendova, de onde transporia o estreito para ocupar Munda. Assim que este segundo estágio estivesse ocorrendo, outra força americana desembarcaria perto do Ancoradouro Rice e iria rapidamente para a baía de Bairoko, na parte norte da Nova Geórgia, cortando assim a linha de reforço e retirada do inimigo. Além disso, haveria três desembarques subsidiários na parte sul do grupo de ilhas, no Ancoradouro de Wickham, na ilha Vangunu, em Segi e na baía de Viru, na costa sudeste da Nova Geórgia.

Halsey mantinha pessoalmente o controle do Esquadrão de Serviço Especial, que deveria cuidar da complexa logística da campanha, e da distante força de cobertura naval, a FT 36, que se compunha de dois porta-aviões de esquadra e três de escolta, três couraçados, nove cruzadores e 29 destróieres. O Contra-Almirante Turner estava no comando da FT 36, a Força-Tarefa Anfíbia. As forças aéreas aliadas baseadas em terra, na área (cerca de 530 aviões), estavam sob o comando do Vice-Almirante Fitch; os fuzileiros navais americanos sob o Major-General Vogel e o exército sob o Tenente-General Harmon; o grupamento principal das forças de terra era a 43a Divisão de Infantaria, uma unidade inexperiente cujo comandante, o Tenente-General Hester, tinha de controlar a divisão e toda a força de desembarque, o que obrigava a grande esforço o seu Estado-Maior.

O informe provindo de um vigia costeiro de que os japoneses estavam entrando na Nova Geórgia do sul levou Halsey a antecipar os desembarques em Segi, de 30 para 21 de junho. Estes foram realizados sem oposição inimiga, iniciando-se imediatamente ali a construção de uma pista de pouso; entretanto, o avanço por terra, para cobrir o desembarque marítimo na baía de Viru, mostrou-se muito mais difícil e Halsey decidiu cancelar o assalto anfíbio no dia 30, deixando para mais tarde a tomada do ponto fortificado. No Ancoradouro de Wickham foi mais difícil superar a rebentação do mar que os japoneses, mas a 3 de julho a ilha de Vangunu estava inteiramente tomada.

O assalto principal, feito por 6.000 soldados, contra Rendova, a 30 de junho, foi precedido por violentos bombardeios das posições japonesas, cuja guarnição, de cerca de 200 homens, foi rapidamente eliminada. A ameaça mais séria aos invasores eram o fogo das baterias inimigas instaladas em Munda, do outro lado do estreito, e os ataques aéreos desfechados de Rabaul. Mas a 2 de julho os americanos já se sentiam bastante fortes para tentar o golpe direto à Nova Geórgia, desembarcando em Zamana, a leste de Munda, e expulsando os japoneses da costa. Três dias depois deu-se o desembarque no Ancoradouro Rice.

A primeira resposta japonesa, como em Guadalcanal, foi no mar. Quatro destróieres zarparam de Bougainville com levas de soldados, desembarcando-os na ilha de Kolombangara a 4 de julho. Na noite seguinte, porém, outra tentativa de envio de reforços foi interceptada por três cruzadores e nove destróieres do Contra-Almirante Ainsworth, que estavam dando cobertura aos desembarques no Ancoradouro Rice. Nesta "Batalha do Golfo de Kula", os 10 destróieres japoneses, embora em grande desvantagem na escuridão, por não terem radar, afundaram o cruzador Helena e perderam apenas um destróier antes de desaparecerem dentro da noite. Além disso, conseguiram desembarcar 1.200 homens em Kolombangara, perdendo um destróier-transporte, que encalhou e foi atacado por aviões aliados no dia seguinte. Na noite de 12 de julho, ou seja, uma semana depois, houve outra luta cerrada, quando o cruzador Jintsu e nove destróieres, que levavam mais tropas, foram atacados por três cruzadores e nove destróieres aliados, também sob o comando de Ainsworth. Durante essa "Batalha de Kolombangara", um aerobote Catalina, equipado com radar, orientou o fogo disparado pelos barcos aliados, que afundou o Jintsu em poucos minutos, embora o cruzador neozelandês Leander fosse avariado; mas os destróieres japoneses, tendo desembarcado outros 1.700 soldados em Kolombangara, retornaram à luta, afundando um destróier americano e avariando os dois outros cruzadores com seus formidáveis torpedos "lança-longa".

Em terra, os inexperientes soldados da 43a Divisão não estavam progredindo muito, em virtude das características do terreno, da agressividade do clima e da obstinada defesa japonesa; tampouco o apoio aéreo, naval e de artilharia surtiu o desejado efeito no avanço para Munda. O moral da tropa americana estava muito ruim - a maioria das baixas teve como causa o choque psicológico, a "neurose de guerra". A 16 de julho o Major-General Griswold foi para ali enviado a fim de assumir o comando e, apesar da substituição de alguns oficiais e do uso de tanques e lança-chamas, os americanos só tomaram Munda a 5 de agosto, repelindo os japoneses para o norte da ilha onde a Força Norte também se vinha expandindo. Evitando o movimento de pinça que se formava, a maioria dos defensores, comandados pelo Major-General Sasaki, conseguiu recuar para a vizinha ilha de Kolombangara, porque a baía de Bairoko ainda estava em poder dos nipônicos. A 24 de agosto, porém, também esta caiu para os americanos, encerrando a campanha da Nova Geórgia.

A pista de pouso de Munda já estava sendo usada no dia 14, mas mesmo antes disso os aviões aliados detinham o domínio dos céus, impedindo que o inimigo bombardeasse de Rabaul, dando apoio às tropas de terra e atacando quaisquer tentativas dos japoneses de reforçar as Salomão centrais. A 19/20 de julho, eles afundaram um cruzador e dois destróieres, a 22, um destróier; quando os japoneses passaram a enviar suprimentos e tropas por pequenas barcaças, contra elas foram lançadas torpedeiras americanas. Na noite de 6 de agosto apareceram alvos maiores - quatro destróieres, que transportavam 900 soldados e provisões. À sua espera, no golfo de Vella, estavam seis destróieres americanos, sob o Comandante Moosbrugger, posicionados, com o auxílio do radar, para um perfeito ataque de torpedos. Em meia hora três vasos japoneses foram postos a pique e o sobrevivente, que não saiu incólume, pois dele se desprendia fumaça, rumou para o norte, em direção a Rabaul.

A demora para capturar Nova Geórgia desalentou Halsey e MacArthur, que também estavam cônscios de que um avanço passo a passo pelas Salomão daria ao inimigo tempo suficiente para reforçar sua próxima linha de defesa. Possuindo a necessária superioridade aérea e naval, os Aliados decidiram passar para Vella Lavella, que era pouco defendida, isolando Kolombangara e seus 10.000 japoneses. Somente através da progressão aos saltos, estratégia adotada a partir das Aleútas, é que o Comando do Pacifico Sudoeste podia alimentar esperanças de manter seu planejado avanço e frustrar o sistema defensivo do inimigo. Uma outra vantagem da medida é que uma pista de pouso construída em Vella Lavella estaria apenas a 160 km de Bougainville.

Com isso, a ilha foi invadida por 4.600 americanos a 15 de agosto, antes mesmo do fim da campanha da Nova Geórgia. Reforçados por parte de uma divisão neozelandesa, eles logo dominaram a pequena guarnição que ali havia, o que permitiu aos "Seabees" (as famosas unidades de construção naval) começarem a trabalhar na preparação de uma pista de pouso. Para fechar a brecha em torno de Kolombangara, a ilha de Arundel foi invadida a 27 de agosto, mas, tendo sido ela reforçada por Sasaki com tropas da ilha principal, sua guarnição só foi eliminada a 21 de setembro. As esperanças do general de poder rechaçar a invasão de Kolombangara propriamente dita, onde uma guarnição de 12.000 homens havia construído um forte sistema de defesa, esfumaram-se quando, a 15 de setembro, chegou-lhe uma ordem do QG Imperial, através de Rabaul, ordenando-lhe que retirasse dali suas forças; aliás, sua tarefa fora simplesmente de retardamento, porque a decisão de abandonar as Salomão centrais, para concentrá-las em Bougainville, fora tomada um mês antes.

Apesar da supremacia aliada no mar e no ar, os japoneses, uma vez mais, conseguiram realizar uma hábil retirada. A 28/29 de setembro e nas duas primeiras noites de outubro, boa quantidade de pequenos barcos retiraram 9.500 homens, inclusive o próprio Sasaki. A única oposição em grande escala feita pela marinha americana a esta Dunquerque em miniatura deu-se na noite de 6 de outubro, quando três destróieres, comandados pelo Capitão Walker, interceptaram uma força inimiga de nove destróieres e alguns barcos menores que estavam evacuando o resto dos soldados de Vella Lavella. Na refrega que se seguiu, os japoneses perderam um destróier, mas conseguiram evacuar os soldados e, ao mesmo tempo, afundaram um e danificaram dois destróieres americanos. As Salomão centrais estavam agora livres de quaisquer forças japonesas organizadas.

Praticamente ao mesmo tempo, as forças que os Aliados tinham na Nova Guiné estavam tomando a importante península de Huon, que oferecia bons aeródromos, os portos de Lae e Finschhafen e uma posição de flanco no estreito de Vitiaz para o salto para a Nova Britânia. Não tendo belonaves e transportes suficientes para um ataque inteiramente anfíbio, e temendo que as dificuldades do terreno impedissem a utilização plena da superioridade aliada em forças terrestres para garantir o sucesso completo de um avanço exclusivamente por terra, MacArthur decidiu usar as três formas de ataque ao mesmo tempo. Em resumo, o plano estipulava que a 9a Divisão australiana, com outras unidades, seriam desembarcadas na costa a leste de Lae, enquanto que o 503o Regimento de Pára-quedistas americano, na primeira operação de pára-quedistas realizada pelos aliados no Pacífico propriamente dito, tomaria a pista de pouso existente em Nadzab, então em desuso, situada a noroeste de Lae. Assim que os sapadores tornassem a pista operável, a 7a Divisão australiana seria levada para lá de avião, a fim de atacar Lae por terra. Entrementes, à 5a Divisão australiana, que vinha ameaçando atacar Salamaua, sem realmente fazê-lo, para desviar a atenção dos japoneses para lá, seria ordenado que tomasse aquela cidade.

Após dias de ataques aéreos aliados, a 7a Força Anfíbia desembarcou mais de 10.000 soldados da 9a Divisão australiana a uns 11 km a leste de Lae, no dia 4 de setembro. No momento dos desembarques aviões japoneses passaram a atacar, embora sem grandes resultados, os australianos, que avançaram sistematicamente para oeste, apesar das táticas de retardamento do inimigo e dos obstáculos em que se constituíram os rios em cheia, chegando aos arredores de Lae a 14 de setembro. A operação aeroterrestre foi igualmente bem sucedida, sendo tomada a pista de pouso de Nadzab, sem oposição, a 5 de setembro. A artilharia australiana foi então lançada de pára-quedas, seguida de desembarques de sapadores americanos e dos soldados da 7a Divisão australiana. A 10 de setembro as forças de terra já estavam descendo pelo vale do Markham, na direção de Lae, sem encontrar muita resistência, enquanto que, mais ao sul, Salamaua era abandonada pelos seus defensores no dia seguinte.

A falta de oposição a essas ações aliadas deveu-se ao temor do QG Imperial de que a 51a Divisão de Infantaria - responsável pela defesa da região de Lae-Salamaua - fosse isolada por esses movimentos de pinça. A 51a Divisão recebeu ordens para abandonar Lae a 15 de setembro e atravessou as montanhas para a costa norte da península de Huon. Os japoneses esperavam concentrar-se ao longo da linha Finschhafen - cordilheira de Finisterra - vale do Ramu, mas MacArthur também queria tomar Finschhafen, para controlar os estreitos de Vitiaz e Dampier e para intensificar o avanço costeiro sobre Madang; tudo levava a crer que a batalha por Finschhafen seria muito violenta, sobretudo porque sua guarnição, sob o Major-General Yamada, estava sendo rapidamente reforçada.

Uma vez mais, porém, os Aliados foram mais rápidos que os defensores japoneses. A 22 de setembro, a 7a Força Anfíbia desembarcou a 20a Brigada da 9a Divisão australiana a alguns quilômetros ao norte de Finschhafen, encontrando, a princípio, pouca oposição porque os 4.000 soldados japoneses estavam situados ao sul e a oeste da cidade. A resistência tornou-se então muito violenta e só a 2 de outubro é que os australianos, envolvendo os defensores num movimento de pinças, pelo norte e por um avanço por terra vindo de Lae, tomaram Finschhafen. A batalha, porém, ainda não terminara, porque Yamada apenas retirara suas forças para Sattelberg, uma região montanhosa situada a apenas 10 km a oeste da cabeça-de-praia australiana. Ali, a 10 de outubro, juntaram-se a ele o Major-General Katagiri e parte da 20a Divisão de Infantaria, que fizera uma marcha forçada desde Madang. Embora mais australianos da 9a Divisão, sob o Major-General Wooton, tivessem chegado a Finschhafen propriamente dita, a cabeça-de-praia não estava bem defendida e foi violentamente atacada pelas tropas de Katagiri a partir de 17 de outubro. A cada arremetida dos nipônicos, os australianos, ao rechaçá-las, impunha-lhes pesadas baixas, até que estes, no dia 24, sentindo-se suficientemente fortes para tanto, contra-atacaram. A pressão sobre a posição de Sattelberg foi sendo intensificada até que os japoneses ficaram virtualmente cercados. A 25 de novembro, Katagiri reconheceu que sua posição estava perdida e recuou para Sio, no norte.

Mas a 7a Divisão australiana, com outras forças, já vinham subindo o vale do Markham, na direção de Madang, tomando Kaiapit e seu aeródromo a 19 de setembro e Dumpu a 6 de outubro. A obstinada defesa feita pelos nipônicos dos desfiladeiros das montanhas impediram o avanço para Bogadjim, mas os Aliados procuraram, diante disso, aumentar seus efetivos e construir novas bases aéreas, preparando-se para o estágio seguinte. Pelo final de 1943, portanto, eles estavam prontos para avançar sobre Madang, tanto pela rota costeira como pelos vales Ramu-Markham.

Durante estas campanhas pela posse da Nova Guiné e das Salomão centrais, japoneses e Aliados andaram revisando os planos que tinham para o Pacífico. Os nipônicos, reconhecendo que haviam sido muito otimistas, tentavam uma revisão drástica da estratégia adotada, pois os americanos se haviam recuperado com incrível rapidez das primeiras derrotas que sofreram, retomando as Aleútas, passando a ameaçar Rabaul e - o que mais preocupava - haviam reunido uma enorme esquadra de novos porta-aviões e couraçados em Pearl Harbor. Diante disso, os nipônicos sentiram que se fazia necessário promover rapidamente a contração do perímetro defensivo, vale dizer, reforçar suas linhas defensivas. No novo Plano Operacional, de 15 de setembro de 1943, o QG Imperial especificou sua "esfera de defesa nacional absoluta", que se estendia da Birmânia às Curilas, passando pela barreira da Malásia à Nova Guiné ocidental e, daí, às Carolinas e às Marianas. Embora isto significasse que grande parte da Nova Guiné, as Salomão, as Bismarcks (incluindo Rabaul), as Gilberts e as Marshalls passassem à condição de não-essenciais, estas áreas deveriam ser defendidas durante pelo menos seis meses, para dar à indústria japonesa a oportunidade de reparar sérias deficiências, como a produção de aviões e navios mercantes. Ao final desse período, esperava-se que a chamada esfera de defesa nacional se houvesse transformado numa barreira inexpugnável, quase triplicada a produção de aviões, as perdas da marinha mercante repostas e a Esquadra Combinada reforçada, a fim de desafiar a Esquadra Americana do Pacífico para uma batalha decisiva.

A tarefa de Imamura e do Vice-Almirante Kusaka, comandantes, respectivamente, do exército e da marinha no Pacífico Sudoeste, assumia, assim, grande importância, pois tinham de fazer parar o adversário que mobilizava quase 3.000 aviões, uma esquadra imensa e cerca de 20 divisões, sem ajuda significativa de Tóquio. Enquanto uma divisão seria despachada para juntar-se às cinco já sob o comando de Imamura, os outros reforços iriam para áreas essenciais, como as ilhas sob mandato, que receberam 40 batalhões de infantaria, e a zona Celebes-Timor-Nova Guiné ocidental, que receberam cinco divisões, sob o 2o Exército de Área. O mais importante é que ainda havia 15 divisões japonesas na Manchúria e 26 na China nesse estágio da guerra, muito embora a ameaça dos Estados Unidos fosse decididamente a maior. As forças de terra, embora mal desenvolvidas, atendiam, apesar disso, as necessidades do Japão, que se não pudesse proteger sua marinha mercante e recuperar a supremacia aérea, estaria perdido.

Os Aliados não desejavam dar aos japoneses o tempo de que tanto necessitavam. Na verdade, insatisfeitos com a lentidão do avanço para Rabaul, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos eram favoráveis a que se desse prioridade à arremetida pelo Pacífico Central e se mostravam propensos a deslocar para esta área uma divisão de fuzileiros navais e várias belonaves do Comando do Pacífico Sudoeste, pois acreditavam que um avanço direto de Pearl Harbor seria mais eficaz e, portanto, preferível à chamada "Operação Roda de Carro", basicamente "um assalto frontal contra grandes ilhas, com posições estreitamente organizadas em profundidade, para apoio mútuo". Isto, naturalmente, alarmou MacArthur, que disse que a pretendida transferência de forças poria em perigo suas chances de tomar Rabaul conforme planejado. Em junho de 1943, porém, Washington acreditava que a grande base inimiga devia ser apenas neutralizada, sugestão que foi adotada na "Conferência Quadrante", realizada em agosto. Uma campanha prolongada e sangrenta, para eliminar a guarnição de 100.000 japoneses que ali se encontrava, certamente não era a melhor maneira de explorar a superioridade aérea e naval aliada e causaria mais atrasos no avanço de MacArthur para as Filipinas. O próprio general acalmou-se ao saber que se planejava isolar Rabaul, tomando Bougainville, Nova Irlanda, cabo Gloucester, Wewak e as Almirantados, aplicando-se todo o poderio aéreo e naval para impedir que aquela base fosse reforçada ou evacuada; as forças do Comando do Pacífico Sudoeste avançariam então ao longo da costa norte da Nova Guiné e, dali, para as Filipinas.

O Plano para ocupar a grande ilha de Bougainville, o último objetivo importante nas Salomão, não foi afetado por essas decisões, mas, por outro lado, a operação não poderia ser encarada com otimismo exagerado, posto que os nipônicos tinham ali quase 60.000 homens, ao passo que Halsey de início só poderia desembarcar uma divisão reforçada, devido à retirada de navios para o Pacífico Central. Por fim, decidiu-se desembarcar na baía da Imperatriz Augusta, na costa oeste, o que evitaria as áreas mais fortemente defendidas. De antemão, realizou-se uma campanha de bombardeio em larga escala, com 800 aviões de Kenney, baseados na Nova Guiné, martelando Rabaul e os aviões de porta-aviões recém-chegados de Truk, enquanto que os 600 aviões do General Twining, baseados nas Salomão, atacavam os seis aeródromos de Bougainville. Também em fins de outubro realizaram-se operações menores, nos flancos de Bougainvílle: no dia 27, os fuzileiros navais tomaram a ilha de Choiseul, num esforço por convencer aos japoneses que qualquer grande ataque viria do sudeste; e no mesmo dia a FT 31, do Contra-Almirante Wilkinson, desembarcou 2.500 americanos e neozelandeses nas ilhas do Tesouro, onde a guarnição de 225 homens logo foi eliminada, construindo-se ali uma pista de pouso.

Cinco dias depois, a 1o de novembro, começou a invasão de Bougainville propriamente dita. Ela foi precedida do bombardeio, feito pela marinha, das bases aéreas da ilha e de ataques contra Rabaul, por uma força-tarefa de porta-aviões, sob o comando do Contra-Almirante Sherman, para impedir que os reforços aéreos ali chegassem. Pouco depois do amanhecer, a Força Anfíbia de Wilkinson começou a desembarcar os 14.000 fuzileiros navais do primeiro grupo de desembarque, cobertos por uma barragem de 11 destróieres. Pelo meio-dia já se estabelecera uma cabeça-de-praia, apesar da rebentação forte. A força de desembarque reagiu bem aos ataques aéreos contra ela dirigidos e dominou os defensores nipônicos.

As ações principais dos dias seguintes se desenrolaram no ar e no mar. Esperando barrar a operação americana, os japoneses mandaram dois cruzadores pesados e dois leves, escoltados por seis destróieres, sob o comando do Contra-Almirante Omori, para a baía da Imperatriz Augusta, com ordens de bombardear os transportes e a cabeça-de-praia. Esta força, porém, foi interceptada pela patrulha do Contra-Almirante Merrill, de quatro cruzadores leves e oito destróieres, no dia 2 de novembro, bem cedo, quando ainda a 80 km do alvo. Na ação demorada e confusa, os americanos levaram a melhor, afundando um cruzador e um destróier inimigos, pela perda de um destróier. Acreditando ter afundado pelo menos dois cruzadores americanos, Omori retirou-se sem haver atacado os desembarques - falha que resultou na sua substituição, quando voltou a Rabaul.

Algumas horas após este choque, os navios de Merrill foram atacados por 100 aviões japoneses; sem, contudo, sofrer danos sérios. Mais perturbadora para os Aliados foi a notícia de que uma força naval, sob o Vice-Almirante Kurita, composta de sete cruzadores pesados e um leve, com quatro destróieres, chegara a Rabaul a 4 de novembro, vindo de Truk. Como não tinha couraçados ou cruzadores pesados nessa época, Halsey temia que suas belonaves, bem mais leves, fossem vencidas; portanto, decidiu empregar os porta-aviões de Sherman, o Princeton e o Saratoga, contra o inimigo antes que as tropas desembarcadas fossem atacadas. Posicionando-se a 400 km de Rabaul, a FT 38 lançou um ataque de 97 aviões no dia 5, que conseguiram danificar seis cruzadores e dois destróieres japoneses, perdendo 10 aviões. No dia 11 de novembro, houve outro ataque, ajudado por mais três porta-aviões, enviados por Nimitz para aliviar a situação. Os danos causados foram menores, porque a maioria da força de Kurita partira para Truk, mas o novo grupo de porta-aviões, comandado pelo Contra-Almirante Montgomery, travara uma batalha feroz contra mais de 100 aviões atacantes, derrubando mais de 30 deles. Estes embates aéreos impediram que os japoneses fizessem muitos ataques à cabeça-de-praia, pois cerca de 70% dos aviões da marinha enviados como reforços para Rabaul estavam agora destruídos. Quanto a futuros desenvolvimentos operacionais no Pacífico, porém, fato dos mais importantes era a capacidade dos velozes grupos de porta-aviões de operar livremente em áreas ao alcance dos aviões inimigos baseados em terra, contanto que suas defesas antiaéreas e de caças fossem adequadas.

Nessas semanas houve menos atividade em Bougainville porque os japoneses tinham poucas tropas na área de desembarque e pelo menos 80 km de selva densa se interpunham entre suas forças principais e a cabeça-de-praia. Como resultado, os americanos foram ampliando sistematicamente o perímetro defensivo por eles criado, repelindo um ataque anfíbio feito de surpresa a 7 de novembro e um ataque maior, por dois batalhões que haviam marchado desde Buin. A 26 de novembro, a cabeça-de-praia, agora comandada pelo Major-General Geiger e reforçada pela 37a Divisão de Infantaria, tinha 19.500 m de comprimento, encerrava três aeródromos e 34.000 soldados; mas os japoneses ainda acreditavam que os desembarques ocorreriam em outros locais e continuaram a fortificar Buka, satisfazendo-se em desfechar ataques aéreos contra a posição americana. Foi durante essas viagens de reforço para Buka que cinco destróieres japoneses foram interceptados por igual número de vasos americanos, comandados pelo Capitão Burke. Estes conquistaram um triunfo decisivo nesta "Batalha do Cabo São Jorge", afundando três navios inimigos, sem sofrerem danos os seus navios. Na ilha, porém, houve um impasse estranho, com os americanos concentrando uma força de 44.000 homens até meados de dezembro, sem que os japoneses fizessem muita coisa para detê-los, preferindo, em vez disso, recorrer a ataques aéreos intermitentes; eles chegaram mesmo a plantar legumes, preparando-se para uma estada prolongada.

Em contraste, na Nova Guiné, o avanço aliado prosseguiu sem sofrer interrupções, continuando pelo ano novo, tanto ao longo da linha costeira como subindo os vales do Markham-Ramu. MacArthur não estava disposto a desperdiçar tempo e, quando os australianos se aproximavam da cidade costeira de Sio, ele mandou o 126o Regimento americano desembarcar a uns 120 km para oeste, em Saidor, que isolou de Madang a força japonesa de 20.000 homens. Esta última, esgotada pela longa retirada, foi repelida de Sio a 15 de janeiro e, como não estivesse disposta a enfrentar o "bloco" americano, evitou a armadilha, tomando um caminho indireto pela selva, perdendo milhares de homens nesse deslocamento.

Enquanto isso, as divisões australianas puderam atravessar as serras, saindo do vale do Markham, encontrando pequena oposição. Na verdade, o QG Imperial ordenara ao Tenente-General Adachi, comandante da Nova Guiné, que retirasse suas tropas para Wewak. Em conseqüência disso, Bogadjim foi tomada pelos Aliados a 13 de abril; Madang a 24, e Alexishafen no dia 26. O estreito de Vitiaz também foi desimpedido.

Antes mesmo de as forças japonesas terem sido repelidas da península de Huon, MacArthur atacara novamente, na própria Nova Britânia. Embora não se devesse dar atenção a Rabaul, ele queria controlar ambos os lados dos estreitos de Vitiaz e Dampier, para impedir qualquer ameaça, ao futuro avanço que empreenderia ao longo da costa norte da Nova Guiné. A Força Álamo, de Krueger (1a Divisão de Fuzileiros Navais e 32a de Infantaria), recebeu ordens de tomar a região do cabo Gloucester, defendida apenas por uma força isolada de 8.000 soldados da 17a Divisão de Infantaria japonesa. Para desviar a atenção, os desembarques principais foram precedidos de um pequeno desembarque em Arawe, a 15 de dezembro de 1943. Este último provocou contra-ataques japoneses feitos por terra e pelo ar, todos, porém, repelidos. Então, no dia 26, realizaram-se os desembarques de ambos os lados dos aeródromos do cabo Gloucester, que logo foram ameaçados por um avanço partido das cabeças-de-praia. Os pântanos e a selva atrapalharam mais que os defensores, que recuaram para Rabaul; e a 5 de janeiro de 1944 os aeródromos foram ocupados, permitindo a MacArthur liberar a Força Anfíbia para levar o 126o Regimento para Saidor.

Estimulados pela tomada fácil de ambos os lados do estreito de Vitiaz, os Aliados prepararam-se para tomar as Almirantados, cuja posse não só ajudaria a isolar Rabaul, como também criaria um posto de parada para avanços contra Truk e Filipinas. Como uma guarnição de 4.300 japoneses protegia os aeródromos e a espaçosa baia de Seeadler, MacArthur foi obrigado a aguardar um pouco, até que número suficiente de barcaças de desembarque voltassem do Pacifico Central para transportar a 1a Divisão de Cavalaria e outras unidades. Durante, porém, esse período de espera, a ilha Verde (situada entre Buka e Nova Irlanda) foi tomada, a 15 de fevereiro. No dia 29, forças americanas desembarcaram na ilha Los Negros, nas Almirantado, mas encontraram obstinada oposição que cedeu apenas quando mais tropas foram levadas para lá; a ilha Manus também foi tomada. A 18 de março os principais objetivos já estavam em mãos americanas e se iniciara o trabalho necessário à transformação do grupo de ilhas numa grande base, embora as operações de limpeza se arrastassem por mais dois meses, sofrendo os atacantes mais de 1.500 baixas nesta campanha, em que os japoneses foram totalmente eliminados.

Durante todas essas operações anfíbias, Rabaul continuara sendo constantemente bombardeada por aviões baseados nos territórios recém-capturados na Nova Guiné e nas Salomão e, em meados de fevereiro, os navios japoneses tinham sido obrigados a deixar o porto, que vinha sendo reduzido a escombros. A 20 de fevereiro, todos os aviões foram retirados após o grande ataque desfechado contra Truk pelos porta-aviões de Nimitz. Portanto, os 98.000 japoneses dos arredores de Rabaul foram isolados, mas não se podia esperar uma rendição imediata, como em Cingapura. Em vez disso, os Aliados preferiram deixar o inimigo "definhar-se", e prosseguir para alvos mais promissores. Também a Nova Irlanda foi deixada de lado, para ser neutralizada e isolada por patrulhas aéreas e navais. O mesmo ocorreu em Bougainville, pelo menos depois que o Tenente-General Hyakutake compreendeu que a baía da Imperatriz Augusta era realmente a área do desembarque principal e lançou violento ataque contra a cabeça-de-praia americana, entre os dias 8 e 20 de março. Seus 16.000 soldados, cansados pela longa marcha, foram facilmente repelidos pelos 62.000 americanos, sofrendo os nipônicos 8.000 baixas. Daí por diante, a guarnição japonesa continuou declinando, sem oferecer qualquer ameaça ao controle que os Aliados passaram a exercer das Salomão do norte.

Com o fim desta ação, completou-se a "Operação Roda de Carro". As Salomão estavam sob o controle aliado, a península de Huon e as Almirantados foram tomadas e Rabaul estava isolada. O mais importante é que a barreira das Bismarcks fora rompida e o caminho estava aberto para "saltos" mais espetaculares em direção a Manilha.


As Gilberts e as Marshalls

Enquanto as forças sob o comando de MacArthur iam expulsando os japoneses do leste da Nova Guiné e das Salomão, e reduziam Rabaul a cidade de guarnição isolada e inútil, o Almirante Nimitz reunia e organizava o que em breve se transformaria na mais poderosa esquadra já formada, em todos os tempos. Todos os meses novas belonaves chegavam a Pearl Harbor, enviadas dos estaleiros americanos, cuja produção era enorme - em 1942 já havia 19 porta-aviões (seis de esquadra, cinco leves e oito de escolta), 12 couraçados, 14 cruzadores e 56 destróieres. Esta força era única na história naval sob dois aspectos: era formada em torno dos porta-aviões, cujo poder de ataque era agora tão grande que podiam operar em águas inimigas com impunidade e devastar até mesmo bases fortemente defendidas; e transportava suas próprias provisões e instalações de reparos, com sua Frota de Serviço Especial, de modo que podia permanecer em alto-mar durante semanas a fio. Com a criação desta esquadra, vasta e móvel, a guerra no Pacífico tornou-se imediatamente mais abrangente e prometia sucessos mais rápidos do que qualquer campanha terrestre.

A estrutura de organização e comando desta nova força merece descrição mais detalhada, porque, com variações nos comandantes e títulos, ela forneceria o padrão básico das muitas lutas que travariam as forças do Pacífico Central. A parte combatente da 5a Frota, como em breve seria chamada, foi dividida em vários grupos de Forças-Tarefas de Porta-aviões Velozes; estes grupos normalmente consistiam de dois novos porta-aviões de esquadra da classe Essex e dois leves, da classe Independence, protegidos por vários couraçados, cruzadores e por grande número de destróieres. Ao contrário da costumeira formação da marinha japonesa, os americanos não conservavam seus couraçados unicamente para alguma futura luta do estilo "Batalha da Jutlândia", mas também os mantinham preparados para empregá-los nos bombardeios de ilhas dominadas pelo inimigo e na defesa dos porta-aviões, como formidável anteparo antiaéreo. A 5a Frota Anfíbia, que transportava as forças de desembarque e equipamento, era igualmente dividida em várias forças-tarefas, para possibilitar a realização de assaltos anfíbios simultâneos contra diferentes alvos. A força de desembarque propriamente dita, chamada 5o Corpo Anfíbio consistia de unidades do exército e dos fuzileiros navais. Finalmente, a 5a Frota tinha suas unidades aéreas baseadas em terra (uma mistura de esquadrões das três forças armadas) e, para a operação contra as Gilberts, podia recorrer aos bombardeiros pesados da 7a Força Aérea do Exército. A 5a Frota tinha no comando o Vice-Almirante Spruance, diretamente subordinado a Nimitz, em Pearl Harbor. As Forças-Tarefas de Porta-aviões Velozes eram comandadas pelo Contra-Almirante Pownall; a Frota Anfíbia estava sob o comando do Contra-Almirante Turner, já famoso por suas façanhas nas Salomão; as forças de desembarque eram comandadas pelo Major-General "Howling Mad" (Doido Varrido) Smith e as forças aéreas baseadas em terra, pelo Contra-Almirante Hoover.

No apoio desses grupos de forças combatentes ia a Frota de Serviço Especial a que já nos referimos. O motivo de sua criação foi simples: Spruance não podia dar-se ao luxo de enviar belonaves a Pearl Harbor ou Brisbane, situadas a milhares de quilômetros, para reparos, reabastecimento ou rearmamento; tampouco podia, por falta de tempo, pensar em construir bases que pudessem atender as necessidades das frotas nas várias ilhas dos Mares do Sul, pois esperava-se que o avanço continuasse rápido, deixando essas áreas muito para trás. A solução não podia ser outra senão criar esses esquadrões de serviço móveis, capazes de acompanhar a esquadra e provê-la de tudo, exceto reparos muito grandes. A princípio, esses esquadrões tinham navios-tanques, navios de provisões, vasos de reparos, tênderes, rebocadores, caça-minas, barcaças, chatas e navios de munição; mais tarde, foram-lhes acrescentados barcos mais sofisticados, como navios-hospitais, navios-quartéis e um dique seco flutuante, um navio de desmagnetização, guindastes flutuantes, navios de exploração, navios de montagem de pontilhões etc. A Frota de Serviço era produto do aperfeiçoamento minucioso e organizado dos métodos de fazer a guerra que os americanos haviam efetuado, e parte essencial da sua nova estratégia marítima, baseada nos porta-aviões.

Como mencionamos, na primavera de 1943 já se decidira que o avanço pelo Pacífico Central contra os territórios ocupados pelos japoneses deveria começar o mais breve possível. Isto não só teria o mérito de desviar de cima de MacArthur a atenção e os recursos do inimigo, como também de, segundo se esperava, abrir, com os porta-aviões, uma rota pela Micronésia, criando, assim, uma segunda linha de assalto às Filipinas. Em seguida, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos planejaram tomar parte da costa chinesa, nos arredores de Hong-Kong, para ali estabelecer uma série de bases de bombardeiros pesados. Operando bem perto do Japão, ajudados por uma população local amiga, e logisticamente apoiados através de um grande porto, esses bombardeiros conquistariam o controle aéreo das ilhas metropolitanas do inimigo e as reduziriam sistematicamente a ruínas, até que elas se rendessem ou se enfraquecessem o suficiente para serem invadidas. Esta estratégia também ajudaria a manter em ação as vacilantes forças nacionalistas chinesas.

Como primeira etapa, o Almirante King queria que o comando de Nimitz tomasse as ilhas Marshalls, mas um minucioso reconhecimento aéreo revelou que a tarefa seria realmente muito difícil para as novas forças de porta-aviões e anfíbias. Assim, em lugar disso, decidiu-se, em meados de junho de 1943, por um avanço gradual sobre as Marshalls, passando pelas Gilberts, situadas mais ao sul. Isto estaria mais dentro da capacidade de combate e logística da 5a Frota, nesse estágio, além de se obter, com esses desembarques, experiência que poderia ser de grande utilidade em futuras operações; além disso, as bases aéreas que poderiam ser criadas ali seriam vitais para o assalto às Marshalls. Outros reconhecimentos aéreos levaram os americanos a escolher as ilhas de Tarawa e Makin como os objetivos principais nas Gilberts, ficando Abemama como subsidiária.

As forças mobilizáveis por Spruance para esta operação eram as seguintes: FT 58, a Força de Porta-aviões Velozes, de Pownall, com seis porta-aviões de esquadra e cinco leves, seis novos couraçados, seis cruzadores e 21 destróieres, divididos em quatro grupos equilibrados; ela daria cobertura a distância. A Força de Ataque Norte, que devia tomar Makin, era dirigida pelo próprio Turner e compreendia 6.700 soldados da 27a Divisão de Infantaria, cujos seis navios de transporte de tropas eram protegidos por destróieres e apoiados por três porta-aviões de escolta e um grupo de bombardeio integrado por couraçados e cruzadores. A Força de Ataque Sul, cujo objetivo era Tarawa, tinha no comando o Contra-Almirante Hill e totalizava 18.600 homens da 2a Divisão de Fuzileiros Navais; seus 16 transportes eram também apoiados por destróieres, porta-aviões de escolta e um grupo de bombardeio. Além dos 850 aviões dos porta-aviões, havia 150 bombardeiros baseados em terra. A totalidade da força consistia de mais de 200 navios, transportando 27.600 soldados de assalto e 7.600 de guarnição, 6.000 veículos e 117.000 toneladas de carga. A Frota de Serviço devia reunir-se nas ilhas Ellices, nas proximidades do alvo.

O Dia-D da "Operação Galvânica", como a invasão das Gilberts fora batizada, era 20 de novembro de 1943. As operações de debilitação começaram bem antes. Os bombardeiros da força aérea, baseados nas ilhas Ellices, atacavam regularmente todas as posições inimigas situadas nas Gilberts; e Tarawa e Makin foram bombardeadas diariamente durante uma semana, antes dos desembarques. Os porta-aviões rápidos de Pownall entraram a seguir em ação, com um grupo atacando Tarawa, o segundo, Makin, o terceiro, a ilha Nauru e o quarto, as Marshalls. As perdas de tripulações aéreas japonesas, especialmente as dos esquadrões dos porta-aviões da Esquadra Combinada, durante a luta de Rabaul haviam enfraquecido enormemente as suas defesas.

Na verdade, eram muito poucas as chances de que a operação fracassasse, pois os japoneses não tinham efetivos aéreos e navais para se oporem às esquadras americanas, que convergiam, de todas as direções,para as Gilberts. Apesar do Novo Plano Operacional, de setembro de 1943, que estabeleceu o envio de reforços consideráveis para os postos avançados do Pacífico Central, nada, em termos de reforço, havia ainda chegado às Gilberts, que se encontravam relativamente indefesas. Havia menos de 800 japoneses, incluindo 500 soldados-operários comandados por um tenente da marinha, na ilha Makin. Em Abemama encontravam-se apenas 25 japoneses e os fuzileiros navais americanos que desembarcaram para fazer o reconhecimento da ilha, a 20 de novembro, prontamente ocuparam-na ao tomarem conhecimento disso. Tarawa, porém, era diferente, provavelmente como conseqüência do ataque de surpresa, mas prejudicial, feito a Makin, em agosto de 1942, pelos Fuzileiros Navais Incursores, do Tenente-Coronel Carson, que revelou aos japoneses a facilidade com que uma força inimiga podia tomar posições nas Gilberts. Como Tarawa era a única ilha, daquele grupo, que tinha uma pista de pouso, suas defesas foram reforçadas. Por exemplo, a ilha principal do atol de Tarawa, Betio, tinha uma guarnição de 2.600 soldados de infantaria naval, 1.000 homens de engenharia de construção e 1.200 trabalhadores coreanos, todos sob o comando do Contra-Almirante Shibasaki, sendo elaboradamente fortificada com canhões de artilharia de costa de 8 pol. (ingleses, tirados de Cingapura), tanques imobilizados, ninhos de metralhadoras, casamatas, alambrados, barricadas, minas e obstáculos para barcaças de desembarque - e tudo isto, ocupando 120 hectares, fazia com que a Muralha do Atlântico de Herr Hitler, guardadas as proporções, parecesse frágil.

Como se previra, o ataque a Makin foi o mais fácil dos dois. Após um martelar pesado, mas inadequado, das defesas pelas belonaves americanas, Butaritari (a ilha principal do atol) foi invadida, a 20 de novembro. Apesar de ser fraca, a pequena guarnição lutou com bravura contra os soldados, inexperientes e sobrecarregados, da 27a Divisão de Infantaria, para grande irritação de "Howling Mad" Smith. Os novos amtracks blindados - veículos de lagarta anfíbios que podiam transpor recifes de coral - funcionaram muito bem para sofrerem grandes baixas. Após quatro dias, toda a guarnição foi virtualmente eliminada, mas os americanos tiveram 64 mortos e 152 feridos. Além disso, uma explosão interna no couraçado Missouri, durante o bombardeio, matou 43 marinheiros e, no dia 24, um submarino japonês torpedeou o porta-aviões de escolta Liscombe Bay, causando a perda de 644 vidas. Não teve começo muito auspicioso o retorno das forças do Pacífico Central.

Tarawa foi muito pior. Os planejadores americanos esperavam poder invadir a ilha de Betio pelo lado da lagoa, a fim de tomar a pista de pouso o mais rapidamente possível, e calcularam que as barcaças de desembarque transporiam os recifes de coral mesmo durante uma maré de quarto. Na verdade, eles foram demasiado otimistas a respeito disto e de vários outros fatores. Os bombardeios navais e aéreos, embora durassem duas horas e meia, foram insuficientes para esmagar os defensores; ninguém ainda havia calculado a quantidade de castigo que tropas experientes podiam suportar, quando protegidas por blocos de concreto ou camadas de troncos de coqueiro. Os aviões da marinha nem apareceram. Além disso, uma forte correnteza atrasou os desembarques, de modo que houve um breve cessar-fogo entre o final do bombardeio e a chegada das primeiras levas de assalto, e durante esse período de calma os japoneses saíram dos abrigos e prepararam-se para defender as praias. O pior, entretanto, é que a maioria das barcaças de desembarque não conseguiu transpor o recife de coral; os tanques Shermans foram desembarcados em locais com 1,20 m de profundidade, e o mar inundou os motores de vários deles, enquanto que os soldados, sobrecarregados, tiveram de vadear através de intenso fogo inimigo até as praias, a mais de 400 m de distância. Como os desembarques foram feitos muito fracionados, os atacantes, na realidade, eram superados em número pelos defensores. Portanto, não é de surpreender que as perdas americanas fossem sérias: dos 5.000 soldados desembarcados até o anoitecer, um quinto deles se constituiu em baixas, atingidos por balas nipônicas entre o recife de coral e as praias, trecho realmente muito longo.

Mas, não tendo os japoneses destruído as primeiras forças de desembarque, acabaram sendo, ali, derrotados. Ajudados pelos amtracks que conseguiram transpor o recife, pequeno número de americanos avançaram da sua tênue cabeça-de-praia, eliminando bolsões japoneses. O fogo extremamente preciso dos destróieres obrigou a guarnição a recuar e o emprego da reserva dos batalhões de desembarque manteve essa tendência. Incapazes de organizar um contra-ataque eficaz, por haver entrado em colapso as suas comunicações, os japoneses viram-se cada vez mais em inferioridade numérica e obrigados a deslocar-se para a extremidade oeste da ilha, durante o dia seguinte. Houve violentas batalhas em cada casamata e em cada bunker, com os americanos empregando aviões, tanques, lança-chamas e dinamite, enquanto os japoneses defendiam fanaticamente cada posição. Na noite de 22 de novembro, porém, a guarnição recorreu à tática tradicional e fez uma carga contra as fortes posições americanas, sofrendo enormes baixas, com pouco resultado. Na tarde seguinte, Betio estava completamente nas mãos da 2a Divisão de Fuzileiros Navais e as ilhas menores do atol também entravam em processo de ocupação. Ainda naquele dia, os primeiros aviões americanos pousaram na pista. Não houve interferência de navios de superfície japoneses e as forças-tarefas de porta-aviões, em patrulha, haviam mostrado toda a sua capacidade, repelindo os ataques aéreos inimigos, de dia ou de noite.

As perdas em Tarawa - mais de 1.000 fuzileiros navais mortos e 2.300 feridos - não teriam significado muito na Frente Oriental ou na campanha da África do Norte, mas chocaram o público americano e provocaram violenta controvérsia sobre se a tomada das Gilberts compensava tudo isso. Embora se possa dizer com segurança que a operação foi mal dirigida taticamente, sobretudo ao atacar quando a maré estava baixa demais, a afirmação de que o grupo deveria ter sido evitado, para que fosse tomada diretamente as Marshalls, é muito discutível. É provável que o primeiro ataque feito pelas forças do Pacífico Central contra atóis ocupados pelo inimigo, independente do local da sua realização, teria sido sangrento e difícil. A tomada das Gilberts desempenhou uma função importante no avanço pelo Pacífico, não só por haver proporcionado aeródromos para a invasão das Marshalls, como também por ter servido de campo de provas para as futuras operações anfíbias da 5a Frota - tanto que o historiador naval americano, Professor Morison, chamou-a de "o viveiro da vitória conquistada em 1945". Muita coisa foi aprendida e muitos erros corrigidos nos procedimentos de desembarque, nos bombardeios e apoio aéreo, reconhecimento, controle e comunicações. Como aconteceu com a incursão dos canadenses contra Dieppe, a dos americanos saiu-lhes cara, mas foi de enorme importância para o futuro.

Muito antes da tomada das Gilberts, o Estado-Maior de Nimitz pôs em planejamento operação muito mais importante, contra as Marshalls, que estavam em mãos japonesas desde 1914 e cuja captura deixaria a grande base naval de Truk, nas Carolinas, na linha de frente. Inicialmente, os alvos escolhidos estavam entre os quatro baluartes a leste e sul do grupo, Wotje, Mili, Jaluit e Maloelap, mas, após a queda de Tarawa, Nimitz arrojadamente, propôs que se evitassem todos eles; em vez disso, o atol de Kwajalein, o QG japonês nas Marshalls, deveria ser diretamente atacado, pois a superioridade aérea e naval americana poderia neutralizar quaisquer ameaças das outras bases. Além disso, o atol de Majuro, que se acreditava sem defesa, seria tomado, para servir de ancoradouro para a Frota de Serviço. Finalmente, se as operações principais contra Kwajalein corressem bem e a reserva do Corpo não fosse lançada em combate, esta reserva seria empregada para tomar Eniwetok, 500 km mais a oeste. Assim, a 5a Frota estaria em muito melhores condições de rumar para as Marianas, que os Chefes de Estado-Maior Combinados, na "Conferência Sextante" (Cairo, dezembro de 1943), resolveram que seria transformada numa base de Superfortalezas para ataques ao Japão.

A "Operação Flintlock" (Mosquete de Pederneira), como se chamou a tomada de Kwajalein, também ficou sob o comando de Spruance mas só se realmente a Esquadra Combinada aparecesse e houvesse probabilidade de uma ação naval em grande escala; do contrário, Turner, com sua vasta experiência em operações de desembarque, teria o controle tático local. Smith continuou no comando das forças de terra, que foi obrigado a dividir em três grupos distintos, para cuidar de alvo assim tão disperso: Kwajailein, o maior atol de coral do mundo, consistia de 100 pequenas ilhas, que encerravam uma lagoa de 100 km de comprimento e 30 km de largura. O primeiro grupo tomaria as ilhas setentrionais de Roi e Namur, o segundo tomaria a própria ilha de Kwajalein, no sul, e o terceiro ocuparia o atol de Majuro e formaria a reserva do Corpo. Ao todo, havia 54.000 soldados de assalto (principalmente da 4a Divisão de Fuzileiros Navais e da 7a de Infantaria) e 31.000 soldados de guarnição. Cada grupo tinha seus costumeiros destróieres, porta-aviões de escolta e grupos de bombardeio, enquanto que a cobertura a distância seria dada pelos 12 porta-aviões e oito couraçados velozes da FT 58, agora sob o comando do Contra-Almirante Mitscher.

Tão importante quanto o crescimento da força era a possibilidade de os americanos não repetirem os erros cometidos nos desembarques havidos no Mediterrâneo e nas Gilberts. Turner devia controlar o ataque de bordo de um navio especial de comando/comunicações; número bem maior de amtracks armados e blindados seria empregado; algumas das barcaças de desembarque foram transformadas em canhoneiras de pequeno calado, instalando-se nelas metralhadoras e uma nova arma: fileiras de foguetes. Os caças também foram equipados com foguetes, que eram mais devastadores que as granadas no ataque às posições de soldados inimigos. Além disso, dessa vez o bombardeio preliminar deveria ser quatro vezes mais intenso e muito mais prolongado, sendo também mesclado com ataques de metralhamento, pelos caças, e ataques pelos Liberators da Força Aérea do Exército, usando bombas de 2.000 libras.

Para o sucesso da "Operação Flintlock" era essencial que não só o alvo principal, como também os pontos fortes evitados e quaisquer bases mais para oeste, de onde se pudesse esperar contra-ataques japoneses, fossem neutralizados. Os bombardeiros baseados em terra já vinham atacando alvos nas Marshalls durante a campanha das Gilberts e, a 4 de dezembro de 1943, receberam a adesão dos aviões de seis porta-aviões, que atacaram navios e pistas de pouso em Kwajalein. Quatro dias depois, aviões de porta-aviões metralharam Nauru, enquanto cinco couraçados americanos aumentavam ainda mais os danos causados. As forças-tarefas foram então retiradas, por algum tempo, para Pearl Harbor; mas seu trabalho foi eficazmente realizado pelos 350 aviões baseados em terra, de Hoover, alguns dos quais se encontravam nas Gilberts. A 29 de janeiro de 1944, os porta-aviões estavam novamente em ação e, fazendo seus aviões mais de 6.000 surtidas, paralisaram todos os movimentos marítimos e aéreos inimigos na área do Pacífico Central até o fim da operação. Os efetivos aéreos japoneses nas Marshalls, cerca de 150 aviões, foram reduzidos a frangalhos nos primeiros dois dias deste ataque intensivo.

Como os defensores não tinham esperanças de numericamente igualar-se aos americanos, nem de contar com apoio externo, só lhes restava atrasar ao máximo possível a ofensiva dos Estados Unidos no Pacífico. Entretanto, os japoneses calcularam errado o local do próximo ataque e, como Nimitz adivinhara, haviam deslocado os parcos reforços que haviam chegado em fins de 1943 para os atóis do leste, deixando Kwajalein com uma guarnição de 8.500 homens, muitos dos quais não eram tropas de combate. Não podia haver dúvidas quanto ao resultado.

O Dia-D para o ataque era 31 de janeiro de 1944. Como se esperava, encontrou-se o atol de Majuro indefeso quando o pequeno grupo anfíbio desembarcou ali e, poucos dias depois, esse esplêndido ancoradouro estava sendo usado por 30 navios. Dificilmente, porém, a operação principal seria tão fácil. A Força-Tarefa Norte, que vinha submetendo as ilhas de Roi e Namur a bombardeio intenso desde o dia anterior, tomou as ilhotas vizinhas ainda no Dia-D, de modo que foi possível desembarcar a artilharia para apoiar os ataques aos objetivos principais. Os desembarques propriamente ditos foram muito desorganizados, mas os japoneses preferiram conservar suas energias, em vez de lutar nas praias. Roi foi tomada ao anoitecer do ataque principal, a 1o de novembro, mas foi preciso mais um dia para conquistar Namur. Como de hábito, o assalto envolveu centenas de ações em pequena escala, sendo usados dinamite e lança-chamas, para eliminar os bolsões de resistência dos japoneses.

A Força de Ataque Sul também fez um bombardeio pesado e desembarques subsidiários nos flancos, antes do ataque principal à ilha de Kwajalein, que foi supervisionado por Turner. Os desembarques principais foram executados à perfeição, pois a 7a Divisão de Infantaria melhorara imensamente, desde suas primeiras ações desajeitadas nas Aleútas. A leva inicial de barcaças de desembarque chegou às praias exatamente às 09h30 de 1o de fevereiro. A princípio, não houve sinal do inimigo e, portanto, nenhuma baixa, pois o Contra-Almirante Akiyama recuara metade da sua guarnição de 500 homens, que haviam sobrevivido ao bombardeio, para o centro da ilha, onde, num complexo de casamatas e bunkers, eles lutaram até o último homem. Não fosse o hábito de fazer cargas-suicidas contra posições americanas, os japoneses teriam resistido muito mais; acontece que, com isso, a luta organizada terminou no dia 5. Dois dias depois, todo o atol estava em mãos americanas. Dos 41.000 soldados atacantes, somente 372 foram mortos, ao passo que quase 8.000 japoneses ali deixaram a vida.

O fato de os 10.000 soldados da reserva do Corpo, que aguardavam impacientes em Majuro, não terem sido usados nessas operações significava que seriam lançados contra Eniwetok. Mas isto só poderia ocorrer se o potencial do inimigo para contra-atacar fosse neutralizado, pois este alvo ficava a apenas 1.600 km das Marianas, 1.000 km de Ponape e menos de 1.100 km de Truk, e, embora a tomada de Eniwetok ameaçasse esses lugares, também poderia ser atacado por eles. Ponape, que servira de ponto de parada para os bombardeiros japoneses que saíram da base de Saipã e atacaram Roi e Namur pouco depois da ocupação americana, foi violentamente martelada por aviões baseados em porta-aviões, em meados de fevereiro. Também se decidiu atacar a base naval de Truk no dia dos desembarques em Eniwetok, 17 de fevereiro, pois aquela era a mais provável fornecedora de reforços aéreos e navais. Portanto, antes do amanhecer, nove dos porta-aviões de Mitscher desfecharam um ataque maciço. Caças americanos anularam a oposição aérea japonesa sobre Truk, enquanto bombardeiros de mergulho e bombardeiros-torpedeiros atacavam os navios na grande lagoa. O próprio Spruance, no comando de uma força de couraçados velozes, navegava em torno do atol para isolar os navios que fugissem; um cruzador leve e um destróier foram vítimas da sua varredura. Naquela noite, os porta-aviões usaram radar para dirigir os bombardeiros contra novos alvos terrestres e um terceiro ataque foi realizado na manhã seguinte, antes que a força, finalmente, se retirasse.

Prudentemente, o Almirante Kaga retirara a maior parte da Esquadra Combinada de Truk antes do começo da ação. Mesmo assim, 17 belonaves japonesas, incluindo dois cruzadores e quatro destróieres, haviam sido destruídos, juntamente com 200.000 toneladas de navios mercantes desesperadamente necessários (sete petroleiros e 19 navios cargueiros). O mito da inexpugnabilidade de Truk fora pelos ares, deixando de ser para sempre um ancoradouro seguro para a Esquadra Combinada. A vitória maior, porém, deu-se no ar, pois mais de 250 aviões japoneses foram destruídos ou seriamente avariados, ao custo de 25 aviões americanos. Este golpe pôs fim às esperanças de Tóquio de uma operação de contenção bem sucedida: não só não haveria nenhuma ameaça aos desembarques em Eniwetok, como também a devastação provocada em Truk fez com que os japoneses retirassem todos os aviões para as Bismarcks, deixando assim Rabaul aberta à neutralização. Aí estava a prova de que o avanço pelo Pacífico Central ajudaria, em vez de retardar, o próprio avanço de MacArthur. Além disso, foi o exemplo mais espantoso até então visto de como as novas forças de porta-aviões velozes podiam destruir uma grande base inimiga sem ocupá-la e sem precisar do apoio de aviões baseados em terra.

A tomada de Eniwetok - a "Operação Catchpole" (Meirinho) - foi uma tarefa relativamente rápida para o Grupo de Combate Regimental do 22o de Fuzileiros Navais e para os dois batalhões da 27a Divisão de Infantaria. O procedimento normal, de bombardeios preliminares e desembarques nas ilhas de flanco, precedeu o ataque principal. Um dos alvos mais importantes, a ilha de Engebi, foi tomado rapidamente, a 17 de fevereiro, mas as guarnições japonesas das ilhas de Parry e Eniwetok estavam bem entrincheiradas e preparadas para lutar até o fim. Somente após três dias de luta feroz é que toda a oposição foi eliminada. Para todos os efeitos, as Marshalls estavam agora em mãos americanas - pois os atóis que ainda se encontravam em poder dos nipônicos, naquele grupo, estavam cercados pelas forças de guarnição americanas e não ofereciam qualquer perigo. Os Seabees já estavam construindo aeródromos para futuras operações e os planejadores examinavam novamente seus mapas. A rápida tomada das Gilberts e das Marshalls e o grande ataque desfechado contra Truk eram bons augúrios para os americanos. Com a 5a Frota aumentando sistematicamente seus efetivos, e com o inimigo aparentemente incapaz de formar uma defesa adequada, a arremetida para as Filipinas já não parecia ser uma possibilidade tão remota e improvável.


Nova Guiné e as Marianas

Na primavera e início do verão de 1944, o contra-ataque de duas pontas feito pelos Aliados no Pacífico mostrou realmente a sua eficácia. Hostilizados por esta estratégia e incapazes de recuperar o controle do ar, que haviam perdido em Midway e Guadalcanal, os japoneses foram arrancados de posições fortemente defendidas em período de tempo espantosamente curto. Porém, quanto mais rápido se tornava o impulso desta ofensiva, mais o Japão se via impedido de preparar as linhas de defesa subseqüentes. Empurrados pelos seus adversários, extremamente agressivos e móveis, os japoneses começavam a pagar o preço dos seus primeiros erros e deficiências.

Na Nova Guiné, por exemplo, a tática dos Aliados de avançar aos saltos foi elevada a novo nível. No espaço de quatro meses, a força de MacArthur deslocou-se, numa série de saltos bem executados, desde Madaag até a península de Vogelkop, cobrindo aproximadamente 1.600 km. A estratégia era simples: os japoneses esperavam conservar o controle dos poucos pontos vitais da costa norte da Nova Guiné, onde se podia construir aeródromos; os Aliados, incapazes de flanquear essas posições no montanhoso lado terrestre, dependiam do maior número de unidades aéreas e navais para realizar operações de desvio ao longo de toda a costa As guarnições japonesas, portanto, eram obrigadas a escolher entre serem isoladas ou dirigirem-se para oeste e atacar as cabeças-de-praia aliadas em condições de desvantagem. De qualquer modo, sua posição era muito fraca, porque o restante das suas forças aéreas e navais estava sendo reservado para enfrentar a arremetida de Spruance pelo Pacífico Central no momento em que o avanço de MacArthur começou. Além disso, as forças de terra que os japoneses tinham na área da Nova Guiné não eram muito poderosas. O 8o Exército de Área ficou entregue à própria sorte em Rabaul. O 18o Exército, de Adachi (20a, 41a e 50a Divisões de Infantaria), destroçado após a campanha do golfo de Huon e reorganizando-se às pressas em Wewak, foi assimilado pelo 2o Exército de Área, do General Anami, responsável pela defesa das Índias Orientais Holandesas e pela Nova Guiné Ocidental. Anami já tinha três divisões (32a, 35a e 36a de Infantaria) na região da Nova Guiné-Molucas, além das esgotadas tropas de Adachi; mas ele tinha de enfrentar as forças aliadas que, embora dominando também o mar e o ar, incluíam o equivalente a oito divisões americanas e sete australianas em abril de 1944, e continuava a avolumar-se. Os soldados japoneses lutariam com a tenacidade de sempre, mas eles estavam mal alimentados e mal equipados e sofriam muito com a interrupção até mesmo do tráfego costeiro local pelas torpedeiras americanas.

Durante todo o mês de abril de 1944, a 7a e depois a 11a Divisões australianas mantiveram a pressão sobre as posições avançadas japonesas, seguindo pela costa para além de Madang. Ao mesmo tempo, o Comando do Pacifico Sudoeste completava seus preparativos para realizar o maior e mais arrojado salto até então tentado - a tomada da importante base de Holândia, onde os japoneses tinham o porto natural da baía de Humboldt, além de vários aeródromos. Os baluartes em Wewak e baía de Hansa seriam evitados e neutralizados, embora, como medida de segurança, Aitape, situada a 200 km a leste de Holândia, também devesse ser tomada, para ali ser feito um aeródromo de emergência. A ilha de Emirau, situada entre Kavieng e Manus, deveria ser tomada, para impedir qualquer ameaça de Rabaul antes de se iniciar o grande salto para oeste. Tudo isto foi esboçado numa nova diretiva baixada pelos CEMC a 12 de março de 1944, que também mandava Nimitz tomar as Marianas em junho e, depois, prosseguir para as Palaus, em setembro, cobrindo, desse modo, o salto de MacArthur para as Filipinas, programado para novembro. O ritmo da reconquista estava acelerando.

Como sempre, os desembarques foram precedidos de freqüentes bombardeios que, neste caso, foram muito bem sucedidos. Holândia, em particular, foi violentamente atacada em fins de março e início de abril, e a maioria dos 350 aviões que os japoneses conseguiram reunir foi destruída em terra. Os porta-aviões de Mitscher, após atacarem as Palaus e as Carolinas, dirigiram-se para o sul. Tendo a Esquadra Combinada abandonado as Palaus como base avançada, não eram grandes as chances de serem os desembarques aliados impedidos por ataques marítimos ou aéreos. Assim, a ilha Emirau, abandonada pelos japoneses, foi ocupada com facilidade a 20 de março.

A operação principal foi dividida em três partes: um grupo ocuparia Aitape, os outros dois desembarcariam nas baías de Tanahmerah e de Humboldt, para envolver num movimento de pinça o inimigo instalado em Holândia. As estimativas do Serviço de Inteligência, que davam como existentes naquela região 14.000 japoneses, mais 3.500 em Aitape, fizeram com que MacArthur empregasse quase 50.000 soldados de combate (principalmente do 1o Corpo, de Eichelberger) no assalto, que seria a maior operação anfíbia já realizada pelo Comando do Pacífico Sudoeste. A força de desembarque naval, com 215 navios da 7a Força Anfíbia, do Contra-Almirante Barbey, foi igualmente dividida em três grupos. Havia também dois grupos de acompanhamento, uma reserva flutuante, dois grupos de escolta cerrada de cruzadores/destróieres, cobertura aérea de uma força de oito porta-aviões de escolta, e cobertura a distância dada pelas Forças-Tarefas de Porta-Aviões Velozes da 5a Frota, que recebera ordens do CEMC para apoiar a operação de MacArthur.

Se ainda havia dúvida sobre o resultado da operação, elas logo se dissiparam após os primeiros desembarques, a 22 de abril de 1944. Aitape e Holândia eram defendidas por número de japoneses inferior ao calculado. Mais importante ainda é que estes eram "tropas administrativas", que fugiram para o interior ao primeiro bombardeio, permitindo aos americanos tomar todos os seus objetivos sem qualquer oposição real. Além disso, a estrutura de comando japonês na Nova Guiné estava desorganizada e não podia coordenar um contra-ataque. A maioria dos defensores estacionados na região de Holândia pereceu na longa retirada pela selva até Sarmi.

Os movimentos americanos foram, para o 18° Exército, comandado por Adachi, verdadeiramente terríveis, pois suas três divisões, que se recuperavam em Wewak, haviam sido completamente isoladas do resto do 2o Exército de Área. Lembrando-se das dificuldades que seus soldados haviam enfrentado quando, para evitar Saidor, tiveram de atravessar o território montanhoso da selva, ele ignorou as ordens de evitar Aitape e decidiu, em vez disso, atravessar as linhas americanas. Sabedor disso, MacArthur aumentou seus efetivos ali para três divisões, de modo que, quando o ataque finalmente ocorreu, os japoneses foram repelidos, sofrendo perda de 9.000 homens, após luta muito dura. Depois disso, o restante estava tão fraco e disperso, que mais nada podia pretender no campo de batalha.

Muito antes dos choques verificados em Aitape, os americanos já haviam passado para seu objetivo seguinte, a ilha de Wakde, situada ao largo, e cuja pista de pouso MacArthur desejava usar para cobrir o importante avanço sobre Biak. A primeira parte dessa operação foi cumprida na íntegra, com a Força Anfíbia de Barbey desembarcando o 163o Grupo de Combate Regimental perto de Toem, a 17 de maio. Dali, os soldados passaram para a ilha propriamente dita que, contudo, foi vigorosamente defendida por sua pequena guarnição durante dois dias. O avanço costeiro para Sarmi também foi neutralizado, por muitas semanas, pela 36a Divisão japonesa, mas os americanos puderam pelo menos usar sem demora o aeródromo de Wakde para seu avanço seguinte.

Nesse estágio, a posição do Japão na Nova Guiné era realmente muito séria. Biak e a península de Vogelkop já estavam sob freqüentes bombardeios; submarinos americanos vinham infligindo pesadas baixas aos comboios de tropas da China; e a ameaça de Nimitz às Marianas significava que o 2o Exército de Área não podia esperar muitos reforços. Em Biak, porém, o avanço aliado sofreu forte revés. Ao contrário do que se verificou em Holândia, os americanos subestimaram flagrantemente o tamanho da guarnição, que era de mais de 11.000 homens. Além disso, os japoneses estavam solidamente entrincheirados em cavernas existentes nas elevações que dominavam o aeródromo e não tinham nenhuma intenção de lutar nas praias, onde seriam esmagados pelo fogo naval americano. Os desembarques iniciais, feitos a 27 de maio por unidades da 41a Divisão de Infantaria, não encontraram muita oposição, mas a tentativa de ocupar o aeródromo foi vigorosamente repelida, chegando inclusive a ficar parte da força invasora temporariamente isolada por tanques japoneses. Quantidade cada vez maior de soldados foi desembarcada e a campanha transformou-se numa série de ferozes operações de limpeza, que progrediam muito lentamente para o gosto de MacArthur, que substituiu o comandante divisional do seu posto. Somente em fins de agosto de 1944 é que a ilha foi totalmente tomada pelos Aliados, que a transformaram numa base aérea para as forças de ataque às Filipinas.

Esta luta prolongada levou o Alto Comando japonês a pensar em reforçar Biak, mas falharam todas as tentativas feitas nesse sentido, devido à falta de resolução, principalmente. A primeira, a 2/3 de junho, foi adiada por temerem os nipônicos que uma força de porta-aviões americanos estivesse em Biak. Quando se inteiraram de que era improcedente o receio, outra tentativa foi programada para o dia 7, mas esta foi repelida por uma força aliada de cruzadores e destróieres. No dia 10, os japoneses decidiram enviar uma força mais poderosa, incluindo nela os gigantescos couraçados Yamato e Musashi; mas no dia seguinte os porta-aviões de Mitscher começaram seus ataques de debilitação das Marianas e a força de batalha foi enviada às pressas para o norte, a fim de enfrentar essa ameaça. Uma vez mais, a ofensiva, de duas pontas, aliada desequilibrou as defesas japonesas. Os únicos reforços para a guarnição de Biak foram enviados de barcaças, seriamente dizimados por bombardeios aliados.

Como as bases aéreas eram vitais para a sua campanha de retorno, MacArthur prontamente ordenou a captura dos três aeródromos da ilha de Noemfoor, devido à lentidão com que se desenrolavam as batalhas de Biak. Os desembarques ali, feitos a 2 de julho, foram precedidos de violento bombardeio, acompanhado de um salto de 1.500 pára-quedistas. Mas a resistência foi pequena, pois os japoneses já iam recuando para a extremidade ocidental da península de Vogelkop. As forças de MacArthur, porém, estavam no seu encalço. A 30 de julho de 1944, a 6a Divisão de Infantaria foi desembarcada na desocupada região do cabo Sansapar-Mar e construiu uma zona defensiva em torno dos aeródromos, que foram construídos às pressas para dar cobertura ao salto seguinte. Remanescentes de cinco divisões japonesas encontravam-se espalhados ao longo da costa da Nova Guiné, e os que estavam em torno de Wewak passaram a ser submetidas à pressão das forças australianas. MacArthur não estava interessado no seu destino, pois tinha os olhos pregados nas Filipinas, que somente o oceano separava das suas tropas vitoriosas.

Embora a perda da Nova Guiné fosse humilhante para os líderes da guerra japoneses, o que mais os preocupava era o avanço de Nimitz pelo Pacífico Central. Em primeiro lugar, as Marianas, agora ameaçadas pelos americanos, eram de importância estratégica muito maior que as partes periféricas do império japonês conquistadas até então. Desse grupo de ilhas as Superfortalezas B-29 americanas podiam alcançar e atacar as Filipinas, a China, Formosa e, o que era mais importante, o próprio Japão; além disso, a linha de comunicações do Japão com suas possessões meridionais correria perigo, se é que não seria totalmente cortada. Em segundo, o Almirante Toyoda (Comandante-Chefe da Esquadra Combinada, após a morte de Koga, num desastre aéreo) estava bastante cônscio de que as forças de porta-aviões velozes americanos eram a maior ameaça para o futuro do Japão. Desde as derrotas nas Salomão, aliás, a marinha japonesa vinha tentando conservar suas forças para a batalha vital que eliminaria a 5a Frota. Toyoda, portanto, imaginou a "Operação A-GO", segundo a qual as forças de Spruance seriam atraídas para as águas a leste e sul das Filipinas, onde seriam cortadas entre os aviões que operavam das ilhas de mandato ocidentais e os da 1a Frota Móvel, sob o comando do Vice-Almirante Ozawa. Como os americanos, igualmente cônscios dos riscos envolvidos, estavam decididos a empregar todas as suas forças para tomar as Marianas, a batalha pela posse dessas ilhas prometia transformar-se na maior ação entre frotas no Pacífico, desde Midway.

Como sempre, as ilhas vitais para ambos os lados eram as que continham aeródromos - neste caso, Saipã, Tiniã e Guam, defendidas, respectivamente, por guarnições de 32.000, 9.000 e 18.000 soldados. Os efetivos aéreos japoneses, nominalmente de 1.400 aviões, eram na verdade muito menores, pois muitos aparelhos haviam sido despachados para a Nova Guiné e outros, destruídos pelos aviões dos porta-aviões de Mitscher, que vinham atacando as Marianas e as Carolinas ocidentais desde 23 de fevereiro. Mas Toyoda esperava poder contar com 500 aviões, além dos 473 baseados em porta-aviões, se alguns reforços fossem enviados de outras áreas. As forças navais de Ozawa foram divididas em três grupos, um típico estratagema japonês, cujos vários elementos da esquadra não podiam ser descobertos por nenhum avião de reconhecimento inimigo para que tivesse êxito. O primeiro grupo, sob o Vice-Almirante Kurita, consistia da principal frota de batalha, integrada por quatro couraçados, três porta-aviões leves, cruzadores e destróieres. Ozawa, pessoalmente, comandava a principal força de porta-aviões, com três porta-aviões de esquadra, cruzadores e destróieres. Uma força de porta-aviões de reserva, com dois porta-aviões de esquadra e um leve, juntamente com um couraçado e um anteparo de cruzadores e destróieres, formava o terceiro grupo. Toyoda, que dirigiria as operações da terra, planejou usar a frota de batalha como isca para obrigar os americanos a revelar-se, permitindo, assim, que os aviões dos dois grupos de porta-aviões e das bases situadas nas ilhas desfechassem um contra-ataque mortífero. Embora não sabendo ao certo se a ação ocorreria perto das Palaus, ao largo da costa norte da Nova Guiné ou nas próprias Marianas, Toyoda acreditava que seu plano funcionaria em todos os casos.

Os americanos, muito menos flexíveis, porque o objetivo principal das forças de Spruance era tomar e defender certas ilhas importantes, enfrentava a tarefa imensa de trazer 128.000 soldados, com todo o seu equipamento, de lugares distantes, - como o Havaí e Guadalcanal. A invasão de Saipã - foi marcada para 15 de junho, com desembarques nas duas outras ilhas verificando-se imediatamente após, mas a hora exata destes últimos dependeria da primeira operação. Saipã e Tiniã seriam tomadas pela Força de Ataque Norte, que incluía a 2a e 4a Divisões de Fuzileiros Navais, com a 27a Divisão de Infantaria na reserva. Guam seria tomada pela Força de Ataque Sul, cujo elemento principal era a 3a Divisão de Fuzileiros Navais. Turner, uma vez mais no comando dos desembarques, tinha uma cobertura naval cerrada de 12 porta-aviões de escolta, cinco couraçados, 11 cruzadores e muitos destróieres. À espreita, atrás deles, ia o mais poderoso grupamento naval do mundo, a 5a Frota, de Spruance, compreendendo sete couraçados velozes, 21 cruzadores e 69 destróieres, juntamente com seu verdadeiro coração - os quatro grupos de porta-aviões de Mitscher, com 15 porta-aviões e 956 aviões.

As forças de invasão, após se reunirem nas Marshalls, partiram dali a 9 de junho. Dois dias depois, os aviões de Mitscher atacaram repetidamente as Marianas, para eliminar a oposição aérea, ao mesmo tempo que atacavam o grupo Bonin, para cortar a linha de reforços do Japão. No dia 13, Saipã e Tiniã já estavam sendo bombardeadas por couraçados americanos e Toyoda, um tanto surpreso, ordenou o início da "Operação A-GO", cancelando a terceira tentativa de reforçar Biak.

Às 08h44 de 15 de junho, a primeira leva de fuzileiros navais chegou às praias de Saipã, protegida por bombardeiros navais, canhoneiras que navegavam junto à costa e aviões lança-foguetes. Mais de 8.000 homens desembarcaram em 20 minutos - um tributo ao treino especializado da força; ao anoitecer havia mais de 20.000 fuzileiros-navais em Saipã; mas as baixas foram grandes e não houve muita expansão da cabeça-de-praia, porque os japoneses controlavam as elevações circunjacentes. Porém, uma grande ameaça à invasão - a frota de Ozawa - fora avistada por submarinos americanos quando entrava no mar das Filipinas Alertado, Spruance adiou os desembarques em Guam, desembarcou a divisão de reserva em Saipã, para apressar sua captura, e afastou os navios de transporte de tropas.

Os aviões de Ozawa já haviam avistado as forças americanas no dia 18 e ele colocara sua principal frota de batalha 160 km à frente dos seus dois grupos de porta-aviões, agora reunidos e navegando fora do alcance dos aviões de Mitscher. A 5a Frota, embora seus aviões tivessem um raio de ação de ataque menor que seus equivalentes japoneses, foi mantida a 290 km de Tiniã, pois Spruance temia que, afastando-se mais para oeste, viesse a perder as belonaves japonesas. Acontece que seu posicionamento defensivo revelou-se muito sensato. Ao amanhecer do dia 19, o plano de Toyoda estava dando certo - mas com uma diferença importantíssima: não havia o segundo braço da "pinça", pois os ataques de Mitscher tinham dizimado os aviões que operavam das Marianas. Das 08h30 em diante, os porta-aviões de Ozawa realizaram ataques sucessivos, todos, no entanto, descobertos a tempo pelo radar dos americanos. Enquanto despachava seus bombardeiros para atacar novamente as ilhas-bases, Mitscher soltou m sucessivas alas de caças para destruir o ataque aéreo japonês. O resultado foi o massacre conhecido como "a Grande Caça ao Peru nas Marianas", no qual os pilotos americanos, bem mais experimentados que os nipônicos, fizeram uma autêntica devastação nas fileiras inimigas. Além dos 50 aviões destruídos em Guam, os japoneses perderam mais, em dois dias, 476 aviões. O pior é que os submarinos americanos que seguiam a força de Ozawa conseguiram torpedear e afundar os porta-aviões de esquadra Taiho e Shokaku.

O comandante japonês, porém, acreditava que a maioria dos aviões de seus porta-aviões pousara em Guam e, portanto, continuava na área da batalha. Sabendo da posição do inimigo no dia 20, Mitscher, já no fim da tarde, desfechou contra ele um ataque com 216 aviões, que afundaram o porta-aviões de esquadra Hiyo e dois navios-tanques, avariando também mais dois porta-aviões de esquadra, dois porta-aviões leves, um couraçado e um cruzador pesado; 65 aviões japoneses foram nesse ataque derrubados. Nesta ação, os americanos perderam apenas 25 aviões, mas outros 80 continuaram desaparecidos ou caíram durante o longo vôo noturno de volta; muitos tripulantes desses aviões foram, porém, recolhidos. Depois disso, os navios de Ozawa recuaram para Okinawa.

A Batalha do Mar das Filipinas foi uma terrível derrota para o Japão; em termos de conseqüência estratégica, esta e a de Midway foram verdadeiramente decisivas da guerra do Pacífico. Os japoneses não só perderam três porta-aviões de esquadra, tiveram muitos outros navios avariados e sua arma aérea da esquadra virtualmente eliminada (no dia 20 Ozawa ficou somente com 35 aviões), como também perderam o controle do importantíssimo grupo das Marianas, cujo destino dependia da batalha aeronaval. Além disso, o caminho para as Filipinas escancarou-se para os americanos.

As três divisões desembarcadas no sul de Saipã no dia 15 de junho subiram gradativamente para o norte, ajudadas por freqüente apoio aéreo e naval; no dia 25, o monte Topotchau, dominante de grande parte da região, foi tomado, fazendo que se aproximasse o fim, embora resistissem ferozmente os japoneses, sob o comando do Tenente-General Saito. No dia 6 de julho, os líderes (incluindo o Vice-Almirante Nagumo, comandante do ataque a Pearl Harbor) suicidaram-se e, no dia seguinte, o restante dos 3.000 soldados fez praticamente a mesma coisa, numa carga contra as linhas americanas. Mas somente em meados de agosto é que a ilha foi totalmente dominada, perdendo-se 3.500 vidas americanas e 26.000 japonesas. A 24 de julho, as duas divisões de fuzileiros navais haviam sido transportadas de Saipã para Tiniã, que caiu numa semana, embora também ali bolsões isolados de defensores fossem caçados durante os meses seguintes. Três dias antes dos desembarques em Tiniã, a força de ataque de Guam, que fora afastada durante a Batalha do Mar das Filipinas, já agora reforçada pela 77a Divisão de Infantaria, tendo em vista a violenta resistência encontrada em Saipã, conseguiu desembarcar na ilha, após dias de bombardeio naval e aéreo. Apesar do forte bombardeio que sofreu, Guam foi um osso duro de roer, como seriam Iwo Jima e Okinawa, mais tarde. É que a guarnição estava bem protegida por um imenso sistema de cavernas e defesas subterrâneas e somente a 12 de agosto é que foi totalmente eliminada Apenas 1.500 japoneses, em Tiniã e Guam, renderam-se, enquanto as perdas americanas, nas duas ilhas, totalizaram 1.600 homens.

A queda das Marianas e a devastação que a esquadra japonesa sofreu foram golpes, como reconheceu Tóquio, que fizeram baixar a guarda das Filipinas e puseram as ilhas metropolitanas sob a ameaça de ataque aéreo. Começava a ganhar contornos de tragédia o grande sonho em que mergulharam os nipônicos. O gabinete de Tojo renunciou a 18 de julho de 1944, sendo substituído pelo ministério de Koiso. Até mesmo os Senhores da Guerra japoneses reconheciam que suas chances de vitória eram quase impossíveis, embora ainda não pudesse medir as implicações políticas da derrota.


O Golfo de Leyte e as Filipinas

A tarefa mais premente do novo governo Koiso era, em cooperação com o QG Imperial, deter a arremetida americana. Tóquio determinou que fossem reforçadas as defesas em toda a parte e que a ofensiva na China deveria continuar, mas a grande preocupação dos japoneses era a defesa das Filipinas que, acertadamente, eram encaradas como o próximo objetivo americano. Os líderes da guerra nipônicos concordaram em que se deveria lançar nessa campanha as forças que pudessem, ponderando que, uma vez perdidas as Filipinas, as forças aéreas e navais do Japão para a defesa das ilhas metropolitanas seriam inúteis, devido ao corte no abastecimento de combustível das Índias.

O plano para a defesa das Filipinas era conhecido como SHO-I e seria realizado pelo 14o Exército de Área, sob o comando do Tenente-General Yamashita, o conquistador da Malásia. Sob sua direção havia nove divisões de infantaria e uma blindada, três brigadas, tropas navais (havia 25.000 integrantes destas em torno de Manilha) e o 4° Exército Aéreo. Ele tinha 387.000 homens sob seu comando, mas espalhados por vasto grupo de ilhas. A Esquadra Combinada deveria ser totalmente lançada na batalha decisiva, montando um ardil arrojado para confundir os atacantes. O plano, que só foi dado como inteiramente concluído quando a invasão já ocorria, era o seguinte: assim que se informassem dos desembarques americanos, os porta-aviões japoneses atrairiam a frota americana para o norte, enquanto as forças de desembarque seriam atacadas por dois grupos de couraçados e totalmente destruídas. A estratégia era sem dúvida revolucionária e tinha a vantagem da surpresa, porque os americanos, que davam mais valor ao porta-avião do que a qualquer outra coisa, por certo sairiam atrás dos seus equivalentes japoneses - afinal de contas, nos combates anteriores entre esquadras, o inimigo sempre usara os couraçados como isca e mantivera os porta-aviões como a força de ataque. Este plano, formulado por Toyoda, fora grandemente influenciado pela fraqueza do Japão no ar - os porta-aviões tinham pouco poder de ataque - e estes ainda eram o seu calcanhar-de-aquiles. O sucesso da medida iria depender da manutenção das tropas de desembarque na ignorância da ameaça que as duas forças de couraçados representariam para elas.

Ironicamente, neste estágio da guerra, quando suas forças de porta-aviões velozes se haviam tornado tão móveis e poderosas e as tropas haviam adquirido tanta experiência em operações anfíbias, os americanos talvez pudessem ter simplesmente evitado de todo as Filipinas. O Almirante King e outros líderes da marinha mostravam-se favoráveis ao ataque a Formosa, Iwo Jima ou Okinawa, que eram degraus mais diretos para a campanha contra as ilhas metropolitanas japonesas. Contudo, a promessa de MacArthur - "Eu voltarei" - e considerações de ordem política impediram que fosse introduzida mudança tão radical na orientação estratégica.

Antes da invasão das Filipinas propriamente dita, os estrategistas americanos pensaram que vários alvos pequenos - a ilha Morotai, as Palaus, Yap, o atol de Ulithi, as ilhas Talauds e, depois, Mindanao, no sul das Filipinas - deveriam ser tomados, a fim de, proporcionar bases aéreas e navais avançadas para os esforços principais, que deveriam ser feitos no golfo de Leyte e, mais tarde, em Luzon. No começo de setembro de 1944, porém, a 3a Frota, de Halsey (isto é, as mesmas forças do Pacífico Central que eram chamadas de 5a Frota quando Spruance e seu Estado-Maior as comandavam), atacou as Filipinas e descobriu que as defesas ali eram muito fracas. Com isso, o almirante propôs, através de Nimitz, à reunião dos Chefes de Estado-Maior Combinados, na "Conferência Octágono", de 11-16 de setembro, que estes estágios intermediários fossem abandonados e que a operação principal fosse antecipada em dois meses. Concordou-se com a medida proposta, mas foram mantidas as primeiras partes dos movimentos pré-Leyte - como garantia e, também, porque estavam quase para começar.

O primeiro desses alvos, a ilha de Morotai, estava a apenas 16 km dos 30.000 soldados japoneses que se encontravam nas Halmaheras, mas oferecia uma planície ampla no sul que poderia ser facilmente transformada numa base aérea. Após intenso bombardeio desse alvo, 28.000 soldados americanos ali desembarcaram a 15 de setembro de 1944. Eles encontraram pouca oposição e, a 4 de outubro, a recém-construída base aérea estava sendo usada Ao mesmo tempo em que se realizavam esses desembarques, as forças do Pacífico Central, de Halsey, invadiram as Palaus. Sua guarnição, a 14a Divisão de Infantaria japonesa, estava sobretudo na ilha de Babelthuap, a maior delas, mas que não era, afinal, o objetivo dos americanos. Em vez disso, a 1a Divisão de Fuzileiros Navais atacou Pelelieu, enquanto que a 81a Divisão de Infantaria desembarcava, a 17 de setembro, em Agur, que caiu em três dias. A 23 de setembro, um Grupamento de Combate Regimental foi enviado para tomar o atol de Ulithi, já abandonado pelos japoneses e que logo foi preparado para servir de ancoradouro principal para a frota. Mas a luta em Pelelieu foi muito mais árdua e os japoneses defenderam uma crista que dominava o aeródromo até 1o de outubro e só foram dominados por completo em fins de novembro. Num exame retrospectivo, é de duvidar que a captura dessa ilha merecesse as baixas que os americanos sofreram, 9.800 homens (incluindo 1.950 mortos).

Com estas ações, as forças de MacArthur e de Nimitz passaram a cumprir uma rota convergente para tentar a reconquista conjunta das Filipinas. A invasão foi precedida, entre 10 e 17 de outubro, de uma série de ataques amplos, pelos porta-aviões de Mitscher, contra Okinawa, Luzon e, especialmente, Formosa, onde os pilotos japoneses de tal forma exageraram suas vitórias nas batalhas aéreas contra a 3a Frota (11 porta-aviões destruídos, por exemplo) que o QG Imperial ordenou, prematuramente, que suas forças avançassem para a "Operação SHO-I". Na verdade, os ataques feitos pelos porta-aviões americanos haviam destruído mais de 500 aviões japoneses nesses encontros, perdendo apenas 79 e nenhum navio, tornando, assim, menos prováveis as chances de êxito da "SHO-1". Estes relatórios falsos e a notícia da aproximação da armada fizeram com que os planos do exército fossem mudados, e o 35o Exército, do Tenente-General Suzuki, consistindo de quatro divisões e uma brigada, e que defendia o sul das Filipinas, foi mandado para defender Leyte a qualquer preço, uma inversão da estratégia inicial, que previa fosse conservada a maior parte das forças de terra para a batalha decisiva por Luzon.

Às 10 horas de 20 de outubro de 1944, após desembarques preliminares, para tomar as pequenas ilhas e o promontório sul da entrada do golfo de Leyte nos três dias anteriores, o exército americano começou a invasão das Filipinas. As forças que o atacante desenvolveu eram as maiores já vistas no oceano Pacífico. MacArthur comandava o 6o Exército, de Krueger, e a 7a Frota, de Kinkaid O 6o consistia de 200.000 homens divididos pelo 10o Corpo, do Major-General Sibert, que desembarcaria perto de Tacloban, e o 24o Corpo, do Major-General Hodge, que desembarcaria perto de Dulag; a 7a Frota era integrada por duas forças anfíbias e um grande grupo de porta-aviões de escolta, para dar proteção aérea, estando estes sob o comando do Contra-Almirante Barbey, do Vice-Almirante Wilkinson e do Contra-Almirante Tom Sprague, respectivamente, além de enorme frota de barcaças de desembarque, navios auxiliares, couraçados de bombardeio, cruzadores e destróieres. A tudo isso acrescentou-se a 3a Frota, de Halsey, que permanecia sob o controle de Nimitz; era simplesmente difícil demais para Roosevelt subordiná-lo a MacArthur, ou vice-versa. Halsey controlava 17 porta-aviões, seis novos couraçados, 17 cruzadores e 64 destróieres, na F-T 38, sendo o componente principal, como sempre, as quatro divisões de porta-aviões velozes, de Mitscher.

Quando soube que os americanos se aproximavam de Leyte, Toyoda mandou que se iniciasse a parte naval da "SHO-1". Contudo, a Esquadra Combinada estava muito espalhada entre Cingapura e o Japão e demoraria alguns dias para que este plano complicado começasse a ter efeito. Mesmo antes do início das principais batalhas navais, porém, o plano de Toyoda passou a encontrar dificuldades. No dia 23 de outubro, bem cedo, o Vice-Almirante Kurita dirigia a Força Centro, o principal grupo de batalha, com cinco couraçados (incluindo os gigantescos Yamato e Musashi), nove cruzadores pesados e 15 destróieres, pela Passagem de Palawan, na direção do estreito de San Bernardino, que atravessa as Filipinas centrais, quando foi atacado pelos submarinos americanos Darter e Dace, que não só conseguiram afundar dois cruzadores pesados - incluindo a nave-capitânia de Kurita, o Atago - e danificar outro, como também comunicaram a Halsey a presença da força naval japonesa. Portanto, em lugar de surpreender as forças de desembarque americanas, Kurita passou a sofrer ataques de um inimigo alerta e esmagadoramente forte. Além disso, a Força Sul, formada de dois couraçados, três cruzadores pesados e um leve e oito destróieres, do Vice-Almirante Nishimura, que se dirigia para o estreito de Surigao, também foi avistada, mais tarde.

Nos dois dias seguintes, tiveram inicio as inevitáveis batalhas aéreas. Os japoneses tinham menos de 200 aviões nas Filipinas e preferiram usá-los contra um dos grupos de porta-aviões de Mitscher que fora avistado ao largo de Luzon. Os atacantes foram praticamente dizimados, mas um de seus aviões conseguiu atravessar a barreira de fogo e acertar uma bomba no porta-aviões leve Princeton. Os torpedos transportados pelos aviões da belonave explodiram e provocaram violento incêndio, que se comunicou ao paiol de torpedos, provocando outras explosões no momento em que o cruzador Birmingham se aproximava do seu costado; 200 membros da tripulação deste último navio morreram na explosão e o porta-aviões teve de ser posto a pique no dia seguinte. Mas os americanos não sofreram quaisquer outras perdas sérias e conseguiram destruir uns 55 aviões que os porta-aviões de Ozawa tinham enviado para o local, a fim de atraírem a atenção para o norte. No sul, os navios de Nishimura foram atacados pelos aviões de Mitscher, mas sofreram apenas avarias leves.

A maior ação, neste estágio, envolveu a força de batalha do próprio Kurita, que foi repetidamente atacada pelos aviões dos porta-aviões na Batalha do Mar de Sibuyan, a 24 de outubro, o primeiro dos quatro rounds principais do confronto travado no golfo de Leyte. Cinco ataques aéreos foram desfechados pela FT 38 naquele dia e, no transcurso do último, os aviões dos porta-aviões deram o golpe de misericórdia no supercouraçado Musashi; atingido por 19 torpedos e 17 bombas, o gigante emborcou com 1.100 membros da sua tripulação ainda a bordo. Deslocando mais de 62.000 toneladas e portando canhões de 18 pol., ele era o máximo em construção de couraçado, mas não teve muita oportunidade de ser usado ao velho estilo da Batalha da Jutlândia e era muito vulnerável às poderosas, forças de porta-aviões quando não tinha proteção aérea. Um cruzador pesado também foi, fortemente atingido, obrigado a afastar-se, sendo a força nipônica, afinal, desbaratada; aliás, por algum tempo pareceu que Kurita retornava à sua base. Além disso, os pilotos dos porta-aviões americanos exageraram enormemente os danos causados e fizeram com que Halsey acreditasse que a Força Central não representava mais nenhuma ameaça. Finalmente, a força de porta-aviões japonesa sob Ozawa (um porta-aviões de esquadra, três leves e dois convertidos em porta-aviões, escoltados por três cruzadores leves e oito destróieres) conseguira atrair a atenção da FT 38, que caiu na armadilha de Toyoda e partiu imediatamente para o norte.

Bem ao sul das Filipinas, os navios de Nishimura navegavam para o estreito de Surigao, seguido a distância por outra força de três cruzadores. e quatro destróieres, sob o comando do Vice-Almirante Shima, que fora enviado do Japão para ajudar nesta parte da operação. As belonaves japonesas não encontraram muita oposição aérea, mas haviam sido avistadas pelos americanos, que se prepararam para dar-lhes vigorosa recepção no mar. Kinkaid mandou que toda a força de bombardeio da 7a Frota, seis velhos couraçados, quatro cruzadores leves e quatro pesados, e 21 destróieres, sob o comando do Contra-Almirante Oldendorf, bloqueasse a saída do estreito e frustrasse a ameaça aos desembarques. Oldendorf não se arriscou; ajudado pela pouca largura do estreito de Surigao, ele preparou uma emboscada mortífera. Hordas de torpedeiras, linhas de destróieres e finalmente uma barragem cerrada de couraçados e cruzadores tornariam muito difícil ao inimigo chegar às tropas de Krueger. E assim foi. Os torpedeiros atacaram incessantemente durante toda a noite, sem acertar nada, mas cansando as tripulações japonesas. Os destróieres americanos foram mais bem sucedidos; atacando um inimigo confuso, eles afundaram dois destróieres japoneses e conseguiram torpedear o couraçado Fuso, que mais tarde partiu-se em dois, numa explosão. Um terceiro destróier foi seriamente avariado e outros navios foram atingidos antes que os atacantes se retirassem, protegidos por uma cortina de fumaça.

Por volta das 03h30 do dia 25, o obstinado Nishimura tinha somente um couraçado, um cruzador pesado e um destróier quando se aproximava da saída do estreito. Já então, a armadilha de Oldendorf estava trabalhando à perfeição; seus couraçados rastreavam pelo radar a força que se aproximava e se preparavam para executar a rara e desejada manobra naval de cortar o "T" do inimigo - apresentar os costados de seus navios apenas às torres dianteiras do inimigo, como Togo conseguira fazer em Tsushima em 1905. Vinte minutos mais tarde, a força japonesa foi devastada por forte concentração de fogo de granadas e torpedos, vindo o couraçado Yamashiro a virar de borco, com Nishimura e a maior parte da tripulação ainda a bordo. O cruzador pesado Mogami foi obrigado a desviar-se para o sul com enorme fogueira a bordo, escoltado pelo único destróier, o Shigure. Entrementes, a 64 km mais atrás, os vasos de guerra de Shima estavam sofrendo os ataques de torpedeiras americanas, uma das quais incapacitou o cruzador Abukuma. Observando o dano causado ao esquadrão de couraçados, Shima, prudentemente, ordenou uma retirada, mas esta foi prejudicada por uma colisão e por ataques das torpedeiras. Na manhã seguinte, aviões dos porta-aviões e aviões baseados em terra encarregaram-se da tarefa. Somente um cruzador e quatro destróieres da força de Shima escaparam; da de Nishimura só restava o destróier Shigure. A vitória americana foi quase total e suas únicas baixas ocorreram a bordo de um destróier.

Enquanto a Força Sul estava sendo reduzida a ruínas, uma batalha ainda mais dramática, ao largo de Samar, começava a desenrolar-se. Pela manhã do dia 25, a Força Centro, de Kurita, saía do estreito de San Bernardino e se dirigia para o sul, para os desembarques de tropas americanas - e Halsey estava a centenas de milhas mais para o norte, perseguindo os porta-aviões de Ozawa. Não havia nenhum transporte de tropas vulnerável na cabeça-de-praia de Leyte, exceto a Força-Tarefa 3, o grupo de seis porta-aviões de escolta, do Contra-Almirante Clifton Sprague, e seus sete destróieres de escolta, empenhados em dar proteção contra submarinos e apoio aéreo às tropas. Para surpresa dos dois comandantes adversários, estas duas forças, de composição muito diferente, encontraram-se por volta das 06h48.

Segundo todas as inferências razoáveis, os navios de Sprague deviam estar condenados desde o começo. Seu adversário tinha quatro couraçados, incluindo o poderoso Yamato, com seus canhões de 18 pol. e sua velocidade de 25 nós, ou mais. Seus próprios porta-aviões de escolta estavam armados com canhões de 5 pol., e a velocidade máxima que podiam desenvolver não ia além de 17 nós e seus poucos e pequenos escoltas seriam varridos pelos velozes cruzadores pesados do inimigo. Ele não podia esperar ajuda de Halsey para tão cedo, mesmo que este desistisse de perseguir Ozawa. A força de Oldendorf estava bem para o sul. Somente um milagre poderia salvar a Força-Tarefa 3. Contudo, Sprague estava decidido a fazer Kurita pagar caro pela vitória. Afastando-se à máxima velocidade, ele despachou todos os aviões para atacar os navios adversários e solicitou o auxílio dos outros grupos de porta-aviões de escolta, de Halsey, de Oldendorf, de todos, enfim. Ao mesmo tempo, os destróieres lançaram cortinas de fumaça e fizeram repetidos ataques de torpedos contra os couraçados japoneses.
Tudo isso teve grande efeito, pois Kurita agiu com surpreendente indecisão, quando diante de oportunidade de ouro de acabar com o adversário. É possível que, para tanto, houvesse concorrido, primeiro, a perda de sua nave-capitânia e, depois, a do poderoso Musashi. Acreditando que estivesse enfrentando porta-aviões de escolta e escoltas muito mais numerosas, sem falar no receio de que esta pudesse ser a 3a Frota, de Halsey, ou que ela lhe pudesse cortar a linha de retirada para o estreito de San Bernardino, ele ficou ainda mais confuso, diante dos agressivos ataques de destróieres e aviões inimigos. Em vez de organizar seus navios pesados em linha de batalha cerrada e despachar suas forças mais leves contra os flancos do adversário, para fazer ataques de torpedo, Kurita ordenou o Ataque Geral - que significava que cada navio agisse independentemente, aumentando a confusão em situação já de si muito confusa.

O anteparo de destróieres e os destróieres de escolta de Sprague foram os maiores alvos do ataque japonês e enfrentaram valorosamente o inimigo, bem mais poderoso, numa tentativa de permitir que os porta-aviões se afastassem. O destróier Johnston enfrentou arrojadamente uma linha de cruzadores pesados, cada um cinco vezes maior que ele, torpedeando um deles, o Kumano, à distância de 10.000 metros. Então, apesar de atingido por três granadas de 14 polegadas, ele continuou disparando contra um couraçado que passava e conseguiu frustrar o ataque de um destróier japonês contra os porta-aviões. Finalmente, ele foi afundado, mas até mesmo os adversários saudaram o heroísmo com que se bateu. Seu par, o destróier Heermann, estava igualmente ocupado no momento do sacrifício do Johnston, combatendo quatro couraçados de Kurita e obrigando o enorme Yamato a mudar de rumo durante dez minutos para evitar seus torpedos. O Hoel, lutando com igual desvantagem, foi atingido por 40 granadas, algumas de 16 polegadas, que atravessaram de lado a lado o destróier sem explodir; às 08h55, ele emborcou e, em seguida, afundou. O Samuel Roberts, enfrentando vários cruzadores pesados, teve o mesmo destino. Mas os esforços desses heróicos naviozinhos detiveram repetidamente as forças de Kurita e desviaram muitas granadas que seriam dirigidas contra os porta-aviões, que eram bem mais importantes.

As tripulações aéreas americanas, foram igualmente corajosas. Após lançarem suas bombas e torpedos contra os navios japoneses, passaram a metralhá-los. Muitos pilotos, já sem munição, fizeram ataques simulados que obrigaram os couraçados e cruzadores a tomar ação evasiva por temerem ataques de torpedos e, com isso, perdiam velocidade; outros, decolando do grupo da Força-Tarefa 3 ou do aeródromo provisório de Tacloban, reabasteciam-se e se rearmavam às pressas e voltavam para novo ataque. Os aviões dos outros grupos de porta-aviões ofereciam cada vez mais apoio e, com estes métodos, mantiveram os japoneses em xeque durante umas duas horas. Contudo, isto não poderia durar eternamente; às 08h30, quatro cruzadores pesados que se haviam afastado dos couraçados, estavam bombardeando regularmente os porta-aviões de escolta, a bombordo. A distância diminuiu e nem mesmo os destróieres americanos puderam desviar fogo tão devastador; não demorou e o porta-aviões Gambier Bay estava em chamas, e seu capitão foi obrigado a dar a ordem para abandonar o navio. Novas levas de aviões então atacaram os cruzadores pesados e conseguiram afundar o Chokai e o Chikuma. Os dois outros, porém, estavam agourentamente perto e bastariam uns poucos disparos bem certeiros para incapacitar os porta-aviões americanos.

Às 09h11, com a vitória ao seu alcance, Kurita mandou que se reunissem os elementos da força que comandava. Os porta-aviões do inimigo pareciam estar desenvolvendo 30 nós, tornando quase impossível acertá-los. Na oportunidade em que deu tal ordem, Kurita não sabia que seus cruzadores pesados estavam tão perto dos navios de Sprague. É que o crescente peso dos ataques aéreos levou-o a admitir que as forças de Halsey se aproximavam; Shima radiografou o fracasso do ataque da Força Sul, o que significava que os couraçados de Oldendorf ainda constituíam uma força ativa, e ele não queria afastar-se ainda mais do estreito de San Bernardino. Às 12h36, seus navios, finalmente, retornaram ao seu ponto de partida, com Kurita ainda esperando encontrar Halsey. Na verdade, o encontro não chegou a realizar-se, pois a escassez de combustível levou-o a pôr-se de retorno à base. Portanto, não foi um milagre que salvou os porta-aviões de escolta, mas a coragem dos seus defensores e a indecisão do comandante japonês.

O fato de haver ocorrido este encontro, como se narrou acima, deveu-se à perseguição movida por Halsey aos porta-aviões de esquadra de Ozawa. O comandante americano não pode ser culpado por pensar que este era o alvo principal, pois as instruções de Nimitz diziam: "Caso se ofereça ou se possa criar a oportunidade de destruir grande parte da esquadra inimiga, esta destruição será a tarefa principal". Ele também acreditava piamente que a maior parte da força de Kurita fora incapacitada pelos ataques aéreos contra ela desfechados no dia 24. Por outro lado, como alguns autores comentaram; ele poderia ter-se protegido, deixando algumas forças ao largo do estreito de San Bernardino, talvez um grupo de porta-aviões ou os couraçados velozes de Lee. Além disso, assim que Halsey pegou sua presa, não lhe foi fácil largá-la; todos os informes sobre o movimento dos couraçados de Kurita foram ignorados. Quando Kinkaid começou a solicitar ajuda para a 7a Frota, após as 08h22 do dia 25, a única resposta de Halsey foi mandar que o grupo de porta-aviões do Vice-Almirante McCain, que então se reabastecia nas Carolinas, interviesse. Também Nimitz ficou preocupado, pensando (assim como Kinkaid) que os couraçados de Lee - reunidos por Halsey na Força-Tarefa 34 - tivessem ficado para cobrir o estreito de San Bernardino. Finalmente, às l0h, Nimitz enviou mensagem pedindo informações sobre o paradeiro da FT 34, que, com algumas palavras ("o mundo se espanta") em código, para confundir o inimigo que por acaso estivesse por perto, levou Halsey a pensar que estivesse sendo publicamente censurado. Às 10h55, entretanto Halsey, reagindo contra a sensação de abatimento que experimentou, voltou para o sul com seus couraçados e um grupo-tarefa de porta-aviões.

Acontece que somente um destróier incapacitado da Força Centro foi surpreendido no retorno da 3a Frota; o resto da força de Kurita lhe escapara. O infortunado Halsey estava, no entanto, muito longe de poder impedir a fuga de Kurita pelo estreito de San Bernardino, ao mesmo tempo que não pôde alcançar a área, situada ao norte, em que se feria a batalha, ao largo do cabo Engano, que já havia alcançado estágio decisivo quando Halsey recebeu a mensagem de Nimitz. Ozawa executara à perfeição sua armadilha, pois à meia-noite de 24 de outubro seus navios, com apenas 29 aviões a bordo, estavam sendo vigorosamente perseguidos por velozes couraçados e três grupos de porta-aviões, somando 64 navios e 787 aviões. Ao amanhecer do dia 25, Mitscher já havia alcançado as proximidades do local em que se encontravam os navios de Ozawa e às 08h desfechou o primeiro ataque. Dada a disparidade de forças, os resultados foram virtualmente inevitáveis.

O porta-aviões japonês Chitose e um destróier foram afundados no primeiro ataque, em que também ficou incapacitado o porta-aviões Zuikaku, com o que Ozawa foi obrigado a transferir sua capitânia para um cruzador leve. Mal acabara de trocar de navio quando chegou a segunda leva, danificando o porta-aviões leve Chiyoda tão seriamente, que todas as tentativas de rebocá-lo foram abandonadas. O terceiro ataque foi mais bem sucedido, acabando com o Zuikaku com três torpedos. Tendo participado da operação de Pearl Harbor, a tripulação daquele porta-aviões deve ter lamentado o visível declínio do poder de ataque aéreo do Japão e da sua capacidade de controlar os céus do Pacífico desde os primeiros dias da guerra. O porta-aviões Zuiho, também avariado nesse terceiro ataque, foi posto a pique pela quarta leva de aviões de Mitscher. Os dois ataques seguintes, porém, foram menos eficazes; na verdade, embora os ataques de 527 aviões tivessem afundado três porta-aviões e um destróier, esta proporção foi menor do que em Midway. Contudo, toda a força de Halsey estava a pouco mais de 60 km dos avariados navios de Ozawa às 11h - momento em que ele decidiu voltar para o sul, para apanhar Kurita. Mais algumas horas no rumo norte e todo o grupo de Ozawa teria sido aniquilado.

Halsey deixou para trás um grupo de quatro cruzadores e nove destróieres, sob o comando do Contra-Almirante Dubose, e desviou-se para o sul, com o intuito de pegar no meio do caminho os navios que estivessem avariados. Realmente, ao anoitecer do dia 25 ele afundou o abandonado porta-aviões Chiyoda e um destróier. Já então, Ozawa, que se retirava a pleno vapor, só poderia ser alcançado em águas situadas dentro do raio de ação dos bombardeiros baseados em Formosa, de modo que a perseguição teve de ser suspensa. O almirante japonês cumprira bem a parte que lhe cabia no plano de Toyoda, desde que se considere com que efetivos aéreos ele saiu para a aventura de atrair Halsey, em que, afinal, conseguiu êxito. Mas os comandantes das Forças Sul e Centro, de cujas ações dependia toda a "Operação SHO-1", tinham sido muito menos hábeis. Ao todo, os japoneses perderam quatro porta-aviões, três couraçados, seis cruzadores pesados, três cruzadores leves e 10 destróieres; numericamente, foi a maior derrota naval por eles sofrida na guerra, embora se possa encará-la como conseqüência natural das suas catastróficas perdas aéreas na batalha do mar das Filipinas. Em contraste, os americanos perderam apenas um porta-aviões leve, dois porta-aviões de escolta e três destróieres nas várias ações que, juntas, constituíram a maior batalha naval da Segunda Guerra Mundial.

Um desses porta-aviões de escolta tinha sido afundado por uma nova e devastadora arma japonesa - o Kamikaze. Recebendo este nome em homenagem ao "Vento Divino" que, segundo se dizia, salvara o Japão de uma invasão mongol, os kamikazes eram aviadores-suicidas cujo único objetivo era causar o maior dano possível, lançando-se diretamente contra as belonaves inimigas, especialmente os poderosos mas vulneráveis porta-aviões. Os kamikazes eram símbolo do código do guerreiro do Japão e, também, a medida do desespero militar em que se encontrava nesse estágio da guerra. Mas, para os marinheiros aliados, eles eram, por assim dizer, a negra sombra da morte. Apressadamente organizados em unidades de ataques especiais no começo dos desembarques no golfo de Leyte, os kamikazes apareceram em ação pela primeira vez a 21 de outubro, contra o HMAS Austrália. Quatro dias depois, eles atacaram o grupo de porta-aviões de escolta da FT 1, quando estes ajudavam Sprague a repelir as belonaves de Kurita ao largo de Samar. Durante uma série de ataques, o porta-aviões Saint Lo foi afundado e cinco outros foram danificados. Estas foram as primeiras intervenções das "bombas humanas", que se tornariam comuns durante o restante da campanha das Filipinas e, especialmente, ao largo de Okinawa.

A decisão dos japoneses de lutar com o maior vigor possível pela ilha de Leyte foi tomada tarde demais para que as três divisões de reforço chegassem ali antes que os americanos atacassem e tomassem as bases aéreas em Dulag e Tacloban; uma vez mais, o exército japonês cometeria o erro de enviar muito pouco e tarde demais. Contudo, Yamashita e Suzuki esforçaram-se furiosamente por compensar essa deficiência. Aviões japoneses atacavam as cabeças-de-praia regularmente, enquanto que a chuva intensa e a natureza do terreno, muito fofo, atrapalharam bastante a construção da pista de pouso pelos americanos. Tão sérios eram os ataques aéreos que a frota de Halsey continuou dando apoio até 25 de novembro, apesar dos freqüentes ataques kamikazes. Além disso, a 9 de novembro, os japoneses conseguiram desembarcar duas divisões em Leyte, seguidas de mais reforços, enviados posteriormente, de modo que, no começo de dezembro, os defensores totalizavam 60.000 soldados. Já então, porém, os americanos tinham conseguido virtual superioridade aérea e a ameaça naval japonesa nas Filipinas fora totalmente eliminada e Krueger tinha mais de 183.000 homens em Leyte. Apesar disso, o ataque de duas pontas, feito pelo 10o e 24o Corpos, foi detido por feroz resistência japonesa, obrigando os americanos a desembarcar a 77a Divisão de Infantaria perto de Ormoc, para dividir a defesa em duas. Diante disso, os japoneses abandonaram a tentativa de resistir em Leyte com tudo o que tinham e os remanescentes do 35o Exército, de Suzuki, carecendo de suprimentos e reforços, pelas proximidades do Dia de Natal foram eliminados.

Enquanto Yamashita voltava à estratégia original, de concentrar seus efetivos para a batalha por Luzon, MacArthur também estava de olho naquela ilha. Mas ele decidiu tomar Mindoro primeiro, que daria bases aéreas para a 5a Força Aérea dos Estados Unidos, muito embora tal operação tivesse lugar ao alcance dos esquadrões aéreos inimigos ainda ativos e que estavam baseados ao redor de Manilha. O cálculo deu resultado. A 15 de dezembro, a guarnição de Mindoro, de cerca de 100 japoneses foi vencida por uma força de desembarque de 18.000 americanos; e, embora os invasores fossem submetidos a freqüentes ataques de kamikazes, a bombardeio de cruzadores e destróieres, e até a um furacão, o processo de reabilitação dos aeródromos não sofreu interrupção prolongada.

A 9 de janeiro de 1945, Kinkaid conduziu uma grande força anfíbia - na 7a Frota estavam seis couraçados e 17 porta-aviões de escolta - para o golfo de Lingayen, onde quase três anos antes os próprios japoneses haviam realizado a principal invasão de Luzon. Ao largo, os porta-aviões da 3a Frota, de Halsey, davam apoio constante, para repelir os kamikazes, que afundaram e avariaram muitos navios de Kinkaid e obrigou até mesmo as suas poderosas forças a se reorganizarem para defesa antiaérea mais cerrada. Após cobrir esses desembarques preliminares, os grupos de porta-aviões velozes penetraram no Mar da China e atacaram navios e extensa área de instalações portuárias dominada pelos nipônicos. Esta operação, envolvendo toda a Indochina, a costa da China Meridional, Hong-Kong, Formosa e Okinawa, demonstrou que o Japão estava virtualmente isolado do seu império sul e mostrou o quanto essa arma se tornara poderosa.

A força de desembarque do golfo de Lingayen, de quatro divisões, sob o 6o Exército, de Krueger, logo aumentou para seis, que avançaram gradualmente para o sul, na direção de Manilha, embora enfrentassem feroz oposição japonesa. Para rompê-la, MacArthur mandou desembarcar outra divisão perto da baía de Subic, a 29 de janeiro, para impedir a retirada do inimigo para a península de Bataã; dois dias depois a 11a Divisão Aeroterrestre foi desembarcada em Nasugbu, para avançar sobre Manilha pelo sudoeste. Já então, as defesas japonesas estavam entrando em colapso e a 3 de fevereiro a 1a Divisão de Cavalaria chegou aos arredores de Manilha, no momento em que as tropas de Yamashita recuavam para as montanhas Cabusilan. Apesar disso, um destacamento naval de 16.000 homens, sob o Contra-Almirante Iwabachi, que tinha ordem para que se dirigisse para uma cidade aberta, resolveu lutar por ela. Houve uma luta de casa em casa até 4 de março, quando a maior parte da cidade e a força de Iwabachi haviam sido eliminadas. No mês anterior, realizaram-se operações para tomar o sul de Bataã, enquanto que Corregidor foi atacada por um grupo aeroterrestre/anfíbio que só eliminou 4.500 dos seus defensores após 10 dias de luta feroz; a 15 de março, Manilha foi aberta à navegação e preparou-se novo avanço pelo Pacífico. Embora, nesse estágio, ainda houvesse muito trabalho de limpeza a ser feito, especialmente nas regiões montanhosas de Luzon e na região de Mindanao-Visayas, os Estados Unidos detinham o controle estratégico das Filipinas e MacArthur dava por cumprida a promessa que fez em 1942. Quanto ao Japão, o fim aproximava-se rapidamente, após a perda daquele grupo de ilhas e da maior parte da marinha imperial.


Imphal

Em 1943, as forças britânicas não conseguiram, nas fronteiras Índia/Birmânia, imitar os feitos americanos na guerra contra o Japão por muitas razões - as dificuldades administrativas e logísticas crônicas, problemas políticos internos, a escassez de navios, a falta de unidade de pontos de vista dos Aliados sobre os objetivos e, principalmente, o fato de esse teatro de operações haver sido colocado no fim da lista de prioridades; ele recebera quantidades totalmente inadequadas de aviões, de soldados treinados, de porta-aviões e barcaças de desembarque. Em fins de 1943, porém, este quadro sombrio começava a mudar. As distribuições aumentavam gradualmente. Havia nova estrutura de comando do Sudeste Asiático, criado sob o Almirante Mountbatten, com o General americano Stilwell como Subcomandante "Supremo" e o Almirante Somerville, General Giffard e o Marechal-do-Ar Peirse no comando das armas a que pertenciam as forças britânico/indianas. Finalmente, os Aliados haviam concordado em que o objetivo de Mountbatten deveria ser a libertação do norte da Birmânia, que abriria a estrada para a China e formaria o primeiro estágio na reconquista do Sudeste Asiático. Como as forças navais eram pequenas, esta campanha, e mesmo os movimentos preliminares pela península de Arakan, seria quase que totalmente terrestre. Ela seria realizada sob a direção-geral de Giffard, pelo 14o Exército de Slim, que tinha o 15o Corpo, de três divisões, no Arakan e o 4o Corpo, de três divisões, na Frente Central, além do controle operacional sobre as divisões chinesas na Frente Norte.

Também as forças japonesas posicionadas na Birmânia estavam por essa época planejando uma ofensiva. O Tenente-General Mutaguchi, comandante do 15o Exército, cujas quatro divisões, uma das quais, indiana, meio fraca, defendiam a Frente Central, diante do 4o Corpo, estava cada vez mais preocupado com o aumento dos efetivos de Mountbatten e, de certo modo, a primeira expedição dos Chindits, sob o comando de Wingate, mostrara que o rio Chindwin não podia ser considerado uma linha de defesa segura. Mutaguchi, encorajado pelos seus superiores, o General Kawabe (Exército de Área da Birmânia) e Marechal Terauchi (Exército Sul), esperava deter o avanço aliado, na estação seca de 1940, tomando a planície de Imphal e, assim, controlando os desfiladeiros do Assam. Esta campanha seria igualmente precedida por ataques limitados no Arakan e na Frente Norte. Então, a 15 de março de 1944, a 33a Divisão de Infantaria avançaria sobre Imphal, partindo do sul; uma semana depois, a 15a e 31a Divisões iniciariam o ataque principal sobre o Chindwin, com a primeira participando da tomada de Imphal, enquanto a segunda ocuparia Kohima, no norte, para impedir uma contra-ofensiva aliada a partir do Assam. A rapidez era essencial, não só para evitar as chuvas da monção de maio, como também porque as tropas japonesas, como de hábito, levavam poucas provisões e, portanto, se defrontariam com a fome se os britânicos se entrincheirassem, não lhe permitindo uma vitória imediata. Mutaguchi também estava cônscio de que o Exército de Área da Birmânia só dispunha de 200 aviões para enfrentar os 850 aparelhos aliados.

As operações limitadas que ambos os lados planejavam no Arakan davam a Slim a oportunidade de submeter à prova sua nova tática de luta na selva. Compreendendo que era virtualmente impossível impedir infiltrações dos japoneses, devido à natureza do terreno, ele planejava estabelecer baluartes na selva para os quais as tropas britânicas recuariam, dependendo do poderio aéreo para abastecê-las, se o inimigo isolasse as estradas. À medida que reforços fossem levados, os japoneses seriam prensados entre essas tropas descansadas e os baluartes; a confusão que ocorrera na Malásia e na Birmânia em 1942 não se repetiria.

Na verdade, foi isto o que aconteceu. A 4 de fevereiro de 1944, o lento movimento do 15o Corpo, do Tenente-General Christison, da península de Arakan para Akyab, foi detido pelo 28o Exército, do Tenente-General Sakurai. A 55a Divisão de Infantaria japonesa despachou a Coluna Sakurai, de 5.000 homens, pelo vale do Kalapazin para tomar Taung Bazar, tomou o QG da 7a Divisão a 6 de fevereiro e bloqueou o desfiladeiro de Ngakyedauk no dia seguinte. Ao sul, a Coluna Doi avançou de Letwedet. Houve uma batalha decisiva em torno da região de Sinzweya, onde os britânicos tiveram de resistir até serem reforçados; quando isso ocorreu, duas semanas depois, as forças japonesas começaram a desmoronar, devido à falta de alimento e munição. A 24 de fevereiro, a chamada "Operação Ha-Go" foi abandonada. A tática de Slim passara na prova. Durante os dois meses seguintes, as forças britânicas que lutavam no Arakan concentraram-se na expansão das suas posições ao longo da linha Buthidaung-Maungdaw, de modo a estarem prontas para avançar após o período da monção, que começou em meados de maio e obrigou ambos os lados a cessar combate imediatamente.

Enquanto ocorriam estes avanços no Arakan, os Chindits iniciaram sua segunda grande ofensiva contra posições japonesas na Birmânia. Estas tropas de longa penetração na selva, que tanto estimularam o moral dos Aliados em seu primeiro ataque, haviam aumentado muito após a "Conferência de Quebec", na qual seu comandante, Orde Wingate, conseguiu captar a confiança de Churchill e dos Chefes de Estado-Maior Combinados com seus grandes planos. Os Chindits contavam então com seis brigadas e possuíam sua própria unidade aérea, sendo também esperado que seus ataques ajudassem a campanha principal a recuperar o norte da Birmânia. Mas, nessa época, Wingate já estava desenvolvendo a tática de montagem de baluartes em locais selecionados da selva, que seriam abastecidos pelo ar e defendidos contra todos os possíveis ataques japoneses; os Chindits seriam a ponta-de-lança, e não forças periféricas, do avanço aliado, e assumiriam muitos dos encargos atribuídos aos soldados regulares, em vez de atuarem como guerrilheiros levemente armados.

A primeira parte dessa operação correu bem, com uma força de 9.000 homens levada de, avião para estabelecer um baluarte perto de Indaw por volta de 13 de março de 1944, enquanto que uma coluna Chindit marchava da Frente Norte para o sul, para reforçá-la. Contudo, eles não conseguiram operar uma força de Spitfires daquela base e o inimigo logo reuniu tropas para neutralizar suas atividades. A 24 de março, Wingate morreu num desastre aéreo e o Brigadeiro Lentaigne assumiu o comando do grupamento; mas todas as tentativas de atacar Indaw foram violentamente repelidas e os territórios ocupados pelos Chindits, por sua vez, foram pressionados. Finalmente, os Chindits deslocaram-se para o norte, a fim de ajudar as operações que se desenvolviam na frente de Stilwell, embora "Vinegar Joe" os considerasse, no começo, apenas um transtorno.

Esta segunda e última operação dos Chindits despertou muita crítica sobre a maneira como foi dirigida: eles não afetaram a campanha principal de Imphal como se esperava, seus baluartes na selva foram montados em locais mal escolhidos, seus esforços eram desorganizados e eles haviam sacrificado sua flexibilidade e mobilidade iniciais tentando atacar alvos fixos. Slim e muitos outros achavam que somente o exército regular poderia derrotar os japoneses na Birmânia e que as muitas tropas especializadas e aviões que os Chindits precisavam poderiam ter sido melhor usadas em Imphal. Os Chindits certamente não conseguiram produzir o que deles se esperava, embora, neste caso, não fossem usados com muita inteligência. A própria personalidade de Wingate dava margem a críticas e a elogios. Por outro lado, poder-se-ia afirmar que as atividades da sua força muito contribuíram para provocar o avanço japonês sobre Imphal e para ajudar no desenvolvimento das técnicas da guerra e do abastecimento aéreo na selva; os Chindits também destruíram parte do suprimento inimigo destinado a Imphal e à Birmânia. Mas eles provavelmente teriam sido mais úteis se lançados paralelamente ao avanço britânico.

Pelo final de fevereiro, a situação na crítica Frente Central era a seguinte: o 4o Corpo, do Tenente-General Scoones, abandonara o avanço gradual que fazia e tomara posições defensivas, aguardando uma ofensiva inimiga. A 33a Divisão japonesa já estava pressionando a 17a Divisão indiana na área de Fort White, e Scoones insistia na retirada de todos os soldados administrativos e de construção, para que não fossem isolados da forte posição que ele estava organizando em torno de Imphal. Mas os japoneses moveram-se mais depressa do que se esperava e a 11 de março duas grandes colunas da 33a Divisão haviam evitado Tiddim e bloqueado a estrada para Imphal. A 17a Divisão, embora avançando lentamente para o norte, foi isolada e Scoones viu-se obrigado a enviar suas duas únicas brigadas de infantaria de reserva para o sul, para ajudá-la. Além disso, mais ao norte, a principal ofensiva inimiga começara e as divisões japonesas haviam atravessado o Chindwin. As coisas não estavam, como se vê, correndo bem para os britânicos.

Nos dias seguintes, a pressão japonesa aumentou sistematicamente por todos os lados. Tamu foi evacuada pela 20a Divisão indiana a 21 de março. A noroeste de Imphal, a guarnição de Ukhrul foi expulsa daquela cidade e obrigada a recuar para Sangshak. Ali, a 50 (P) Brigada resistiu valentemente por cinco dias, mas foi obrigada a novo recuo. Contudo, sua resistência fora preciosa. Concluindo, desta situação e da notícia do avanço inimigo sobre Kohima, que uma ofensiva em grande escala estava ocorrendo, Mountbatten, Giffard e Slim logo organizaram contramedidas. A 5a Divisão indiana (que acabara de voltar do Arakan) foi levada de avião para Imphal e organizada para enfrentar a ameaça do norte e do leste; outras unidades, na Índia, também foram alertadas e obteve-se empréstimo de aviões-transportes da Ponte Aérea para a China, medida de emergência solicitada por Mountbatten, para a qual só mais tarde se obteve a permissão dos Chefes de Estado-Maior Combinados. O QG do 33o Corpo, do Tenente-General Stopford, foi transferido para Comilla, a fim de poder controlar a ação que visava a reabrir a linha até a planície de Imphal, caso fosse cortada.

Mais ao sul, os britânicos estavam recuando lentamente para Imphal, com a 20a Divisão estendida até Moreh, enquanto que a 17a Divisão ainda permanecia isolada na estrada Imphal-Tiddim. A 23 de março, porém, um depósito de suprimento japonês, mantido naquela estrada, foi tomado e três dias depois estabeleceu-se contato com as brigadas enviadas de Imphal para o sul; apesar da violenta luta aberta ao redor de Tuitim, a tentativa de cercar a 17a Divisão falhara e o Tenente-General Yanagida (33a Divisão de Infantaria japonesa) recomendou que se abandonasse toda a operação, sugestão que levou Mutaguchi a demiti-lo.

Mas a ação decisiva estava ocorrendo no norte, onde a estrada Kohima-Imphal foi cortada em Maram, a 29 de março, e os japoneses se aproximavam da cidade de Kohima. Esta notícia provocou novo remanejamento das reservas britânicas, com o QG do 33o Corpo sendo deslocado para Johrat, no Assam, e a 2a Divisão britânica e parte da 7a Divisão indiana sendo mandadas também para lá. Apesar dos agourentos avanços inimigos no norte, os britânicos haviam realizado a primeira parte do seu plano, a retirada para Imphal; a 5a, a 17a, a 20a e a 23a Divisões indianas, além de unidades menores, estavam agora defendendo aquela área e dependendo cada vez mais de abastecimento aéreo. A batalha começava a ser de atrito, fato que estimulou os japoneses a envidar esforços ainda maiores. A 1o de abril, Jessami foi abandonada pelos britânicos e Kohima, com sua pequena guarnição de 1.500 soldados regulares, sob o Coronel Richards, preparou-se para se defender.

Na verdade, grande parte da batalha dependia do destino daquela pequena cidade, situada no topo do único desfiladeiro rodoviário entre Imphal e o Assam, pois os comandantes britânicos decidiram que era preciso defendê-la para permitir um contra-ataque, a partir de Dimapur, pelo 33o Corpo. Felizmente para eles, o General Kawabe acabara de negar a Mutaguchi permissão para enviar uma força a fim de tomar Dimapur, o que teria realmente eliminado qualquer possibilidade de volta. Na noite de 4 de abril o ataque a Kohima começou realmente. As várias colinas situadas ao redor da cidade eram de grande importância estratégica, por dominar a estrada tortuosa e o terreno circunjacente, e a rápida tomada das colinas Jail e GPT, no sul, e da área da aldeia Naga, no leste, dava-lhes uma posição vantajosa. Dali, eles isolaram a guarnição da cidade da 161a Brigada, que Stopford enviara às pressas de Dimapur; e o pior é que, bloqueando a estrada em Zubza, os japoneses separaram a 161a Brigada do 33o Corpo.

A 10 de abril, conhecendo os efetivos e as posições do inimigo, Slim ordenou uma ofensiva geral. A 15a e a 33a Divisões japonesas deveriam ser repelidas da planície de Imphal, enquanto que a 31a Divisão seria fortemente apertada entre as forças que avançavam de Imphal para o norte e as colunas de Stopford. Em primeiro lugar, Kohima tinha de ser garantida e a 5a Brigada foi enviada de Dimapur para o sul, rompendo o obstáculo japonês e entrando em contato com a 161a Brigada em Jotsoma. Temendo este movimento, a 31a Divisão japonesa redobrou esforços contra a guarnição de Kohima, que estava praticamente sem munição e sem água e, pelo dia 18, defendia apenas a chamada Colina da Guarnição. Pouco antes do que seria a luta final, porém, a 161a Brigada conseguiu passar e suspendeu o cerco. Enviando Richards e seus soldados de volta a Dimapur, para bem merecido descanso, o Major-General Glover (2a Divisão britânica) preparava-se para expulsar também a 31a Divisão das colinas circunjacentes.

Também na planície central houve luta em grande escala, quando a 5a e 23a Divisões contra-atacaram para o norte, a fim de tomar Ukhrul e desobstruir a estrada para Kohima. Isto envolvia uma grande luta pela dominante colina Ningshigun, que os britânicos perderam e recuperaram por duas vezes, entre 7 e 13 de abril. Apesar do ataque que fizeram contra Sengmai, os japoneses foram obrigados a passar para a defensiva assim que a pressão britânica aumentou. Acontecimentos semelhantes ocorreram mais ao sul, onde a 20a Divisão lutava com o inimigo pelo controle do desfiladeiro de Shenam, enquanto que a 17a Divisão repelia movimentos de flanco feitos em torno de Bishenpur. A 21 de abril, portanto, a ofensiva de Mutaguchi estava parada por toda parte. A captura fortuita de uma ordem sua que determinava que a 31a Divisão japonesa enviasse um grupo regimental de Kohima para atacar Imphal, pelo norte, levou Stopford a aumentar a pressão no campo de batalha por aquele setor, para impedir que isto acontecesse. E durante todo esse tempo o 4o e o 33o Corpos estavam aumentando seus efetivos para o contra-ataque.

A primeira necessidade era reabrir a estrada para Imphal o mais depressa possível, pois a Ponte Aérea para a China precisava dos seus transportes e, de qualquer modo, a posição logística estava causando apreensão; havia cerca de 120.000 homens a serem abastecidos em Imphal, mesmo depois que os 35.000 soldados feridos e não combatentes foram evacuados. Assim, a 2a Divisão renovou seus ataques contra as posições inimigas em torno de Kohima a 11 de maio e, após quatro dias de violenta luta, ela ficou pronta para avançar para o sul. Ao mesmo tempo, a 17a Divisão executou um plano para destruir a 33a Divisão em torno de Bishenpur. Seguindo o exemplo do inimigo, a 48a Brigada conseguiu bloquear a estrada de Tiddim, em Torbung, separando assim a maior parte da 33a Divisão de seus suprimentos e do seu comandante divisional. Embora os japoneses respondessem isolando Bishenpur de Imphal, a 21 de maio, este obstáculo foi rompido alguns dias depois, ao passo que o obstáculo de Torbung resistiu até o dia 25, quando a 48a Brigada se reuniu à sua divisão, na suposição de que o inimigo estivesse avançando para o norte, sobre Imphal. Se este obstáculo tivesse sido mantido, a 33a Divisão teria sido completamente destruída.

Na região de Kohima, a recém-chegada 7a Divisão estava desobstruindo a área da aldeia de Naga e deslocando uma brigada para Jessami, enquanto que a 2a Divisão britânica encontrava forte oposição ao avançar lentamente para Mao. O comandante da 31a Divisão japonesa, Tenente-General Sato, compreendendo que sua força corria o perigo de ser destruída, começou a recuar, em fins de maio - ação que Mutaguchi só permitiu porque planejava usá-la contra Imphal. Mesmo nesse estágio, embora muitos dos seus comandantes de campanha e alguns superiores seus duvidassem da vitória, Mutaguchi ainda estava decidido a prosseguir.

Em contraste, Slim tinha pleno apoio de todos os setores britânicos, que o consideravam, acertadamente, um dos mais brilhantes generais aliados da guerra. Tendo resistido aos ataques japoneses do sul, sua estratégia, agora, era envolver o inimigo num movimento de pinças em Ukhrul, entre o 33o Corpo, que se dirigia para o sul, e a 5a e 20a Divisões, que rumavam para o norte. O avanço destas foi prejudicado pelas fortes cheias de meados de junho, tornando-o lento; mas quando o 33o Corpo, finalmente, tomou Mao, a 18 de junho, a 31a Divisão, de Sato, foi destruída. Seus soldados, exaustos e famintos, muitos deles tendo deitado fora suas armas, estavam em franca retirada e ele próprio se recusou peremptoriamente a acatar a ordem de Mutaguchi de atacar Imphal. Na manhã de 22, a guarda avançada do 33o Corpo encontrou-se com uma patrulha da 5a Divisão logo ao sul de Kangpkpi - a estrada do Assam para Imphal foi reaberta e os primeiros comboios chegaram lá à noite. Os dois comandantes-de-corpo, Scoones e Stopford, concordaram em dirigir seus esforços principais contra Ukhrul, o ponto focal das comunicações japonesas com o Chindwin, enquanto, simultaneamente, aumentavam a pressão sobre o inimigo ao sul e leste de Imphal, onde acreditavam que este faria a última tentativa de vencer. Os japoneses lutaram ferozmente para manter Ukhrul, a fim de que suas tropas pudessem recuar para a Birmânia, mas a 8 de julho os britânicos haviam tomado a cidade. Não se fez nenhuma perseguição pelo malárico vale do Kabaw, porque não havia nenhuma força importante a ser hostilizada; os destroçados remanescentes da 31a e parte da 15a Divisões japonesas estavam todos espalhados e não houve necessidade de muito trabalho de limpeza.

Entrementes, as forças britânicas haviam sido reorganizadas para a tarefa final nas frentes leste e sul. Sua preponderância era agora esmagadora, com o 33o Corpo (2a Divisão britânica, 7a, 20a e 23a Divisões indianas e 23a Brigada de Penetração de Longo Alcance) cuidando da antiga área e o 4o Corpo (5a e 17a Divisões indianas e mais duas brigadas), cuidando da segunda. Esta ofensiva, de duas pontas, iniciou-se em meados de julho, esbarrando em reduzida oposição inimiga, pois já a 9 daquele mês o 15o Exército - ou o que restava dele - recebera ordens para retirar-se. A perseguição dos britânicos, até o Chindwin, não fora veloz, pois a monção começara e muitas mudanças e transferências também ocorreram nessa época; de qualquer modo, como acontecera em Ukhrul, não havia mais forças importantes que merecessem perseguição. O inimigo fora decisivamente vencido e eliminado da planície de Imphal e o 14° Exército estava pronto para começar a reconquista da Birmânia tão logo terminasse a estação chuvosa.

A chamada "marcha para Déli" terminara desastrosamente para os japoneses. Dos 86.000 soldados que eles haviam empregado nessa operação, mais de 53.000 s perderam - e, dos que sobreviveram, poucos estavam capacitados para combate. Os 7.000 soldados do Exército Nacional Indiano muito pouco contribuíram para a luta. Mutaguchi, que provavelmente batera o recorde ao substituir todos os seus três comandantes divisionais durante a campanha, acabou também demitido, pouco depois da retirada.

A vitória britânica foi sem dúvida decisiva porque, além de destruir um exército completo, eliminara o domínio japonês sobre a Birmânia e enfraquecera o controle que este exercia no resto do Sudeste Asiático. A julgar pela aparência, esta vitória, com as baixas britânicas totalizando apenas 16.700 homens, era previsível. Eles empregaram quatro divisões em Imphal, duas em Kohima e muitas unidades menores; eles tinham o controle do ar, sem o qual se perde em qualquer campo de batalha moderno; eles tinham um bom sistema de abastecimento e ótimos comandantes. Os japoneses, com pouco apoio aéreo e um sistema de abastecimento meio precário, tinham apenas as três divisões e mais a inútil INA. Em vista das campanhas anteriores, na Malásia, Birmânia e Arakan, porém, esta vitória não era tão previsível; os japoneses estavam acostumados a combater numericamente em desvantagem e a manter-se com linhas de abastecimento mínimas. Nas críticas primeiras semanas da campanha os dois contendores duelaram em igualdade de condições do ponto de vista de volume de tropas.

Alguns acontecimentos sobressaem, particularmente a defesa de Kohima pela pequena guarnição de Richards, mas a vitória em Imphal se reveste de importância toda especial, por justificar os prolongados preparativos feitos pelos britânicos a partir de 1942, e ainda mais quando nos lembramos até que ponto aquele teatro de operações sofreu as carências de homens e materiais essenciais por tempo tão longo. Sem o sensível melhoramento introduzido no sistema de abastecimento da Índia, sem a concentração do poderio aéreo aliado e sua cuidadosa aplicação, e sem o completo retreinamento e reorganização das forças britânicas na Índia, é difícil ver como se poderia ter alcançado vitória tão decisiva.

Enquanto se realizava a campanha de Imphal, na Frente Central, os japoneses também sofriam derrotas na Frente Norte. Ali, as duas divisões do 33o Exército, do Tenente-General Honda, estavam tentando defender sua posição diante dos avanços das divisões chinesas comandadas por Stilwell e das tropas americanas do Comando de Área de Combate Norte. O general americano enfrentava a tarefa quase impossível de ocupar simultaneamente os postos de Chefe de Estado-Maior de Chiang Kai-shek, Subcomandante Supremo do Comando do Sudeste Asiático, e comandante das forças chinesas que se retiraram para a Frente Norte em 1942; mas o vigor e energia com que comandava eram tão grandes, que os japoneses não podiam supor que isto prejudicasse suas atividades. Tendo retreinado a 22a, a 30a e a 38a Divisões chinesas, e conseguido o apoio de uma unidade de tanques chinesa e de um Grupo de Penetração de Longo Alcance americano, conhecido como os Incursores de Merrill, Stilwell planejava ocupar inclusive Mogaung e Myitkyina, no sul, até o começo da estação chuvosa. A princípio, tudo correu conforme os planos, com as divisões regulares e os Incursores combinando-se para obrigar a 18a Divisão japonesa a recuar, mediante ataques frontais e de flanco. A 1o de fevereiro de 1944 as forças aliadas tomaram Taihpa Ga; a 7 de março, Walawbum; a 29 de março, Shaduzup.

Já então, porém, os Incursores estavam à beira da exaustão, tendo passado meses nas selvas e sofrido pesadas baixas na operação de conquista de Shaduzup. Stilwell também enfrentava grandes problemas com os chineses, em parte como resultado das suas relações com Chiang Kai-shek, e, embora mais duas divisões chinesas fossem levadas de avião para o Assam, ele não conseguiu convencer os exércitos de Yunnan a lançar qualquer ofensiva coordenada. Somente quando o General Marshall ameaçou suspender a ajuda americana à China é que esta se realizou - mas muito lentamente, sobretudo depois da grande ofensiva japonesa na China Central, naquele verão, acontecimento que, por si só, somou aos problemas de Stilwell a obrigação de também defender as bases da força aérea ali existentes.

Mas nada disso impediu o avanço sobre a Frente Norte, embora diminuísse claramente a sua rapidez. Em meados de maio, Stilwell já estava recebendo ajuda dos Chindits, embora estes estivessem um tanto maltratados pelos muitos embates com o inimigo e tivessem atraído a recém-chegada 53a Divisão de Infantaria japonesa em sua perseguição. Este novo fator significava que Stilwell não poderia cumprir plenamente o plano que concebera. Sua força principal chegou à região de Kamaing em meados de maio, enquanto que uma arremetida arrojada vencia Sumprabum e a área de Rotpong-Nsopzup. Até mesmo o aeródromo de Myitkyina caiu em mãos aliadas a 17 de maio, mas, apesar dos ferozes repetidos ataques dirigidos contra a cidade, ela não pôde ser capturada. Entretanto, como a estação chuvosa começasse a atrapalhar toda a luta, Stilwell consolou-se com a tomada de Mogaung, a 26 de junho, e com o pensamento de que na Frente Norte, bem como nas outras duas, as forças aliadas estavam prontas e ávidas por reiniciar a ofensiva tão logo chegasse a estação mais seca. Na verdade, Myitkyina cairia antes disso. A batalha pela Birmânia propriamente dita estava prestes a começar.


Birmânia e China

Depois de terem golpeado fortemente os japoneses na Birmânia, os Aliados mostraram-se ansiosos por dar-lhe continuidade o mais rápido e decisivamente possível. Portanto, a 3 de junho de 1944, os Chefes de Estado-Maior Combinados instruíram Mountbatten para que ampliasse a ligação aérea com a China e explorasse o desenvolvimento de uma rota terrestre com as forças já destacadas. Embora a reconquista da Birmânia não fosse mencionada especificamente, ela era esperada e com este objetivo dois planos alternativos foram preparados: o "Capital", uma expansão feita por terra para retomar o norte da Birmânia, e o "Drácula", um ataque anfíbio, bem mais arrojado que o outro, para tomar o sul da Birmânia. Devido à escassez dos barcos necessários para a segunda operação, e aos desejos dos americanos e de Slim, sempre se deu mais ênfase à operação baseada em terra. Mesmo assim, problemas logísticos e de comunicações seriam realmente muito grandes. Construíam-se estradas para ajudar o avanço, planejou-se um chamado sistema de Transporte Fluvial Interno e os movimentos pelo Arakan seriam abastecidos principalmente por terra e mar; entretanto, o exército de Slim nunca escaparia à dependência básica do abastecimento aéreo que podia ser uma fonte de força ou de fraqueza.

Em fins de 1944 houve muita reorganização no Comando do Sudeste Asiático. As unidades da "Força Especial" foram dispersadas, as muitas Agências de Inteligência britânicas e americanas foram coordenadas e o importantíssimo sistema de abastecimento aéreo foi reunido num QG integrado, chamado Força-Tarefa de Carga de Combate. Quando Stilwell deixou a China, em outubro de 1944, Mountbatten pôde finalmente reorganizar a estrutura de comando superior; o Major-General Wedemeyer assumiu o posto de Chefe do Estado-Maior de Chiang, o Tenente-General Sultan substituiu Stilwell na Frente Norte e o General Wheeler foi a Subcomandante Supremo. Do lado britânico, o General Leese substituiu Giffard como Comandante-Chefe das Forças de Terra Aliadas no Sudeste Asiático, supervisionando a Frente Norte e as duas outras frentes na Birmânia.

Os japoneses, por sua vez, também se reorganizavam às pressas, mas não dispunham de muita coisa para o Exército de Área da Birmânia, agora comandado pelo General Kimura, devido ao fato de a ameaça dos americanos às Filipinas haver-se avolumado. No norte, as três divisões de Honda tinham pela frente uma divisão britânica e cinco chinesas, sob Sultan, mais os normalmente inativos exércitos chineses do Yunnan; no Arakan, as duas divisões de Sakurai enfrentavam pelo menos o dobro do número de soldados que somavam; e, na Frente Central, as quatro divisões do recém-nomeado Katamura, muito aquém dos seus efetivos e seriamente maltratadas pela derrota de Imphal, enfrentavam oito divisões britânico-indianas. Além disso, Slim tinha um número muito maior de efetivos em cada unidade, podia recorrer a melhor apoio blindado e de artilharia e tinha o comando do ar. Em vista disso, os japoneses aceitavam que poderiam ter de ceder o norte da Birmânia, mas esperavam conservar o controle de Mandalay e de Yanangyaung.

Como na campanha anteriormente efetuada, o ataque principal foi precedido de ações nas frentes de Arakan e Norte, onde as forças aliadas conquistaram todos os seus objetivos. Em meados de dezembro de 1944, as divisões de Christison iniciaram seu avanço pela costa do Arakan abaixo, na direção de Akyab, que era desejo seu conquistar por causa dos importantes aeródromos que ali havia. Contudo, os japoneses já tinham decidido retirar o 28o Exército, de Sakurai, e a 4 de janeiro de 1945 encontrou-se Akyab abandonada. O 15o Corpo então tomou a ilha de Ramree, mais ao sul, também sem dificuldades, pois o inimigo estava mais interessado em impedir uma penetração aliada do Arakan para a Birmânia central e concentrara suas tropas em torno dos vitais desfiladeiros que conduzem da costa para o interior. Esta estratégia foi executada com grande êxito, tendo as forças japonesas, muito menores, mantido as divisões de Christison em xeque por vários meses e, até, enviado reforços para a Birmânia central, quando a batalha principal ali travada se tornou crítica. Somente em fins de abril é que o 28o Exército se retirou do Arakan, para não ser isolado pela retaguarda; já então, porém, o 15o Corpo planejava a "Operação Drácula" e esta área perdera grande parte da importância que lhe vinham atribuindo.

Na Frente Norte, as esperanças de Stilwell, de uma ofensiva rápida, haviam sido afetadas por vários fatores. Ele teve dificuldades em lidar com o comandante dos Chindits, Lentaigne, e ficou aliviado quando essas forças especiais foram substituídas pela 36a Divisão britânica. Duas das suas cinco divisões chinesas eram inúteis e somente devido à ansiedade do lado japonês é que Myitkyina foi abandonada para os Aliados em agosto de 1944. A 56a Divisão de Infantaria japonesa pôde rechaçar doze divisões chinesas na luta no Yunnan. Além disso, a grande ofensiva japonesa na China chegara a Kweiling, provocando diretamente o choque entre Chiang Kai-shek e Stilwell e a substituição deste. Como resultado desse avanço, decidiu-se pelo retorno das divisões chinesas de Sultan e pela devolução de alguns esquadrões de transporte aéreo, para ajudar na defesa de Chungking - decisão que alarmou os britânicos, pelo menos quanto à perda dos esquadrões.

Apesar da deterioração da situação na China, ou talvez por isso mesmo, as forças de Sultan agiram com muita rapidez, em fins de 1944. A 36a Divisão britânica tomou Indaw, para unir-se às forças principais de Slim, enquanto que a 22a e a 38a Divisões chinesas tomavam Shwegu e Bhamo; mais a leste, os exércitos de Yunnan ocupavam Lungling e Chefang, parando a seguir. O 33o Exército, de Honda, em grande inferioridade numérica por todos os lados e cada vez mais preocupado com a possibilidade de ficar isolado, só podia recuar. Ao abandonar Namkhan e Wanting, em meados de janeiro de 1945, permitiu o 33° que as duas forças chinesas se encontrassem; a estrada da Birmânia foi reaberta e os japoneses estavam recuando para Lashio, no sul. Com isso, os exércitos de Yunnan voltaram prontamente para a China, deixando as forças de Sultan envolvidas em luta muito viva por Mongmit, que a 36a Divisão britânica veio a tomar a 7 de março, no dia seguinte à queda de Lashio. Com as tropas de Honda recuando para Mandalay, os britânicos ficaram mais complacentes quanto ao retorno das divisões chinesas para casa, pois a principal preocupação de Mountbatten era conseguir a promessa de que os aviões-transportes americanos também não seriam retirados antes de 1o de junho de 1945 ou, pelo menos, antes da queda de Rangum. Após tomar Mongmit, a 36a Divisão britânica deslocou-se para o sul e passou ao comando do 14o Exército, em abril. Toda a área da estrada da Birmânia, de Mandalay à China, estava então desimpedida e a tarefa do Comando da Área de Combate Norte estava cumprida.

A principal razão da retirada dos japoneses do norte da Birmânia era a situação crítica da área em que Slim iniciara sua ofensiva, mais ao sul. Mesmo durante o período da monção, após as batalhas de Imphal, o 33o Corpo continuara avançando para tomar Fort White e Kalemyo, enquanto o 4o Corpo avançara para leste, a fim de entrar em contato com as tropas de Sultan em Banmauk, sendo ambos seguidos de grupamentos de sapadores, que logo construíam estradas de características bem razoáveis. A pouca vontade revelada pelos japoneses em se envolverem em combates violentos nesses meses convenceu Slim de que não se concretizariam suas esperanças de esmagar o inimigo na planície relativamente aberta de Shwebo, com seus blindados, artilharia e poderio aéreo, superiores aos do inimigo. Kimura, que assumira o virtual controle do 15o Exército, parecia inclinado a resistir com firmeza na linha do rio Irrawaddy, que era um sério obstáculo. Slim, então, decidiu-se por uma nova estratégia, segundo a qual o 33o Corpo (três divisões e duas brigadas) deveria forçar as defesas do rio a norte e oeste de Mandalay, atraindo para si a maior parte do 15o Exército, enquanto que o 4o Corpo (duas divisões e três brigadas) desceria secretamente o vale do Gangaw, atravessaria o Irrawaddy em Pakokku e atacaria na direção de Meiktila, cortando, desse modo, a conexão entre Rangum, o 15o e o 33o Exércitos. Com a pressão mantida sobre as Frentes do Arakan e do Norte, e suas posições centrais envolvidas dessa maneira, os japoneses ou seriam esmagados ou se retirariam, e o caminho para Rangum estaria aberto. Para o caso de o colapso inimigo ser mais lento do que o esperado, Slim conservou reservas para um ataque anfíbio contra aquela cidade também. As possibilidades eram promissoras, mas tudo dependia da situação logística para que tal avanço maciço fosse realizado com êxito.

No fim do ano, enquanto o 4o Corpo se preparava para sua arremetida, o avanço sistemático do 33o Corpo prosseguiu. Yeu foi tomada a 2 de janeiro, Shwebo no dia 10 e Monywa no dia 22, de modo que, à exceção das tropas que tinha em Sagaing, os japoneses estavam todos na margem leste do Irrawaddy. Além disso, a 19a Divisão indiana forçara travessias do rio ao norte de Mandalay, em Thabeikkyin e defronte a Kyaukmyaung, que estavam sendo atacadas (inutilmente) pelas esgotadas 15a e 53a Divisões, de Kimura. A 33a Divisão defendia sozinha toda a região de Pakokku-Myingyan, onde o 4o Corpo estava para iniciar seu ataque, mas a 53a Divisão de Infantaria japonesa estava sendo transferida para Meiktila.

A estratégia de Slim funcionou perfeitamente. A 10 de fevereiro de 1945, a captura de Kanhla, perto de Pakokku, foi o sinal para iniciar a fase principal da operação. No norte, a 19a Divisão tomou Singu; no dia seguinte, a 2a Divisão atacou sobre o Irrawaddy, perto de Ngazun, e a 20a Divisão estabeleceu uma cabeça-de-ponte em Myinmu que atraiu tanta oposição inimiga, que Slim tirou a 5a Divisão da reserva para dar-lhe apoio. No dia 14, bem cedo, os primeiros soldados do 4o Corpo atravessaram o rio, no sul. Enquanto a 7a Divisão consolidava rapidamente uma cabeça-de-ponte perto de Nyaungu, contra ineficaz oposição da INA, a força atacante que tinha o comando do Tenente-General Cowan avançava para tomar Taungtha no dia 24 e chegara aos arredores de Meiktila em fins do dia 28. Esta força, integrada pela 17a Divisão e uma brigada de tanques, foi isolada quando os nipônicos recapturaram Taungtha, mas, abastecida pelo ar, ela pôde avançar e ocupar Meiktila a 3 de março, após dois dias de luta renhida. Isto deixou os japoneses, já desbaratados pelos ataques ao norte e oeste de Mandalay, numa posição péssima; eles não tinham cobertura aérea, sua linha de comunicações estava sendo estrangulada e o inimigo lhe era superior em tropas, tanques e artilharia. Contudo, eles lutaram porfiadamente e a 17a Divisão, em particular, viu-se atacada por todos os lados ao tentar expandir-se da sua base, em Meiktila.

A batalha atingiu novo nível de intensidade em todas as frentes. A 8 de março, a colina de Mandalay foi tomada pela 19a Divisão, que varreu pelo norte, mas todas as tentativas de tomar o velho baluarte de Fort Dufferin fracassaram. Mais a leste, a 19a Divisão ocupou Maymyo para isolar Mandalay por aquele caminho. A oeste, a 2a e a 20a Divisões tinham saído das suas cabeças-de-ponte, a primeira desviando-se para tomar Mandalay pelo sul e a segunda partindo para ajudar a força atacante em Meiktila, em torno da qual os japoneses procuravam reunir-se para uma contra-ofensiva desesperada, obrigando Cowan a abandonar suas atividades de incursão. Para esta batalha, Kimura trouxera do sul a 49a Divisão, e, do norte, a 18a Divisão e outras forças, sendo todas colocadas sob o comando do 33o Exército, de Honda, agora totalmente retirado da Frente Norte. O 15o Exército estava defendendo Mandalay propriamente dita, e que foi tomada a 20 de março, após persistentes bombardeios. Os destroçados remanescentes da 15a Divisão recuaram para o sul, perseguidos pelas 2a e 20a Divisões, que se aproximavam de Kyaukse e Meiktila. Uma poderosa coluna blindada - chamada Barcol - da 20a Divisão foi despachada para atacar as posições inimigas em torno daquelas duas cidades, e Kyaukse também caiu a 20 de março. Outra batalha feroz ocorreu em torno da cabeça-de-ponte de Nyaungu, onde partes da 5a e da 7a Divisões rechaçavam ataques de todas as direções. Meava o mês de março e os japoneses lançavam tudo o que tinham para retomar o aeródromo de Meiktila, ponto crucial de toda a luta; às vezes, eles chegavam até a pista de pouso, mas sempre eram repelidos. Pelo final do mês, a 5a e a 20a Divisões haviam forçado caminho em direção à força de ataque de Cowan que, com a ajuda recebida, passou a avançar em direção a Pyawbwe. A tentativa dos japoneses fracassara e, com isso, o domínio que tinham sobre a Birmânia central e seus exércitos foram destruídos. Kimura perdeu, calculadamente, um terço dos seus já esgotados efetivos nessa campanha, bem como a maior parte do equipamento dos dois exércitos japoneses; e as perdas aumentavam à medida que os sobreviventes recuavam para as colinas Shan ou para o sul, na direção de Rangum.

Esta cidade estava agora aberta às forças de Slim, esperando para ser tomada - mas isto teria de ser feito rapidamente, do contrário, haveria complicações. Já era abril e a estação da monção começaria em fins de maio; além disso, os aviões-transportes americanos seriam devolvidos à Ponte Aérea para a China a 1o de junho. Rangum ficava a mais de 510 km de Meiktila e se os japoneses pudessem manter os britânicos fora de um porto no sul da Birmânia (a única maneira de compensar a perda desses aviões) até junho, todo o sistema de abastecimento do 14o Exército, já seriamente estendido, sofreria colapso e Kimura teria tempo de respirar. Slim não podia desenvolver todos os seus efetivos na arremetida para o sul devido à situação do abastecimento. Em vista dos golpes sofridos pelo inimigo, até mesmo isto provavelmente seria suficiente; mas Mountbatten não se arriscou. A 2 de abril ele deu ordens para se iniciar a "Drácula", como medida de segurança, e estipulou que essa operação, envolvendo um ataque aeroterrestre, seguido do desembarque de uma divisão de infantaria, com apoio blindado, ao sul de Rangum, teria lugar no começo de maio.

Na Birmânia central, Slim e seus comandantes-de-corpo planejavam chegar a Rangum, por terra, antes do início da "Drácula", se pudessem. Em fins de março, ele mandou que o 4o Corpo avançasse para o sul, ao longo da principal rede rodoviária, enquanto que o 33o Corpo empreenderia um avanço paralelo, descendo ao longo de ambas as margens do Irrawaddy; o primeiro dependeria dos aviões; o segundo, do sistema de transporte fluvial, para serem abastecidos. Kimura, porém, esperava impedir tais deslocamentos defendendo o vale do Irrawaddy com o 28o Exército e, depois, desvencilhando-se do Arakan, ao mesmo tempo que bloqueava o avanço do 4o Corpo com os 23o e 15o Exércitos; mas nenhuma dessas unidades estava em condições de enfrentar luta pesada e prolongada. Sua última ação importante foi em Pyawbwe, que a 17a Divisão cercou e finalmente tomou a 10 de abril, destruindo para sempre a 18a e a 53a Divisões japonesas e também o QG do 33o Exército, de Honda. Ao mesmo tempo, a 5a Divisão avançara e tomara Yamethir no dia 14, apesar da vigorosa defesa dos japoneses.

Mais a oeste, o 33o Corpo também começou a avançar. A 7a Divisão, após tomar Chauk e Yenangyaung a 21 de abril, desceu pela margem oeste do Irrawaddy, encontrando o 28o Exército, que se retirava do Arakan. A 20a Divisão, movendo-se com bastante rapidez de Meiktila, avançou para Taungdvingyi e Magwe a 19 de abril, partindo logo para capturar o principal ponto de travessia do rio, em Allanmyo, no dia 28, com várias unidades dessa divisão prosseguindo mais para o sul. A estratégia britânica, ali, visava manter o 28o Exército retido na margem oeste do Irrawaddy, onde a 7a Divisão cuidaria dele. Após a captura de Proma, a 3 de maio, este plano foi executado; os japoneses, não tendo nenhuma travessia importante sobre o rio, foram divididos em grupos de desgarrados, sem nenhum sentido de organização.

Por mais rapidamente que o 33o Corpo se movesse, ele era superado pelo ataque principal, apesar deste último ter começado tarde, e do início das primeiras chuvas da monção. Shwemyo, a travessia de Pyinmana, Toungoo, com seus aeródromos, Puy e Penwegen foram, todas, tomadas no avanço implacável do 4o Corpo, com a 17a Divisão dominando a campanha; forças japonesas, dispersas, ficaram 160 km atrás dessa arremetida. A resistência aumentou ao sul de Kadok, porém, quando eles tentavam manter abertas as ligações rodoviárias principais de Rangum com o leste. Mesmo essas linhas de defesa foram desimpedidas, e a rota oriental fechou-se em fins de abril. O local mais difícil foi Pegu, pois sua guarnição, de 5.000 homens, deteve o avanço, até então veloz, da 17a Divisão. Portanto, foi quando Pegu estava sendo lentamente tomada que o 4o Corpo soube que perdera por dois dias a chance de ser o primeiro a entrar em Rangum.

A 1o de maio iniciou-se a "Operação Drácula"; pára-quedistas desceram na ponta do Elefante, havendo desembarques anfíbios de ambos os lados do rio Rangum, protegidos por poderosas forças aéreas e navais. Não encontrando muita resistência e ouvindo boatos de que os japoneses estavam abandonando Rangum - na verdade, eles vinham saindo da cidade desde 24 de abril -, toda a força de invasão reembarcou e dirigiu-se para o norte, entrando na cidade a 2 de maio. No dia 6 de maio, bem cedo, estabeleceram-se ligações com a linha avançada do 4o Corpo, que se dirigia rapidamente de Pegu para o sul. A reconquista da Birmânia estava completa, restando apenas trabalhos de limpeza dos remanescentes dos três exércitos inimigos.

Durante toda essa campanha, as forças de terra de Slim haviam desfrutado das vantagens do domínio do ar e do mar, sem o que seria extremamente difícil dar proteção e abastecer as tropas que faziam os avanços terrestres, nem se pode dizer se seriam, ou não, possíveis os desembarques em Akyab, Ramree e Rangum. A principal razão dessa supremacia foi que o QG Imperial retirara a maior parte das forças aéreas e navais japonesas do Sudeste Asiático para enfrentar ameaça maior e mais perigosa no Pacífico, criada pelos americanos. Com apenas 50 aviões de segunda classe contra 650 bombardeiros e 180 caças aliados, o esforço dos japoneses no ar foi insignificante. Isto não só permitiu que as forças aéreas táticas ajudassem o avanço do 14o Exército e os aviões-transportes a levar os suprimentos vitais em total liberdade, mas também encorajou a feitura de bombardeio estratégico de longo alcance contra bases inimigas distantes, como Rangum e Cingapura.

Outro acontecimento digno de nota foi a volta da Marinha Real ao oceano Índico em grande número, pela primeira vez desde o ataque dos nipônicos ao Ceilão, em abril de 1942 - acontecimento que se deveu sobretudo ao afundamento do Scharnhorst e à abertura do Mediterrâneo. As primeiras grandes operações da frota do Almirante Somerville foram uma série de ataques de porta-aviões contra instalações petrolíferas em Sabang e Sourabaya, em abril e maio de 1944, com uma força que incluía o porta-aviões americano Saratoga e o couraçado francês Richelieu. Nenhum desses ataques, nem os subseqüentes, realizados sob o comando do sucessor de Somerville, o Almirante Fraser, esbarraram em oposição significativa. Somente no Pacífico é que se encontraria ação real, onde Churchill estava ansioso por ver a participação dos britânicos, apesar das óbvias dificuldades logísticas. Concordando-se com isto - apesar da franca discordância do Almirante King - na "Conferência Octágono", de setembro de 1944, Fraser, nomeado Comandante-Chefe da Frota Britânica do Pacífico, zarpou para leste com uma força que incluía quatro porta-aviões de esquadra e dois couraçados, em dezembro de 1944, atacando de passagem as refinarias de Palembang.

Enquanto as forças de Slim reconquistavam a Birmânia, os japoneses passavam da condição de vitoriosos para a de derrotados numa frente que, antes e durante os primeiros estágios da guerra no Pacífico, o QG Imperial considerava o mais importante de todos - a China. Mais de 1.000.000 de soldados japoneses estavam envolvidos na China e desde 1937 eles haviam repelido as mal equipadas forças nacionalistas e comunistas bem para o interior. Por outro lado, como o Japão era obrigado a dedicar cada vez mais atenção e recursos ao Pacífico, enquanto que os Aliados, de sua parte, pouco podiam fazer para ajudar a China após a queda da Birmânia, excetuando-se o número crescente de suprimentos militares transportados sobre o Himalaia pelo Comando da Ponte Aérea Índia-China, após o começo de 1942 essa luta cessara. Devido ao impasse criado, dava-se cada vez mais atenção à possibilidade de se formar uma poderosa força de bombardeiros americanos na China para atacar as posições japonesas por toda a Ásia, incluindo as suas ilhas metropolitanas. Como este plano, proposto pelo General Chennault, envolvia, inevitavelmente, uma redução na percentagem de materiais transportados para a reconstrução do Exército Chinês, Stilwell opunha-se ferozmente a ele. Mas em 1943 Roosevelt decidiu-se contra "Vinegar Joe" e a favor de Chennault e Chiang Kai-shek.

A princípio, esta decisão pareceu melhorar as possibilidades aliadas no teatro de operações chinês. Na primavera de 1944 criou-se o 20° Comando de Bombardeiros e as novas Superfortalezas B-29 começaram suas operações de bombardeio contra o inimigo; em junho, o próprio Japão foi atacado por esses aviões e nos meses seguintes, alvos em muitas outras áreas foram igualmente solapados. Após algum tempo, porém, a situação começou a mudar e, em janeiro de 1945, as B-19 foram retiradas da China. Primeiro porque os aeródromos das Marianas tinham sido abertos, e eram bases melhores para ataques ao Japão; segundo, porque era muito mais difícil abastecer as B-29 na China, dado que tudo tinha de ser levado para lá, pela ponte aérea sobre o Himalaia. O mais importante, porém, é que o exército japonês decidira, após o fracasso dos ataques aéreos às bases aéreas americanas na China, montar uma ofensiva em grande escala que levou à captura daqueles alvos. Em maio de 1944 iniciou-se um grande movimento de pinças, com o 11o Exército (250.000 homens) avançando para o sul, de Hankow para Changsa, enquanto que o 22° Exército (50.000 homens) avançava de Cantão para oeste. Apesar da feroz resistência que fizeram e do apoio dos aviões de Chennault, os chineses não conseguiram deter esse ataque. Em agosto, o importante centro de comunicações de Hengyang caiu em mãos japonesas e as forças chinesas foram dispersadas, e desanimaram. Um aeródromo atrás do outro foi tomado à medida que o inimigo avançava para além de Kweiling; em meados de novembro, depois de tomar a região de Liuchow, ele passou a atacar para noroeste, na direção de Tushan, e também para sudoeste, a fim de ligar-se às forças da Indochina, em dezembro. As áreas ocupadas pelos nacionalistas haviam sido cortadas em dois.

Muito antes disso, porém, ocorrera uma crise na liderança aliada na China. Surgira franca inimizade entre Chiang Kai-shek e Stilwell, sobretudo quanto à maneira como a guerra estava sendo travada e sobre suas atitudes para com os comunistas chineses. Embora Roosevelt achasse que Stilwell havia acertado quando afirmou que a posição terrestre teria de ser firmada antes de se iniciar a campanha de bombardeio estratégico, Chiang decidiu que o americano tinha de sair; a 18 de outubro de 1944, Wedemeyer o substituiu como Chefe de Estado-Maior e o resto das posições de Stilwell foi separado do teatro de operações chinês.

A princípio, Wedemeyer não pôde fazer muita coisa e os japoneses continuaram repelindo os nacionalistas mais para o sul e sudoeste da China. Contudo, a transferência da Birmânia para aquela frente de duas divisões treinadas por americanos, mais a ajuda dos exércitos do Yunnan e da 14a Força Aérea, fizeram, afinal, mudar o rumo da luta; de qualquer modo, os japoneses estavam encontrando os problemas logísticos normais à medida que sua linha de comunicações se estendia e perdia segurança. Em dezembro de 1944, eles foram repelidos por um contra-ataque chinês a leste de Kweiyang e sua ofensiva foi finalmente detida. Os dois lados prepararam-se então para uma batalha mais prolongada e decisiva, com Wedemeyer prosseguindo, durante o impasse, com a reorganização do Exército Chinês e aproveitando-se ao máximo da abertura da estrada da Birmânia pelas forças de Slim. A princípio, as batalhas foram sendo favoráveis aos japoneses; em fevereiro, eles tomaram toda a ferrovia Hanyang-Cantão e no começo de abril avançaram para oeste, para tomar Laohokow. Eles foram então detidos pelos reforços chineses e o centro da ação mudou mais para o sul, onde as forças de Wedemeyer contra-atacaram, em maio. Liderados pelas duas divisões trazidas da Birmânia, os chineses conseguiram expulsar o inimigo das proximidades de Changteh para Changsha. Hostilizado por aviões americanos, incapaz de se recuperar de todo da derrota terrestre sofrida e preocupado com os acontecimentos em outros locais, o exército japonês que lutava na China decidiu recuar. Os chineses não lhe moveram perseguição, tanto que, quando a guerra acabou, estava sob controle japonês boa parte de seu território. O Japão desenvolveu 26 divisões de infantaria e uma divisão blindada na China, mesmo após a queda de Okinawa - um exemplo supremo da má distribuição de forças. Tóquio em nada se beneficiou do que ainda continuava chamando "Incidente Chinês"; ao contrário, perdeu cerca de 390.000 homens nos anos de 1937-45, numa campanha que, conduzindo ao início da própria guerra no Pacífico, foi tão desastrosa em suas conseqüências quanto ineficaz em sua execução.


Iwo Jima e Okinawa

Após a captura de importantes bases estratégicas nas Filipinas, cresceu nos americanos a ânsia de pressionar o Japão pelos mais diretos meios de ataque possíveis. Por isso, abandonaram a idéia de carregar sobre Formosa ou parte da costa chinesa - decisão reforçada pela natureza formidável das suas defesas e pela incerteza do apoio das forças nacionalistas chinesas -, e, em vez disso, planejaram ocupar os grupos de ilhas situados imediatamente ao sul do Japão propriamente dito, isto é, as Bonins e as ilhas Ryukyu. Em outubro de 1944, os Chefes de Estado-Maior Conjuntos esperavam que o primeiro grupo de ilhas pudesse ser tomado até meados de janeiro de 1945 pelas forças de Nimitz, e até 1o de março, pelo exército e pelos fuzileiros navais, após a libertação de Luzon. Como as operações nas Filipinas demoraram mais do que o planejado, estes últimos avanços tiveram de ser adiados por mais um mês, dando aos japoneses tempo precioso para reforçar suas defesas.

O alvo mais importante e adequado nas Bonins era Iwo Jima, que possuía três aeródromos. O grupo de ilhas situava-se num ponto estrategicamente importante, quase a meio caminho entre o Japão e as Marianas, de onde os bombardeiros americanos estavam operando em números cada vez maiores. Este era, sem dúvida, o único grupo de ilhas que os americanos não se podiam dar ao luxo de evitar. A posse de Iwo Jima daria às B-29 eventualmente avariadas na luta uma chance de escapar e permitiria a instalação de uma base de caças que dariam cobertura aérea aos grandes bombardeiros nos ataques ao Japão, além de impedir que os japoneses a usassem como base de caças avançada contra a campanha de bombardeio estratégico. Este osso seria duro de roer, pois embora estivesse virtualmente indefesa antes de setembro de 1944, o Tenente-General Kuribayashi, com uma guarnição de 21.000 homens, desde então vinha construindo um sistema defensivo incrivelmente bem preparado, sobretudo nas montanhas, onde numerosas cavernas e corredores de ligação haviam sido construídos. Ele ordenou a evacuação de todos os civis. Além disso, como o reforço do Japão seria impossível após o começo da invasão, devido à superioridade aérea e naval dos adversários, a tarefa de Kuribayashi consistia apenas em resistir enquanto pudesse. Portanto, ele adotou a estratégia, que o Japão vinha usando cada vez mais na guerra do Pacífico, de evitar a dependência absoluta das temerárias cargas banzai e das tentativas de repelir o inimigo nas praias; os desembarques americanos seriam contestados, mas os soldados da guarnição, seguros em seus bunkers e cavernas, também fariam os invasores pagar preço elevado por palmo de terra que pretendessem conquistar.

A operação de Iwo Jima seria realizada pela 5a Frota, de Spruance, que vinha planejando e preparando esse empreendimento, enquanto Halsey estava empenhado na luta nas Filipinas. Como antes, esta foi apenas uma mudança na cúpula da equipe de planejamento, pois as forças combatentes e seus comandantes continuaram os mesmos. Os grupos de porta-aviões velozes de Mitscher dariam a necessária cobertura contra qualquer intervenção aérea ou naval japonesa; a Força de apoio do Contra-Almirante Blandy, de 12 porta-aviões de escolta e seis couraçados de bombardeio, daria também cobertura e "debilitaria" as defesas, e a Força Expedicionária de Turner desembarcaria as três divisões de fuzileiros navais que realmente tomariam a ilha, sob e comando de "Howling Mad" Smith.

O processo de debilitação foi o mais longo e intenso realizado na guerra do Pacífico. Numerosos bombardeios foram feitos a partir de agosto de 1944, tornando-se acontecimento diário nas semanas que precederam o dia da invasão, marcado para 19 de fevereiro de 1945. Bombardeiros da força aérea e do exército martelavam os alvos durante o dia, e os dos fuzileiros navais durante a noite, num esforço por impedir que fossem reparados os danos. O Major-General Schmidt, comandante do 5o Corpo Anfíbio de Fuzileiros Navais, sob Smith, pedira dez dias de bombardeio naval e acontece que seu diagnóstico revelou-se correto. Muitas instalações japonesas foram atingidas por granadas e bombas, mas os defensores simplesmente entrincheiraram-se mais profundamente e suas posições não foram neutralizadas, como se esperava. Enquanto isto ocorria, os porta-aviões de Mitscher atacavam a região de Tóquio, onde destruíam os aviões que poderiam atacar as operações anfíbias americanas contra Iwo Jima.

Na manhã de 19 de fevereiro, bem cedo, cerca de 450 navios entravam nas águas que banhavam as ilhas, iniciando-se os desembarques dos fuzileiros navais, precedidos de violento bombardeio das praias. Pouco depois das 09h, a primeira leva chegou a terra, e numa hora e meia oito batalhões ocupavam uma estreita cabeça-de-praia na parte sudeste de Iwo Jima, perto da principal pista de pouso. Contudo, as tropas de Kuribayashi, mostrando que tinham sobrevivido ao bombardeio que precedeu a invasão, despejaram tremenda quantidade de fogo de morteiro e artilharia sobre as praias, dos seus embasamentos bem protegidos e ocultos. No primeiro dia, os americanos sofreram 2.500 baixas, mas ao anoitecer a cabeça-de-praia tinha 4.000 m de comprimento e se expandira, isolando o monte Suribachi, no sul.

Dada a superioridade aérea, naval e em volume de tropas dos americanos o resultado nunca esteve em dúvida; a grande pergunta era quanto à dificuldade da conquista de Iwo Jima. Nas semanas seguintes ao desembarque, os fuzileiros navais tiveram a resposta. Lutando com o habitual fanatismo e certos de que a perda da ilha para o inimigo resultaria numa ameaça direta à sua pátria, os japoneses resistiram ferozmente. As lutas corpo a corpo no labirinto das cavernas e túneis reduziram a rapidez do avanço, que não aumentou muito nem mesmo quando os americanos recorreram a lança-chamas para desentocar os nipônicos dos buracos em que se metiam; e, como em Saipã, usaram também dinamite, sepultando os japoneses dentro das suas cavernas. A 21 de fevereiro, os kamikazes aumentaram a confusão, afundando o porta-aviões de escolta Bismarck Sea e avariando dois outros porta-aviões.

A 22 de fevereiro, após um avanço desesperadamente lento e difícil, os fuzileiros navais conseguiram chegar ao topo de um vulcão extinto, o monte Suribachi, e nele hastear a bandeira americana - evento captado pela câmara de Rosenthal, fotógrafo da Associated Press, constituindo-se talvez no mais famoso flagrante da guerra. Mas a maior parte da guarnição japonesa estava na escarpada metade norte de Iwo Jima, e a agonia ainda não terminara. Com extrema lentidão, os fuzileiros navais avançaram para o norte, usando artilharia, tanques, lança-chamas e buldôzeres para esmagar a oposição de um inimigo que eles raramente viam; a Cota 382, um dos pontos fortificados japoneses, era agourentamente chamada "Moedor de Carne" pelos fuzileiros navais. O perímetro defensivo dos nipônicos ia-se reduzindo pouco a pouco, persistindo a luta já entrado o mês de março. Os grupos de japoneses, vendo aproximar-se o fim, passavam da defensiva para as cargas temerárias contra as linhas americanas, o que em geral apressava o avanço. A 26 de março, deu-se a rendição de 216 japoneses, apenas, sendo considerada tomada a ilha, mas subsistiam ainda numerosos bolsões de resistência por ser eliminados e, nos dois meses seguintes, mais 1.600 foram mortos e 870 capturados. Kuribayashi, que finalmente suicidou-se, com seus oficiais de Estado-Maior, manteve-se fiel, até o fim, na disposição de não ceder Iwo Jima ao inimigo - o que custou mais de 20.000 vidas aos japoneses. As perdas americanas foram de 6.800 mortos e quase 20.000 feridos - o que representou 30% de toda a força de desembarque. Essa foi a mais árdua luta dos fuzileiros navais em toda a guerra do Pacífico. Por outro lado, os Seabees logo puseram em funcionamento os três aeródromos da ilha, que se mostraram de enorme utilidade na campanha de bombardeio estratégico contra o Japão.

Enquanto a resistência organizada dos nipônicos chegava ao fim em Iwo Jima, uma frota de 1.300 navios, de todos os tamanhos, aproximava-se de Okinawa, nas ilhas Ryukyu. A ocupação desse objetivo também fora adiada pelas batalhas de Luzon; agora, os americanos estavam prontos. O objetivo era a maior ilha das Ryukyu, situada a sudoeste de Kyushu, a grande ilha meridional do Japão. A localização de Okinawa era, do ponto de vista estratégico, importantíssima, pois dista 576 km da costa chinesa, 540 km de Formosa e, mais importante, a 540 km do Japão propriamente dito. Os aviões ali baseados poderiam dominar todos os acessos a esses três países, e sua posse seria vital, na medida em que podia funcionar como base avançada quando saíssem os Aliados para a invasão das ilhas metropolitanas.

Isto, por si só, levaria os japoneses, fatalmente, a pôr na defesa de Okinawa fúria inimaginável. Mas, como se isso não fosse suficiente, a ilha, em si, era um obstáculo físico formidável. Com mais de 100 km de comprimento, e totalizando 1.220 km² ela é acidentada e bastante arborizada, excetuando-se partes do sul, onde, contudo, as serras de calcário ofereciam cavernas naturais para abrigo. Este osso seria duríssimo de roer, pois o QG Imperial decidira defendê-la com a maior força possível - o 32° Exército, do Tenente-General Ushijima, cujos efetivos haviam sido aumentados para 77.000 soldados de combate e mais de 20.000 soldados de serviço. Além disso, ele possuía enorme quantidade de peças de artilharia, pesada e leve, embasadas em cavernas bem fortificadas. Dado o tipo de terreno e considerado o volume das forças defensoras, a tarefa seria, realmente, muito difícil; além disso, a estratégia dos japoneses iria mais ainda complicá-la. Não haveria qualquer tentativa de luta nas praias e o plano de defesa de posições interiores fortemente protegidas, ao contrário do que sucedeu na batalha por Iwo Jima, teria o apoio de forte ação aérea e naval. A Esquadra Combinada ofereceria uma oposição apenas simbólica, é verdade, mas Tóquio esperava que, enquanto a luta em terra chegasse gradualmente ao auge, os navios de escolta dos invasores fossem reduzidos a pedaços por uma força cuidadosamente reunida de mais de 2.000 aviões, sobretudo kamikazes, operando do sul do Japão. Somente quando isto ocorresse é que Ushijima receberia ordens para desfechar uma ofensiva que jogasse no mar os americanos desembarcados.

Os estrategistas americanos estavam cientes de que a operação exigia mais preparo e organização que qualquer das anteriores; só os problemas logísticos eram enormes, pois planejava-se desembarcar 172.000 soldados de combate e 115.000 de serviço. As forças de terra envolvidas eram o 10o Exército, do Tenente-General Buckner, formado pelo 24o Corpo, do Tenente-General Hodge, de quatro divisões de infantaria, e o 3o Corpo Anfíbio, do Major-General Geiger, e uma divisão do exército mantida na reserva. Uma vez mais, Spruance, com o Estado-Maior da 5a Frota, controlava a operação toda, sendo diretamente responsável perante Nimitz, e Turner, de novo, era responsável pelos desembarques, enquanto que os porta-aviões velozes de Mitscher dariam cobertura móvel e poderosa. Esta era a maior ilha atacada pelas forças do Pacífico Central e a maior operação anfíbia da guerra do Pacífico. E mais, os americanos também tiveram de levar em linha de conta a população de Okinawa, de cerca de 460.000 habitantes - uma necessidade humanitária e política, mas também um sorvedouro terrível de recursos logísticos.

O Dia-"D" para a "Operação Iceberg", como a invasão principal foi batizada, seria a 1o de abril de 1945, mas, antes disso, Spruance planejava realizar preliminarmente muitas ações de menor vulto. Entre 18 e 21 de março, os porta-aviões velozes de Mitscher atacaram as bases aéreas japonesas, na esperança de eliminar a capacidade do inimigo de interferir nos desembarques de Okinawa, mas conseguiram êxito apenas parcial nesses ataques, pois embora destruíssem centenas de aviões inimigos, três porta-aviões de esquadra foram seriamente avariados por kamikazes, numa antevisão do que estava por vir. Também os bombardeiros da força aérea e do exército foram desviados dos seus devastadores ataques às cidades japonesas para atacar as bases aéreas de Kyushu. Outra ação - sugerida por Turner - foi a tomada do grupo de ilhas de Kerama Retto, situadas a uns 24 km a oeste de Okinawa, e que seriam transformadas em base avançada e ancoradouro da frota. A 77a Divisão de Infantaria desembarcou ali entre 26 e 27 de março, pondo-se a eliminar sua pequena guarnição; no dia seguinte, os petroleiros chegaram e o ancoradouro foi posto em uso como base da frota avançada. Dois dias depois, uma pequena força de desembarque também ocupou o grupo de ilhas Kaise Shima, a apenas 11 km da parte sudoeste de Okinawa, onde se planejava embasar artilharia para bombardear a região de Naha.

A partir de 26 de março, os ataques aéreos contra a ilha foram complementados por intenso bombardeio naval, desencadeado pelo Grupo de Apoio de Fogo do Contra-Almirante Deyo, que incluía 10 couraçados. Disparando de longa distância, por temerem a presença de minas, eles não causaram muitos danos, mas estes aumentaram nitidamente quando as belonaves se aproximaram mais, no dia 29. Esta força, e os comboios da invasão principal que se aproximavam do sul, eram protegidos na área de Okinawa pelo grupo de 18 porta-aviões de escolta do Contra-Almirante Durgin, cuja tarefa principal era repelir os freqüentes ataques kamikazes, um dos quais incapacitou o cruzador pesado Indianapolis, a 31 de março. Os porta-aviões velozes de Mitscher davam cobertura a distância, enquanto que a Frota Britânica do Pacífico - que se apresentou a Nimitz a 15 de março - estava ocupada atacando bases aéreas em Sakishima Gunto e patrulhando a área sudoeste de Okinawa.

A 1o de abril, Domingo de Páscoa, Turner assumiu o comando de todas as forças em águas de Okinawa. A invasão foi feita nas praias de Hagushi, um trecho de 8 a 10 km de extensão na costa oeste, defronte ao grupo de ilhas Kerama Retto; dois aeródromos estavam situados próximos dali, e um avanço de alguns quilômetros cortaria as forças defensoras pelo meio e danificaria o sistema de comunicações de Ushijima. Às 05h30, quando os caça-minas já haviam limpo os acessos, teve início o mais tremendo bombardeio de apoio - 44.825 granadas, 33.000 foguetes e 22.500 granadas de morteiros foram disparados nestas poucas horas. O próprio plano de desembarque foi incrivelmente bem organizado, tão preciso e tão eficaz na prática quanto lindo na teoria; praticamente todas as eventualidades foram levadas em conta. Mas o bombardeio e os preparativos de desembarque foram um desperdício de tempo, pois quando a primeira leva chegou às praias, às 08h30, não havia qualquer oposição - em contraste com os desembarques em Iwo Jima. Para espanto e desconfiança dos americanos, que haviam tomado os dois aeródromos próximos pelas 11h, o inimigo não se revelou. A estratégia defensiva de Ushijima estava sendo rigorosamente obedecida.

Portanto, ao anoitecer de 1o de abril a cabeça-de-praia americana tinha 15.000 m de comprimento e mais de 60.000 homens já haviam desembarcado; pelo dia 3, eles haviam atravessado a ilha e chegado à baía de Nakagusaka, no leste; no dia 4, a cabeça-de-praia fora ampliada e consolidada num trecho de 24 km de extensão. Somente após aquela data, quando os americanos começaram seu avanço para o sul, onde se concentrava o grosso da guarnição japonesa (duas divisões, uma brigada e muitos marinheiros), é que o real poderio das defesas foi revelado.

Mas ainda que os soldados japoneses se mantivessem inativos nos primeiros dias após os desembarques, suas forças aéreas e navais movimentaram-se muito. Pequenos números de kamikazes haviam atacado a partir de 1o de abril, passando do grupo de bombardeio, que fora atacado antes, para os transportes e, em especial, para os importantes destróieres de piquete de radar; alguns destes, patrulhando sozinhos ou aos pares para avisar a aproximação de ataques inimigos, foram atingidos muitas vezes e sofreram grandes danos. Na tarde de 6 de abril; os ataques kamikazes em massa começaram a sério, sob a direção do Almirante Toyoda; com os transportes, o grupo de bombardeio, os piquetes de destróieres e a base em Kerama Retto sendo todos submetidos a este ataque mortífero. Quase 700 aviões - 355 dos quais eram kamikazes - foram despachados por Koyoda para a área de Okinawa a 6/7 de abril. A maioria deles foi derrubada por caças aliados ou por fogo antiaéreo, embora três destróieres fossem afundados e 10 avariados; o sofrimento dos piquetes começara.

Na tarde de 6 de abril ocorreu também a maior jogada-suicida do Japão durante essa campanha, quando o supercouraçado Yamato, um cruzador leve e oito destróieres partiram para atacar os navios americanos ou britânicos incapacitados pelos kamikazes. Esta força não tinha qualquer cobertura aérea - e certamente alguns dos 700 aviões despachados para Okinawa poderiam ter sido designados para cobri-los - e o Yamato só tinha combustível para a viagem de ida; não se esperava que ele voltasse. Três horas após sua partida, o curso por ele tomado fora comunicado por submarinos americanos e no dia seguinte ele estava sendo atentamente vigiado por aviões, enquanto os porta-aviões de Mitscher se preparavam para atacá-lo e à sua escolta com 280 aviões. Das 12h32 em diante, no dia 7, esses alvos desprotegidos estiveram sob ataque constante. Devastado por bombas e sobretudo por torpedos, o gigantesco navio afundou às 14h23, com enorme perda de vidas; o cruzador leve e quatro destróieres também foram postos a pique, enquanto que os outros conseguiam voltar dificultosamente para Sasebo. A medida foi, desde o começo, inteiramente suicida, um gesto que só encontra explicação nas tradições militares japonesas. O Yamato, como o Tirpitz, nunca disparou seus enormes canhões contra couraçados inimigos. A era dessas belonaves, que haviam dominado a guerra naval desde o século XVI, terminara.

O restante da campanha de Okinawa consistiu de um duplo sofrimento - a lenta e mortífera batalha em terra e a feroz luta dos kamikazes contra as forças aliadas no mar. A primeira, apesar do inicio fácil para o ataque americano, revelou-se pior do que todos esperavam, sobretudo no sul. Ali, os japoneses iniciaram uma ofensiva nos dias 14 e 15 de abril, facilmente repelida, e essa derrota serviu para confirmar o acerto da estratégia original de Ushijima. No norte, o avanço da 6a Divisão de Fuzileiros Navais foi detido quando chegou à rochosa e muito arborizada península de Motobu. Mas as forças japonesas não eram tão poderosas - apenas dois batalhões - e foram repelidos cada vez mais para o norte. No começo de maio, restavam apenas bolsões de resistência isolados; mais de 2.500 japoneses tinham sido mortos, perdendo os fuzileiros navais 236 homens. Mas a sombria conclusão a tirar disso era que quase toda a guarnição japonesa estava esperando, intacta, nas suas cavernas de calcário, ao sul.
À medida que a campanha se tornava mais difícil, os americanos decidiram consolidar o que já haviam dominado, tomando as pequenas ilhas circundantes. Ao largo da costa leste, apenas Tsugen Jima tinha uma guarnição, que foi vencida por um batalhão da 27a Divisão de Infantaria nos dias 10/11 de abril. Objetivo mais difícil era Ie Shima, situada a 5 km a noroeste da península de Motobu, valiosa principalmente pelas pistas de pouso que possuía, mas habilmente fortificada pela sua guarnição de 2.000 soldados. A 16 de abril, a 77a Divisão de Infantaria fez um desembarque ali; não houve de início oposição, mas o progresso para o interior foi lento, com renhidas lutas. No dia 21 restavam poucos japoneses, mas as baixas americanas (172 mortos e 902 feridos) foram pesadas, tendo em vista o tamanho do objetivo. Ie Shima tornou-se valiosa base de caças.

A 19 de abril, após muitos preparativos, as três divisões do 24o Corpo, de Hodge, atacaram as linhas japonesas no sul de Okinawa; o ataque, de surpresa, foi seguido de uma ofensiva geral, apoiada por violento bombardeio naval (de seis couraçados, seis cruzadores e seis destróieres), 650 aviões e 27 baterias de artilharia. Tanques e lança-chamas também foram empregados em massa, mas apesar disso, os japoneses mantiveram-se virtualmente inabalados em suas cavernas profundas, e os americanos só tiveram pequenos ganhos na tremenda luta que cobriu os cinco dias seguintes, antes que Ushijima recuasse suas tropas para outra linha de defesa, bem preparada, como as demais. Fazendo-se tão lentamente a progressão, Buckner levou a 1a e a 6a Divisões de Fuzileiros Navais para a linha de frente. Seu ataque contra a segunda linha de defesa dos nipônicos, em torno da posição central de Shuri, transformou-se numa série de ações isoladas, com tanques, infantaria e lança-chamas combinando-se para destruir sucessivamente as pequenas posições inimigas. As baixas foram grandes e os ganhos, muito pequenos.

Esta estratégia defensiva, embora executada com êxito, era irritante para o espírito Samurai e a 2 de maio os japoneses decidiram desfechar um contra-ataque para coincidir com os ataques kamikazes e de barcos-suicidas. Esta ofensiva, empreendida oficialmente pela 26a Divisão japonesa, foi bem planejada, habilmente oculta e precedida de feroz bombardeio, feito durante a noite de 3 de maio, mas foi demasiado ambiciosa e realizada com muita imprudência, com cargas abertas contra posições americanas protegidas. Apesar da penetração conseguida num setor, ela foi repelida, com baixas superiores a 6.000 homens, pesadas demais para que Ushijima pudesse suportar.

A 5 de maio, reiniciou-se a estratégia defensiva, com tropas de serviço sendo colocadas na linha de frente para ajudar as debilitadas fileiras de tropas de combate japonesas. Buckner, sabendo que o inimigo empenhara suas reservas, assumiu o controle direto dos seus dois corpos, trouxe outra divisão e tornou a atacar, a 10 de maio. Tal como acontecera antes, os americanos só podiam avançar destruindo com explosões e queimando os defensores, obrigando-os a sair de cada bunker e caverna. Houve algum progresso, mas em meados de maio as chuvas fortes e contínuas atolaram na lama soldados, tanques e suprimentos.

Pelo final do mês, o 10o Exército perdera quase 4.600 homens e tinha 12.000 feridos mas já então Ushijima havia perdido mais de 50.000 soldados e seus flancos começavam a retrair-se, obrigando-o a trocar a região de Shuri para posições mais ao sul. Ele conseguiu fazer o deslocamento sem que o comando americano percebesse o que estava acontecendo. Tomando essa área com avidez, os soldados de Buckner continuaram avançando e a 15 de junho os fuzileiros navais haviam tomado a península de Oruku das mãos das inexperientes tropas navais japonesas. Nesse estágio, só restava a escarpa de Yaeju-Dake, onde 11.000 defensores estavam entrincheirados, como um alvo sério, mas a luta continuou sendo feita aos bocados, confusa e feroz; mesmo depois de 17 de junho, quando as últimas linhas de frente organizadas desmoronaram, os japoneses continuaram a lutar até a morte. Nas operações de limpeza subseqüentes, Buckner foi morto por uma granada, a 18 de junho, e Geiger o substituiu até a chegada do General Joseph Stilwell para assumir o comando. Esta luta continuou até o fim da guerra, mas já então mais de 7.400 nipônicos se haviam rendido; muitos outros, inclusive Ushijima e seu Estado-Maior, preferiram suicidar-se.

As perdas totais japonesas montaram a uns 110.000 soldados, número que inclui alguns habitantes de Okinawa recrutados para as forças de Ushijima. As forças de terra americanas tiveram 7.374 mortos e quase 32.000 feridos que, somados às perdas da marinha, fizeram desta campanha a mais cruenta de quantas os americanos travaram em seu retorno. Ironicamente, aquele objetivo, que teria sido de imensa ajuda na invasão do Japão propriamente dito, não compensou o que foi gasto na sua conquista, pois o primeiro ataque por B-29 baseadas em Okinawa contra o Japão foi realizado na última noite da guerra.

Durante as batalhas travadas em terra, os japoneses vinham fazendo o possível e o impossível para incapacitar as forças navais aliadas com ataques aéreos, principalmente de kamikazes. O primeiro ataque em massa, a 6/7 de abril, seguiu-se de outros e, pelo final de junho, já haviam sido feitos mais de 1.500 ataques de kamikazes. A resposta aliada foi aumentar os piquetes de radar, despachar mais caças, aumentar a concentração antiaérea e bombardear as bases aéreas japonesas. Com a adoção de tais medidas, reduziu-se o perigo - mas o custo e o esforço foram enormes. Quem mais sofreu foram os destróieres de piquete americanos, Um deles, o Morrison, foi afundado quando atingido por quatro aviões que se chocaram contra ele quase que ao mesmo tempo; outro, o Laffy, repeliu grande número deles e conseguiu sobreviver, apesar de ter sido atingido por seis kamikazes e quatro bombas lançadas por aviões. Os couraçados e porta-aviões eram os alvos favoritos. Os conveses de vôo blindados dos porta-aviões britânicos (nos quais os kamikazes ricocheteavam e caíam no mar) salvaram de morte certa numerosos homens do mar, mas muitos navios que não dispunham desse recurso foram vítimas das bombas planadoras. Os infreqüentes ataques de submarinos e barcos-suicidas japoneses foram, porém, mais fáceis de neutralizar.

Ao todo, os americanos, que sofreram a maior parte dos ataques kamikazes, perderam mais de 30 destróieres. Mais alarmante, no entanto, foi o total de navios danificados, que chegou a 368, incluindo 10 couraçados e 13 porta-aviões, muitos deles seriamente. Foi de 4.900 mortos e 4.800 feridos a soma de baixas verificadas entre os marinheiros americanos. Esta campanha sangrenta muitas vezes aterradora, em terra, no ar no mar, deu aos Aliados uma idéia - ainda que apenas uma idéia - do que os aguardava na invasão das ilhas metropolitanas japonesas.


O fim à vista

Quando se travavam as últimas campanhas do avanço dos americanos pelo Pacífico, a economia de guerra do Japão estava parando, devido à crescente atividade dos submarinos e bombardeiros americanos; ao mesmo tempo, as guarnições evitadas, que Tóquio fora obrigado a abandonar, por haver perdido o comando do ar e do mar, estavam sendo gradualmente eliminadas pelas várias forças aliadas. Com sua marinha mercante sendo paulatinamente destruída em alto-mar, suas cidades reduzidas a escombros e novos trechos do seu império ultramarino sendo a cada passo retomados, o Japão já avistava o fim da guerra.

Após a derrota definitiva, Tojo admitiu que o submarino americano, as forças de porta-aviões velozes e a estratégia da "carniça", ou seja, o salto sobre ilhas, haviam desfechado os três golpes mais violentos contra o domínio japonês do Pacífico. O primeiro não se teria constituído em tão grande ameaça não fora a absoluta despreocupação de Tóquio pela proteção da marinha mercante - até que já era tarde demais. O Japão não tinha sistema de comboios, não tinha grupos de destróieres "caçadores", porta-aviões de escolta; suas cargas de profundidade eram fracas, seu treinamento e organização anti-submarinos na Marinha Imperial eram deficientes. E mais, a marinha mercante do Japão totalizava menos de seis milhões de toneladas (brutas) no começo da guerra e seus estaleiros não tinham capacidade para repor as perdas sofridas. Em comparação com os britânicos, por exemplo, seu preparo para enfrentar a ameaça submarina era insignificante; mas o Japão, centro de um império marítimo, dependia ainda mais que a Grã-Bretanha da importação de alimento, e de matérias-primas vitais, como petróleo, borracha e minérios, que mantinham em funcionamento suas indústrias de guerra.

Devido à falta de atenção para com o sistema de comboio e à ausência de escoltas navais, os navios mercantes japoneses eram presas fáceis dos submarinos americanos. A princípio, isto não preocupava muito porque os torpedos americanos eram defeituosos e não havia muitos barcos operando dos dois QGs de comando (Comando da Frota do Pacifico, Submarinos, baseado em Pearl Harbor; e Comando da Frota do Pacífico Sudoeste, Submarinos, baseado em Fremantle e Brisbane); mas em 1943, quando o defeito técnico dos torpedos já fora sanado e as forças submarinas haviam aumentado muito, as perdas do Japão em navios mercantes também começaram a aumentar enormemente. Isto se deveu à decisão tomada pelos americanos de liberar os submarinos para ataques aos navios mercantes inimigos. Em contraste com esse procedimento, a arma submarina japonesa era empregada contra belonaves, alvo mais bem defendido e muito mais fugidio, ou em viagens de exploração, já mais para o final da guerra, abastecendo guarnições evitadas, que tinha pouco sentido estratégico e nenhum efeito material.
Em 1943, os submarinos americanos afundaram 296 navios mercantes japoneses, totalizando 1.335.240 toneladas. Embora isto representasse sério golpe na economia japonesa, o total foi enormemente superado no ano seguinte, quando 2.403.451 toneladas foram afundadas; só em outubro de 1944, os submarinos americanos conseguiram afundar 66 navios, totalizando 320.906 toneladas. O mais importante é que eles haviam sido instruídos para se concentrarem na frota petroleira inimiga que, corretamente, fora considerada o calcanhar-de-aquiles do Japão. Tão bem sucedida se revelou essa campanha que a Esquadra Combinada foi estacionada em Cingapura, perto das áreas produtoras de petróleo, enquanto que, no Japão, os pilotos dos novos aviões não podiam dar-se ao luxo de fazer vôos de treinamento, devido à escassez de combustível. Os submarinos também cobraram pesado tributo às belonaves japonesas; na verdade, eles foram responsáveis por quase um terço dos vasos de guerra afundados. Eles interromperam a cuidadosa estratégia preparada por Toyoda na batalha do mar das Filipinas ao afundarem os porta-aviões Taiho e Shokaku, e repetiram a façanha no começo das ações no golfo de Leyte, quando afundaram parte da Força Central, de Kurita. Em novembro de 1944, o submarino Archerfish afundou o gigantesco porta-aviões Shinano, um couraçado da classe Yamato convertido, em sua viagem inaugural - o Professor Morison diz que ele foi a grande belonave de vida mais curta da História; e no mês seguinte, o Redfish afundou o porta-aviões Unryu e pôs outro, o Junyo, fora de ação pelo resto da guerra.

Em 1943, os japoneses começavam a instituir contramedidas, mas sempre inadequadas e tardias. A maioria dos estaleiros estava ocupada na construção de belonaves, que diminuiu muito quando se deu prioridade à construção de navios mercantes. Além disso, começava a surgir um círculo vicioso: como o Japão não protegera seus navios mercantes, não podia trazer para as ilhas todas as matérias-primas de que precisava sua indústria naval, e outras, para combater o ataque americano (tão séria se tornara a escassez de minério de ferro, que muitos estaleiros passaram a construir navios de madeira), enquanto que suas atividades militares eram incapacitadas pela falta de petróleo. A campanha submarina americana começou a produzir efeito cada vez maior sobre a situação interna do Japão, com o transporte motorizado civil desaparecendo, muitos produtos tornando-se escassos e o padrão de vida declinando.

Quando os submarinos americanos já estavam operando na baía de Subic, nas Filipinas, em 1945, a maior parte da marinha mercante japonesa jazia no fundo do mar, restando muito poucos alvos merecedores de atenção; mesmo quando os submarinos se atreveram a penetrar no Mar do Japão, não havia muito o que atacar. Assim, certos barcos foram transferidos para a função de salva-vidas, recolhendo tripulações de aviões que caíam ao mar, após ataques às cidades japonesas. Este serviço, embora valioso, não era o verdadeiro destino de um submarino; mas os submarinistas podiam consolar-se com a certeza de que suas primeiras atividades haviam levado as indústrias japonesas praticamente à paralisação em meados de 1945 - e tinham cumprido outra tarefa vital, a de impedir que o QG Imperial reforçasse as guarnições das ilhas ameaçadas ou sitiadas, enviando-lhes tropas do Japão ou do continente asiático. Pelo final da guerra, os japoneses tinham apenas 1.800.000 toneladas de navios mercantes, a maior parte dos quais eram pequenos barcos de madeira ou navios isolados em águas distantes. Dos 8.000.000 de toneladas afundados durante a guerra, aos submarinos americanos pode-se atribuir a destruição de 60% desse total, 30% à atividade dos aviões e 10% por minas e navios de superfície, o que foi, não há a negar, um feito notável.

Para o próprio povo japonês, a ameaça invisível dos submarinos americanos parecia muito menos séria do que o desafio, bem visível, dos bombardeiros pesados inimigos, que estavam operando sobre sua pátria desde 1944. No último ano da guerra, todos viviam aterrados com a freqüência da presença das B-29, o enorme avião que podia transportar até 17.000 toneladas de bombas a grande velocidade e altura, por milhares de quilômetros, e bem protegidas contra ataques de caças. Os primeiros ataques desses aviões foram realizados, a partir de bases na China, pelo 20° Comando de Bombardeiros Americano, na segunda metade de 1944, que causaram poucos danos e eram tão difíceis de preparar. Mas ainda que seu valor prático fosse pequeno, eles haviam deixado ver quais eram as intenções dos americanos: o Japão seria submetido a uma campanha de bombardeios intensos, bombardeios que se tornavam mais pesados à medida que o poderio aéreo americano no Pacífico aumentava, até que sua capacidade industrial fosse completamente destruída. Se efetuado implacavelmente e com êxito, só este tipo de ataque poderia fazê-lo render-se; mas mesmo que não o fizesse, ela era um requisito prévio necessário para qualquer invasão.

Foi devido a este plano de bombardeio estratégico que os americanos deram tanta importância à captura das Marianas, que ofereceriam bases ideais para desenvolvê-la. O trabalho nas pistas de pouso, ali, começou em junho de 1944 e a primeira, em Saipã, ficou pronta em fins de outubro, quando recebeu a primeira Ala do 21o Comando de Bombardeiros. Um mês depois, uma força de 111 B-29 levantou vôo para atacar uma fábrica de aviões em Tóquio; somente 24 delas acharam o alvo, mas o grande número de caças japoneses despachados para proteger a capital só pôde derrubar dois dos gigantescos atacantes. A campanha começara a sério e nos três meses e meio seguintes, esses mesmos bombardeiros atacaram repetidamente as cidades japonesas. Entretanto, este bombardeio de precisão, a grande altitude e à luz do dia, baseado nas experiências vividas na Europa, não deram resultados que justificassem os esforços gastos. Após um ataque à fábrica de aviões de Kobe, a 19 de janeiro de 1945, no qual 10% das bombas atingiram a área do alvo (um grande êxito, relativamente falando), os japoneses começaram a dispersar mais ainda seus estabelecimentos industriais.

Por outro lado, em março de 1945, a força de bombardeiros baseada nas Marianas aumentara para mais de 350 B-29, agora sob o comando do Major-General Le May. Decidira-se também mudar o estilo de bombardeios para os ataques noturnos de baixo nível, que explorariam as fraquezas do sistema defensivo noturno japonês, permitiriam o transporte de maior carga de bombas, diminuiriam a tensão imposta aos motores dos aviões e seriam um modo mais eficaz de atingir os muitos alvos pequenos e dispersos. Para aumentar a certeza de que estes seriam realmente atingidos, Le May ordenou que se usassem bombas incendiárias (empregadas certa vez pelas B-29 baseadas na China), em lugar das bombas maiores, de alto explosivo; cada B-29 podia transportar 40 grupos de 38 incendiárias, representando, no todo, o poder de queimar uma área de aproximadamente 65 hectares. O resultado dessa mudança de tática e de arma foi devastador. Após algumas tentativas iniciais, uma força de mais de 300 B-29, transportando entre seis e oito toneladas de incendiárias, devastaram totalmente o centro de Tóquio a 9 de março de 1945; quase 40 km² - um quarto da área total da cidade - foram incendiadas e 267.000 prédios, destruídos; sem dúvida, o mais terrível massacre aéreo de todos os tempos, superando o de Dresden e os ataques posteriormente feitos com a bomba atômica; cerca de 83.000 mortos e 102.000 feridos são dados como o total de vítimas do ataque incendiário a Tóquio, em 9 de março. Os cálculos de Le May estavam certos.

Nos nove dias seguintes, as cidades de Osaka, Kobe e Nagoya foram igualmente devastadas; estes ataques então foram suspensos, por terem as B-19 despejado 9.373 toneladas de bombas incendiárias, esgotando por completo seus estoques. Contudo, os ataques logo foram reiniciados e, nos quatro meses seguintes, com intensidade redobrada - a tonelagem de bombas lançadas em julho foi três vezes maior que em março. Na medida que a introdução de escoltas de caças baseados em Iwo Jima fazia baixar as perdas de B-29, os japoneses sofriam cada vez mais. Muitas cidades e aldeias foram acrescentadas à lista de alvos, aeródromos e estaleiros foram devastados e milhares de minas foram lançadas para bloquear o tráfego costeiro japonês; na verdade, mais de 1.250.000 toneladas de navios foram afundadas, suspendendo por completo o tráfego na costa. Em junho de 1945, a oposição aérea a estes ataques era tão fraca, que Le May começou a anunciar antecipadamente ao povo japonês as áreas que seriam bombardeadas, lançando panfletos no dia anterior.

Os efeitos materiais desta campanha foram tremendos. O moral civil foi seriamente atingido, sobretudo após o ataque incendiário a Tóquio; 8.500.000 pessoas fugiram para o campo, provocando o colapso da produção de guerra. Mais de 450 km² de território industrializado e urbano foram reduzidos a cinzas, e 603 grandes fábricas de material de guerra foram destruídas ou seriamente danificadas. A produção da indústria de refinação de petróleo diminuiu em 83% devido aos bombardeios; a de motores de avião, em 75%; a de fuselagens de avião, em 60%, e a de equipamento eletrônico, em 70%. Além disso, a escassez de matérias-primas provocada pela campanha submarina e, depois, pelo lançamento de minas pelos aviões reduziu a produção nas fábricas que escaparam à destruição pelas B-19. A economia de guerra do Japão estertorava.

No plano psicológico foi também muito importante a revelação ao público japonês de que suas forças armadas tinham perdido a capacidade de defender a pátria e proteger o povo - um incentivo importante para os líderes do Japão pelo menos ponderarem sobre as condições de rendição impostas pelos Aliados. Em outras palavras, os ataques das B-29 fizeram todos, menos os fanáticos militares, compreender o fato óbvio de que o Japão perdera a guerra e necessitava desesperadamente da paz. As bombas atômicas, confirmando isto de modo mais espetacular, ajudaram a destruir as bases dos "ferrenhos" que desejavam lutar até o último homem, mulher e criança.

As campanhas submarina e de bombardeio tiveram influência decisiva no curso da guerra no Pacífico, apressando claramente o fim do conflito. Muito menos importantes, por certo, em termos estratégicos, foram as operações de limpeza realizadas pelas forças aliadas no último ano da guerra. No esforço que fizeram por recuperar o controle estratégico do Pacífico o mais depressa possível, e no uso da tática da "carniça", os americanos haviam tomado somente as áreas necessárias para alcançar as águas metropolitanas do inimigo. Dois anos e meio após a invasão de Guadalcanal, eles haviam praticamente subjugado o Japão, numa campanha espantosamente rápida e móvel. Outra resultante disso é que ainda havia grandes partes do Pacífico e do Sudeste Asiático com milhares de soldados japoneses. Principalmente por razões políticas e de prestígio, a derrota destes remanescentes e a recuperação do território por eles ocupados eram considerados importantes, daí a última fase da guerra haver-se desenrolado em meio à realização de uma série de operações isoladas de limpeza.

As primeiras guarnições japonesas a serem deliberadamente isoladas estavam na área do Comando do Pacífico Sudoeste, onde o ataque de MacArthur deixara para trás os remanescentes desorganizados de cinco divisões na Nova Guiné e outras forças na Nova Britânia, Bougainville e várias ilhas do grupo das Salomão. A 12 de julho de 1944, MacArthur mandou o General Blamey, Comandante-Chefe do Exército australiano, assumir a responsabilidade da "neutralização sistemática" de todos esses lugares. Esta tarefa, cujo controle real Blamey entregou ao 1° Exército australiano, do Tenente-General Sturdee (baseado em Lae), seria realizada por apenas quatro divisões australianas, em lugar de sete americanas; mas, mesmo assim, os novos comandantes se decidiram por uma interpretação mais ofensiva da diretiva de MacArthur; é de duvidar, em retrospecto, que isto tivesse dado bons resultados.

A 6a Divisão australiana foi enviada para Aitape, na Nova Guiné, a fim de neutralizar os dispersados 35.000 soldados do 18° Exército, de Adachi, a oeste de Wewak; estes japoneses estavam mal armados, subnutridos e doentes, tendo sofrido muito na fracassada tentativa de romper as linhas americanas. Mas, em vez de defender essa posição, como os americanos tinham feito, os australianos atacaram para leste, em dezembro de 1944. Esse movimento envolvia não só um ataque ao longo da costa, como também um avanço paralelo pela serra, uma enorme tarefa física que impôs grande esforço ao sistema de transportes e resultou em muitas baixas provocadas por doenças tropicais. Além disso, como as tropas australianas sabiam que esta operação não tinha nenhuma urgência estratégica, o progresso contra os obstinados defensores japoneses foi lento. Wewak caiu a 10 de malo de 1945, e Kiariw a 11 de agosto, quando então os japoneses estavam totalmente cercados e a notícia do fim da guerra já lhes chegara ao conhecimento. Eles perderam mais 7.200 homens nesta campanha, mas os australianos sofreram mais de 1.500 baixas, entre mortos e feridos, na batalha, além de 16.000 baixas por doença.

Na Nova Britânia, onde a 5a Divisão australiana recebera a tarefa das mãos dos americanos em novembro de 1944, o plano de limpeza foi realizado com menos energia. Cerca de cinco sextos daquela ilha já estavam em mãos aliadas, com patrulhas montadas ao longo de uma linha desde Ulamona até Kamandran. O General Imamura ainda tinha 69.000 soldados sob seu comando, mas mantinha a maior parte destes na maciça base de Rabaul e não estava disposto a desperdiçar seus efetivos. Os australianos avançaram, mas ao chegarem à linha Baía Grande-Baía Aberta, resolveram voltar ao plano de patrulha. A guarnição de Imamura deveria ser contida por um preço mínimo, porque o avanço não tinha nenhuma importância estratégica e podia facilmente resultar em pesadas baixas.

Um plano diferente foi adotado pelo 2o Corpo, do Tenente-General Savige (3a Divisão australiana e mais duas brigadas), que era responsável pela neutralização de bolsões inimigos nas Salomão; ele queria agir com vigor contra a grande guarnição de Bougainville, embora os japoneses ali já não mais fossem uma ameaça para os americanos na baía da Imperatriz Augusta e estavam muito ocupados em cuidar da horta e pescar para poderem sobreviver. Deixando a 1a Brigada para cuidar de algumas das ilhas das Salomão centrais, Savige despachou a segunda brigada para cuidar dos japoneses no norte de Bougainville, enquanto que a 3a Divisão australiana lidava com a força principal, em torno de Buin. Este avanço bidirecional encontrou violenta oposição no começo de 1945, assim que ameaçou as áreas de produção de alimento dos japoneses. Embora os defensores sofressem grandes baixas, o progresso foi muito lento e, após meados de julho, as chuvas impediram qualquer avanço ulterior. Como na Nova Guiné, os soldados australianos não se mostravam muito ansiosos por se arriscarem por algo que já quase nada significava. Somente na Nova Britânia, onde havia pouco mais do que um patrulhamento eficaz, não havia sinais de deterioração do moral. A interpretação que o soldado de infantaria deu à ordem de neutralização de MacArthur foi bem mais sensata do que a dada por Blamey e seus generais.

Por outro lado, foi o próprio MacArthur que insistiu, por motivos políticos e de prestigio, que todos os soldados japoneses fossem obrigados a render-se nas Filipinas. Em março de 1945, os americanos ocupavam Leyte, no sudeste, Mindoro, no oeste, e controlavam Luzon, embora uma força inimiga considerável ainda ocupasse as regiões montanhosas, bem como as outras ilhas desse vasto grupo. Na verdade, mais de 170.000 japoneses estavam espalhados só em Luzon. O maior número deles estava no Grupo Shobu, comandado pelo próprio Yamashita, na região norte, mas o Grupo Shimbu, do Tenente-General Yokoyama, era igualmente importante, porque ocupava as montanhas a leste de Manilha e controlava o abastecimento de água da cidade. Para eliminar essas ameaças, Krueger tinha nove divisões e dois grupos regimentais. Ele decidiu primeiramente concentrar tudo contra o Grupo Shimbu, mandando o 14o Corpo, de Griswold, eliminá-lo; mas essa tarefa foi muito mais difícil do que se esperava, devido ao terreno e aos efetivos da força japonesa - cerca de 50.000 soldados. Houve pouco progresso quando o 11o Corpo tomou a si a tarefa, em meados de março de 1945, mas a séria escassez de água obrigou os americanos a agir e tomar os reservatórios principais, em fins de maio. Em junho, a resistência organizada terminou, e a fome, a doença e os guerrilheiros filipinos cobraram seu tributo aos sobreviventes japoneses; no fim da guerra só restavam 6.300 homens.

O item seguinte, na lista de prioridades de Krueger, era a necessidade de se tomar a Passagem das Visayas, que encurtaria a rota mercante de Leyte a Luzon. Embora se fizessem grandes esforços por terra para varrer as forças inimigas do sul de Luzon, houve desembarques anfíbios em Palawan em fins de fevereiro, na península de Zamboanga (Mindanao oeste) em meados de março e no arquipélago de Sulu no começo de abril; forças também desembarcaram em Panay, Cebu, Bohol e em dois lugares nas Los Negos. Com a supremacia dos americanos no ar e no mar, o resultado, em todos esses desembarques, foi sempre positivo, embora altas as baixas decorrentes da luta em Cebu. Nestas ilhas, os japoneses, em várias oportunidades, preferiram recuar para as montanhas, onde permaneceram até o fim da guerra, sendo dizimados, muitos deles, pela fome e pela doença. Mindanao, com seus 43.000 soldados japoneses, comandados pelo Tenente-General Morozumi, parecia ser um osso mais duro de roer, mas mesmo ali os desembarques americanos de abril e maio praticamente não encontraram oposição e os filipinos estavam bem adiantados na tomada do controle da ilha.

Com estas operações no sul realizando-se ao mesmo tempo que as dirigidas contra o Grupo Shimbu, Krueger não tinha forças suficientes para avançar sobre as tropas de Yamashita, no norte de Luzon, que pôde construir suas defesas, mais hostilizado por uns 18.000 guerrilheiros do que pelas três divisões americanas ali estacionadas. A tomada de Baguio e a chegada de outra divisão aumentaram um pouco a pressão, mas o terreno era ótimo para a defesa, e só lentamente os japoneses foram repelidos para a área central, bastante montanhosa, passando os americanos a assumir o controle das estradas costeiras e do vale. A conquista do reduto de Yamashita, nas montanhas, foi muito difícil, e os defensores realizaram hábil ação de retardamento até o fim da guerra, quando 50.000 deles - incluindo seu comandante - se renderam no norte de Luzon. Esta campanha não agradou muito a MacArthur, que, mais por motivos pessoais do que devido a qualquer diretiva dos Chefes de Estado-Maior Conjuntos, insistia que seus soldados varressem das Filipinas o inimigo. Fora a região dos reservatórios e as Visayas, não havia nenhum incentivo estratégico urgente para isso. As baixas americanas nas operações terrestres realizadas nas Filipinas foram superiores a 10.000 mortos e 36.000 feridos; mais de 255.000 japoneses morreram e 125.000 foram aprisionados ou renderam-se no fim da guerra.

Os britânicos também estiveram envolvidos nas operações de limpeza, porque o avanço de Slim, através da Birmânia, até Rangum deixara a oeste de Salween mais de 60.000 japoneses cuja eliminação era necessária, para proteger as comunicações na Birmânia e garantir um início mais seguro das grandes operações por todo o Sudeste Asiático. A tarefa da manutenção das comunicações ferroviário-rodoviárias com o norte foi entregue ao 4o Corpo, enquanto que o 33o Corpo recebia ordens para eliminar as tropas inimigas concentradas na região do vale do Irrawaddy, ajudado pela 26a Divisão. Em maio de 1945, as tentativas da 54a Divisão japonesa de atravessar o rio resultaram em pesadas baixas, perto de Allanmyo e Prome, mas muitos grupos de pequenas proporções conseguiram atravessa-lo e chegar a Pegu Yomas, onde os 17.000 sobreviventes do 28o Exército, de Saktuai, estavam retidos. A batalha principal girou em torno da tentativa dos japoneses de libertar essas tropas, e começou no inicio de julho com um movimento diversório contra Wa, pelo 32° Exército, de Honda - ou melhor, seus remanescentes. Esta arremetida não só não conseguiu expulsar a 7a Divisão daquela cidade, como também não teve qualquer efeito sobre as duas outras divisões do 4o Corpo, que apenas reforçaram suas posições a leste do Pegu Yomas. A partir de 19 de julho, os sobreviventes do 28o Exército sofreram muito na sua retirada para o leste, normalmente em grupos de várias centenas; mas ou eram emboscados nas estradas ou obrigados a penetrar nas selvas e montanhas, que cobravam seu tributo, assim como o rio Sittang, que estava na cheia. Fontes japonesas calculam que somente 6.000 soldados exaustos, dos 17.000, conseguiram chegar à margem leste do Sittang. O Exército de Área da Birmânia se desintegrara.

Uma pequena operação, nessa campanha de limpeza, merece ser citada - a recaptura de Bornéu, efetuada por sugestão dos americanos, que ressaltavam a necessidade de uma maior redução dos suprimentos de óleo e borracha dos japoneses e achavam que os britânicos deveriam instalar uma base avançada para a sua frota na bala de Brunei, se a ilha fosse tomada; mas Churchill não estava interessado nisto, preferindo lançar a Frota do Pacífico contra Okinawa ou contra o próprio Japão. Finalmente, a ilha foi tomada por uma força australiana comandada pelo Tenente-General Morshead, com a 7a Frota cuidando da parte naval. Tarakan foi ocupada a 1o de maio, e a baía de Brunei a 10 de junho; não houve oposição inimiga, o que levou os australianos a avançar para oeste, no Sarawak. A 1° de julho, no que foi a última grande operação anfíbia da guerra, eles também ocuparam o centro petrolífero de Balikpapan, expulsando sua guarnição na semana seguinte.

Os planos e preparativos para a recaptura do resto do Sudeste Asiático já estavam bem desenvolvidos nesse estágio, mas a rendição prematura do Japão frustrou sua execução. Portanto, quando Mountbatten chegou a Cingapura, foi para receber a capitulação geral de todas as forças japonesas existentes na Região Sul a 12 de setembro - para a qual se providenciara um acordo preliminar a 26 e 27 de agosto, quando os representantes japoneses visitaram Rangum. Mais de 738.000 japoneses foram envolvidos nessa rendição no Sudeste Asiático.


A Queda do Japão

Mesmo antes do começo da guerra no Pacífico, alguns japoneses, como Yamamoto, haviam profetizado que seu país não podia alimentar esperanças de vencer uma guerra prolongada contra os Estados Unidos, cujo poderio econômico era dez vezes superior ao do Japão. Contudo, não havia nenhum reconhecimento claro da possibilidade de derrota pelos círculos dominantes japoneses até a queda das Marianas. Esta derrota, que significava que a zona de defesa vital do Japão fora rompida, que as Filipinas estavam abertas à invasão e que a pátria ficara ao alcance dos bombardeiros pesados americanos, causou a queda do gabinete de Tojo a 18 de julho de 1944. Mas o ministério Koiso, que sucedera ao de Tojo, não ofereceu nenhuma alternativa à política então vigente, que era de continuar lutando, independente dos novos golpes físicos ocorridos nos seis meses seguintes - a virtual derrota da Alemanha, a perda das Filipinas e de Iwo Jima, a completa destruição da marinha japonesa, a interrupção de todo o comércio marítimo, a perda iminente da Birmânia e de Okinawa e, finalmente, os horríveis ataques incendiários de março de 1945, que revelaram que as forças armadas do Japão haviam perdido toda a capacidade de defender as cidades e as indústrias contra ataques aéreos. Devido a esses acontecimentos, o próprio gabinete Koiso foi substituído por outro, em cuja liderança se encontrava o moderado mas ultracauteloso Almirante Suzuki, a 7 de abril de 1945.

A busca da paz que o novo primeiro-ministro e dois outros membros do Conselho de Guerra Supremo (um gabinete interno) iniciaram secretamente se apoiava num exame realista da situação militar do Japão, na determinação de deter o inútil derramamento de sangue, no desejo de não agravar o terrível sacrifício do povo e na esperança de que pudesse ser negociado um acordo através da mediação de certas potências neutras, especialmente da Rússia. Em tudo isso, eles tinham o apoio do próprio imperador, que, ao que tudo leva a supor, já se encontrava no convencimento de que o Japão estava à beira do nocaute.

Eram muitos os obstáculos à obtenção da paz. Em primeiro lugar, o Imperador, devido a sua posição singular, exaltada, acima da política e do curso normal da tomada de decisões, tinha menos influência do que se poderia pensar - embora, nesses meses críticos, Hiroíto abandonasse cada vez mais o seu papel passivo, para apoiar cada vez mais a rendição. Vale a pena observar que, se o imperador tivesse a mentalidade de Hitler, o número de mortos, no final da guerra do Pacífico, teria sido muito maior. Outra dificuldade, que Tóquio não percebia na época, era a política irreal de que Stalin ajudaria o Japão a desembaraçar-se desse conflito calamitoso; na realidade, o líder soviético esperava terminar a campanha na Europa o mais depressa possível, para juntar-se aos Aliados na luta do Extremo Oriente, como prometera na "Conferência de Yalta".

O maior de todos os obstáculos a qualquer plano de paz era a atitude dos militaristas nipônicos, que possuíam imensos poder e influência; este ponto de vista era adotado pelos três outros membros do Conselho Supremo de Guerra e por quase todo o exército e a marinha. O próprio segredo das tentativas de se obter a paz devia-se ao receio de que jovens oficiais, dominados pelo fanatismo, recorressem a uma política de assassinato e que os militaristas dessem um golpe de Estado; só na primeira semana de formado o gabinete Suzuki, a polícia militar prendeu mais de 400 pessoas por suspeita de ser favoráveis ao fim da guerra. A concepção dos militaristas rejeitava por completo a idéia de rendição sobretudo a incondicional, exigida pelos Aliados. Para eles, seria a mais humilhante derrota da História, abandonar a luta quando o Japão ainda tinha 2.500.000 soldados e muitos outros milhões de voluntários, além de 6.000 aviões, e sem que um único soldado inimigo tivesse desembarcado em seu solo. Era com esta enorme força, apesar de que os suprimentos para o exército pudessem escassear e de que a maioria dos aviões seriam pilotados por, pilotos kamikazes treinados às pressas, que os militares japoneses esperavam recuperar a força de negociação - causando tanto dano à força de invasão dos Aliados, que estes viessem a admitir a paz negociada. Curiosamente, a invasão era vital para os seus planos.

A última grande dificuldade residia em que a rendição incondicional pudesse representar o fim da dinastia imperial, que nem mesmo os moderados podiam aceitar. Na realidade, portanto, as duas correntes de pensamento que passaram a dominar o Japão concordavam em que se obtivessem termos melhores para a paz, mas enquanto os moderados esperavam convencer os Aliados a fazer uma promessa firme somente sobre o futuro do imperador, os militaristas acreditavam que na realidade poderiam forçar o inimigo a conceder melhores termos, não só com relação ao imperador, mas também quanto a outras questões (nenhuma força de ocupação no Japão, por exemplo). Com este último grupo em posição forte e havendo fracassado as gestões no sentido de levar os russos a mediar, o pequeno grupo que defendia a rendição tinha pouca oportunidade, nos últimos meses da guerra, de exercer qualquer influência. Apesar das péssimas condições do Japão, parecia que somente um grande choque faria os militares render-se antes de os Aliados invadir o país, com a enormíssima sangueira que a medida iria destravar.

Também os líderes americanos eram de opinião de que somente um choque violento poderia levar o Japão a render-se. Numerosos oficiais da força aérea insistiam em que somente mais alguns meses da devastadora ofensiva de bombardeio estratégico obrigariam os japoneses a abandonar a luta, e vários oficiais da marinha achavam que um aperto no bloqueio daria o mesmo resultado, dada a grande dependência do inimigo em alimentos e matérias-primas importadas; uma combinação das duas táticas funcionaria com mais rapidez ainda. Mas estes defensores da pressão aérea e/ou naval absoluta foram vencidos por muitos outros. O Departamento de Estado, o Departamento de Inteligência Combinado e os Chefes de Estado-Maior Combinados concluíram que somente a invasão do Japão propriamente dito asseguraria a rendição incondicional por meios militares. O planejamento para isto foi feito a partir de 1944, sendo o primeiro grande ataque preparado contra Kyusha ("Operação Olímpia"), a 1o de novembro de 1945, por pelo menos 12 divisões americanas. Este ataque, realizado sob o comando de MacArthur, embora todos os navios da marinha ficassem sob o controle de Nimitz, seria seguido, na primavera de 1946, por outro ainda maior - a invasão da ilha de Honshu, a principal ("Operação Coronet"), na qual forças consideráveis da Comunidade Britânica também participariam. As forças aliadas envolvidas seriam enormes, muito maiores que a de qualquer outra operação no Pacífico, e muitas delas teriam de ser transferidas da Europa para o segundo estágio. A objeção principal a este curso de ação, embora jamais impedisse os líderes e estrategistas aliados de se prepararem para ele com toda a energia, eram as baixas esperadas; em vista das perdas sofridas em Okinawa, os peritos americanos previam que as baixas que os Aliados sofreriam iriam de 200.000 a 1.000.000 de homens, e os japoneses, muitíssimo mais.

A entrada da Rússia na guerra do Extremo Oriente, que os americanos vinham reclamando há anos, também foi considerada motivo suficiente para chocar tanto os japoneses, que os levaria à rendição; mas a partir de 1944 os americanos passaram a encarar com desconfiança cada vez maior a medida que vinham solicitando. As razões para a mudança de opinião eram, primeiro: a aversão à política soviética na Europa Oriental e ao desejo de Stalin de "compensações adequadas" no Extremo Oriente em troca de declaração de guerra ao Japão; segundo: o adiamento da invasão pelo tempo necessário a que a Rússia se preparasse para atacar; terceiro: o receio de que tal ataque, mesmo eliminando o poderio militar japonês no continente asiático, pudesse repercutir muito pouco nas ilhas metropolitanas propriamente ditas, e, quarto: a certeza de que o poderio dos Estados Unidos se tornara tão grande, que a ajuda da Rússia já não era tão critica como parecia no estágio anterior da guerra.

Havia um recurso que sem dúvida alguma levaria o Japão à rendição incondicional - a Bomba - a devastadora arma que americanos e britânicos vinham secretamente aperfeiçoando desde o começo da guerra. Até a realização do primeiro teste bem sucedido dessa bomba, quando da "Conferência de Potsdam", os americanos não estavam certos de que ela poderia ser produzida, com eficiência, a tempo de influenciar decisões; antes desse teste, ela era apenas um dos muitos pros do plano de Washington para derrotar o Japão, e ninguém realmente sabia quais seriam os seus efeitos. Contudo, ela ficou pronta a tempo e por certo seria usada - para evitar as enormes baixas que ocorreriam com a invasão. Muitos dos cientistas aliados envolvidos no desenvolvimento da bomba atômica estavam preocupados com as salvaguardas para seu uso, mas uma Comissão Provisória, presidida pelo Secretário da Guerra, Stimson, que examinou todos os aspectos da questão em maio de 1945, recomendou o seu prosseguimento. Devido às ações suspeitas de Stalin na Europa, a Rússia não seria informada a respeito até que a arma estivesse pronta. A bomba poderia não detonar, poderia não chegar a convencer os japoneses quanto à sua destrutividade, poderia também o inimigo levar os prisioneiros aliados para o local de lançamento anunciado. Por tudo isso, decidiu a comissão que fosse feito o máximo de silêncio em torno do "estrondo colossal". Truman, Churchill e seus Chefes de Estado-Maior aprovaram; por motivos predominantemente militares, todos queriam vê-la usada o mais breve possível. O próprio Churchill escreveu, mais tarde: "A decisão de se usar ou não a bomba atômica para forçar a rendição do Japão nunca chegou a ser problema". Fora os cientistas e certos oficiais de cúpula (Leahy, Eisenhower), que afirmavam não se tratar simplesmente de uma bomba maior que as demais, que problemas éticos inteiramente novos estavam implicados, a discussão do lado aliado sempre foi como esta arma deveria ser usada, e nunca se o seu emprego era conveniente.

O fracasso de ambos os lados em realizar negociações secretas que pudessem levar a uma paz negociada também serviu para tornar mais provável a solução extrema, como a invasão ou o lançamento da bomba. O Departamento de Estado esperava induzir os japoneses a renderem-se, mas as declarações públicas de Truman exigiam a rendição incondicional e não prometiam a conservação da dinastia imperial. As sugestões que visavam a obter a promessa de que a posição do imperador seria respeitada não receberam resposta, que ficou para depois da "Conferência de Potsdam", que completaria os acordos europeus do pós-guerra e os arranjos para a entrada da Rússia na guerra contra o Japão. Também o Ministério do Exterior japonês não estava fazendo muito progresso, pois Stalin recusara-se a receber o enviado especial, Príncipe Konoye, antes de partir para Potsdam. Naturalmente, nesse estágio, o ritmo dos acontecimentos se precipitava. A 16 de junho de 1945, o teste da bomba atômica realizado no deserto do Novo México foi totalmente bem sucedido, para grande satisfação de Truman e Churchill. Já então, Stalin (com a aprovação de Truman) recusara-se a responder às mensagens japonesas sobre mediação, enquanto que sua atitude sobre o futuro da Europa e do Extremo Oriente estava fortalecendo a determinação dos americanos de prosseguir sem depender muito da ajuda russa; se tanto, a nova arma talvez induzisse Stalin a ser mais atencioso, embora Truman não desse muita informação sobre seu poder quando mencionou, casualmente, a sua existência ao líder soviético. Portanto, à medida que os planos para a invasão do Japão e para a entrada da Rússia na guerra eram concertados em Potsdam, os americanos também aceleravam seu próprio plano. Pequenos grupos de B-29, voando bem alto, receberam ordens de sobrevoar o Japão à luz do dia, para acostumar o inimigo a vê-las; o cruzador pesado Indianapolis estava a caminho de Tiniã com o material físsil; e o 509° Grupo Composto da 20a Força Aérea recebeu ordem de lançar a bomba em uma de quatro cidades escolhidas no primeiro dia claro que surgisse após 3 de agosto.

Um ato final tornou ainda mais certo o lançamento dessa arma. A 26 de julho publicou-se o ultimato americano-britânico-chinês aos japoneses, a chamada Proclamação de Potsdam. O Japão era advertido de que corria o risco de "destruição total", a menos que se rendesse incondicionalmente, mas evitou-se mencionar a existência de nova bomba. Também faltavam detalhes dos planos aliados para o imperador, talvez porque não estivessem definitivamente certos. Com a opinião pública no ocidente tão exacerbada contra Hiroíto, o anúncio público de concessões à sua casa não seria politicamente certo e poderia ter repercussão negativa no moral dos Aliados; por outro lado, as exigências feitas pelos militaristas japoneses para qualquer acordo de paz não teriam provavelmente levado a uma resposta suficientemente rápida de Tóquio para impedir o lançamento da bomba. Mas sentimo-nos levados a concordar com Herbert Feis, quando afirma que se estes dois argumentos tivessem sido apresentados, os americanos, "como povo, estariam mais livres de qualquer remorso". Acontece que a Proclamação de Porsdam provocou uma resposta ambígua do primeiro-ministro japonês, que sugeria que ela seria "ignorada" e que seu governo "lutaria resolutamente por uma feliz conclusão da guerra". Tudo o que Suzuki, o Ministro do Exterior, Togo, o Lorde Guardião do Selo Privado, Kido, e o imperador podiam fazer era esperar a palavra de Moscou sobre um acordo no qual a casa imperial seria preservada; mas a impressão que esta resposta deu aos Aliados foi que o Japão estava decidido a continuar lutando a qualquer preço.

Às 08h de 6 de agosto de 1945, após vários adiamentos devidos ao mau tempo, três B-29 apareceram sobre a cidade de Hiroxima, à altitude de 10.500 m. Dois eram aviões de observação, equipados com câmaras fotográficas, instrumentos e especialistas; o terceiro, chamado Enola Gay e pilotado pelo Coronel Tibbets, transportava a bomba. Às 08h11 ela foi lançada, abrindo-se novo capítulo na história da humanidade, um episódio inesquecível. A bomba atômica explodiu antes de tocar o solo, com um clarão cegante e um estrondo aterrador, seguido de uma nuvem de fumaça em forma de cogumelo que subiu a quilômetros de altura e chegou a agitar as B-29 que sobrevoavam o local. A cidade ficou praticamente em ruínas. Pouquíssimos prédios que nela existiam ficaram de pé, especialmente depois que o vento intensificou as chamas que a bomba provocou. O número de baixas foi estarrecedor. Segundo cálculos feitos, chegou a 71.000 mortos e 68.000 feridos, mas foi impossível uma contagem exata dos corpos - milhares de pessoas foram vaporizadas num segundo com a explosão. Ainda mais horrível foi o ferimento causado aos muitos que morreram, anos depois, pelos efeitos latentes da radiação, elevando o número de mortos a quase 200.000. A notícia da conclusão "perfeita" da missão foi enviada às pressas a Truman que, jubiloso, proclamou-a como "a maior coisa da História" e declarou que o fim da guerra se aproximava. Uma declaração preparada ameaçava "uma chuva de ruína do céu nunca vista" se o Japão se recusasse a render-se.

Em Tóquio, a notícia dessa temível arma nova foi recebida com consternação, embora vários membros do grupo da paz vissem nela uma desculpa para terminar a guerra: não se podia esperar que alguém resistisse a bombas atômicas. Contudo, os militares apegavam-se à sua posição e até se recusaram a comparecer à reunião do Conselho Supremo de Guerra de 8 de agosto. O lançamento da bomba também surpreendeu Moscou, prejudicando os planos de Stalin para a entrada na guerra do Pacífico. O embaixador japonês em Moscou foi imediatamente informado de que os dois países estariam em guerra no dia seguinte, 9 de agosto, e já à meia-noite algumas unidades soviéticas tinham avançado 12 quilômetros na Manchúria; Stalin não queria ver o conflito terminar repentinamente antes que a Rússia tivesse conquistado seus desígnios territoriais na Ásia. Esta notícia, com a conclusão de que o enfraquecido Exército de Kwantung logo seria eliminado, de que a Rússia jamais seria um mediador e que as desvantagens contra o Japão eram agora maiores que nunca, deveria ter sido o bastante para induzir os militaristas nipônicos a render-se. Uma outra razão surgiu às 11h do dia 9, quando os americanos diante do silêncio do Japão, lançaram sua segunda bomba atômica, desta feita na cidade de Nagasaki; as baixas foram a 40.000 mortos e desaparecidos, e 60.000 feridos.

A mensagem era clara; mas os militaristas ainda não estavam convencidos. Durante todo o dia e a noite toda uma Conferência Imperial especial discutiu os termos da rendição e, mesmo, se eles deveriam render-se. Na manhã seguinte, bem cedo, o imperador interveio para declarar que a guerra tinha de terminar e concordou-se em tentar obter uma promessa de respeito à continuação da casa imperial por parte dos Aliados antes que eles se submetessem; o público permanecia na ignorância dessas decisões. Ao receber esta comunicação, os governos americano e britânico afirmaram que ao povo japonês seria dada permissão para que decidisse livremente sobre a forma de governo após a guerra; mas as prevaricações do lado soviético (inclusive a tentativa de conseguir um Comandante Supremo Soviético, além do americano, para o Japão) adiaram a resposta conjunta até 11 de agosto. Os militares japoneses, tendo sido informados de seus termos pelo rádio, ainda insistiam para que fossem rejeitados, apesar do avanço dos russos pela Manchúria e da possibilidade de mais bombas atômicas serem lançadas; mas a posição difundida por esses homens foi neutralizada quando aviões americanos lançaram cópias da resposta enviada ao governo japonês, dirigidas ao povo, já cansado da guerra, a 14 de agosto. Naquele dia, o imperador informou à Conferência Imperial que desejava aceitar os termos aliados e uma mensagem nesse sentido foi transmitida, através do governo suíço, aos Aliados naquela mesma noite. Em resposta, recebeu o governo nipônico instruções para ordenar o cessar-fogo e mandar enviados à presença do Comandante Supremo, MacArthur.

Enquanto se realizavam essas negociações finais, um pequeno grupo de oficiais ainda procurava impedir a rendição e tentou dar um golpe militar na noite de 14 de agosto. Mas, sufocado o golpe, ao meio-dia dia 15 o Imperador transmitiu pelo rádio a ordem de rendição. O gabinete demitiu-se, completada sua missão, e MacArthur iniciou negociações para a tomada do poder.

Apesar da ordem de cessar fogo, os russos continuaram avançando pela Manchúria até fins do dia 17. A URSS recebeu a rendição ali, a Grã-Bretanha recebeu-a para o Sudeste Asiático e os nacionalistas chineses receberam-na para a China (embora os britânicos a aceitassem para Hong-Kong) e o próprio MacArthur aceitou-a para o Japão, Coréia, Filipinas e as ilhas do Pacífico. A rendição completa e formal foi assinada por todos os combatentes a bordo do couraçado Missouri a 2 de setembro.

A guerra no Pacífico terminara mais depressa do que se esperava. Não há dúvida de que o lançamento das duas bombas atômicas fora responsável por isso, mas, com o Japão tão claramente debilitado muitos se perguntam se aquele passo tão drástico foi realmente necessário; a rendição não teria vindo pouco depois, de um modo ou de outro? As razões apresentadas contra o uso da bomba atômica são, na maioria, típicas do pós-guerra, quando todo o mundo se inteirou das terríveis conseqüências que poderão resultar de um choque entre as superpotências. Em 1945, a explosão nuclear teve um efeito moderador, pois, sem estar a opinião pública conscientizada da devastação que qualquer dessas bombas pode provocar, havia a possibilidade de terem sido lançadas mais tarde (na Coréia, por exemplo), em escala muito maior.

As razões militares e políticas contra o lançamento da bomba estão abertas à discussão. Não havia, por parte de ninguém, a certeza de que a intensificação do bombardeio aéreo e o bloqueio do tráfego marítimo viessem realmente levar os líderes japoneses a aceitar a rendição incondicional senão depois de passado muito tempo; o certo porém, é que a continuidade da tática de bombardeio (se a proporção de baixas civis permanecesse a mesma) e o tal bloqueio (se serve de orientação o número de vítimas registrado durante o bloqueio da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, bloqueio menos rigoroso) teriam levado a perdas bem maiores que as verificadas em Hiroxima.e Nagasaki - sendo provável que o número chegasse à casa dos milhões, e não seria muito menor se os Aliados fizessem a invasão.

Se os argumentos contrários ao lançamento da segunda bomba são tão importantes quanto os favoráveis é difícil dizer; o espaço de tempo de três dias não foi muito longo. Mas, em ambos os casos, essas ações contribuíram decisivamente para que o imperador e o grupo favorável à paz insistissem com mais vigor para que se pusesse fim à guerra. Na verdade, é provável que o extremado fanatismo dos militaristas japoneses seja o argumento mais poderoso em favor do lançamento da bomba. O fato de terem alguns deles, mesmo depois das bombas, lutado pela continuação da guerra não deixa dúvida de que, com bombardeio aéreo e bloqueio naval ou sem eles, os militaristas não se arredariam de seus pontos de vista - iriam até que tudo se acabasse. O que as bombas fizeram foi provocar um choque psicológico e físico e oferecer a todos, exceto aos militaristas ferrenhos, uma razão para se renderem salvando as aparências; nem mesmo o Samurai poderia opor-se às bombas atômicas. É por esta razão, o poder e a determinação dos militaristas, que se desconfia de que até mesmo as declarações publicamente feitas de que seria respeitada a continuação da dinastia imperial teriam sido insuficientes para fazer com que o governo japonês se rendesse incondicionalmente sem grandes convulsões internas e um grande atraso.

A conclusão de dois escritores que estudaram pormenorizadamente o problema parece muito equilibrada: "Até que se descubram provas em contrário, a decisão de usar a bomba foi tomada de boa fé, não para desencadear uma arma de vingança contra um inimigo implacável, mas basicamente para pôr fim a uma guerra bárbara e, em segundo lugar, para se obter os benefícios a uma guerra bárbara e, em segundo lugar, para se obter os benefícios de uma vitória oportuna". (Giovannetti e Freed, The Decision to Drop the Bomb). É irônico refletir, porém, que embora a decisão de lançar a bomba causasse, na época, problemas e apreensões entre os líderes aliados e fosse altamente eficaz em terminar a guerra com a rapidez desejada, a criação deste tipo de arma deixou um legado que não é nem honesto nem tranqüilizador. Em última análise, todos compreendemos que os "benefícios" obtidos com o uso das bombas em 1945 vêm sendo superados pelos problemas que sua inquietante existência nos tem imposto.