domingo, 2 de maio de 2010

A Invasão da África

Operação "Tocha"

O destróier de vanguarda alcançou o porto; ao penetra-lo, tudo estava quieto. Então, enquanto singrava tranqüilamente suas águas calmas, as trevas da noite explodiram em fogo e aço, quando os pesados canhões de costa, as metralhadoras nos penhascos e os fuzis dos cais despejavam cargas mortíferas em sua direção. Era a resposta à grande questão: os franceses iam lutar!

Uma invasão desnecessária ?

A tomada da África do Norte pelos Aliados, em fins de 1942, tem sido descrita de várias maneiras: um golpe bem sucedido contra o regime francês de Vichy, que controlava as colônias norte-africanas da Argélia e Marrocos; uma tática diversiva perdulária, desperdiçando tempo e homens numa área periférica do esforço de guerra; e uma tentativa estrategicamente marginal, mas necessária para aplacar os nervos dos russos enquanto inviável, em 1942 ou mesmo em 1943, a ofensiva contra a "Fortaleza Europa". A "Operação Tocha" foi por certo tudo isso. Se 1940 foi o mais negro período da guerra para a Grã-Bretanha, 1942 marcou o renascimento das esperanças de todos os Aliados em alcançar a vitória contra as Potências do Eixo. No começo do ano deu-se a queda do Sudeste Asiático para o Japão, após o desastre de Pearl Harbor. Soldados alemães aproximavam-se de Suez e estavam às portas de Moscou. Pelo fim do ano, embora contido, o Eixo não sofrera nenhuma derrota incapacitadora. Os Aliados não tinham obtido ainda ganhos territoriais importantes. A opinião pública, sobretudo na União Soviética e nos Estados Unidos, ansiava por boas notícias, depois de meses de derrotas e retiradas. Assim que os Estados Unidos entraram na guerra, Stalin pressionou mais fortemente, com o objetivo de aliviar o impacto dos soldados alemães sobre território russo, pela abertura de uma segunda frente contra Hitler no continente europeu. Embora a ajuda prevista na Lei de Empréstimo e Arrendamento já estivesse chegando dos Estados Unidos e, aliás, os britânicos, apesar de sua grande necessidade de maquinaria, tivessem enviado suprimentos limitados de equipamento para a Rússia, a máquina militar nazista continuava avançando. O tradicional aliado da Rússia, o General Inverno, ajudara a deter o ímpeto da blitzkrieg, mas era inevitável uma ofensiva de primavera. A Rússia precisava fosse feito um ataque que obrigasse a Alemanha a deslocar tropas que fatalmente investiriam contra a já tênue linha de resistência de Stalingrado e Moscou.

O que Stalin não poderia deixar de perceber é que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha eram totalmente incapazes de montar um ataque no continente europeu em 1942. Durante todo o ano, houve concentração de homens e suprimentos na Grã-Bretanha, mas a Muralha Ocidental, o perímetro defensivo da Alemanha ao longo da costa atlântica, tinha uma reputação difícil de ignorar. Embora os acontecimentos subseqüentes provassem que as defesas costeiras da Alemanha não eram inexpugnáveis, Churchill e Roosevelt não tinham certeza de obter sucesso num ataque à França ou aos Países Baixos, sobretudo porque a Marinha dos Estados Unidos e sua crescente força aérea tinham de multiplicar esforços no sentido de impedir que o Havaí caísse nas mãos do Japão. A máquina de guerra dos Estados Unidos já estava em pleno funcionamento, mas ainda não se tinha transformado no colosso em que se converteu. O ensaio de uma invasão do continente, as incursões de Dieppe, foi um desastre monumental. A lição recebida impedia que os Aliados ocidentais se atrevessem a ofensivas que não fossem maduramente pensadas e preparadas, a menos que a coisa fosse realmente muito sopa. Nem Churchill nem Roosevelt podiam correr o risco de vir a desferir um golpe sério no moral do povo com uma invasão mal feita na Europa. Contudo, era preciso fazer algo. Em meados do verão de 1942, os russos pareciam estar à beira da derrota. Foi nessa atmosfera que se decidiu invadir a África do Norte.

Esta região fazia parte do império colonial francês e, como tal, passara automaticamente ao controle do regime-títere de Vichy, que substituíra a Terceira República, após a queda da França. Embora o regime francês livre, de De Gaulle, sediado em Londres, esperasse atrair as colônias para a sua causa, poucos haviam respondido ao "canto de sereia" do grand Charles. De sua parte, os Estados Unidos haviam mantido tênue relação com Vichy até o ataque a Pearl Harbor, e esse namoro com o títere de Hitler se tornaria um fator vital no sucesso da "Operação Tocha". Muitos membros do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos viam a idéia de um desembarque na África do Norte Francesa com certa apreensão. Se os franceses resistissem e os alemães os apoiassem, os Aliados ocidentais se veriam a braços com um conflito no lugar errado, no momento errado e contra o inimigo errado. Embora Robert Murphy, o "diplomata entre guerreiros", tivesse trabalhado longa e arduamente com colaboracionistas franceses em potencial, dentro das fileiras de Vichy, não se sabia com certeza se eles agiriam ou não na hora azada. O General Marshall temia um fracasso e era por um ataque geral à África do Norte, de modo a impedir que informações vitais passassem dos colaboracionistas em potencial para o Alto-Comando nazista. Concordou-se em que os franceses só saberiam dos detalhes no último minuto e decidiu-se atacar a África do Norte em fins de 1942, de modo que, pelo final do ano, os Aliados ocidentais estariam combatendo soldados nazistas em lugar de adiar a invasão do continente até 1943. Se a África do Norte pudesse ser tomada sem muitas dificuldades, o Afrika Korps de Rommel se veria entalado entre os americanos, em Marrocos e na Argélia, e os britânicos de Montgomery, no deserto líbio.

Havia outro problema. A esquadra francesa, presa valiosíssima, ainda podia cair em mãos aliadas, desde que o trabalho da diplomacia fosse bem sucedido. O assenhoreamento dos navios franceses pelos nazistas, se os Aliados não agissem prontamente para tomá-los, transformaria a invasão dos Aliados, ainda que muito bem concluída, num triunfo parcial dos nazistas. Assim, a cooperação do Almirante Darlan e a de seu adversário político, De Gaulle, eram necessárias para a conquista de resultados máximos. Não é de espantar que quando se desfechou a "Operação Tocha", no começo de novembro de 1942, Churchill, De Gaulle e até mesmo os franceses que na África do Norte estavam dispostos a abraçar a causa aliada, quando chegasse o momento, partilhassem as apreensões de Marshall. Portanto, a história da "Operação Tocha" não é apenas a narrativa de uma invasão militar mas também da intriga política e diplomática que possibilitou esse golpe. Os olhos de Stalin estavam sobre os Aliados quando suas forças desembarcaram nas praias norte-africanas. Da "Operação Tocha" dependia, além do moral público; a fé dos russos na sinceridade dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha em realizar uma guerra ativa contra Hitler. A partida foi vencida, contra enormes desvantagens. Contudo, a desconfiança de Stalin, apesar da "Tocha" e de El Alamein, não foi aplacada. Em vez disso, a dúvida que Stalin e De Gaulle tinham dos anglo-saxões aumentou graças à "Operação Tocha". Mas o mesmo aconteceu com as chances aliadas de uma vitória contra o Eixo.





Triângulo de Confusão

A 6 de novembro de 1942, o Almirantado francês em Vichy soube que um grande comboio britânico passara pelo Estreito de Gibraltar, rumo ao leste. Comunicados idênticos chegaram à Comissão Franco-Alemã do Armistício, em Wiesbaden, e aos Altos Comandos alemão e italiano. Naquele dia, as notícias vindas do Egito foram ruins: o alquebrado Afrika Korps estava de volta à fronteira líbia, tentando fugir ao 8o Exército britânico. Sem saber ao certo se a força naval britânica se destinava a ajudar Malta, atacar a Sardenha ou a Sicília, ou atacar Rommel pela retaguarda, desembarcando na Tripolitânia, o OKW (Alto Comando Alemão) pediu ao governo francês de Vichy que não se opusesse a quaisquer movimentos que ele achasse necessário fazer "próximo da costa da Tunísia".

Em Vichy, a confusão era total. Antes que o governo se pudesse reunir, e sem consultar a ninguém, o Almirante Auphan, Ministro da Marinha, recusou a permissão de desembarque de tropas do Eixo, mas consentiu no lançamento de minas em águas tunisianas, contanto que "feito discretamente", dando a garantia de que, "como de hábito, não passaremos informações aos inimigos do Eixo". Algumas horas mais tarde ele ordenou que unidades de caças e antiaéreas francesas não atacassem aviões alemães que sobrevoassem a zona desocupada da França na direção do Mediterrâneo; também deu ordens à marinha, em Argel, que realizasse reconhecimento aéreo para localizar o comboio e transmitir a informação ao Eixo. À meia-noite de 7 de novembro, o OKW enviou uma mensagem através de Wiesbaden oferecendo colaboração militar alemã, em particular apoio aéreo, no caso de um desembarque britânico na África, se o governo francês a solicitasse. Sem esperar pela reunião do gabinete de Vichy, Auphan telegrafou para Argel: "O OKW oferece apoio aéreo do Eixo, vindo da Sicília e da Sardenha. Em que forma e onde desejam esse apoio?" A resposta recebida foi: "Apoio contra os transportes ao largo de Argel". A primeira providência para a colaboração com a Alemanha foram tomadas antes que o Gabinete francês se reunisse. Quando este finalmente se reuniu, às 11:00 h de 8 de novembro, os alemães insistiram para que aceitassem de imediato o oferecimento. O Primeiro-Ministro Pierre Laval tentou evitar um compromisso direto, contemporizar e manobrar; mas o processo que levava inexoravelmente ao fracasso do regime de Vichy começara.

Até o anoitecer de 7 de novembro, os comboios prosseguiram calmamente para leste, sem dar indícios sobre seu destino. O General Juin, comandante das forças armadas francesas na África do Norte, estava na Villa des Oliviers, onde morava, num subúrbio de Argel, quando um membro do seu Estado-Maior lhe telefonou, dizendo: Robert Murphy, cônsul-geral dos Estados Unidos em Argel, queria vê-lo urgente. E era mesmo. Em pouco, um entusiasmado Murphy estava no gabinete do general, informando-o de que os americanos estavam desembarcando na área de Argel, naquela mesma noite, em resposta a um apelo feito ao governo americano pelo General Giraud, que chegaria a Argel a qualquer momento. Na verdade, os desembarques já tinham começado.

Para Juin, foi um momento difícil. Ele era uma das altas-patentes francesas favoráveis à causa dos Aliados. (Libertado da fortaleza de Königstein em junho de 1941 por insistência do General Weygand, e nomeado Comandante-Chefe na África do Norte em novembro daquele ano, ele preparara planos secretos para frustrar qualquer tentativa de invasão do Eixo na Argélia ou Tunísia). Havia apenas três semanas que Murphy dissera a Juin, numa reunião secreta, que os Estados Unidos estariam dispostos a dar apoio militar aos franceses na África do Norte a qualquer momento, mas somente mediante solicitação do governo francês de Vichy. Agora eles haviam chegado repentinamente, em resposta ao apelo de um general francês que escapara arrojadamente da prisão na Alemanha - Giraud era realmente muito respeitado nos círculos militares, mas não tinha qualquer autoridade formal, que as forças armadas francesas pudessem reconhecer. Embora Juin fosse comandante do exército na África do Norte, o Almirante Darlan, seu superior, e comandante supremo das forças francesas, por acaso estava em Argel, tendo chegado de repente, havia dois dias, para visitar seu filho, gravemente enfermo de poliomielite.

Juin não podia fazer nada, com base em sua autoridade, com Darlan no local; ele estava ofendido com a falta de confiança dos americanos, irritado com o que considerava ingenuidade deles. Darlan, hospedado ali perto, foi chamado. Quando chegou, minutos depois, foi informado e ficou tremendamente irritado. Nesse momento, descobriram que o telefone da Villa tivera sua linha cortada; os jardins estavam ocupados por homens armados não-identificados e não demoraram a saber que os comandantes do exército e da força aérea de Argel, bem como o prefeito da cidade, haviam sido presos
por algumas forças não-autorizadas. Enquanto falavam, as luzes da cidade apagaram-se e sons de disparos, vindos da baía, foram ouvidos. Darlan solicitou que lhe permitissem informar ao Marechal Pétain, com o que Murphy concordou. Juin insistiu na libertação dos comandantes franceses e no restabelecimento da sua cadeia de comando. Era preciso fazer tudo para evitar a eclosão de hostilidades entre as forças francesas e os americanos que estavam desembarcando naquele momento; e somente ele próprio poderia fazê-lo. Assim começaram quatro dias de negociações entre os franceses de Vichy, os franceses pró-aliados e os americanos, uma quadrilha dançada em movimentos lentos e solenes, entremeados de elementos de farsa, e que decidiriam toda a seqüência de acontecimentos na África do Norte.

Iniciara-se a operação que dava a primeira esperança verdadeira de libertação aos povos da Europa Ocidental, muito adequadamente batizada de "Tocha".

A "Tocha" foi a primeira grande operação anfíbia realizada pelos Aliados ocidentais, nascida para atender a duas necessidades prementes surgidas na primeira metade de 1942: a resolução de problemas de estratégia militar e o atendimento de necessidades políticas urgentes, internacionais e internas.

Por outro lado, a realidade das condições navais e terrestres dos Aliados pesou definitivamente em favor da "Operação Tocha", em contraposição a um ataque mais direto à Europa.

Pouco depois da queda da França e da sua divisão em zona ocupada e em zona não-ocupada, sob um governo residente em Vichy, dirigido pelo Marechal Pétain, os britânicos esboçaram planos para mandar forças para Marrocos, Argélia e Tunísia, com o objetivo de repor os franceses na guerra. Mas a oportunidade de aplicar esses planos não viria enquanto a Grã-Bretanha estivesse só. Nos últimos dias de 1941, após o ataque japonês a Pearl Harbor e a entrada dos Estados Unidos na guerra, Roosevelt, Churchill e seus Estados-Maiores haviam concordado, na "Conferência Arcadia", em Washington, no planejamento conjunto da guerra; numa estratégia combinada, dando prioridade à derrota da Alemanha; no desenvolvimento conjunto de recursos militares e econômicos; na concentração de grandes forças americanas no Reino Unido para o ataque à Europa; num desembarque na África do Norte Francesa e na criação de um comando combinado para o Pacífico Sudoeste. No começo de 1942, o Presidente Roosevelt anunciou o "Programa de produção para a Vitória": 45.000 aviões, 45.000 tanques, 20.000 canhões antiaéreos, 15.000 canhões antitanques, 500.000 metralhadoras em 1942, e quase o dobro em 1943, com 8 milhões de toneladas em navios mercantes no primeiro ano e 10 milhões no segundo. As perdas navais causadas pelos ataques japoneses haviam sido incapacitadoras, mas o poderio potencial para o futuro era vasto.

Contudo, "futuro" era a palavra atuante e os primeiros meses de 1942 foram de desastre após desastre. É verdade que durante os meses de inverno os exércitos soviéticos, a força principal para a derrota de Hitler, realizaram grandes ofensivas, limparam os acessos de Moscou e recuperaram muito terreno. Mas em janeiro Rommel, que fora repelido através da Cirenaica, reagrupara-se, retomara a iniciativa, frustrando uma planejada ofensiva britânica, reocupara Bengazi e avançara 480 km na direção do Egito, destruindo a 1a Divisão Blindada britânica. Em fevereiro, Cingapura caiu. No começo de março foi a vez das Índias Orientais Holandesas; pelo final de março, foi a Birmânia. Em fevereiro, todos os navios de um comboio de abastecimento para Malta foram afundados; só naquele mês os Aliados perderam 679.000 toneladas em navios mercantes, a mais alta em qualquer mês da guerra até então.

As forças britânicas do Oriente Médio haviam sido enfraquecidas por transferências de tropas para a Índia, no esforço de deter os nipônicos. Estas tinham de ser substituídas e reforçadas. Diante dos avanços que os japoneses realizavam no Pacifico, os Estados Unidos tiveram de transferir para lá forças navais do Atlântico, enfraquecendo as defesas contra os submarinos. De um modo geral, em abril de 1942 o futuro parecia negro. Somente uma coisa era certa: a força, a longo prazo, das potências que se uniam contra Hitler. Nesse momento sombrio, o Presidente Roosevelt enviou seu Chefe do Estado-Maior do Exército, General Marshall, e seu assistente especial, Harry Hopkins, a Londres, para discutirem com os britânicos um plano para a tomada da ofensiva contra a Alemanha na Europa Ocidental: a primeira grande ofensiva conjunta pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha. "Somente lá", disse o Presidente, "é que seus recursos combinados, terrestres e aéreos, poderão ser desenvolvidos plenamente, para que se dê à Rússia o máximo apoio".

A proposta principal era desembarcar na costa francesa em abril de 1943, com 30 divisões americanas (9 blindadas) e 18 britânicas (três blindadas), 5.800 aviões e cerca de 7.000 barcaças de desembarque. Para transportar a força e o equipamento necessários da América para o Reino Unido, 60% dos transportes seriam de outras nacionalidades que não americana. Paralelamente ao preparo da operação principal, cuja montagem demoraria um ano, deveria ser feito um plano de ação imediata, com as forças disponíveis, se houvesse repentina desintegração das linhas alemãs, ou se a resistência russa aos seus ataques corresse o perigo de colapso.

Esse plano revelava no arrojo de sua concepção a certeza do Presidente de que a derrota da Alemanha tinha de ser o objetivo principal e demonstrava o desejo que tinha de ver forças terrestres americanas lutando ao lado dos britânicos contra os alemães. Neste sentido, Churchill e os chefes de Estado-Maior britânicos acolheram o plano; mas também achavam que ele ignorava fatores vitais, em particular a necessidade de impedir que os japoneses chegassem à Índia, e deixava pendente uma grande pergunta: o que as forças americanas e britânicas estariam fazendo entre abril de 1942 e abril de 1943 enquanto se concentravam para atacar a Europa? Elas não podiam simplesmente gastar o tempo preparando-se e observando os russos lutarem.

Foi aventada uma operação limitada, como ação intermediária, à tomada de uma cabeça-de-ponte em Cherbourg, no começo de outubro, como preliminar dos desembarques principais, a serem feitos na primavera seguinte. Outra sugestão apresentada preconizava um desembarque na África do Norte Francesa, como já se discutira. Uma terceira, sugerida por Churchill, era desembarcar no norte da Noruega, que ele via como o único método de ação militar capaz de oferecer às forças soviéticas cooperação efetiva. Nessa época, os acontecimentos na Frente Oriental influenciavam militar e politicamente todo o planejamento americano e britânico. Conseguiriam os alemães, arrancando através do Cáucaso, unir-se aos japoneses na Índia quando reiniciassem os ataques na primavera e no verão? Sucumbiria a Rússia à tensão e seria obrigada a celebrar uma paz em separado com os alemães? Ou seriam os alemães repelidos? Entrariam os alemães em colapso diante da resistência e do contra-ataque soviéticos? O resultado dessas grandes batalhas seria decisivo para o desfecho da guerra. Todo o planejamento anglo-americano tinha de levar em conta a possibilidade de despachar a maior quantidade possível de equipamento de guerra para a União Soviética e a ação de emergência, caso as coisas saíssem excepcionalmente bem ou excepcionalmente mal na Frente Oriental.

Esses problemas militares, de si muito sérios, eram ainda complicados pela política. Independente da terrível realidade militar, não se podia sequer pensar em deixar transcorrer um ano com os russos lutando e os aliados ocidentais aparentemente de braços cruzados, treinando para uma ofensiva a concretizar-se num futuro distante. Aos olhos dos neutros, das nações ocupadas e dos povos ameaçados pela expansão da guerra, tal inatividade não seria compreendida, ou melhor, seria interpretada como uma forma de consentimento a que a União Soviética sangrasse até a morte, coisa que repugnava aos sentimentos do povo britânico, que admirava a luta dos soviéticos e compreendia que em última análise, a sua heróica resistência estava salvando a Grã-Bretanha; a pressão política em favor de ação militar direta em apoio dos russos aumentou sistematicamente durante todo o ano de 1942. Nos Estados Unidos havia, naturalmente, marcante sentimento popular em favor de um ataque ao Japão o mais breve e eficazmente possível; apesar disso, o governo americano inclinara-se prioritariamente para a derrota da Alemanha; mas um longo período de inatividade teria diminuído a resistência ao desejo de travar primeiro guerra ao Japão. Na Austrália e na Nova Zelândia, cujos soldados haviam desempenhado papel tão relevante na luta contra os alemães e italianos, no Egito e na Cirenaica, o povo estava naturalmente preocupado com o crescente perigo do avanço japonês no Pacífico.

Em princípio, os britânicos aceitaram o plano proposto pelo Presidente Roosevelt, salientando, no entanto, que ele não deveria pôr em risco a resistência ao Japão e, em especial, a defesa da Índia. Concordaram em iniciar imediatamente o planejamento conjunto para o desembarque de forças americanas e britânicas na Europa na primavera de 1943, embora abrigassem dúvidas terríveis sobre a sua viabilidade.

Com o intuito de aperfeiçoar a coordenação do movimento, Roosevelt e Churchill solicitaram a Stalin que enviasse representantes às discussões que se realizavam em torno do planejamento da guerra. Em maio, Molotov, então Ministro do Exterior, visitou a Inglaterra, foi aos Estados Unidos e retornou à Rússia, passando de novo pela Inglaterra. Resultaram principalmente dessa visita um Tratado de Aliança entre a Grã-Bretanha e a URSS e a declaração pública de que "se chegara a pleno acordo com relação à urgente abertura de uma segunda frente na Europa em 1942" - empreendimento de sérias conseqüências políticas. Assim, nos dias sombrios de abril de 1942 tomaram-se as primeiras providências para virar a sorte contra Hitler na Europa Ocidental. Os Estados-Maiores Conjuntos de planejamento americano-britânico foram criados. A tarefa principal do órgão consistia em planejar o grande ataque através do Canal da Mancha, mas a ele também cabia preparar com velocidade algumas ações intermediárias, antes do fim de 1942. Logo se tornou claro que os britânicos tinham opiniões diferentes a respeito. O General Marshall era francamente favorável ao plano de uma cabeça-de-ponte na Bretanha. Os britânicos preferiam a África do Norte.

Essas divergências levaram a certa tensão entre americanos e britânicos. Entre os americanos importantes, sobretudo o General Marshall, havia uma crescente desconfiança de que os britânicos não eram totalmente favoráveis à invasão pelo Canal da Mancha, estando mais preocupados em defender seus interesses imperiais. Parecia que os britânicos, Churchill em particular, estavam sempre procurando alternativas "não muito honestas" que ocultavam alguns objetivos políticos a longo prazo, e a preocupação que revelavam com o Mediterrâneo, o Oriente Médio e a Índia levava à dispersão de esforços que impedia a concentração de forças para um ataque decisivo.

Os britânicos, embora acolhessem felizes o espírito ofensivo e a determinação dos americanos, consideravam-nos mal informados a respeito da realidade militar. Palavras rudes nesse sentido foram escritas pelo Chefe do Estado-Maior Imperial, como: "Não era possível levar muito a sério os 'castelos no ar' de Marshall... Estávamos à beira do desastre total. A Austrália e a Índia estavam ameaçadas pelos japoneses; havíamos perdido temporariamente o controle do Oceano Índico; os alemães ameaçavam a Pérsia e nosso petróleo; Auchinleck estava em situação precária no deserto, e os afundamentos por submarinos eram enormes... carecíamos desesperadamente de navios mercantes e não podíamos preparar operações de vulto sem navios adicionais. Estes só poderiam ser obtidos abrindo-se o Mediterrâneo e salvando um milhão de toneladas pela eliminação da rota do Cabo da Boa Esperança".

Enquanto o prolongado debate continuava através do Atlântico, os Aliados sofreram outra série de reveses, alcançando Hitler o ponto culminante do sucesso. No fim de maio, os exércitos alemães atacaram na África e na frente russa. A 21 de junho, Tobruk caiu. A 23 de junho, quase 300 divisões abriram caminho na direção do Volga e do Cáucaso. A 24 de junho, Rommel cruzou a fronteira do Egito; por volta do dia 30, chegou às trincheiras de El Alamein, onde o 8° Exército Britânico finalmente resistiu, a apenas 64 km de Alexandria. A 23 de julho a ofensiva para o Volga e o Cáucaso foi reiniciada. No começo de agosto os alemães alcançaram os campos petrolíferos a oeste do Cáucaso (encontrando-os destruídos). Em meados de setembro, Stalingrado foi sitiada, chegando-se à grande crise da guerra.

As perdas no mar aumentavam. Nos dias 14 e 15 de junho, dois comboios tentaram chegar a Malta - um vindo do oeste, outro, do leste. Dos 17 navios, apenas dois chegaram à ilha. No final de junho, dois terços de um comboio que transportava suprimentos para a União Soviética foram afundados. Na primeira semana de julho, perderam-se 400.000 toneladas de navios mercantes no Atlântico.

Do outro lado do mundo houve um sucesso importante - a derrota dos japoneses em Midway, que alterou a situação estratégica no Pacífico, causando também sérias perdas à Marinha dos Estados Unidos, o que levou o Almirante King e os líderes da Marinha Americana a pensar um pouco mais, ainda que momentaneamente, no Pacífico que na frente européia. No começo de agosto, forças americanas desembarcaram em Guadalcanal e Tulagi, nas Ilhas Salomão. Foram precisos seis meses para expulsar os japoneses e outro imenso sacrifício em navios de linha e transportes. Só nos primeiros dias da ofensiva os americanos perderam quatro cruzadores.

Enquanto isso se verificava, a principal preocupação dos britânicos era concentrar forças no Egito e defender Malta, com o objetivo de assegurar a posse do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que criavam, no Reino Unido, condições para que dali saísse o grande ataque à Europa. Os russos travavam enormes e desesperadas batalhas, suportando grandes baixas e voltando-se para seus aliados no Ocidente não só em busca de suprimentos como também de apoio efetivo. Os americanos estavam multiplicando suas indústrias e treinando milhões de homens para participar decisivamente da guerra. No entretempo, esforçavam-se por deter os japoneses no Pacífico, ardendo de ansiedade pelo momento de combater os alemães, previsto para antes do fim de 1942.

Aí pelo começo de julho, o desacordo entre os Chefes de Estado-Maior americanos e britânicos havia criado um impasse, achando os primeiros que a maneira melhor e mais direta de atacar os alemães e aliviar a pressão sobre os russos seria através da tomada de uma cabeça-de-ponte no norte da França, em setembro de 1942 (esse projeto chamava-se "Malho"), e os britânicos, que isto seria um convite à derrota para os exércitos alemães, que eram maiores e mais bem equipados; eles estavam convencidos de que, nessa época, não haveria número suficiente de barcaças de desembarque ou suficiente apoio aéreo de longo alcance, advogando a idéia de que era essencial limpar o Mediterrâneo, para apertar a corda no pescoço do Eixo.

Nesse estágio havia o perigo de virem os Chefes de Estado-Maior americanos a afastar-se da estratégia de a Alemanha primeiro, para lançar o que pudesse no Pacífico. A pressão para isto, por parte do Almirante Ernest King, Comandante-Chefe da Marinha e Chefe das Operações Navais, estava sempre presente: ele concordara com a prioridade para a Europa, mas não a aceitava; sua preocupação principal era sempre o Japão. A situação foi resolvida pelos dois líderes políticos. Churchill abordou diretamente Roosevelt, salientando a impossibilidade - na sua opinião - da cabeça-de-ponte no norte da França e as vantagens, políticas e estratégicas, de um desembarque na África do Norte Francesa. Numa deferência às opiniões do seu próprio Estado-Maior, Roosevelt fez um último esforço para mudar o ponto de vista britânico, mandando Marshall, King e Hopkins a Londres para defender o ponto de vista americano. Os britânicos não queriam ceder. Eles estavam em boa posição para impor seus pontos de vista, porquanto qualquer operação contra a costa européia, na data proposta, teria de ser, em grande parte, britânica, pois somente pequeno número de soldados americanos poderia estar preparado.

Aceitando a posição britânica, o Presidente Roosevelt enviou novas instruções ao seu Estado-Maior: este deveria chegar a um acordo sobre alguma operação a ser iniciada em 1942. Das várias alternativas, ele deu prioridade à ocupação da África do Norte Francesa. Os Chefes de Estado-Maior americanos concordaram em que seria melhor usar tropas americanas na África Noroeste do que enviá-las para o Oriente Médio. Com certas reservas, admitiram que o planejamento da "Operação Tocha" se iniciasse imediatamente em Londres. O Presidente ignorou essas reservas e, a 25 de julho, comprometeu os Estados Unidos incondicionalmente.

Depois da guerra, o General Eisenhower escreveu que os acontecimentos posteriores o haviam convencido de que "os que na época consideraram a 'Operação Malho' insensata estavam corretos na avaliação que fizeram do problema". Os aviões, de limitado raio de ação, então disponíveis não poderiam realmente proporcionar cobertura aérea perfeita. Ademais: "da operação no noroeste africano fluíram benefícios para as nações aliadas que foram sentidos durante toda a guerra e ajudaram materialmente a conquistar a grande vitória quando se deu a verdadeira invasão, em 1944".

Depois de muito desacordo, exasperação e desconfiança, desencadeados pela dura realidade da logística - processo que recebeu a influência da obstinação de Churchill e da visão de Roosevelt - americanos e britânicos chegaram afinal a uma decisão que poderia dar as maiores vantagens estratégicas e políticas com as forças e meios disponíveis. A política desempenhara importante papel na decisão adotada e desempenharia outro ainda maior no planejamento e execução.

A decisão sobre a forma que a operação deveria tomar, a escolha das tropas de desembarque e a nacionalidade do comandante-chefe foi puramente política e assim deveria ser; os territórios a serem ocupados e seu regime interno impunham isto sos Aliados. Quando a França se esboroou ante a arremetida nazista e, usando o prestigio do provecto "herói de Verdun", o Marechal Pétain, os derrotistas que se encontravam à frente do governo capitularam e cooperaram secretamente na divisão do pais; as possessões norte-africanas, Marrocos, Argélia e Tunísia, adquiriram importância especial, prática e emocional para os franceses colaboracionistas. Praticamente, elas eram importantes para preservar uma espécie de padrão de vida na França desocupada; emocionalmente, serviam para manter a ilusão de soberania e grandeza imperial francesas.

A França não foi apenas dividida geográfica e politicamente entre zona ocupada pelos alemães e zona governada por franceses; houve profundas dissensões internas. Muitos franceses, jamais aceitando capitulação, tentaram permanentemente encontrar meios de combater e frustrar os alemães. Outros, embora contrários, aceitaram a situação por não verem outra saída exceto esperar por tempos melhores. Alguns viam vantagem em trabalhar no sistema vigente, por serem simpatizantes do nazismo ou porque o regime significasse a realização de seus interesses pessoais.

O governo de Pétain e Laval era, em essência, pró-fascista e colaboracionista. Mas o prestígio do Marechal e a fachada de independência que criou ajudaram muitos franceses a suportar o choque da derrota. Efeito amargo do trágico acontecimento foi criar em alguns franceses sentimento de ódio contra o ex-aliado britânico que continuava lutando; e esse sentimento foi intensificado quando os britânicos tomaram ou destruíram grande parte da esquadra francesa, para que não viesse a cair em poder dos alemães e que, em suas operações contra a Alemanha, atacaram as possessões francesas de Dakar e Síria.

Para muitos franceses, Pétain simbolizava pelo menos a permanência da identidade francesa e, quem sabe, a possibilidade de independência no futuro. Isto se aplicava particularmente aos oficiais da marinha, do exército e da força aérea, que fizeram um juramento de fidelidade pessoal para com o Marechal como chefe do estado. Em parte alguma esses sentimentos em relação ao Marechal eram mais fortes do que na África do Norte. Até mesmo aqueles que sinceramente desejavam a derrota dos alemães, que eram maioria no seio da oficialidade do exército francês, ainda se consideravam rigidamente ligados a Pétain pela lealdade. Apesar disso, certos comandantes-de-exército tentaram conservar em boa forma as forças que puderam manter segundo os termos do armistício e conseguiram ocultar aos inspetores nazistas do armistício parte do equipamento que possuíam.

Outra complicação era a posição de De Gaulle e dos franceses combatentes. Alguns os acolhiam e mostravam-se dispostos a apoiá-los; mas para a maioria, pelo menos dos oficiais, eles eram vistos como traidores.

Muito diferente era, no entanto, a relação de Vichy com os Estados Unidos. Quando Pétain formou seu governo, em junho de 1940, o governo americano, ainda neutro, o reconheceu e manteve-se em estreito contato com ele. Durante os dois anos seguintes, os americanos valeram-se desse contato para tentar neutralizar a influência alemã nos territórios coloniais franceses e impedir que o Eixo viesse a utilizá-los e se apoderar da esquadra francesa, internada em Toulon. Eles organizaram o abastecimento de quantidades limitadas de bens para uso da população civil na África do Norte Francesa e criaram uma rede consular especial para supervisionar esse trabalho, mas que funcionava ativamente como Serviço de Inteligência. Tudo isso era coordenado pelo Cônsul-Geral Robert Murphy, que mantinha estreito contato com os líderes do governo francês, com os comandantes militares e com as correntes favoráveis a De Gaulle que estivessem preparadas para agir em apoio dos Aliados. Ao abrigo do exercício do controle da ajuda econômica, os doze vice-cônsules econômicos de Murphy mantinham-se em contato com agentes secretos dos Aliados, participando de subversão e espionagem. Eles fizeram contatos valiosos com as organizações de resistência, através das quais colhiam informações necessárias ao planejamento das operações e os agentes que delas pudessem participar.

Naqueles anos de 1940 e 1941, a política dos Estados Unidos para com o governo de Vichy provocou certas dúvidas e criticas dentro do país, e muito mais na Grã-Bretanha. Nas fábricas e nas forças armadas, centros em que praticamente se resumia toda a atividade dos britânicos, não havia em geral tolerância para com tal política, tampouco para com aqueles que levaram a França à capitulação e para com o governo dela resultante, cujos membros, no consenso quase unânime dos ingleses, não passavam de covardes, de traidores que os deixaram sozinhos e com os alemães às portas. O governo britânico, porém, não compartilhava dessa opinião.

Para o Presidente Roosevelt, de cujas convicções democráticas a ninguém é lícito duvidar, tal política era desagradável, mas enquanto os Estados Unidos permanecessem neutros, era-lhe necessário levá-la a cabo. E ele soube colocar esse aparente semicolaboracionismo a serviço da causa aliada. O que os Aliados conseguiram desses dois anos de "ceias com o diabo" superou em muito quaisquer desvantagens políticas, bastando consignar a influência que teve no planejamento e nos resultados da "Operação Tocha". Os acontecimentos provaram estarem errados aqueles que a criticavam.

Nessa situação, era necessário que os desembarques nas possessões francesas da África do Norte parecessem operação inteiramente americana. Esperava-se que as forças francesas acolhessem a libertação e, na pior das hipóteses, fizessem apenas uma resistência simbólica, se os desembarques fossem americanos. Se fossem, no entanto, britânicos, os franceses quase que certamente lutariam.

Sobre isto, os Aliados estavam de acordo. É verdade que, na época, as forças que os Estados Unidos podiam oferecer eram relativamente pequenas, de modo que a maior parte das formações de combate teria de ser, nos primeiros meses, britânica. Contudo, os britânicos concordaram em que a liderança da operação coubesse a um americano e, assim que decidida a sua realização, propuseram o nome do General Marshall para comandá-la e para orientar o prosseguimento do planejamento para a invasão da Europa, no ano seguinte. Embora o acordo estabelecido, o homem nomeado foi o Tenente-General Dwight D. Eisenhower, nomeado apenas comandante supremo da "Operação Tocha", permanecendo temporariamente vago o comando da incursão contra a Europa. Naquela época, o nome de Eisenhower era praticamente desconhecido fora do exército americano. Ele chegara à Inglaterra, em junho de 1942, como comandante das forças americanas no teatro de guerra europeu e encarregado de ali organizar a formação de um grande exército americano, trabalhando em conjunto com os britânicos no planejamento da invasão da Europa. A 24 de julho decidiu-se pela realização da "Operação Tocha", embora, na época, os Chefes de Estado-Maior americanos não compreendessem que haviam sido finalmente comprometidos pelo Presidente. A 26 de julho, o General Marshall, que estava em Londres, comunicou a Eisenhower a sua designação para comandante-chefe da "Tocha". Muita formalidade teve de ser superada para que a designação fosse confirmada, o que se deu afinal em começos de agosto. Eisenhower recebeu a diretiva dos Chefes de Estado-Maior somente no dia 13 daquele mês - estabelecendo extensa operação anfíbia que seria levada a cabo em outubro.

Aí estava outra das características especiais dessa espantosa operação. Nascida de um longo processo de hesitação, desacordo e discussão, condicionada a sua aprovação por uma série de considerações de ordem essencialmente política, a mais ambiciosa operação de invasão marítima, a maior da história até então, tinha de ser planejada, organizada e montada em três meses. O planejamento, sob o comando de Eisenhower, começou praticamente sem que ele esperasse ser nomeado para comandá-la. Grandes atribulações marchetaram o desenvolvimento dos trabalhos de planejamento. Discordâncias entre os planejadores e chefes de Estado-Maior, entre chefes britânicos e americanos, a todo momento um atentado contra o sucesso da "Tocha". Apesar disso, a capacidade de organização dos americanos, a experiência e teimosia dos britânicos, a habilidade e o tato diplomáticos de Eisenhower - e a dose de sorte necessária a todos os grandes empreendimentos - produziram um sucesso triunfal; mas a sua realização dentro do prazo foi tarefa excessivamente árdua.


O Problema

Na diretiva dos Chefes de Estado-Maior Combinados a Eisenhower se continha a ordem para que "conseguisse, em conjunto com as forças aliadas do Oriente Médio, total controle da África do.Norte, desde o Atlântico até o Mar Vermelho". Isto seria realizado em três estágios. Primeiro, ele deveria estabelecer posições firmes e mutuamente apoiadas na área de Oran-Argel-Túnis, na costa norte, e na área de Casablanca, na costa noroeste. Em seguida, deveria explorar essas posições fortificadas para obter o controle completo de toda a área do Marrocos Francês, Argélia e Tunísia e, no caso de reação dos espanhóis, também do Marrocos Espanhol. Finalmente, ele devia operar para leste, com o objetivo de "completar o aniquilamento das forças do Eixo que enfrentavam as forças britânicas no Deserto Ocidental e de intensificar as operações aéreas e navais contra o Eixo no continente europeu".

A distância entre Casablanca e Túnis, por estrada é de 2.038 km. A área coberta pela diretiva era superior a um e meio milhão de quilômetros quadrados. À parte a costa bastante plana e aberta do Atlântico, a maior parte da região na direção do mar consiste de grandes cadeias de montanhas, altas e rochosas. Ao sul delas a terra vai-se transformando em deserto até que chega ao Saara. As praias da costa atlântica são batidas por ondas fortes, sendo raramente possível levar um barco até elas. A linha costeira do Mediterrâneo é quase toda rochosa. Fator essencial nas operações de desembarque é a obtenção imediata de algum tipo de porto que permita a manutenção e concentração de formações de combate, coisa inexistente nas praias dessas costas.

Para dar cumprimento a essa operação e levar as tropas necessárias à praia, seria preciso transportá-las por uma distância de 3.700 km, desde a Escócia, e 7.200 km, desde a costa leste dos Estados Unidos, bem como sincronizar a chegada aos pontos de ataque.

Os três países tinham uma população de quase 17 milhões de pessoas, a maioria delas residindo perto da costa e nas áreas próximas aos portos. O Marrocos e a Tunísia estavam nominalmente sob o domínio absoluto dos governantes nativos, Sultão e Bei, mas, na realidade, sob o controle dos Residentes-Gerais Franceses, apoiados pelo Estado-Maior francês e por forças armadas francesas. No Marrocos Francês, dos 6.500.000 habitantes, apenas 175.000 eram franceses; na Tunísia, dos 2.750.000 habitantes, 110.000 eram franceses. A Argélia era formalmente um departamento da França Metropolitana e muito mais integrada na economia e na política francesas. Dez por cento da população eram nativos ou cidadãos naturalizados franceses; o casamento entre franceses e argelinos era normal e reconhecido. Ao norte e oeste do Marrocos Francês situavam-se as áreas muito menores do Marrocos Espanhol e Tânger, e se esperava que elas permanecessem neutras.

Nos termos do acordo de armistício com os alemães, as forças armadas que os franceses podiam manter e o tipo de equipamento que podiam usar eram muito restritos. O controle disso não era fácil para os alemães e italianos. Tinha de haver algumas forças para manter o país devidamente controlado e para prevenir contra qualquer possível ataque da Grã-Bretanha ou dos Estados Unidos. Por outro lado, não se podia abrir aos franceses a possibilidade de alguma ação eficaz contra o Eixo.

Os termos do armistício limitavam as forças terrestres a 120.000 homens, cerca de 55.000 no Marrocos, 50.000 na Argélia e 15.000 na Tunísia. Elas eram principalmente unidades de infantaria nativas (tirailleurs), comandadas por oficiais franceses, soldados de boa qualidade, com vigorosa tradição militar, que demonstraram coragem e habilidade, mais tarde, na campanha tunisina. Havia também algumas unidades da Legião Estrangeira, Chasseurs d'Afrique, e Zuavos (franceses nascidos na África). As armas, munição e equipamento eram escassos e obsoletos. Permitia-se a manutenção de 12 unidades de artilharia de campanha motorizada, mas virtualmente sem qualquer canhão médio ou pesado. Para a cavalaria mecanizada havia entre 120 e 160 tanques obsoletos e 80 carros blindados no Marrocos, cerca de 110 tanques idênticos e 60 carros blindados na Argélia e 20 carros blindados na Tunísia.

Segundo um relatório que Eisenhower enviou a Marshall em meados de setembro, os efetivos operacionais da força aérea francesa na África eram de uns 500 aviões. "Nem os bombardeiros nem os caças são do tipo mais moderno", disse ele, "mas os caças têm desempenho superior aos utilizados em porta-aviões. Por conseguinte, se os franceses fizerem uma resistência decidida e unificada ao desembarque inicial, sobretudo se concentrarem o grosso da força aérea contra um dos dois portos principais, podem dificultar muito o desembarque naquele porto, se não impedi-lo".

Todos esses territórios eram mantidos sob controle militar direto. A partir de 1940, quando o General Maxime Weygand foi enviado para lá como Comissário-Geral, altos oficiais do exército e da marinha tomaram o lugar dos civis em quase todos os principais postos administrativos. Essa política foi intensificada ainda mais em 1942, por iniciativa do Almirante Darlan. Em novembro de 1942, o General Alphonse Juin era Comandante-Chefe das forças francesas na África do Norte. O Residente-Geral do Marrocos era o General Auguste Paul Noguès e, da Tunísia, o Vice-Almirante Jean-Pierre Estéva. Um civil, M. Yves Chatel, era o Governador-Geral da Argélia, mas seu gabinete era chefiado pelo Vice-Almirante Raymond Fenard.

Ainda havia forças navais importantes nos portos do noroeste africano. A principal esquadra francesa, objeto de ansiedade e desejo dos Aliados e dos alemães, ainda se encontrava em Toulon, no sul da França, onde ficara quando da capitulação, com o Almirante Darlan recusando-se a transferi-la dali para um porto britânico, africano ou americano. Em Bizerta e Oran, no Mediterrâneo, só havia destróieres, submarinos e barcos de pequeno porte; em Casablanca encontravam-se sete destróieres, oito submarinos, um cruzador equipado com canhões de 6 polegadas e o novo couraçado, Jean Bart que, embora não estivesse inteiramente pronto, podia disparar seus canhões. Em Dakar, na extremidade oeste da África, estavam o moderno couraçado Richelieu e mais três cruzadores.

Havia cinco aeródromos bons e cinco secundários no Marrocos, embora somente o de Port-Lyautey tivesse pistas de concreto. A Argélia dispunha de três aeródromos primários, perto de Oran, Argel e Bône, com outros menores em Blida, Sétif, Tafaroui, Constantine e Tébessa. A Tunísia possuía dois aeródromos primários e dois secundários, com vários campos operacionais na planície costeira.

A França permanecia dividida, com todo o norte e uma faixa da costa ocidental que ia até a fronteira espanhola ocupados pelos germânicos, com um Q-G alemão em Paris; e uma zona desocupada, cobrindo o centro e o sul da França, governada por Vichy. A Espanha pró-Eixo ainda estava formalmente neutra, embora repleta de agentes nazistas. Assim, a Alemanha não tinha contato direto com o Mediterrâneo pela França ou pela Espanha. No Mediterrâneo Central, as forças aéreas do Eixo demonstraram todo o seu poderio quando investiram contra um comboio que ia para Malta, em agosto. Neste ataque, nove dos 14 navios mercantes integrantes do comboio se perderam, por diferentes causas. O Ministério da Aeronáutica britânico previu que em fins de outubro haveria 395 aviões alemães e 530 italianos na Sardenha e na Sicília (os efetivos reais eram de 298 aviões alemães e 574 italianos). A maioria desses aviões estava a menos de 320 km de Túnis ou Bizerta.

A sincronização da operação e a escolha da data para o Dia "D" foram difíceis. Importantes fatores exigiam que o início do ataque se verificasse o mais breve possível. Por motivos políticos, Churchill e Roosevelt mostravam-se ansiosos por acender a "Tocha" sem mais delongas. Churchill sugeriu que fossem dadas ordens a Eisenhower para desembarcar a 14 de outubro o mais tardar, "com as tropas disponíveis e nos lugares que considerar adequados". Havia uma razão militar para a marcação da data do desembarque para o mais cedo possível: era probabilidade de, reduzindo-se a integridade da luta na Frente Oriental, com a chegada do inverno, no começo de novembro, os alemães transferirem tropas de lá para a Europa Ocidental. Ademais, a estação chuvosa na Argélia e na Tunísia começa em princípios de novembro; os vales se transformam em atoleiros e toda a terra cultivada impossibilita o movimento de veículos com lagartas. Era necessário estar em terra e até a Tunísia antes que isto acontecesse. Durante o outono haveria luta no Egito e far-se-ia novo esforço para repelir as forças do Eixo. Os atrasos prolongados também aumentariam muito o perigo de que os franceses viessem a saber dos planos.

Por outro lado, se a operação devia ser total ou principalmente americana, haveria necessidade de tempo para que se fizesse concentração e o transporte de tropas, manobras que demorariam, uma vez que quando se decidiu realizar a "Operação Tocha", a mobilização e o treinamento Exército, da Marinha e da Força Aérea dos Estados Unidos apenas começara. As únicas unidades americanas que haviam chegado à Irlanda do Norte eram a 34a Divisão (de Infantaria), a 1a Divisão Blindada e pequenos destacamentos da Força Aérea, e assim mesmo, parcialmente treinadas. Embora se esperasse que os franceses oferecessem ligeira oposição aos americanos, era essencial que a força reunida para o desembarque fosse tão grande e tão maciçamente equipada, inclusive com armas e tanques modernos, que se justificasse a expectativa de uma simples defesa simbólica e uma conquista rápida. As formações americanas tinham de ser despejadas em terra em grandes números e poderosamente apoiadas pela Força Aérea e pela Marinha, de forma a demonstrar desde logo a inutilidade de qualquer oposição. Era preciso tempo para isto; as formações necessárias ainda estavam sendo criadas e treinadas.

Governo algum jamais tentara realizar uma expedição marítima, envolvendo mil rés de quilômetros, para terminar num grande ataque seguido de desembarque. Eisenhower é quem melhor descreve a dificuldade que enfrentava: "Um dos nossos grandes problemas era determinar exatamente quantos elementos de terra, mar e ar estariam disponíveis para a operação. De ordinário um comandante recebe, juntamente com fixação do objetivo geral, a dotação definida de forças, para que possa elaborar seu plano estratégico, apoiado por detalhados programas táticos, logísticos e de organização. Neste caso, tudo era muito vago, a quantidade de recursos, o objetivo final etc. Declaradamente definido, só o ataque. A Marinha dos Estados Unidos, em particular, relutava em comprometer-se com uma estimativa dos vasos que poderia fornecer para a expedição. Era debaixo dessa enervante atmosfera de incerteza que tínhamos de trabalhar e planejar."

A escolha do local dos desembarques foi tão difícil quanto a fixação da data certa, afinal dependente daquela escolha. A situação geográfica tornava conveniente desembarcar as tropas o mais a leste possível, no Mediterrâneo. A única ferrovia de bitola-padrâo ali existente percorria uma distância de 960 km, desde a costa do Atlântico até Oran, mais 400 km até Argel e, finalmente, 800 km até Túnis. Outra ferrovia, esta de bitola estreita, ligava a Argélia central à costa tunisina. Havia duas rodovias pavimentadas, que corriam de leste a oeste e que eram capazes de suportar tráfego nos dois sentidos, com pontes com capacidade para até 25 toneladas. Uma dessas rodovias acompanhava a linha da costa mediterrânea e outra, paralela à primeira, situava-se bem mais para o interior. A região montanhosa não permitia que transportes a percorressem em qualquer direção. O equipamento ferroviário estava em más condições, os estoques de carvão eram reduzidos, e a África francesa não produzia nenhum. Para poder utilizar as ferrovias, os Aliados teriam de levar grande quantidade de material e equipamento.

Era essencial a tomada de portos utilizáveis logo no primeiro ataque. O de Casablanca surgia decididamente como o melhor na costa ocidental do Marrocos e servia a toda a África Noroeste, só que toda essa costa sofria o embate de grandes ondas vindas do Atlântico. Segundo os boletins mais otimistas, as barcaças só poderiam abeirar-se das praias apenas um dia em cada quatro, durante os meses de outubro e novembro. Na costa argelina, no Mediterrâneo, os melhores portos importantes eram os de Oran e Argel, com portos secundários utilizáveis mais a leste, em Bougie, Philippeville e Bône.

Quanto mais se penetrasse o Mediterrâneo, maior o risco de ataques das forças aéreas do Eixo. A questão da cobertura aérea ocupou grande parte do tempo de estudos e cálculos. Os comboios que se aproximassem pelo Atlântico precisariam de proteção; as forças de ataque teriam de contar com apoio aéreo e as unidades navais que iam no suporte dos elementos do ataque precisavam de proteção contra os aviões baseados em terra. Poucos porta-aviões estavam disponíveis e a única base terrestre das forças aéreas era em Gibraltar. A captura de aeródromos adequados nas primeiras 24 horas fazia-se, portanto, tão necessária quanto a obtenção dos portos.

Qualquer que pudesse ser a reação das forças francesas, era certo que os alemães agiriam tão logo soubessem o que estava acontecendo. Para eles, era apenas um pulo, da Sicília até a Tunísia. Os germânicos poderiam meter-se entre os exércitos aliados que avançariam da Argélia para o leste e o 8o Exército Britânico, que vinha lutando do Egito para oeste, a menos que a "Operação Tocha" evoluísse com rapidez suficiente para frustrá-los.

Considerando todos esses fatores, Bône destacava-se como objetivo conveniente por situar-se no extremo leste da área dotada de cobertura aérea. Argel era um porto importante e o centro do controle político, econômico e militar. O de Oran era outro, ligado aos muito necessários aeródromos, e, finalmente, Casablanca, por dispor de excelente terminal ferroviário e por ser politicamente importante no tocante ao controle do Marrocos e ao exercício de influência sobre a Espanha.

Mas as forças disponíveis não dariam para atacar os quatro objetivos. Na verdade, se se usassem apenas tropas americanas, a escolha teria de limitar-se a um porto ou, no máximo, dois. Embora tudo tivesse de parecer puramente americano, qualquer pretensão maior fatalmente teria de incluir forças britânicas. Demorado estudo dos vários fatores levou Eisenhower a inclinar-se por levar toda a sua força para dentro do Mediterrâneo. Ele considerava Túnis uma presa tão grande que os desembarques iniciais deveriam incluir Bône - situado a apenas 120 milhas aéreas da Túnis. "Entrar no Mediterrâneo sem estabelecer uma base em Casablanca implicava risco extra, mas eu achava que, já que estávamos arriscando tanto; poderíamos muito bem jogar tudo num número só, com a idéia de que Casablanca, quando isolada do leste, ou cairia sozinha ou seria capturada por colunas que retornariam de Oran pela estrada de ferro. Também fui influenciado pelos grandes riscos naturais implicados num desembarque em Casablanca."

Assim, em fins de agosto, o Estado-Maior de Planejamento Combinado enviou aos Chefes de Estado-Maior Combinados o Esboço do Plano do Comandante-Chefe para a operação que não incluía Casablanca e foi com base nesse esboço que teve início o planejamento detalhado.

Então, segundo palavras de Churchill, "Washington largou uma bomba", que suscitou nova divergência entre britânicos e americanos. Nas primeiras discussões, realizadas no verão, os Chefes de Estado-Maior americanos e importantes políticos tinham insistido num desembarque, em setembro, nas costas da França e manifestado a desconfiança de que os britânicos estivessem sendo tímidos e relutantes. Ao examinarem a possibilidade da "Operação Tocha", mostraram-se excessivamente cautelosos, por não desejarem o perigo de ter a Espanha em seu flanco; pareciam temer que, empenhando quaisquer forças em combate no Mediterrâneo, estariam "metendo a mão em cumbuca". Eles propunham que se limitasse a operação a um desembarque em Casablanca e se eliminasse qualquer ataque imediato na costa mediterrânea, ou pelo menos que não se fosse além de Oran. O planejamento foi suspenso repentinamente para que se resolvesse o problema surgido. Como acontece tantas vezes, a situação, embora muito séria, tinha o seu lado cômico. Os britânicos, pela boca de Churchill, pressionaram os americanos para fazê-los sentir a necessidade de se operar no Mediterrâneo. Eisenhower, o comandante supremo americano, partilhava desse ponto de vista e era favorável a que se ignorasse Casablanca. O General Alan Brooke, Chefe do Estado-Maior-Geral Imperial britânico, embora advogasse a inclusão de Argel nos planos, insistia também na inclusão de Casablanca, por sentir a necessidade de mais portos e por causa da ameaça aérea representada pela Sardenha e Sicília contra a tentativa de desembarque em Bône. O General Mark Clark registra que o Almirante britânico Lyster, "um oficial chistoso, escolhido para comandar os porta-aviões no Mediterrâneo durante a invasão", disse que o que era de fato urgente era "explorar, explorar, explorar", avançando para leste, para Túnis, à maior velocidade possível; ele sugeriu que se levassem os 5.000 soldados disponíveis em Malta imediatamente para Túnis, transportando-os em "bombardeiros despojados da sua aparelhagem".

A 27 de agosto Churchill enviou vigorosa mensagem a Roosevelt salientando a importância vital de Argel e o atraso que seria causado por qualquer mudança de plano. Respondendo, Roosevelt reiterou-lhe que os ataques iniciais tinham de ser feitos por uma força terrestre exclusivamente americana, certo de que este fato daria como resultado menor resistência por parte das forças francesas. "Eu me arriscaria a dizer que estou relativamente seguro de que um desembarque feito por britânicos e americanos resultaria em resistência total por parte de todos os franceses na África." Ele propôs fossem feitos desembarques simultâneos, por tropas americanas, em Casablanca e Oran, seguidos, uma semana depois, de ataques britânicos mais a leste. Ele não acreditava pudessem tropas aerotransportadas e pára-quedistas alemães chegar em grandes números a Argel ou Túnis até duas semanas após o ataque inicial.

Mas num aspecto importante o Presidente estava pisando em terreno falso. Embora fosse possível fornecer tropas americanas para esses desembarques, todos os navios mercantes e forças navais para Oran teriam de ser britânicos, e patrulhas aéreas britânicas cobririam o Mediterrâneo Ocidental. Churchill fez pleno uso destes dados em sua resposta.

Pensando melhor, Roosevelt modificou sua posição e propôs:

1. Desembarques simultâneos em Casablanca, Oran e Argel, usando soldados americanos (34.000) em Casablanca e Oran (25.000), e em Argel 10.000 soldados americanos para o desembarque na praia, seguidos, dentro de 24 horas, por soldados britânicos, para garantir o desembarque", desembarcando num porto "em navios não equipados para combate".

2. Para o desembarque em Casablanca a tropa sairia dos Estados Unidos e, para Oran e Argel, usar-se-iam unidades baseadas no Reino Unido.

3. Os Estados Unidos forneceriam cargueiros de combate para a força de Casablanca e transporte para as tropas subseqüentes, bem como transportes para 15.000 homens, mais 9 navios cargueiros para os soldados americanos sediados no Reino Unido.

4. Os Estados Unidos não poderiam fornecer mais forças navais além das já disponíveis no Atlântico.

5. As fontes britânicas têm de fornecer os navios mercantes necessários ao transporte das forças de Oran e Argel, exceto os transportes americanos já no Reino Unido e destacados para a "Operação Tocha", as tropas adicionais necessárias para o ataque a Argel e as forças de acompanhamento e "as forças navais necessárias para toda a operação, exceto a força naval dos Estados Unidos indicada acima".

Disso resultou um meio-termo aceitável para todos: desembarques simultâneos em Casablanca, Oran e Argel, mas não em Bône, com cargueiros de combate suficientes, retirados das forças de Oran e Casablanca para dar força adequada aos desembarques em Argel. A força de Argel seria mista, americana e britânica.

A 20 de setembro emitiu-se o plano baseado no meio-termo; a "competição transatlântica de ensaio" - palavras de Eisenhower - custara três semanas de atraso; a data marcada para o ataque não foi 14 de outubro, nem mesmo 30 de outubro, como se sugerira mais tarde, e sim 8 de novembro. Isto deixava sete semanas para completar o planejamento, organizar e montar a operação.

É certo que já se fizera grande parte do planejamento; mas qualquer alteração de plano envolvia imenso trabalho de mudança nos detalhes em todos os níveis. Por exemplo, para cada formação ou grupo, num desembarque, impõe-se que se pormenorize como cada homem e cada peça de equipamento devem ser embarcados num navio, de modo a ser desembarcado na ordem certa no local de destino. Toda vez que há uma mudança, tudo tem de ser revisto. Para dar um exemplo dos detalhes implicados, para cada grupo de brigada britânico incluído no ataque a Argel, a "tabela de desembarque" enchia 28 páginas datilografadas, relacionando 422 números de identificação, cada um destes especificando um grupo de soldados e seu equipamento, organizado na ordem em que cada grupo seria necessário na praia.

Com os objetivos e a data finalmente marcados, foi possível reiniciar-se o planejamento definitivo. A organização de Comando e Estado-Maior para isto foi formada das três forças armadas dos dois paises. Eisenhower desde o começo dos trabalhos de planejamento lutou pelo estabelecimento de uma organização integrada que não abrigasse sentimentos de inveja e discriminação de nacionalidades, e nisso sem dúvida reside a sua mais importante contribuição ao desenvolvimento harmonioso dos trabalhos dos Aliados de combate à agressão do Eixo. "Na organização, operação e composição do meu Estado-Maior, procedemos como se todos os seus membros pertencessem a um único país." A despeito de todas as dificuldades, ele se ateve a este conceito e o fez funcionar.

Para seu subcomandante Eisenhower escolheu o Major-General Mark Clark, que fora mandado para o Reino Unido para comandar o 2o Corpo Americano. De início, o plano previa a designação de um britânico para seu subcomandante, mas Eisenhower decidiu que, se algo acontecesse com ele, seu substituto deveria ser americano também, para conservar a "ficção de que a investida era exclusivamente americana". Como Chefe de Estado-Maior ele tinha o General-Brigadeiro Walter Bedell Smith, do secretariado dos Chefes de Estado-Maior Combinados, com sede em Washington.

Os Subchefes de Estado-Maior eram o General-Brigadeiro Gruenther (EUA) e o Brigadeiro Whiteley (Reino Unido); o principal oficial administrativo, Major-General Humphrey Gale, era britânico.

Tanto a estrutura de comando como o planejamento foram muito influenciados pelas duas mais notáveis características da "Operação Tocha", ou seja, o ataque a ser feito depois de milhares de quilômetros percorridos e as três operações de desembarque diferentes, separadas umas das outras por centenas de quilômetros, sendo que, uma delas, num mar diferente do das outras duas. Cada ataque deveria ser feito com número de soldados suficiente para uma conclusão rápida, envolvendo forças de todas as armas, para que, uma vez em terra, a exploração fosse decisivamente feita. Os grupos tinham de ser capazes de operar independente do apoio de qualquer das outras duas.

Para satisfazer a essas exigências, as forças de ataque foram organizadas em grupos integrados por homens de todas as armas, designados Forças-Tarefas: Ocidental para Casablanca, Centro para Oran e Oriental para Argel. Para comandar o ataque a Casablanca foi escolhido o Major-General George Patton. Para Oran, que seria o alvo do 2o Corpo dos Estados Unidos, já no Reino Unido, Mark Clark teve de abrir mão do comando, pois era subcomandante aliado, nomeando-se o Major-General Fredendall. Para Argel, no planejamento original, a força principal devia ser o 1° Exército Britânico, cujo comandante era o Tenente-General Kenneth Anderson, que recebeu esse comando devido a uma série de mudanças. A primeira escolha havia recaído no Tenente-General Alexander, porém mandaram-no consertar as coisas no Oriente Médio. Seu substituto seria o Tenente-General Montgomery; mas, no dia seguinte à sua nomeação, o Tenente-General Gott, comandante do 8o Exército, foi morto, e enviaram Montgomery para tomar seu lugar.

O General Eisenhower exercia o comando das forças navais das duas nações através de um "Comandante Naval Aliado, Força Expedicionária", o Almirante britânico Sir Andrew Cunningham, que respondia perante o Comandante-Chefe aliado pela segurança das comunicações marítimas da expedição numa grande área do Atlântico oriental e do Mediterrâneo ocidental. O Comandante-Chefe não pôde estabelecer idêntico arranjo para o ar, pois nesse setor havia dois comandos distintos: o General-Brigadeiro Doolittle exercia o comando das forças aéreas americanas, e o Marechal-do-Ar Sir William Welsh, o das britânicas. Ele também tinha dois consultores aeronáuticos em seu Estado-Maior, o Vice-Marechal-do-Ar Sanders e o General-Brigadeiro Howard Craig. Essa disposição era insatisfatória, por fazer tábua rasa das lições aprendidas no Oriente Médio, onde a organização de grandes forças aéreas, incluindo formações britânicas e americanas, sob um comando unificado mostrara-se de grande valor.

A "Tocha" foi a primeira operação em que forças navais e aéreas, americanas e britânicas, foram postas sob o controle de um só comandante para o período dos desembarques. Dos muitos problemas que tinham de ser resolvidos, e bem, o da sincronização da transferência de comando do Comandante-Chefe naval para o comandante da Força Aliada. Para facilitar o planejamento das operações "interarmas", os americanos criaram um Comitê Marinha-Exército para a "Operação Tocha", com a função de coordenar o trabalho, dentro dos departamentos do exército e da marinha, de aplicação das decisões do Comandante-Chefe, ou dos comandantes da força-tarefa do exército e marinha. Sujeito ao plano-diretor preparado pelo Comandante-Chefe, todo o planejamento dos desembarques em Casablanca foi realizado nos Estados Unidos, sob a orientação do General Patton.

O planejamento das operações de Oran e Argel foi um pouco mais fácil para o Comandante-Chefe: pelo menos os Estados-Maiores de planejamento estavam no mesmo país. O plano de ataque a Oran foi preparado por um grupo de planejamento do 2o Corpo dos Estados Unidos, em Londres, com o General Clark no comando até que Fredendall assumisse oficialmente o posto, a 10 de outubro. Os arranjos para Argel saíram de maneira um pouco estranha. Nos primeiros momentos de sua elaboração, o planejamento foi realizado pelo 1° Exército Britânico, sob o comando do General Anderson. No começo de setembro, quando se estabeleceu que os desembarques em Argel também deveriam parecer americanos, com todas as forças de desembarque, durante o ataque, sob o comando americano, o Major-General Ryder, comandante da 34a Divisão de Infantaria americana, que se encontrava na Irlanda do Norte, foi designado comandante da força de ataque. O planejamento do 1o Exército para o avanço pela Tunísia tinha de ser incluído nos planos de Ryder. Isto também implicava a nomeação de um subcomandante americano, recaindo a escolha no General-Brigadeiro Porter. Ryder tinha de planejar os desembarques, em cuja vanguarda iriam unidades da sua própria divisão e da 39a americana, cabendo também a essas duas divisões o fornecimento de todas as tropas de acompanhamento - sendo os transportes e apoio naval e aéreo britânicos. Ao Estado-Maior do General Anderson coube programar a passagem do comando quando as tropas tivessem desembarcado e estabelecer a maneira de dispô-las em formação para as operações terrestres subseqüentes. Portanto, para Argel havia uma Força-Tarefa Oriental (1o Exército) e uma Força de Ataque Oriental (elementos de duas divisões americanas).

Três grandes problemas de avaliação que iriam encontrar desafiavam os planejadores da "Operação Tocha": os planos ítalo-germânicos no Mediterrâneo, a posição da Espanha e a situação da própria África do Norte Francesa. Em apenas uma área havia contato real com o inimigo, no Egito onde era possível uma estimativa precisa da concentração e intenções do Eixo.

Malta era uma grande preocupação para os altos comandos alemão e italiano, assim como para os britânicos. Na primavera de 1942, Hitler e Mussolini haviam decidido invadir Malta, aplicando no ataque tropas aerotransportadas da Sicília, somando quatro divisões, com um acompanhamento marítimo. A invasão deveria ser feita em julho. Mas naquele mês, Tobruk caiu; era possível então que Rommel conseguisse captura Egito e o Canal de Suez e Hitler adiou a operação de Malta até setembro. No decorrer do verão, quando o Eixo se esforçava por concentrar forças para um ataque decisivo contra a posição britânica em El Alamein, a base de Malta, ainda uma vez, mostrou-se bastante útil, impedindo o reforço de abastecimento do Afrika Korps. Atacando incessantemente com aviões e submarinos, o Eixo tentou impedir que suprimentos chegassem à ilha, e quase conseguiu. Em setembro, Alan Brooke escreveu: "Os suprimentos que possuímos terão chegado ao fim meados de outubro. Futuras remessas penderão da ofensiva no Oriente Médio do empreendimento na África do Norte. Se nenhum dos dois obtiver êxito, só Deus sabe como manteremos Malta viva." Mas ainda assim a ilha continuou a funcionar na destruição das comunicações do Eixo e, meados de setembro, Hitler ordenou um ataque aéreo total como preliminar da destruição completa de Malta. Esse ataque teve início a 10 de outubro e durou dez dias inteiros.

Já então, a tentativa de Rommel de romper as defesas de El Alamein, em agosto, havia fracassado. Era certo que os britânicos não demorariam a atacar. Também em Stalingrado as coisas não iam bem. Era preciso grande esforço para restaurar o poderio do Eixo no Mediterrâneo. Em abril de 1942 os alemães haviam advertido aos italianos que, se alguma coisa acontecesse na África, a Itália tinha de estar preparada para invadir a França metropolitana e a Tunísia. A possibilidade de os Aliados desembarcarem na França, na Espanha ou no Noroeste da África havia sido examinada.

A Espanha foi um enigma durante toda a guerra. Para a "Operação Tocha", Gibraltar tinha um papel decisivo a desempenhar. Era evidente que um ataque pela Espanha, antes do início da operação ou nos seus primeiros dias, poderia representar um desastre. Mas, será que Franco agiria? Era possível; mas seria provável? As opiniões, de ambos os lados do Atlântico, eram divergentes; políticos e estrategistas, do Exército e da Marinha, admitiam possibilidades as mais diversas. Em princípio, Franco era totalmente favorável ao Eixo. Mas Hitler não conseguira convencê-lo a agir. Mesmo depois da queda da França, em 1940, a Espanha não se alinhou. E no outono daquele ano, quando os alemães examinavam a possibilidade do envio de um grupo de exércitos pela Espanha para ocupar Gibraltar, a Argélia e a Tunísia, como parte de um plano para expulsar os britânicos do Mediterrâneo, Hitler, numa demorada entrevista pessoal com Franco em Hendaia, não conseguiu convencê-lo a concordar. O ditador espanhol dirigia um país empobrecido. Seus contatos com o resto do mundo e com os Estados Unidos eram-lhe economicamente vitais. Ele não se convencera de que os britânicos estivessem totalmente desprovidos de recursos, e dava a seus amigos do Eixo toda a ajuda que podia, exceto entrar na guerra. De sua atitude dependeria muito o sucesso, ou não, das operações dos Aliados. Franco mantinha forças em reserva para o caso de a Espanha ser atacada. Embora os Chefes de Estado-Maior americanos, e em particular os almirantes, estivessem realmente temerosos de enfiar o pescoço na corda representada por Gibraltar e Tânger, eles tendiam, em geral, a ignorar o perigo espanhol.

Através de Murphy, muita informação sobre a África do Norte Francesa chegava ao QG de planejamento dos Aliados, informações essas que influenciaram bastante as decisões tomadas. Durante dois anos os contatos de sua equipe foram mobilizados para colher informações sobre como se exprimia a opinião pública, para descobrir o estado de espírito dos líderes militares e políticos nos vários níveis. Gradativamente, escolheu os que eram hostis ao Eixo, estabelecendo com alguns deles estreitas relações secretas. Muito relacionado, hábil e sagaz nas negociações secretas, Murphy era uma verdadeira vocação de artista, manifesta muitas vezes nas tramas que contribuíra para a criação da "Operação Tocha".

No começo de setembro, Murphy foi a Estados Unidos, para apresentar relatório ao Presidente e aos Chefes de Estado-Maior. Dali, partiu, disfarçado de "Tenente-Coronel McGowan", para o Reino Unido, onde passou um dia em conferência secreta com General Eisenhower, em sua casa de campo perto de Londres, fornecendo-lhe uma estimativa da cooperação civil e militar que forças invasoras americanas podiam esperar.

Os problemas de segurança eram motivo de preocupação para Eisenhower. O Presidente autorizara Murphy a avisar aos amigos de confiança, com pelo menos 24 horas de antecedência, sobre os desembarques e locais aproximados onde se verificariam. Havia um conflito entre a necessidade de impedir a revelação do segredo (com perda do elemento surpresa) e o tempo a ser concedido aos simpatizantes dos Aliados para que pudessem agir.

Os relatórios de Murphy influenciara muito a solução de um grande problema dos Aliados: com quem lidariam eles como principal líder francês no desembarque na África do Norte? Como encontrar um francês representativo, livre da mácula do colaboracionismo, de posição suficientemente alta para aglutinar as forças armadas francesas e reduzir ao máximo a resistência aos Aliados? Entre os lideres que se encontravam na África do Norte Francesa aparentemente não havia nenhum. O General Juin elaborara planos para resistir a qualquer invasão da Tunísia e da Argélia oriental pelo Eixo. Ele era anti-Eixo - ou pelo menos pró-França, o que, em última análise, significava ser pró-Aliados - mas relutava em desafiar as ordens que recebera do governo de Vichy. O General Noguès, o Residente-Geral do Marrocos, burlando a vigilância dos inspetores alemães do armistício, nos primeiros dias após a queda da França, fizera o possível para preservar as forças francesas que mais tarde retomariam a luta. Mas, na opinião de Murphy, dois anos de espera abateram-lhe o espírito, o que provavelmente faria que resistisse ao desembarque americano. Nem o Tenente-General Koeltz, comandante-de-exército da região de Argel, nem o Major-General Barré, comandante-de-exército em Túnis, agiriam sem Juin. Tanto o Almirante Fenard, Secretário do Governo na África do Norte, como o Almirante Estéva, Residente-Geral da Tunísia, eram instrumentos dóceis de Darlan.

Num nível mais baixo, havia o Major-General Charles Mast, comandante da Divisão de Argel, e o Major-General Emile Béthouart, comandante da Divisão de Casablanca, que eram firmemente pró-Aliados e estavam dispostos a lutar, mas, por não serem elementos de cúpula, não seriam aceitos como autoridades pelos outros. Contudo, mantinham-se em estreito contato com o General Giraud, e foi este que os Aliados escolheram como a grande personalidade capaz de reunir em torno da causa aliada os demais soldados que ali se encontrassem.

Giraud tinha grande reputação no exército. Lutara e sobrevivera à Primeira Guerra Mundial, servindo por muitos anos no Marrocos. Era comandante do 7° Exército em 1940. Sua fuga do Castelo de Koenigstein, na Saxônia, em abril de 1942, tornou-se famosa; vivia tranqüilamente na França não-ocupada, reconhecendo oficialmente a autoridade do Marechal Pétain mas, na realidade, mantinha contato secreto com os patriotas de Argel e com os oficiais desmobilizados na França. Sua esperança era que houvesse um desembarque americano na zona desocupada, na primavera de 1943.

Murphy foi autorizado a voltar para Argel e estabelecer contato entre Giraud e Eisenhower, providência esta muito conveniente por várias razões. As ordens de Eisenhower eram no sentido de entrar na África do Norte Francesa, resistir às investidas do Eixo e avançar o mais rápido possível para apoiar as forças britânicas que combatiam os alemães mais a leste. Seria um fardo muito pesado e uma perda de tempo e de recursos se também tivesse de governar a África do Norte - e isto, de qualquer modo, não era trabalho para soldado. Para o futuro da França e o sucesso de eventual invasão da Europa, era essencial reunir os franceses da África do Norte em torno dos Aliados. Por razões políticas, o rascunho da diretiva do Presidente para Murphy especificava que não se pensava em qualquer mudança na administração civil do Marrocos, Argélia ou Tunísia. Não era possível confiar em qualquer dos homens de Vichy - e, de qualquer modo, isto seria politicamente inaceitável para muitos dos aliados. Era necessário encontrar alguém. Giraud, com seu atrativo popular, sua integridade, seu desejo de resistir aos alemães e sua autoridade militar, parecia ser o homem certo.

Mal chegou a Argel, Murphy teve outro contato oculto - desta vez de Darlan. O Almirante, assim dizia o personagem com quem Murphy se encontrou, estava sendo forçado a escolher entre uma colaboração muito mais estreita com os alemães ou alinhar-se com os Estados Unidos, trazendo consigo a esquadra francesa. Para levá-lo a decidir-se em favor dos americanos, ele precisava de garantias seguras do vulto da ajuda americana que viria. (Em suas memórias, o General Juin lembra que Darlan dissera ao Almirante Leahy, embaixador americano em Vichy : "Se vocês tivessem cinco mil aviões e cinco mil tanques para nos dar, talvez pudéssemos chegar a um acordo".)

Murphy recomendou ao seu governo que tentasse criar cooperação entre Darlan e Giraud. Contudo, o General Mast disse a Murphy que Giraud preferiria agir sozinho e assegurou-lhe de que o general poderia, por si só, reunir os franceses na África do Norte, conseguir o apoio da esquadra francesa surta nos portos norte-africanos e tornar possível aos americanos "entrarem sem praticamente disparar um só tiro". Assim, os planos prosseguiram com Giraud e sem Darlan; acontece que o destino tinha um curinga escondido, e reuniu estes dois homens contra as suas vontades.

Assim, a partir de começos de setembro, os planos para uma operação de três pontas prosseguiram: aparentemente eles eram americanos, com o General Giraud como o homem que conseguiria o apoio dos franceses, por meio de uma transmissão radiofônica a ser feita no Dia "D".


Planos operacionais

O sucesso da "Operação Tocha" dependia de dois fatores principais: as forças navais e os navios mercantes disponíveis, e Gibraltar - especialmente Gibraltar.

Em seu livro Crusade in Europa, Eisenhower escreve: "Em novembro de 1942, excetuando-se a Fortaleza Gibraltar, os aliados não tinham um único palmo de terra em toda a região da Europa Ocidental e, na área do Mediterrâneo, nada a oeste de Malta. Gibraltar, que pertencia à Grã-Bretanha, possibilitou a invasão da África Noroeste."

O Rochedo e sua baía proporcionavam um excelente ponto de reunião de navios mercantes, depósito e oficina de montagem de aviões enviados encaixotados, um aeródromo para dar o único apoio aéreo baseado em terra para a operação e um QG fortificado para o comandante-chefe. Gibraltar, seu Governador e Comandante-Chefe, o Tenente-General Mason-MacFarlane, e os comandantes naval e da
aeronáutica, passaram ao controle de Eisenhower, e todos os serviços navais e aéreos foram postos à disposição da "Operação Tocha".

O Rochedo e sua baía também proporcionavam aos espiões do Eixo toda a facilidade de obtenção de informações. O aeródromo ficava na fronteira espanhola, separado da Espanha pró-Eixo apenas por uma cerca de arame farpado. Tudo o que acontecia podia ser visto por tipos ávidos de informações, com o auxílio de binóculos. Não era possível qualquer camuflagem; tudo estava aberto aos aviões de reconhecimento inimigos; e havia um bocado de coisas para ver.

Desde o começo da guerra começaram a ser construídas fortes defesas na fronteira espanhola. Abriram-se galerias no próprio Rochedo para o domínio do istmo. Foram instaladas máquinas de destilação na rocha sólida para garantir o abastecimento de água potável e usou-se o aterro das galerias para aumentar a pista de pouso, transformando-a numa faixa de quase 1.600 m que se estendia baía adentro. A largura de 150 m permitia uma faixa central de 50 metros que servia de campo de pouso e decolagem; o resto era usado para taxiar, mas, para a "Operação Tocha", ela serviu à finalidade vital de dar espaço para a montagem e estacionamento de esquadrões de aviões.

Durante várias semanas, antes do inicio da "Tocha", cada metro foi ocupado por Spitfires ou por tambores de gasolina. Às primeiras horas do Dia "D", mais de 350 aviões estavam ali estacionados, asa com asa, tomando todo o espaço disponível.

Ao pé do Rochedo, a Baía de Algeciras transformou-se num ancoradouro para barcos auxiliares e embarcações pequenas, navios-tanque, rebocadores, belonaves que se reabasteciam e que tinham sido reunidos antes que as forças de ataque penetrassem no Mediterrâneo. Para todos estes e para muitas belonaves e alguns transportes que cruzariam o Estreito, também tinha de haver combustível, água e uma infinidade de outros serviços.

Apesar de toda essa atividade excepcional, os Aliados conseguiram manter o inimigo em dúvida quanto às suas intenções. Mesmo assim, é de surpreender que ele não tivesse feito uma tentativa séria de interromper, através de ataques pelo ar, esses preparativos.

Só para as três forças de ataque, não contando as tropas de acompanhamento, cerca de 65.000 homens tinham de ser desembarcados em suas respectivas praias. Os navios mercantes e as marinhas aliadas foram alvo de enorme tensão. A força-tarefa dos Estados Unidos estava há 16 dias no mar; os comboios de ataque que zarparam de Clyde, 13 dias no mar. Seis comboios que transportavam suprimentos essenciais para Gibraltar zarparam a 2 de outubro, seis dias antes de distribuídos os planos finais para a operação!

O que a história oficial britânica descreve como "o imenso e complexo movimento por mar" envolveu cerca de 370 navios mercantes e mais de 300 belonaves. Esta quantidade só podia ser reunida pegando-se inclusive navios da Esquadra Metropolitana (a Home Fleet) britânica, reduzindo-se o volume das escoltas que comboiavam navios no Atlântico, suspendendo-se os comboios para a Rússia e os do Reino Unido para o Atlântico Sul. O programa mercante aliado, em todas as partes do mundo, foi prejudicado pelo afastamento do serviço normal de grande número de transportes, de navios-depósito, de navios de abastecimento, rebocadores e outros vasos auxiliares que tiveram de ser afastados do serviço normal. As Marinhas americana e britânica deveriam proporcionar à força de desembarque escolta e cobertura ao longo dos caminhos de acesso e cobertura e apoio aos desembarques. Um grupo naval britânico que estava no Mediterrâneo, conhecido como Força H, com três navios de linha, três cruzadores, três porta-aviões e 17 destróieres, deveria proteger o flanco norte da força e impedir qualquer interferência da esquadra francesa ou da italiana; uma vez iniciados os desembarques, estes navios deveriam estar disponíveis para dar apoio ao ataque.

Ao todo, os ataques reais poriam em ação 294 vasos de guerra, navios de transporte e de abastecimento; a Força H elevou os números envolvidos no Dia "D" da "Operação Tocha"- para 327. Para dar cobertura de longo alcance aos desembarques americanos na costa do Atlântico, um grupo naval britânico, composto de dois cruzadores e três destróieres (Força G), navegaria pelo Atlântico, ao sul dos Açores.

A organização do apoio aéreo inicial apresentou dificuldade, pois Gibraltar distava muito de qualquer dos pontos de ataque para que pudesse dar cobertura aérea aos desembarques. Os aviões de Gibraltar deveriam ser usados para reconhecimento e fotografia, patrulhas anti-submarinas, ação contra vasos de superfície inimigos e proteção aos comboios que se aproximassem do Mediterrâneo ou que nele penetrassem em demanda à costa marroquina. Na última dessas missões também haveria apoio dos aerobotes americanos baseados em Freetown. As outras importantes contribuições de Gibraltar seriam na transferência de caças para aeródromos capturados no Marrocos e na Argélia, de modo a possibilitar o essencial apoio de aviões baseados em terra às tropas do exército. Três dias após o desembarque, 160 caças deveriam voar para Casablanca, 160 para Oran e 90 para Argel. Previa o planejamento que sete semanas após o início da operação o conjunto de aviões de vários tipos deveria atingir 1.244 aparelhos no Comando Aéreo Ocidental (Marrocos) e 454 no Oriental.

Durante os ataques, o suporte aéreo seria fornecido pelos porta-aviões. Em apoio dos desembarques ocidentais funcionariam um porta-aviões de esquadra e quatro de escolta. Nos do Centro, Oran, haveria dois porta-aviões de escolta, com um total de 27 aparelhos, e o porta-aviões de esquadra Furious, destacado da Força H, com 32 caças. Os desembarques do lado oriental contariam com um porta-aviões de esquadra e um de escolta, somando 27 caças. Além disso, poderia haver o apoio de mais dois porta-aviões integrantes da Força H, fornecendo um total de 77 aparelhos. Assim, até que fossem capturados aeródromos terrestres, o total de aviões que poderiam estar à disposição para o ataque aos objetivos no Mediterrâneo seria de 163 aparelhos, que arcavam com a dupla incumbência de proteger a esquadra e dar apoio às tropas de desembarque.

Para o transporte da força de ataque e os veículos de que ia necessitar, que montavam a mais de 9.000, a força que se dirigia para Casablanca contava com 22 transportes americanos carregados para combate e 8 navios mercantes; a que objetivava a Oran, 15 navios de desembarque de infantaria, 3 navios de desembarque de tanques e 29 transportes de vários tipos; a que visava Argel, 11 navios de desembarque de infantaria, cargueiros de combate (americanos) e 18 navios mercantes de vários tipos.

A maneira como armar esses navios foi outro problema que a equipe de planejamento teve de enfrentar. Dever-se-ia esperar uma oposição total aos desembarques, ou apenas uma resistência simbólica - ou nenhuma resistência? A preparação do navio, a disposição a bordo das armas e do equipamento, varia de acordo com a dificuldade a ser superada no desembarque e essa preparação não pode ser improvisadamente feita depois que a frota tenha zarpado, mas antes, e com muita segurança. Decidiu-se supor o pior e estivar os navios para desembarques com oposição.

A ampla dispersão de objetivos, a característica mais marcante da "Operação Tocha", evidenciou-se novamente nos planos táticos dos ataques, em especial nos que se dirigiriam contra Casablanca. Ao General Patton e ao Almirante Hewitt, comandante da Força-Tarefa Naval Ocidental, coube a tarefa de dirigir o desembarque de cerca de 33.000 homens com seu equipamento, incluindo tanques médios, depois de uma viagem de quase três semanas, numa costa que lhes dava, na melhor das hipóteses, uma chance em cinco de sucesso. Era necessário capturar intacto e o mais depressa possível o porto e o aeródromo próximo. Por motivos militares e políticos, eles tinham de desembarcar com uma força poderosa, para sobrepujar as defesas e prover a base psicológica para a negociação.

Com fortes defesas voltadas para o mar, Casablanca não podia ser atacada diretamente: teria de ser tomada pela retaguarda, por forças que desembarcariam na costa. Mas que costa terrível! À parte a violência das ondas que contra ela rebentam por quase todo o mês de novembro, a costa é exposta e oferece muito poucas praias, mesmo que se possa chegar até lá. Ademais, seria necessário um porto para desembarcar os tanques. As únicas baias nela existentes são artificiais, protegidas por molhes. Das que ficam perto de Casablanca, nenhuma tinha profundidade suficiente nem tamanho para essa finalidade. Agadir e Mogador ficam a mais de 360 km de distância; Safi, a 200 km para sudoeste; Rabat, a 85 km para nordeste, e Port-Lyautey, a 140 km a nordeste. Estes eram os únicos portos adequados ao desembarque dos tanques. Rabat, embora contasse com um bom aeródromo nas proximidades, tinha de ser excluída. Como capital do Marrocos, era a residência do Sultão, fato que punha em risco o relacionamento da tropa atacante com a população muçulmana. Port-Lyautey possuía um aeródromo com pistas de concreto e havia praias adequadas nas proximidades. A 30 km de Casablanca, para o interior, situa-se o pequeno porto de Fedala, porto de pesca e depósito de gasolina; ele não podia ser usado para descarregar os tanques, mas na baía em que se situa algumas das poucas praias ali existentes foram consideradas exceções, em quilômetros de costa formada de escarpas e baixios.

Assim, três objetivos foram escolhidos para desembarques simultâneos: para os blindados, Safi, situada a 200 km; para o ataque pelos grupos de combate de infantaria, Fedala, a apenas 30 km; para a tomada de um aeródromo até o anoitecer do Dia "D" da "Tocha", Port-Lyautey, a 140 km. Dois flancos do ataque estariam distanciados um do outro por mais de 320 km.

As forças destacadas para integrar a Força-Tarefa Ocidental eram as 3a e 9a Divisões de Infantaria (menos a 39a) Turma de Combate, que fora mandada para a Força de Ataque Oriental, em Argel), a 2a Divisão Blindada, os 70o e 756o Batalhões de Tanques, os 603o, 609o e 702o Batalhões de Destruidores de Tanques, as 21a e 72a Companhias de Sinaleiros e o 36o Regimento de Engenharia de Combate.

O grupo de ataque a Oran funcionaria muito menos disperso, registrando-se entre os dois flancos dos atacantes a distância de 80 km em linha reta. Oran situa-se na parte mais profunda de uma baía que tem quase 40 km de largura entre os promontórios, dentro de uma baía secundária cujas extremidades, a 13 km uma da outra, são penhascos abruptos que se transformam em colinas acidentadas, dominando e protegendo o porto. Essas colinas correm ao longo da costa por uma distância de 50 km a oeste do porto e 32 km a leste, descendo abruptamente para a praia e dando pouca oportunidade para desembarque e muito menos para penetrar para o interior com veículos e canhões.

Somente atrás do promontório oeste da grande baía é que se estendia uma planície com praias abertas. Esta planície era isolada de Oran pelas colinas mais altas, que chegavam quase às portas da cidade, também forte em defesas naturais do lado da terra. Ao sul das colinas costeiras, a planície contém uma série de lagos salgados (sebkras), dos quais o maior, o Sebkra d'Oran, estendendo-se do sul para oeste do porto, tem cerca de 40 km de comprimento e até 10 km de largura, ocupando virtualmente todo o terreno plano naquela área. No verão ele se contrai dificultando o acesso ao longo da costa; na estação chuvosa ele se alarga e fica mais lamacento. Ao longo da sua margem norte há uma estrada macadamizada (estrada de rodagem com brita) e uma ferrovia. A maior parte dessa distância, de mais de 32 km, é um desfiladeiro entre a margem do lago e as encostas sul das colinas, ficando mais largo ou mais estreito conforme o tempo e o estado da costa.

Era também necessário encontrar em Qran um porto para o desembarque dos tanques médios. O transporte disponível para a força incluía três petroleiros modificados para desembarcar veículos pela proa (foram os precursores dos famosos navios de desembarques de tanques-TLS), mas só podiam desembarcar blindados leves, pois os tanques médios eram grandes demais para a abertura de saída desses barcos. Havia no entanto, um pequeno porto em Arzew, na baía situada logo a leste da baía de Oran e a cerca de 40 km da cidade de Oran por estrada de rodagem.

À parte as dificuldades de ordem geográfica, toda a parte interna da baía de Oran era dominada por canhões costeiros fortificados. Qualquer tentativa de desembarcar na própria baía estava fora de cogitação. Como acontecia em Casablanca, era necessário desembarcar em flancos muito separados e atacar pela retaguarda. Também ali fariam três desembarques. À direita, 45 km a oeste de Oran, em Mersa Bou Zedjar, encontrava-se a primeira praia adequada, que também tinha espaço, para o interior, onde se poderia movimentar as tropas e uma saída para a região situada atrás da praia. Dali corre uma estrada que passa por uma abertura nas colinas e se liga à estrada principal, ao longo da margem do Sebkra. A praia era boa para as barcaças de desembarque de blindados leves.

No centro, os desembarques se dariam na extremidade ocidental da planície situada a oeste de Oran, mas fora da própria baía de Oran, junto à aldeia de Les Andalouses, que empresta seu nome à planície. Dali, sai uma estrada que leva para o interior, e uma outra que corre para leste, juntando-se à costa a 16 km de Oran, de onde seria possível tomar pela retaguarda três das mais poderosas baterias costeiras que defendem o porto.

À esquerda, no Golfo d'Arzew, curvando-se daquele porto para leste, a planície vai até a costa, que é marginada por uma boa estrada costeira; a estrada principal liga Arzew diretamente a Oran. No promontório situado acima de Arzew encontravam-se duas baterias costeiras. A maior e mais poderosa força fora destacada para esse ataque. O plano era fazer os desembarques principais diretamente nas praias próximas do porto, para descarregar os tanques leves e os carros blindados. Além disso, dois grupos de Rangers deveriam desembarcar de ambos os lados do promontório, para tomar as baterias. Os objetivos principais eram libertar o porto de Arzew e estabelecer uma cabeça-de-ponte para protegê-lo de modo que os tanques médios pudessem entrar logo em ação e, dali, avançar sobre Oran pelo leste e sudeste.

O aeródromo do exército ficava perto de La Sénia, a uns 8 km ao sul de Oran, ao norte da extremidade leste do Sebkra. Na extremidade oeste, junto à aldeia de Lourmel, também havia uma pista de pouso, e um outro aeródromo ficava situado a sudeste do Sebkra, perto de Tafaroui. Esses campos eram os principais objetivos das forças de ataque.

Num estágio posterior do planejamento, decidiu-se trazer um batalhão de pára-quedistas da Inglaterra para saltar sobre os aeródromos de La Sénia e Tafaroui antes do amanhecer do Dia "D" da "Tocha". O Marechal-do-Ar Welsh, comandante da força aérea britânica para a "Operação Tocha", era energicamente contrário à medida, porque os soldados teriam de voar 3.200 km na escuridão e atingir um alvo pequeno num momento determinado; a rota mais curta seria através da França ocupada ou da Espanha, envolvendo a manobra dezenas de aviões de transporte, que, já escassos, poderiam sofrer perdas grandes. Welsh defendia o envio de todos os pára-quedistas americanos e britânicos disponíveis pelo comboio marítimo até Argel e sua utilização para frustrar a ação alemã tomando os aeródromos em Bône, Túnis e Bizerta. O General Anderson e o Almirante Burrough (Comandante da Força-Tarefa Naval Oriental) eram ambos favoráveis a esta alternativa, mas o General Eisenhower manteve-se firmemente disposto a aplicar as tropas aerotransportadas primeiro em Oran, com a possibilidade de usá-las num avanço rápido para leste, mais tarde.

Uma segunda proposição aditada ao plano, também muito controvertida, foi aceita: um ataque naval, do tipo "glória ou morte", diretamente contra a baía, num esforço para frustrar qualquer tentativa de sabotagem do porto ou de afundar os navios. O projeto foi vigorosamente combatido pelo Contra-Almirante Bennett, da marinha americana, que treinava forças americanas em Rosneath, Escócia, como Comandante da Força Anfíbia do Grupo Avançado, Esquadra do Atlântico, no Reino Unido. Ele foi designado para organizar uma base naval americana avançada na área de Oran assim que a invasão tivesse logrado êxito.

O plano para garantir a superioridade aérea incluía quatro movimentos: ataques aeroterrestres contra dois dos aeródromos; um avanço rápido sobre os aeródromos e também sobre a pista de pouso em Lourmel, pelas colunas blindadas que partiriam das praias; desde o clarear do dia, bombardeiros de mergulho e caças dos três porta-aviões deveriam dominar os aeródromos e manter os aviões hostis em terra; assim que se garantisse a posse de uma pista de pouso, os aviões da 12a Força Aérea dos Estados Unidos decolariam de Gibraltar para lá. A partir do Dia "D" + 2, o número de aviões ali em operação poderia subir a mais ou menos 190 aparelhos, inclusive bombardeiros médios e bombardeiros de observação.

As forças de terra para o ataque a Oran, todas americanas, eram a 1a Divisão Blindada, a 1a Divisão de Infantaria, o 1o Batalhão Ranger, o 701o Batalhão de Destruidores de Tanques, o 106o Batalhão de Artilharia de Costa Antiaérea e o 106o Batalhão Independente de Artilharia de Costa.

Argel está situada no lado oeste de uma baía em forma de crescente, com cerca de 16 km de largura máxima e uns 13 km entre seus promontórios. Os subúrbios situados a oeste da cidade sobem as encostas de íngremes colinas que dominam os lados oeste e sudoeste da baía, penetrando no mar na Pointe Pescade e no Cap Caxine. A leste, Argel abre-se numa série de subúrbios residenciais e industriais até a Maison Carrée, no centro da baía. Dali, rodeando para o promontório leste, Cap Matifou, são relativamente planas não só a costa como a região situada para trás dela. Mas toda a baía de Argel era dominada por baterias costeiras situadas nas regiões altas e nos cabos.

Também ali impunha-se que se fizessem desembarques a oeste e leste da baía, para que a aproximação se desse pelo flanco e pela retaguarda. Do lado oeste do Cap Caxine está a pequena baía, encerrada pelo Cap Sidi Ferruch, onde os franceses desembarcaram uma força expedicionária para a conquista de Argel em 1830. Ela era protegida por um Forte e por baterias costeiras instaladas no cabo, destinados a impedir uma repetição daquela façanha. Mais abaixo, na costa, a sudoeste de onde as colinas descem à planície, encontram-se praias orladas por uma estrada costeira que oferece boas possibilidades de saída para a região atrás delas.

Também em Argel haveria três desembarques: nas praias do lado sudoeste - cerca de 20 km de Argel, na baía de Sidi Ferruch - a 11 km a oeste delas, e nas baías a leste do Cap Matifou, situado a 20 km do porto. Em Argel, a distância entre os dois flancos não passava de 40 km. Cerca de 20 km ao sul das praias onde se dariam os ataques ocidentais, seria preciso tomar o mais depressa possível, após os desembarques, o aeródromo de Blida e o aeródromo de Maison Blanche, situado 8 km ao sudoeste de Maison Carrée.

As tropas disponíveis para o ataque a Argel e seu acompanhamento eram predominantemente britânicos. Mas, por ser Argel o centro nervoso político da África do Norte Francesa, era essencial que também ali se mantivesse ao máximo possível a ilusão de uma operação inteiramente americana. Eram necessários três grupos com efetivos de grupamento de combate regimental para os três desembarques: as tropas americanas só podiam oferecer dois; o terceiro tinha de ser britânico. Os planejadores fizeram o melhor possível para colocar as forças americanas na posição mais visível e manter os britânicos em posição secundária. Os desembarques na baía de Sidi Ferruch e a leste do Cap Matifou seriam feitos pelos grupos de combate americanos, que levavam também unidades de comandos britânicas, para ajudar a tomar as defesas costeiras. Esses grupos de combate deveriam dirigir-se para Argel, convergindo do sudoeste e do leste. O grupo de brigada britânico deveria fazer o desembarque na parte mais ocidental, proporcionando uma guarda de flanco, é dirigir-se para o sul, a fim de tomar o aeródromo de Blida, não participando da entrada na cidade de Argel propriamente dita. Um segundo grupo de brigada britânico ficaria na reserva flutuante, para apoiar o ataque a Argel, se necessário, ou reforçar a captura do aeródromo de Blida.

Foi em Argel que os planos operacionais militares sofreram mais fortemente a influência dos interesses políticos. A esperança era que houvesse pequena ou nenhuma resistência (a marinha francesa tinha ali poucos navios e a impressão dominante era de que a influência dos franceses no local era menor que em Oran ou Casablanca); esperava-se também que houvesse rápida ocupação, com a ajuda de simpatizantes locais, militares e civis, e que Giraud pudesse ser trazido para terra e proclamado o novo líder da África do Norte Francesa, aglutinando-a em torno do seu nome e tornando possível ao 1° Exército Britânico, então politicamente aceitável, atacar para leste, na direção da Tunísia. Mas os planos de ataque também tinham de levar em conta a resistência e a necessidade de lutar. Se os franceses resistissem, calculava-se que um avanço metodicamente feito na direção de Bône talvez levasse três semanas. Se os franceses fossem passivos, ou, melhor ainda, cooperassem, o 1o Exército avançaria arrojadamente ao longo da costa, lançando pára-quedistas em Bône, Bizerta e Túnis nos dias subseqüentes a partir do Dia "D" + 3.

O plano estipulava que os desembarques nas praias deveriam continuar até que o porto de Argel fosse capturado ou se rendesse. Esperava-se que uma ou outra alternativa ocorresse dentro de 24 horas. A força de desembarque seria equipada em "escala de ataque", isto é, desceria às praias com todo o equipamento necessário para sustentar luta por uns 16 km da área de manutenção, situada na praia. Depois disso, passariam a ser feitos em "escala-leve" os desembarques de equipamento e suprimento, talvez bastante para lhe permitir avançar até 50 km da base de manutenção, no período de três semanas. Assim, o plano operacional adotado proporcionava uma força organizada, equipada e transportada em navios para desembarque, tomando os portos e aeródromos principais e estabelecendo bases seguras, caso os franceses resistissem.

O apoio aéreo destacado para a operação de Argel era fraco. Os dois porta-aviões da força-tarefa naval de apoio tinham, entre si, apenas 12 Seafires e 12 Sea Hurricanes. Admitindo-se que os aeródromos fossem tomados no primeiro dia, de modo que os Spitfres baseados em Gibraltar pudessem pousar neles por volta de 12 de novembro, ainda assim não haveria mais que cinco esquadrões de caças, um esquadrão de bombardeiros leves, um esquadrão de Cooperação do Exército, além de unidades de reconhecimento, para dar apoio a 10.000 soldados americanos e 45.000 britânicos na tentativa de abrir caminho para Túnis, situada a 800 km de distância. O comandante do 1o Exército não estava nada satisfeito com o suporte aéreo previsto para a operação.

As forças de terra destacadas para o ataque eram a 34a Divisão de Infantaria Americana, o 39o Grupamento de Combate Regimental da 9a Divisão de Infantaria Americana, um grupo de brigada da 78a Divisão Britânica, mais um esquadrão do Regimento Divisionário de Reconhecimento, e os 1o e 6o Comandos.

Como em Oran, o ataque a Argel também incluía uma tentativa de tomar a baía através de um assalto naval. Dois destróieres britânicos procurariam desembarcar uns 650 oficiais e soldados da 34a Divisão de Infantaria Americana no cais, para impedir afundamentos de navios e sabotagem.

De concepção muito arrojada e bastante complexos, esses planos impunham enormes dificuldades e tensões ao Estado-Maior de execução, que teve de atacar de frente o conjunto de detalhes estabelecidos pelos planejadores, dada a ampla variedade de contingências que tinham de levar em conta. Um grande problema que a todos atribulava, planejadores e comandantes de tropa, era o treinamento dos soldados para os desembarques e ataques. O tempo disponível era curto e grande parte do equipamento necessário ao assalto só começou a chegar em larga escala pouco antes de tudo ter que estar estivado. Algumas formações puderam começar o treinamento especial em julho, outras, no entanto, só bem mais tarde, quando os planos tomaram forma definitiva e foram distribuídos, isto a 20 de setembro. Os primeiros comboios zarparam apenas cinco semanas depois e a decisão sobre o uso de tropas aeroterrestres e sobre os dois ataques navais só foi tomada no começo de outubro.

Os soldados da Força-Tarefa Ocidental receberam treinamento nos Estados Unidos, atingindo o adestramento em operação anfíbia da tropa o ponto culminante num ensaio realizado na Baía de Chesapeake, nos navios-transporte, já parcialmente carregados, que deveriam levar os grupos de desembarque para o Marrocos. O treinamento do grupo de ataque aeroterrestre foi inadequado, porque as unidades da Força Aérea do Exército americano se encontravam, na época, em processo de expansão, não podendo, por isso, dispor de aviões nem homens para treinar com os soldados. De qualquer modo, elas estavam mais interessadas em bombardeios estratégicos do que em apoiar batalhas terrestres.

Para as forças americanas e britânicas que deveriam fazer os desembarques no Mediterrâneo o treinamento teve lugar no Reino Unido, principalmente na parte ocidental da Escócia. O programa de treinamento, já bastante atribulado pelo problema do tempo, realmente curto para um cometimento de tal envergadura, sofreu também porque até o último instante da partida ainda chegavam dos Estados Unidos barcos novos, que obrigavam a trabalho de preparação e vistoria. O 39o Grupamento de Combate Regimental foi embarcado dos Estados Unidos apenas parcialmente treinado. Seus navios-transporte estavam carregados para combate, com suprimentos para 60 dias e 10 unidades de tiro para todas as armas. Os veículos que traziam tiveram de ser desembarcados para receber tratamento à prova de água e para reestivagem na ordem tática de desembarque. Apenas uma quinzena antes da partida para a zona de ataque é que esses navios chegaram.

O treinamento de praia para um dos Grupamentos de Combate Regimentais da 34a de infantaria e para parte da 1a Divisão pôde começar em fins de agosto; o segundo GRC da 34a seguiu na segunda quinzena de setembro. Um GRC da 1a Divisão recebeu treinamento nos barcos em fins de setembro e começos de outubro, mas não pôde fazer treinamento nos navios porque as barcaças que tinham sido usadas para este fim já estavam sendo preparadas para a operação propriamente dita. O Comando de Combate B da 1a Divisão Blindada adestrou-se na Irlanda do Norte.

No começo do verão, o 1o Exército deu início ao seu treinamento com formação na Escócia e pôde realizar um exercício em grande escala, simulando uma operação de desembarque contra oposição no princípio de agosto. Como exercício, ele foi útil e interessante, ressaltando também a necessidade de muito mais treinamento.

As dificuldades, naquele quadro confuso, eram grandes e é extraordinário o que se fez para superá-las. Mas, temos que admitir como procedente o julgamento da História Oficial dos Estados Unidos: "O treinamento para as operações anfíbias na África do Norte Francesa e, em alguns aspectos, para a fase subseqüente da 'Operação Tocha' ficou aquém do desejável e abaixo do necessário à obtenção da vitória contra um inimigo bem armado e decidido. Quaisquer que fossem os receios dos que se incumbiam da preparação das forças expedicionárias nos Estados Unidos e no Reino Unido, eles estavam tentando fazer o melhor possível, dentro das limitações impostas pela inexperiência, incerteza e escassez de tempo, em vez de tentar apresentar uma força completamente preparada".

Todos os ataques, nas três áreas, deveriam ter lugar antes do alvorecer de 8 de novembro, embora em diferentes momentos, escolhidos em obediência às condições da maré, do vento e pelo nascer do sol. A 22 e 23 de outubro, os comboios de ataque zarparam dos seus portos, em ambos os lados do Atlântico, para a longa e perigosa viagem. Um dia antes de zarparem, a "Tocha" produziu outro dos seus bizarros caprichos: o subcomandante Aliado desembarcou na costa de Argel, disfarçado, para fazer negociações secretas com oficiais dissidentes do exército francês.

O fato deveu-se à romântica paixão de Robert Murphy pelas aventuras de capa-e-espada, tantas vezes demonstrada no desenvolvimento da "Operação Tocha".


Viagem secreta de Clark

Quando entrou em seu gabinete, em Londres, na manhã de domingo 17 de outubro, Mark Clark encontrou um cabograma do General Marshall a Eisenhower. O General Mast convencera Murphy de que era chegado o momento de se ir além de um simples acordo com o General Giraud: deveria haver conversações de Estado-Maior sobre planos militares específicos. Mast propusera um encontro com um oficial-general graduado do Estado-Maior de Eisenhower em Cherchel a 144 km a oeste de Argel, na noite de 21 de outubro. Ele deveria viajar de submarino. Marcou-se um encontro preciso.

Acompanhado pelo General-Brigadeiro Lemnitzer, chefe de planejamento no Q-GFA; pelo Coronel Hamblen, especialista em embarque e abastecimento; pelo Capitão Jerauld Wright, oficial-de-ligação naval, e pelo Coronel Julius Holmes, consultor de assuntos civis, que falava francês fluentemente, Clark partiu da Inglaterra no dia 19 de outubro, de manhã bem cedo, em direção a Gibraltar. O grupo ocupava duas Fortalezas-Voadoras, e pela primeira vez iam esses gigantescos aviões tentar pousar no Rochedo. Naquela noite, embarcaram no P219, um pequeno submarino britânico, que não era nem moderno nem muito veloz; mas seu comandante, o Tenente Jewell, e sua tripulação, eram treinados e experientes em tarefas especiais e tinham três comandos britânicos e quatro barcos desmontáveis a bordo. O grupo de Clark se atrasara na partida de Londres por ser necessário um acordo entre Washington e Londres sobre o que ele devia dizer exatamente, se a reunião realmente ocorresse. Tendo dúvidas sobre a possibilidade de o submarino chegar a tempo ao ponto de encontro, Clark mandou uma mensagem cifrada a Washington solicitando uma alternativa.

As instruções de Mast para o encontro eram específicas. O submarino deveria emergir ao largo da posição dada na noite de 21 de outubro. Se tudo estivesse em ordem para o desembarque, uma única luz branca e firme apareceria em determinada janela de uma casa isolada, janela essa voltada para o mar; a luz só seria visível do mar.

Durante a maior parte da demorada viagem, o P219 deslocou-se na superfície. Parte desse tempo foi dedicada ao estudo dos detalhes do procedimento para se embarcar nos barcos desmontáveis e chegar à praia. Mantinha-se escuta radiofônica para qualquer mensagem de Gibraltar, mas Murphy não mandou dizer nada sobre qualquer horário alternativo para o encontro. Depois do anoitecer, num mar bastante agitado, eles pararam para ensaiar o embarque nos barcos desmontáveis. Primeiro, adestraram-se na entrada e saída do barco, que era pequeno e instável; depois, remaram para testar os sinais infravermelhos que deveriam usar. Tudo correu bem; ninguém caiu na água e as luzes funcionaram; o grupo foi então dormir, enquanto o submarino prosseguia viagem.

Antes do amanhecer, eles estavam já muito perto da África do Norte para continuar na superfície. Durante todo aquele dia e noite adentro eles prosseguiram lentamente, submersos, a menos de um quarto da velocidade de superfície, e só avistaram o ponto de encontro às primeiras horas da manhã de 21 de outubro. Já estava ficando muito claro para tentar desembarcar e eles tiveram de permanecer submersos por mais um dia, imaginando se o atraso de um dia destruíra todo o plano. Finalmente, uma mensagem telegráfica de Murphy, através de Gibraltar, trouxe a notícia tranqüilizadora de que "os grupos interessados foram informados para esperá-los na noite de 21-22 e, se não houver contato então, para esperá-los na noite de 22-23 também. Portanto, vocês são esperados hoje à noite e amanhã à noite".

Enquanto o subcomandante das Forças Aliadas brincava, submerso, de esconder com pesqueiros argelinos, do outro lado do Atlântico as primeiras unidades da Força-Tarefa Ocidental zarpavam. Ao anoitecer, o submarino emergiu; não se via luz alguma na costa. Passaram-se horas; Clark foi dormir e ninguém estava satisfeito com a idéia de passar mais um dia na água. Então, por volta da meia-noite, avistou-se uma luz. Os barcos desmontáveis foram trazidos para o convés enquanto o submarino se aproximava da costa, parando a cerca de 3 km da rebentação. O grupo embarcou nos botes; um deles virou, ironicamente foi controlado pelo capitão dos comandos que era o instrutor e guia da operação.

Não se via vivalma quando eles chegaram, a salvo, na praia, vencendo a rebentação. Enquanto arrastavam os barcos para uma escarpa, íngreme e recoberta de oliveiras e vários arbustos, perceberam que a faixa de areia era razoavelmente larga. Então, ao chegarem a um abrigo escuro, uma voz, de americano, sem dúvida, disse: "Bem-vindos à África do Norte". Era Murphy, que se encontrava acompanhado de um dos seus contatos franceses. Ele levou o grupo rapidamente, por um caminho pedregoso, até uma casa de pedra, branca e de telhado vermelho.

O General Mast chegou por volta das 05:00 h, tendo viajado de carro cerca de 100 km, desde Argel. Murphy e Clark disseram a Mast e seus colegas que os Aliados enviariam uma grande força americana para a África do Norte, apoiada por forças aéreas e navais britânicas. Não lhes forneceram detalhes de datas, de planejamento, nem revelaram planos nem nada que sugerisse que a operação na realidade já começara. Mast insistiu em que os americanos deviam planejar ir até a Tunísia o mais depressa possível, porquanto o Eixo podia começar a mandar tropas por via aérea 36 horas após o primeiro desembarque de soldados americanos. Ele também enfatizou que se deveria dar ajuda aos franceses, para que estes defendessem uma cabeça-de-ponte no sul da França.

Quando teve de partir novamente para onde se encontrava aquartelada a Divisão Argelina, Mast acertara com Clark todas as medidas que tomaria para ajudar quando os americanos desembarcassem. "O exército francês", disse ele, "seguiria implicitamente as suas próprias ordens e as de Giraud, embora pudesse haver resistência da marinha".

Clark e Murphy concordaram em que os Aliados deveriam enviar uma carta a Giraud revelando suas intenções e que, se este concordasse, deveriam trazê-lo da França num submarino americano. Os termos da carta foram redigidos em conjunto. Sujeitos à concordância de Eisenhower, os termos eram estes: A França teria restauradas as suas fronteiras de 1939; a França seria aceita como aliada; o comando supremo da África do Norte seria entregue aos franceses "no momento adequado", depois dos desembarques, do estabelecimento de bases e do rearmamento de tropas francesas.

Depois que Mast partiu, os membros do seu grupo que permaneceram passaram a fornecer informações precisas sobre posições, efetivos de tropas e unidades navais, onde os suprimentos, inclusive gasolina e munição, estavam armazenados; detalhes sobre os aeródromos que tinham mais probabilidades de resistir e onde as tropas aeroterrestres podiam desembarcar com segurança. Essas conversações abrangiam tantos assuntos, por isso mesmo tão demoradas, que Cl,ark começou a duvidar que ao anoitecer, quando pretendia partir, estivessem terminadas. Suas preocupações a respeito foram interrompidas por um telefonema: a polícia estaria na casa de campo em poucos minutos. A casa ficou vazia num piscar de olhos; um oficial britânico atingiu rapidamente o bosque junto à praia, avisando, com um walkie-talkie, o submarino. Clark e o resto do grupo, com todas as suas bolsas de documentos, foram escondidos numa adega. Quando a polícia chegou, encontrou o Cônsul Americano em Argel, com seu Vice-Cônsul e um amigo francês, bebendo barulhentamente bastante vinho. Os policiais, embora desconfiados, revelavam medo, possivelmente por não serem muitos, e, depois de vasculharem alguns cômodos da casa e a área em torno dela, decidiram retornar à cidade para receber novas ordens. Quando anoiteceu, o grupo deixou a casa de campo e partiu na direção da praia, transportando os botes. Quando a polícia voltou, o lugar estava vazio, mas a praia não; ali ainda estava um grupo impaciente e impossibilitado de partir. Durante a tarde o vento aumentara, encapelando fortemente o mar. A rebentação não permitia a saída de barcos pequenos. Clark tentou com o capitão dos comandos, seu barco virou e ele perdeu as calças e o cinto de dinheiro, com algumas centenas de dólares em moedas de ouro, Tentou-se comprar ou alugar um barco de pesca, mas sem êxito.

O Tenente Jewell levou o submarino quase à beira da rebentação; o Capitão Wright saiu em busca de um lugar na praia onde a rebentação fosse mais fraca; em meio a agitação que se estabeleceu, o pessoal que se encontrava no interior da casa apagou a luz que servia de orientação ao submarino. Terminada a segunda batida policial, voltaram à casa e reacenderam a luz. Por volta das 03:30 h, Clark decidiu que era tempo de tentarem novamente. O Cônsul Americano e o Vice-Cônsul despiram-se e saíram com um barco, conseguindo ultrapassar as duas primeiras linhas da rebentação. Clark e seu companheiro embarcaram, remando na direção do mar alto. Finalmente o grupo inteiro conseguiu chegar ao submarino, depois de adernarem várias vezes nas ondas e perderem um barco desmontável, com suas bolsas contendo informações e cartas secretas. Felizmente, elas devem ter afundado, pois nunca foram descobertas.

Antes do amanhecer, o submarino estava sob as águas, a caminho de Gibraltar, cumprida a missão. Todos os que nela se envolveram demonstraram coragem e habilidade dignas deles próprios e da sua causa. Contudo é de duvidar que isto tenha tido qualquer influência no resultado da operação. Enquanto eles procuravam uma saída nas praias, a 3.200 km de distância os canhões do 8o Exército fizeram soar o início do ataque em El Alamein. Em Stalingrado, os exércitos de von Paulus estavam exauridos, incapazes de fazer qualquer coisa. De Clyde e de Hampton Roads, os comboios Aliados já tinham partido, a caminho da África do Norte.


Aproximação

As potências do Eixo sabiam que se encontrava em preparo uma grande operação. Fora impossível ocultá-lo. Elas estavam preocupadas, desde o começo do verão, com a possibilidade de que os Aliados pudessem passar à ofensiva no Mediterrâneo. Por outro lado, em julho parecia que tudo estava saindo errado para os britânicos e certo para os alemães e italianos e, portanto, estes últimos não se preocuparam com medidas efetivas de prevenção.

Segundo informações dos franceses, transmitidas através de Murphy, e que Mast confirmou a Clark, "os alemães parecem decididos a resolver a questão do Mediterrâneo Ocidental nas próximas semanas e farão uso da região continental espanhola e do Marrocos espanhol para este fim... Na opinião dos franceses, a ação definitiva dar-se-á em questão de dias. A situação política francesa é extremamente delicada e se pode esperar o colapso em apenas dez dias. Não há dúvidas de que as coisas estão acontecendo com rapidez, e as informações indicam que o Eixo colocou cerca de 100.000 soldados ao longo da fronteira tunisina".

O cálculo que o Eixo fazia dos planos aliados diferia muito dessas previsões. As estimativas sobre a finalidade daquela concentração de forças incluía ajuda maciça a Malta, tomada de Creta, invasão da Sicília e da Sardenha, desembarque no sul da França, desembarques no Marrocos e Dakar, desembarques na Tunísia ou na Argélia. Os italianos, mostrando-se mais perspicazes, relacionavam principalmente a ameaça com a África do Norte Francesa, mantendo por isso tropas na região oeste da Tripolitânia, para uma penetração rápida na Tunísia. Os alemães admitiam outras possibilidades; Malta e Dakar eram as suas especulações favoritas e achavam que os franceses resistiriam a qualquer invasão aliada, do que os italianos duvidavam um pouco. Eles próprios mostravam-se muito preocupados em evitar qualquer medida que pudesse dar como resultado a junção dos franceses na África do Norte com os Aliados.

Quando os comboios da "Operação Tocha" se faziam ao mar, a invasão da Argélia ou da Tunísia ainda era considerada muito difícil, na lista das possibilidades admitidas pelos germânicos. Dakar, a costa atlântica do Marrocos e Malta ainda eram para eles as mais prováveis. A localização dos submarinos alemães assim o demonstrava, e a aproximação despercebida da maciça esquadra de ataque pelo Atlântico, vinda do oeste e do norte, o confirmava.

Na tarde de 23 de outubro, os primeiros navios da Força-Tarefa Ocidental deixaram Hampton Roads, seguindo para a área das Bermudas, onde o Grupo Aéreo se reunia. À sua frente, quatro submarinos rumavam para o Marrocos, para tomar posição como guias das forças de ataque; um quinto submarino saiu para sudeste, a fim de observar Dakar. A 24 de outubro, um segundo grupo de navios zarpou de Hampton Roads e uma força naval de cobertura partiu de Casco Bay, no Maine. Durante os dias 27 e 28 de outubro, toda a força se reuniu para rumar em formação na direção da África. Um navio de pequeno calado, utilizado no transporte de frutas e de gasolina de aviação para Port-Lyautey, não ficou pronto a tempo, só alcançando o grupo de ataque a que pertencia um dia antes do Dia "D" da operação, tendo feito a viagem sem qualquer escolta.

Mantendo em silêncio o serviço de rádio, reabastecendo-se no caminho, a força-tarefa viajou sem parar desde 28 de outubro até 7 de novembro. Nesses dez dias, encontrou um navio português e um espanhol, e excetuando-se estes incidentes, passou completamente despercebida. Durante a viagem, a tropa recebia, em meio a crises de enjôo, e quando as condições do mar permitiam, treinamento e instruções sobre a operação e sobre como comportar-se diante do que viesse a ser encontrado no Marrocos.

De 4 a 6 de novembro, o tempo foi paulatinamente piorando e se transformou numa tempestade. A ansiedade sobre o estado da rebentação nas praias de desembarque era intensa; acreditando que o efeito da tempestade seria o de abafar a rebentação por algum tempo, o Almirante Hewitt manteve-se firme ao plano e ordenou que a força se dividisse nos três grupos de ataque e que cada qual se encaminhasse para o seu objetivo.

Os navios das forças-tarefas que penetrariam o Mediterrâneo começaram a reunir-se no Estuário de Clyde, Escócia, a 17 de outubro. Eles foram divididos num comboio lento e num comboio rápido. O primeiro grupo transportava veículos, tanques, equipamentos e mantimentos; seus 46 navios cargueiros e 18 vasos de escolta zarparam a 22 de outubro. Carvoeiros, petroleiros, rebocadores e os três petroleiros convertidos em navios de desembarque de tanques já haviam sido despachados na frente, para esperar pelo restante em Gibraltar. A 26 de outubro, o comboio rápido, formado de 39 transportes de tropas e de 12 barcos de escolta, também zarpou. Os dois grupos rumaram para sudeste, para o centro do Atlântico, desviaram-se para o sul, na direção dos Açores, e finalmente para sudeste, a fim de se aproximarem do Estreito de Gibraltar.

Era inevitável que a organização dessa extraordinária operação fosse complexa. Todos esses navios tinham de atravessar a estreita passagem de Gibraltar, devidamente protegidos pela noite, durante os dois dias antecedentes ao momento previsto para o ataque. Em seguida, tinham de se encaminhar, divididos em dois grupos de ataque, para Oran e para Argel. Os navios de guerra designados para o apoio aos dois comboios já se encontravam no Mediterrâneo.

Entre 26 de outubro e 3 de novembro, o comando inimigo recebeu quatro avisos partidos de submarinos e um aéreo sobre o deslocamento na direção sul de comboios bem protegidos por vasos de guerra, mas seu Serviço de Inteligência não conseguiu compreender que algo de incomum estava acontecendo. Um comboio de navios mercantes, que ia de Freetown para sua base, passou pela frente dos grupos de ataque quando estes se aproximavam. Ele atraiu vários submarinos alemães que patrulhavam a oeste de Gibraltar e sofreu consideravelmente com seus ataques, mas as forças de ataque da "Operação Tocha" prosseguiram sem qualquer perigo. Os aviões de patrulha afundaram dois submarinos.

No décimo dia de viagem do grupo, Murphy enviou a Eisenhower uma notícia que foi uma verdadeira bomba: Giraud só poderia deixar a França a 20 de novembro e recomendara a Roosevelt que adiasse a operação por duas semanas. "O adiamento por duas semanas", telegrafou ele, "por mais desagradável que possa parecer e embora envolva problema de ordem técnica que ignoro, é importante, pela possibilidade de ocorrer séria oposição do exército francês ao nosso desembarque". Não podia ser ignorada, no entanto, a significação do fato de já se encontrarem à beira de seus objetivos mais de 300 navios e 65.000 homens. Nesse estágio, a política não mais podia influenciar a decisão militar, e a "Operação Tocha" prosseguiu de acordo com os planos. Apesar das suas apreensões e do sentimento de estarem sendo impelidos, o General Mast e seu grupo concordaram.

A 4 de novembro; quando os blindados do 8o Exército começavam a sair das posições de El Alamein para se abaterem sobre o já meio cambaleante exército de Rommel, os comboios lento e rápido estavam então entre 480 e 640 km a oeste de Gibraltar, já divididos nas seções de Oran e Argel. Naquele mesmo dia, o Almirante Darlan, que retornara à França em fins de outubro, após uma viagem de inspeção à África do Norte, voltou repentinamente a Argel para visitar o filho, seriamente enfermo no hospital da cidade. Nesse momento, a Força-Tarefa Ocidental navegava sob forte tempestade no rumo da costa marroquina.

Naquele mesmo dia, o General Eisenhower e os membros mais importantes do seu Estado-Maior estavam impacientes no Aeroporto de Hurn, na costa sul da Inglaterra, retidos pelo mau tempo. Na manhã seguinte, dia 5, o Comandante-Chefe decidiu partir de qualquer maneira. Ele relata, em seu Crusade in Europe, que o comandante do avião militar posto a sua disposição lhe disse que o vôo, naquelas condições de tempo, estava tecnicamente contra-indicado, mas que a ele cabia decidir. "Foi a única vez que me vi diante da situação de ter de decidir sobre um vôo, porque normalmente a decisão do comandante do avião é definitiva. Isto não parecia ser um augúrio propício para a grande aventura, mas tínhamos de levá-la a cabo". Assim, seis Fortalezas-Voadoras decolaram para Gibraltar. Uma delas teve de voltar, por causa de defeitos no motor; as outras cinco prosseguiram em meio a violento temporal, voando à altitude média de 30 metros. Eisenhower registra que, quando o Rochedo assomou de dentro da névoa que o ocultava, seu piloto comentou: "Esta foi a primeira vez que tive de ganhar altitude para pousar, no fim de uma longa viagem". A aterragem se deu pouco antes das cinco da tarde. Às 19:30 h os primeiros navios começaram a penetrar no Mediterrâneo. Enquanto rumavam sistematicamente para leste, submarinos britânicos estavam estacionados bem ao norte, ao largo de Toulon, para observar quaisquer movimentos da esquadra francesa; outros se agruparam ao largo de Palermo, na Sicília e em ambos os lados do Estreito de Messina, para observar a esquadra italiana. Aviões patrulhavam o norte do Mediterrâneo, entre a costa da Espanha e o norte da Sardenha, e entre esta e a Sicília.

Durante 32 horas e meia, a grande procissão de navios passou pelo Rochedo, 140 navios movimentando-se de acordo com um horário exato, e o último penetrou no Mediterrâneo às 04:00. h de 7 de novembro. Ao amanhecer daquele dia, o Grupo de Ataque Sul da Força-Tarefa Ocidental, comandado pelo Almirante Lyal Davidson, deixou a força principal, rumando para Safi, e o restante se manteve na rota de Casablanca. Informou-se que a rebentação estava violenta na costa marroquina.

Durante a noite de 6 de novembro, o P219, disfarçado em submarino americano, com um comandante americano temporário, recebeu o General Giraud ao largo da costa, perto de Toulon. Durante muito tempo o submarino não pôde manter contato com Gibraltar, em virtude de defeito na aparelhagem de rádio. Finalmente, conseguiram transferir o general para um Catalina da RAF, que o levou para Gibraltar, onde desceu na tarde do dia 7. Com mais de 1,80 m de altura, metido em roupas civis bastante amarrotadas, com as quais fugira da França, ele reuniu-se com o General Eisenhower e exigiu o comando de toda a expedição aliada. Inglória discordância reinava, entrementes, nos altos conselhos do Eixo. Enquanto os comboios de ataque se aproximavam de Gibraltar, no dia 4 de novembro, o encarregado do diário de guerra no Alto Comando alemão comentava sobre os informes da Luftwaffe a respeito da presença de belonaves em Gibraltar: "A concentração de forças navais tão importantes no Mediterrâneo Ocidental é indício da iminência de uma operação, talvez outro comboio para Malta". O Marechal Cavallero, chefe do Estado-Maior do Alto Comando italiano, achava possível que os Aliados fossem desembarcar na costa da África.

Os informes e as advertências que chegaram nos três dias anteriores aos desembarques vieram tarde demais. Os líderes do Eixo esperavam ação aliada na costa atlântica, e não no Mediterrâneo. Para proteger suas linhas de abastecimento das tropas da África, suas forças navais foram agrupadas no centro e no leste do Mediterrâneo, deixando a parte ocidental relativamente desimpedida. Seus olhos estavam voltados para o destino de Rommel.

Durante o dia 6 de novembro, o Alto Comando Naval alemão, até então firme defensor da teoria de que o comboio ia para Malta, admitiu que os Aliados estivessem planejando desembarques dentro da seguinte ordem de probabilidades: Trípoli-Bengazi; Sicília, Sardenha; o continente italiano e, em último lugar, a África do Norte Francesa. Na manhã do dia 7, Hitler afirmava que os Aliados pretendiam desembarcar quatro ou cinco divisões em Trípoli ou Bengazi, para surpreender Rommel pela retaguarda. Mussolini, por sua vez, dizia esperar desembarques na costa da África do Norte Francesa.

Hitler esperava fazer boa colheita em navios britânicos nas águas ao largo da Sicília. No dia 7 de novembro, pela manhã, o Comando Naval italiano ainda defendia o ponto de vista de que os ataques seriam feitos em Tabarka, Bougie e Argel, mas acabou silenciando diante da contradita do Comando Naval alemão na Itália. Porém, no fim daquele dia, ele deu ordens para que os submarinos italianos disponíveis agissem contra aquela ameaça. Mais tarde, no dia 7, alguns submarinos alemães, postados ao sul das Ilhas Baleares, foram transferidos para a costa da África do Norte Francesa, mas não se aproximaram o bastante para interceptar a passagem dos comboios de ataque aliados.

Os Aliados, uma vez que não podiam ocultar os preparativos que faziam, tinham largado várias pistas falsas com o objetivo de mascarar a sua verdadeira intenção. Embora os alemães agissem com rapidez e vigor depois de iniciados os desembarques, no momento crítico do ataque as forças do Eixo estavam dispersas e mal colocadas. Conseguira-se a surpresa tática. Apenas um navio-transporte, de toda a força, foi atacado durante a aproximação para o assalto.

Quando as forças de ataque se aproximavam da costa, apenas um pensamento as dominava: será que os franceses eram inimigos? As ordens dadas aos comandantes da força de assalto eram específicas: os primeiros disparos deveriam partir dos franceses um ato hostil isolado não deveria ser considerado necessariamente como uma demonstração de hostilidade generalizada; uma vez cessada a resistência, as forças aliadas deveriam suspender o fogo, a menos que os franceses o reiniciassem. Era uma diretiva difícil de cumprir, especialmente para os comandantes da força-tarefa naval. Para Casablanca, Hewitt e Patton acertaram dois códigos de sinalização: o comandante de unidade que pretendesse revidar o fogo francês, assinalaria "Bombardeie"; os comandantes de força-tarefa ou grupo-tarefa assinalariam ação ofensiva geral com a palavra "Comecem".

Em terra, homens de coragem e capacidade estavam pondo em ação planos há muito preparados para impedir qualquer oposição aos desembarques. Alguns membros da colônia americana tinham trabalhado com grupos de civis franceses para sabotagem, tomar pontos importantes, capturar homens importantes favoráveis a Vichy e prender os Comissários de Controle alemães. Eles tinham uma estação de rádio secreta no sótão de um prédio situado perto do porto e que estava ligado ao Vice-Cônsul americano por um mensageiro. Essa estação tinha contato com a Força-Tarefa que se aproximava, através de Gibraltar, mas às vezes esse contato se fazia muito precariamente.

Três dias antes do dia do ataque, Murphy, de Argel, cancelou todos os arranjos anteriores e transferiu o controle para o General Béthouart, comandante da Divisão de Casablanca e associado de Mast. Nem submarinos nem patrulhas aéreas franceses descobriram a aproximação das forças americanas, fato que se revelou muito desagradável para Béthouart.

Enquanto as barcaças de desembarque estavam sendo carregadas e reunidas para o ataque, marcado para as 04:00 h, o general francês começou sua operação. Às 02:00 h, em Rabat, um mensageiro entregou uma carta ao General Residente do Marrocos, General Noguès, informando-o que Giraud, com a ajuda de soldados americanos, estava assumindo o comando de toda a África do Norte Francesa e nomeara Béthouart para o comando de todas as tropas do exército no Marrocos e para ajudar uma força americana que estava prestes a desembarcar. Ordens estavam sendo despachadas para todas as guarnições e aeródromos marroquinos para que não se opusessem aos desembarques. Ele pedia a Noguès que emitisse ordens de confirmação ou se ausentasse até que pudesse aceitar o fato como consumado.

Entrementes, Béthouart fora ao posto de comando do Exército Marroquino; ele estava protegido por um batalhão da Infantaria Colonial Marroquina, formada principalmente de jovens que haviam escapado da França. O Comandante-Chefe das tropas marroquinas, General Lascroux, a quem Béthouart substituiu, e o comandante da Força Aérea, General Lahoulle, foram presos, e ordens para aterrar todos os aviões foram mandadas às bases aéreas.

Em Casablanca, as defesas estavam entregues ao Almirante Michelier, que também recebeu, em mãos, uma mensagem de Béthouart instando-o a apoiar Giraud e a receber os americanos sem resistência. Infelizmente, o almirante não se deixou impressionar pelo que dizia a mensagem, por não acreditar que os americanos pudessem desembarcar uma força de importância. O tempo era inadequado, a rebentação estava forte e ele não recebera quaisquer informes de seu pessoal de reconhecimento de que forças navais americanas navegavam ao largo da costa. Por isso, certo de que Béthouart fora burlado, telefonou a Noguès e a outros comandantes para se certificar de que não havia nenhuma grande força ao largo.

Uma etapa importante do plano devia ser realizada pelo Cônsul-Geral dos Estados Unidos, Earle Russell. Através de dois vice-cônsules, ele devia enviar uma nota do Presidente Roosevelt ao Sultão e ao General Residente. Essas notas foram entregues mais tarde do que deviam, e Noguès não deu crédito àquela que lhe coube, nem a leu. Ele entrou em contato com os comandantes em Meknes e Marrakesh, verificando que não estavam obedecendo a Béthouart. Nada lhe encorajava a passar por cima do comando de Michelier. O almirante pôs em operação os planos de defesa; a tentativa de impedir que houvesse oposição caiu por terra e Béthouart foi preso.


Desembarque

Uma grande ansiedade foi eliminada quando os navios se aproximaram da costa: a rebentação não era tão forte que pudesse impossibilitar os desembarques. Os três grupos navais de ataque, o de Safi, o de Fedala e o de Mehdia-Port-Lyautey, deviam adotar o mesmo procedimento geral. Os transportes de tropas ancorariam numa área designada, a alguns quilômetros ao largo, e lançariam as barcaças de desembarque dos seus turcos. Estas se acercariam dos costados dos barcos que transportavam tropas para recebê-las. Uma vez cheias; as barcaças deveriam permanecer circulando até que chegasse a hora de se agruparem, em levas, numa linha de partida entre dois navios de controle. Então, rumariam para a costa obedecendo a formação programada, orientadas por vasos de escolta equipados com radar e outros aparelhos de ajuda.

A sincronização das levas de barcaças de desembarque foi elaborada de tal modo que elas se sucedessem umas às outras sem qualquer possibilidade de tumulto. As barcaças que tivessem desembarcado seus ocupantes seriam orientadas, no caminho de volta, para os navios onde deveriam apanhar mais soldados.

Durante o dia 7 de novembro, a Força-Tarefa Ocidental se dividira em três: a força que ia para Safi rumou na direção sul de manhã; a que se dirigia para Mehdia-Port-Lyautey rumou para o norte à tarde; a força principal manteve-se na direção de Fedala-Casablanca. Por volta das 23:30 h daquela noite, na mais total escuridão, os navios-transporte e belonaves do Grupo de Ataque Sul começaram a reunir-se nas áreas a eles designadas a cerca de 13 km da costa. O porta-aviões Santee, com uma escolta de dois destróieres, ficou a cerca de 100 km mais ao largo.

As luzes de Safi, uma cidade pequena, com sua baía artificial protegida, do lado do mar, por um molhe de mais ou menos 1.600 m de comprimento, eram claramente visíveis no horizonte. Na extremidade norte, um cais ia ao seu encontro, deixando uma entrada de uns 150 metros de largura para a baía. Ao sul e norte da cidade erguiam-se rochedos abruptos. No fundo da baía havia uma praia e logo ao norte do cais da baía estendia-se uma faixa de areia de cerca de 500 metros de comprimento; pouco acima deste, separada por um rochedo, havia outra praia, pequena. Essas praias, começando da baía, foram chamadas Verde, Azul e Vermelha. A 13 km ao sul de Safi, em Jorf el Houdi; existia outra praia, designada Amarela, que seria usada se fosse necessário marchar sobre a cidade a partir do sul. Um submarino faria um levantamento dessa praia a tempo de o comandante de uma subforça-tarefa receber um relatório durante as primeiras horas após chegar ao largo de Safi. Se favorável o informe, tentar-se-ia um desembarque ali.

Menos de 1.000 soldados guarneciam Safi, com 15 tanques leves já obsoletos, 5 carros blindados, uma bateria de 4 obuseiros de 75 mm e uma de 4 canhões móveis de 155 mm. Nos rochedos ao norte da cidade, na Pointe de la Tour, uma bateria de canhões costeiros de 130 mm dominava a baía. Os reforços disponíveis em Marrakesh situada a mais de 140 km para o interior, incluíam 1.400 soldados de cavalaria, 2.000 de infantaria, 30 tanques, 10 carros blindados e dois batalhões de artilharia tirada a cavalo.

A Subforça-Tarefa Blackstone, sob o comando do Major-General Harmon, comandante da 2a Divisão Blindada, com 6.428 oficiais e soldados, foi organizada em dois grupos de desembarque para ataque marítimo, com parte de um batalhão de infantaria na reserva, um grupo de blindados, com um batalhão de tanques médios na reserva, e várias unidades de especialistas. Seu objetivo principal era desembarcar uma força de tanques médios instruída para avançar na direção norte a fim de ajudar na tomada de Casablanca.

Durante a noite, o submarino americano Barb colocou-se, a cerca de 4 km de Pointe de la Tour e lançou um barco de borracha, tripulado por um destacamento de exploração do exército, para ir à extremidade do longo molhe, onde marcaria a entrada com sinais infravermelhos. Na escuridão, o destacamento entrou na baía e, antes que percebesse, foi alvo de disparos, tendo de proteger-se. Entrementes, o submarino começou a mandar sinais infravermelhos contínuos. Dois velhos destróieres, o Bernardou e o Cole, adaptados para transporte de tropas, estavam ancorados ao largo da baía; sujeito a reconhecimento, eles deviam inicialmente partir para o interior da baía, para desembarcar duas companhias de infantaria na praia Verde. A eles se seguiria uma leva de tanques leves desembarcados do navio-transporte Harris; três outros navios-transporte desembarcariam infantaria nas praias Azul, Vermelha e Verde.

A descarga das barcaças de desembarque fez-se muito lentamente, e também tiveram dificuldade em encontrar o Harris. Um erro cometido na estivagem do navio obrigou a um complicado movimento de veículos pesados para que pudessem ser descarregados os caminhões e os canhões da primeira leva de artilharia, que estavam nos três últimos porões do barco. Os soldados, que transportavam 27 kg de carga, inclusive armas, desceram muito lentamente pelas redes estendidas nos costados dos navios até as barcaças de desembarque.

As ondas estavam fortes, fazendo o navio jogar muito, por isso que a tarefa de encostar a barcaça de desembarque no costado do navio e de fazer descer os tanques, os veículos, o equipamento e a munição até elas se fez lenta e cansativamente, criando dificuldades inesperadas. O início da operação sofreu um retardamento de meia hora; apesar de tudo isso, porém, uma leva de tanques e três de infantaria saíram da linha de partida às 04:00 h, escoltadas pelos destróieres Mervine e Beatty.

Enquanto o carregamento das barcaças de desembarque a pouco e pouco se normalizava, um barco de reconhecimento partiu com ordens para o Bernardou e o Cole para que dessem início ao ataque. O comandante desse barco de reconhecimento, o Segundo-Tenente John Bell, também devia entrar em contato com o submarino, para obter informes sobre a praia Amarela, mas não encontrando sinais do submarino, nem os que deveriam ter sido deixados no molhe, indicando a ocorrência de desembarques, encarregou-se ele mesmo da obtenção desses informes, deslocando-se lentamente na direção da baía e parando seus motores a cada 15 minutos para ouvir e observar. Quando se aproximava do molhe, mal viu o Bernardou aproximar-se, com suas luzes infravermelhas acesas, e acendeu as de seu barco. Eram 04:10 h. Minutos depois, o destróier Beatty, escoltando as primeiras levas de barcaças de desembarque, cruzou por trás do Bernardou, para tomar posição e dar apoio de fogo. O Cole, vindo logo a seguir, confundiu-o com o Bernardou e desviou-se para o sul, tomando um curso que o destruiria contra o molhe, sendo salvo pelo Segundo-Tenente Bell pouco antes de chocar-se e recolocado no rumo certo.

Entrementes, o Bernardou começou a penetrar a baía. Tudo estava calmo. De repente, porém, quando fazia a penetração dos trechos iniciais da baía, os canhões costeiros, as metralhadoras colocadas nos rochedos e no cais abriram fogo em sua direção.

Os franceses estavam lutando.

O Bernardou revidou, prosseguindo baía adentro. O seu ponto de desembarque estava cheio de barcos ancorados. Ele encostou suavemente nas pedras de um molhe, ao lado da praia Verde, soltou as redes de desembarque e, às 04:45 h, por elas desceram os primeiros soldados americanos a pisar terras do Marrocos. Vinte minutos depois, a barcaça em que iam os tanques leves chegou à praia Verde, tendo passado à frente do Cole quando este ainda vagava meio sem rumo. Nela, vinha também um pelotão de reconhecimento que se lançou para a cidade, a fim de ocupar a estação de telégrafo e telefone. O Cole, embora debaixo de fogo de metralhadoras, conseguiu aproximar-se de um cais e desembarcar uma companhia de infantaria, que tomou os tanques de armazenagem de gasolina e se distribuiu por toda a área da doca. Ao clarear o dia, homens dos grupos especiais de desembarque dominavam a baía, a estação ferroviária, os correios e as estradas de acesso à cidade pelo sul. Disparos esporádicos, feitos por pequenos grupos de franceses abrigados nos prédios e rochedos, prosseguiram por algumas horas.

A bulha foi crescendo de intensidade à medida que o ataque se desenrolava. Quando os franceses começaram a disparar contra o Bernardou, os destróieres Mervine e Beatty, apoiando a barcaça de desembarque "Battered Up", atacaram as posições de artilharia dos franceses. Dez minutos depois, o Almirante Davidson deu o sinal "Comecem", e os canhões de 14 polegadas do velho couraçado New York abriram fogo contra as baterias costeiras da Pointe de la Tour. Eles derrubaram a torre de controle de tiro com a segunda salva. O cruzador Philadelphia juntou-se ao ataque à bateria, disparando do sul. O Segundo-Tenente Bell manteve-se firme em sua posição, mandando sinais para as levas de barcaças de desembarque que traziam a infantaria para as praias Vermelha, Azul e Verde. Ele ajudou-as a deslocar-se ordenadamente em busca de seus objetivos. Entre 05:00 h e 05:30 h, três levas de mais de 200 homens cada uma chegaram à terra mais ou menos no lugar certo, desembarcaram seu equipamento e avançaram para o interior. As quarta e quinta levas, mais afetadas pelos problemas de descarga do Harris, só chegaram a terra já manhã clara.

À luz do dia, os franceses podiam ver melhor o que estava acontecendo e contra o que deviam disparar. Ao entrarem de novo em ação as baterias, alguns dos navios-transporte bem como o destróier Mervine, tiveram de pôr-se fora do alcance delas. O Segundo-Tenente Bell, que já terminara sua tarefa, também afastou-se às pressas para ajudar na praia Amarela, onde o progresso fora muito limitado. Um batalhão completo de grupo de desembarque tinha de ser tirado do navio-transporte Dorothea L. Dix, cerca de 1.450 homens, 5 tanques leves, 1.500 toneladas de veículos, equipamento, munição e suprimentos. Em virtude da agitação do mar, a descida das barcaças de desembarque foi lenta e perigosa, e a tarefa de carregá-las, ainda mais. Enquanto os veículos estavam sendo tirados do navio, em guindastes, um caminhão chocou-se contra o casco do navio quando este balançou mais fortemente. Uma lata de gasolina, no choque, explodiu, espalhando o combustível em chamas sobre a barcaça de desembarque, que se incendiou, incendiando-se também o caminhão e o costado do navio. A munição que já se encontrava na barcaça explodiu. A crença geral, inicialmente, era de que o Dix tinha sido torpedeado.

O barco de reconhecimento do Dix zarpara para o ponto de sinalização que lhe estava destinado, ao largo da praia Amarela, pouco antes das 04:00 h, mas as primeiras levas de desembarque só ficaram prontas para partir, com seu destróier de escolta, depois das 05:00 h. Somente cinco das dez levas necessárias estavam prontas para partir. Durante a travessia de 13 km até a costa, as cinco barcaças que as conduziam perderam contato com o destróier e retornaram ao transporte, onde ficaram circulando até bem depois de clarear o dia, só fazendo a segunda tentativa de desembarque às 08:00 h. Por volta de meio-dia, o grupo de desembarque do Dix estava quase todo em terra e em condições de locomover-se costa acima, até Safi.

A mais bem sucedida das operações noturnas fora a ocupação da baia e das instalações portuárias. Os primeiros grupos que desembarcaram nas praias do norte, a Vermelha e a Azul, também não encontraram muita resistência. Mas, quando começou a clarear mais, o fogo de metralhadoras e fuzis dos rochedos e prédios também aumentou, não havendo o esperado apoio dos tanques leves. Ao clarear o dia, ou pouco depois, cinco tanques haviam desembarcado na baía, mas passaram-se umas duas horas para que seus motores, molhados pela água do mar, começassem a funcionar. Antes que estivessem prontos, já os canhões da marinha atacante haviam silenciado os da defesa costeira. Sem esperar pelos tanques, o Coronel Randle reuniu os homens, que estavam deitados nas praias, e os conduziu para além dos rochedos, a fim de estabelecer uma cabeça-de-praia circundando a cidade. Eles foram reforçados por outros desembarques feitos na praia Azul pouco depois das 07:00 h.

Para garantir e aprofundar ainda mais a cabeça-de-praia, novos grupos de soldados de infantaria foram enviados, cerca de uma hora depois, em reforço dos que lá se encontravam. Por volta das 09:00 h, o grupamento blindado começou a ser despachado em direção da praia Verde. Um pelotão, por volta das 10:00 h, subiu na direção da Pointe de la Tour. Uma hora depois, um segundo pelotão moveu-se para o interior, partindo da praia Azul. Enquanto isso ocorria, os canhões de 155 mm da bateria móvel que havia ao sul da cidade começaram a bombardear os navios-transporte. Pediu-se ao Philadelphia que abrisse fogo contra eles, e um avião de observação decolou para determinar o alvo. Passados dez minutos, as salvas dos canhões de 6 polegadas do cruzador estavam caindo sobre a bateria, que finalmente foi destruída.

Pouco depois do meio-dia, era possível trazer para o porto não só os navios que transportavam os tanques leves, como também o grande navio carregado com os médios. A descarga começou em meio ao fogo de fuzileiros ocultos nos prédios próximos do porto, que só ficaram desimpedidos pelo meio da tarde.

Atrás do porto, a luta principal se desenrolava no quartel do exército. Os disparos dessa área murada detiveram a infantaria durante a maior parte da manhã. Quando três tanques leves franceses tentaram contra-atacar, foram detidos por fuzis antitanques e usados para atirar contra o quartel. No começo da tarde, uma seção de morteiros de 88 mm, trazida para a área, começou a lançar bombas dentro do quartel, que afinal se rendeu às 15:30 h.

No meio da tarde, o comandante da 2a Divisão Blindada desembarcou e organizou patrulhas de tanques e de tropas motorizadas para eliminar os tocaieiros que ainda hostilizavam os que procediam aos trabalhos de descarga no porto. Foi então que o primeiro avião francês apareceu, sobrevoou a baía e foi embora, depois de ser alvo das baterias de terra e dos navios. Houve pouca cobertura aérea eficaz do porta-aviões durante o dia, em contraste com a presteza e precisão do fogo de artilharia naval. Entretanto, não apareceu mais nenhum avião francês naquele dia.

Pelo anoitecer do primeiro dia de ataque, o porto estava nas mãos dos americanos, com uma cabeça-de-praia que penetrava quase 5 km a área visada. Todas as estradas de acesso à cidade estavam bloqueadas. Tanques, veículos e mantimentos para o Comando de Combate B da 2a Divisão Blindada estavam sendo desembarcados. As baixas evacuadas pela unidade médica instalada na praia montaram a 3 mortos e 25 feridos.

Durante a noite, os navios-transporte aproximaram-se para ser ancorados no cais dentro da baía ou ao largo da extremidade do molhe. As barcaças de desembarque do Titania, que estava atracado, passaram a ajudar ao Calvert no descarregamento da carga que levava, primeiramente nas praias e, mais tarde, no cais, quando o Titania acabou de descarregar.

Sete belonaves, num semicírculo cerrado, defendiam os navios-transporte contra eventuais ataques de submarinos ou aéreos, enquanto que o cruzador, o porta-aviões e sua escolta de destróieres permaneciam ao largo. Ao amanhecer do segundo dia da "Operação Tocha", em meio a denso nevoeiro, os aviões franceses atacaram a baía; somente um deles lançou sua bomba, causando relativamente pouco dano, e foi derrubado. Mais tarde, no mesmo dia, os aviões do Santée atacaram o aeródromo em Marrakesh. Numa série de surtidas, cerca de 40 aviões franceses foram destruídos em terra. Os mesmos aviões atacaram e dispersaram uma coluna de cerca de 40 caminhões que transportavam reforços para Safi. Não podendo retornar ao porta-aviões, por escassez de combustível, eles tentaram pousar numa pista de areia perto de Safi, e a maioria embicou no chão.

A inexperiência e o treinamento inadequado haviam prejudicado os primeiros exercícios de desembarque; nenhuma das levas de ataque partiu na hora marcada ou segundo os programas estabelecidos. Uma vez em terra, o desempenho dos soldados foi ainda mais desigual. Enquanto alguns avançavam, aplicando-se com energia e decisão, outros jogavam-se ao chão assim que alguém começava a atirar. Os comandantes demonstraram capacidade diante dos percalços da tarefa ingente. Apesar das dificuldades que a falta de treinamento criou, o acerto do planejamento fez-se valer. O porto principal encontrava-se em poder dos americanos quinze horas após os primeiros desembarques; pelo anoitecer do Dia "D" da "Operação Tocha", os tanques médios estavam sendo desembarcados. O porto foi organizado de tal modo que os seis navios-transporte e o grande navio em que iam os tanques médios foram descarregados e partiram até a tarde do quinto dia de desembarque.

Pelo entardecer do dia 9, o Dia "D" + 1, o 1o Grupo de Desembarque Blindado, devidamente organizado, deslocava-se para o interior, para interceptar a força francesa que vinha de Marrakesh. Pelo anoitecer, travaram contato e houve troca de tiros de artilharia perto de Bou Guedra, 24 km a leste de Safi. Entretanto, uma batalha nesse momento não fazia parte da tarefa principal do General Harmon. Com seus tanques médios organizados em terra pelo fim da tarde, ele despachou um grupo de combate, com tanques leves, para repelir a força francesa de Safi, desviando-se com o Comando de Combate B para o norte, para dar ajuda em Casablanca. Ele partiu costa acima às 09:00 h do dia seguinte (Dia "D" + 2); pelo anoitecer, alcançou Mazagam, o que representava um percurso de 144 km por estrada. Na manhã seguinte a guarnição da cidade rendeu-se mais ou menos à mesma hora em que toda a luta cessava em Casablanca, ainda distante 80 km.

Meia hora depois que o Grupo de Ataque Sul se reuniu em Safi, o Grupo Centro, que era muito maior, com um total de 19.500 homens, com seus navios-transporte organizados em quatro colunas, aproximou-se do ponto designado para lhe servir de área de reunião, ao largo de Fedala. Mas uma correnteza imprevista desviara o comboio vários quilômetros do seu curso, pondo alguns navios-transporte até 10 km fora de posição. As manobras de emergência que tiveram de ser feitas para contornar o problema atrapalharam a formação, tornando-se necessário que se fizesse uma série de movimentos em plena escuridão, dirigida por um navio de controle, para que o arranjo planejado se estabelecesse. Violento aguaceiro complicou ainda mais as coisas.

O navio que ia à frente de cada uma das quatro colunas levava um dos quatro batalhões de grupos de desembarque. Por volta da 01:30 h eles foram informados de que estavam perto das suas posições; parecia que ainda havia tempo para descerem para as barcaças de desembarque e se reunirem para o desembarque na praia por volta da hora "H", às 04:00 h.

Mas nem todos os outros navios informavam estar nas respectivas posições. O contratempo de navegação havido deixou claro que o cuidadoso planejamento do Estado-Maior da 3a Divisão era complexo demais para resistir a uma emergência. A intenção básica do plano era admirável. De acordo com o que dispunha, todas as unidades de desembarque chegariam às praias completas e prontas para uma rápida organização. Para isso, os batalhões de ataque e suas reservas deveriam dar início ao processo de ordenação ainda na água, nas barcaças de desembarque, antes de rumarem para as praias. Cada batalhão de ataque tinha o seu programa de desembarque, especificando a sua distribuição pela praia e a tarefa a realizar. De 43 a 45 barcaças de desembarque de tropa e de 5 a 9 barcaças para tanques eram necessárias para cada batalhão de grupo de desembarque. Nenhum navio-transporte carregava mais de 34 barcaças. As restantes tinham que ser obtidas nos outros navios da coluna, o que tornava necessário um complexo manejamento de barcos. O objetivo do plano era colocar em terra as unidades de ataque necessárias antes de clarear o dia e trazer os grupos de acompanhamento rapidamente durante o transcurso da manhã. Infelizmente, as barcaças de desembarque extra não estavam no local quando se precisou delas.

Tal esquema só poderia ser realizado por unidades que tivessem alcançado um estado muito mais alto de treinamento do que o de qualquer das tropas aliadas na época. Ele foi ainda mais complicado pelos objetivos do desembarque. Havia três "praias", denominadas Amarela, Vermelha e Azul. A Vermelha e a Azul eram subdivididas, cada uma, em três subpraias. A Amarela era uma praia pequena, situada no flanco direito, para ser usada em missões especiais; a praia Vermelha 3 era também pequena, situada na extremidade do flanco esquerdo; a Vermelha 2 ficava bem na frente da cidade, defendida pelos canhões do Cap de Fedala e confrontada por um molhe de três metros de altura: ela só seria usada para os desembarques de acompanhamento. Entre as praias Vermelha 2 e Vermelha 3 e entre a Azul 2 e Azul 3 havia recifes. Essas quatro praias usadas nos desembarques principais situavam-se a leste do porto e dentro da baía rasa, que era protegida pelo Cap de Fedala, a oeste, e pelo Cherqui, um afloramento rochoso, a leste. Cada um desses promontórios estava dotado de baterias de costa que dominavam as praias.

Com os quatro navios-transporte principais em posição e com os outros ainda incertos, foi dada a ordem de descarregar o máximo possível de cada grupo de ataque, utilizando as barcaças disponíveis. Três barcos de reconhecimento saíram em direção das praias, para localizá-las e marcá-las. O descarregamento de veículos e equipamento pesado foi tão morosamente feito, que a hora "H" sofreu um atraso de trinta minutos. Apesar da decisão de não esperar pelas barcaças que seriam retiradas dos outros navios, o desembarque de soldados também foi lento, por causa da sobrecarga, pesada e incômoda, que levavam; o forte balanço das ondas, agitando em demasia as barcaças acostadas aos navios, também transformava a descida pelas redes uma operação muito penosa para os soldados. O começo do ataque foi então marcado para as 04:45 h.

Quatro destróieres de escolta acompanharam as barcaças de desembarque até a linha de partida, a cerca de 4.000 metros da praia, pouco depois das 04:00 h.

Por volta das 04:45 h as primeiras levas partiram realmente para a praia, uma corrida de 15 a 20 minutos de duração, orientada pelas luzes pisca-pisca dos barcos de reconhecimento. A princípio, não havia indícios de movimento em terra, mas quando o ruído das barcaças de desembarque chegou à terra, holofotes começaram a varrer os céus e a vasculhar o mar, iluminando as barcaças. Das 35 levas que tinham de deixar os quatro transportes, somente 18 e meia se apresentaram. Duas barcaças, em virtude da desarrumação que se verificou no momento, determinada não só pela complexidade do plano, mas também pelas condições do mar, zarparam sozinhas, chegando à praia Azul 1, e não à Azul 2, onde o seu batalhão estava atacando.

Em parte devido ao mar agitado, em parte por inexperiência dos navegadores, houve barcaças que aportaram em praias erradas; outras, desviadas de rumo pela correnteza, foram bater contra as pedras, despedaçando-se, tão forte a fúria das ondas. Desse grupo, perderam-se 21. Os soldados que foram lançados à água, não conseguindo livrar-se do fardo que levavam, afogaram-se muitos deles.

A primeira leva endereçada à praia Vermelha 3, confusa porque o marcador de praia que a devia orientar estivesse fora de posição, foi parar na Azul 2 e nas pequenas praias mais para leste; 16 das 33 barcaças de desembarque desse grupo se perderam.

De um grupo de 25 barcaças que iam para a praia Azul, 18 foram destruídas no primeiro desembarque. De outro grupo que rumava para a mesma praia, apenas 2 das 27 se perderam.

Era grande a dificuldade para se pôr as barcaças de desembarque novamente a flutuar, não só quando encalhavam nas rochas como também nas praias; a rebentação era uma das causas; outra era o aperto dos horários, que traziam uma leva logo atrás de outra; e a maré vazante era também mais uma delas. As barcaças de desembarque de veículos muitas vezes ficavam retidas porque os caminhões não conseguiam andar e tinham de ser empurrados. Todas essas dificuldades causaram a dispersão de unidades, separaram soldados das suas armas e equipamentos. O efeito de toda essa confusão inicial se fez sentir ao longo dos estágios posteriores da operação.

Entretanto, de algum modo os soldados envolvidos triunfaram sobre as dificuldades que se lhes apresentaram. Por volta das 05:30 h, um destacamento do grupo de desembarque na Vermelha 2 já atravessara a praia e ia célere para Fedala. Ele surpreendeu uma companhia de soldados de infantaria senegaleses no caminho, capturando-a e pegou 10 Comissários do Armistício alemães que estavam tentando fugir de automóvel. Por volta de 06:00 h a cidade de Fedala encontrava-se sob o controle dos americanos.

Apesar do fogo de metralhadoras, da destruição de muitas barcaças, da babel que se formou, as três companhias de fuzileiros destinados à praia Azul 1 estavam em terra por volta da 06:00 h. Na Azul 2, parte do grupo de desembarque chegou a terra, mas sem seu comandante, que desembarcou a 5 km de distância. Sem se deixar intimidar, a companhia de armas pesadas colocou seus morteiros em posição para atacar a bateria costeira de Pont Blondin, seu principal objetivo imediato. Ao mesmo tempo, o comandante de outro grupo de desembarque erroneamente deixado em terra nessa praia com uma seção de morteiro e quatro pelotões de fuzileiros, e sem poder chegar às suas próprias tropas, atacou a bateria do lado oposto.

Pouco depois das 06:00 h, com a vantagem da luz do dia, as baterias costeiras abriram fogo; recebendo a resposta dos canhões navais que as silenciaram parcialmente. A nave-capitânia Augusta atacou os canhões no Cap de Fedala no momento em que o General Patton se preparava para rumar para a praia. Sua barcaça de desembarque, que estava pendente dos turcos, foi reduzida a pedaços pela explosão de boca da torreta de popa, e, por mais três horas, o comandante da força-tarefa não pôde ir a terra para assumir seu comando por causa das ações de que o Augusta estava participando.

Depois de violento ataque feito pelo cruzador Brooklyn, que lhes inutilizou o equipamento de controle de tiro, as unidades que estavam em torno da bateria de Pont Blondin foram obrigadas a render-se por volta das 07:30 h. Entrementes, elementos de dois grupos de desembarque avançaram reunidos, a fim de estabelecer a cabeça-de-praia. Do outro lado da baía, a tomada das baterias foi um pouco mais lenta. Um pequeno destacamento que deveria ter desembarcado na praia Amarela para tentar, ainda escuro, pegar de surpresa uma bateria antiaérea pesada que protegia o cabo, não chegou a terra. A infantaria que avançava sobre o Cap de Fedala, vinda da cidade, foi detida por essa bateria e pela artilharia dos navios americanos. Ela mandou um sinal pedindo a cessação do bombardeio para que pudesse prosseguir; mas os soldados que ainda desembarcavam nas praias, sendo alvo dos canhões, fizeram um sinal contrário. Finalmente, um ataque de infantaria, apoiado por quatro tanques leves, assegurou a rendição da estação de controle de tiro e dos canhões pesados por volta do meio-dia.

O grupo que desembarcou na praia Azul 1, apesar de todas as perdas, atravessou a praia e se organizou quando o dia clareava. Avançando para o sul, para ganhar o terreno de onde podia guardar o flanco sul da cabeça-de-praia, o grupo, pelo final da tarde, estabeleceu uma posição a 8 km para o interior, dominando a rodovia Casablanca-Rabat.

Durante a tarde, outras unidades foram trazidas para terra, com a rapidez da operação sempre prejudicada pela escassez de barcaças de desembarque. Ao anoitecer, os objetivos iniciais dos grupos de assalto haviam sido Conquistados. Quatro batalhões desses grupos foram posicionados a oeste de Fedala, cobrindo todos os acessos de Casablanca; dois outros foram postos no controle do lado sul e do lado leste, e um outro foi agrupado como reserva; perto das praias. Essas posições não estavam tão avançadas como se planejara. Foram mantidas mais para trás por iniciativa do comandante do Grupo de Ataque Centro, Major-General Anderson. As inúmeras barcaças perdidas reduziram a rapidez da descarga de equipamento e mantimentos essenciais. A prioridade, na estiva, fora para os veículos de combate, de modo que havia séria escassez de transportes. Os pedidos de emergência de armas e equipamento para substituir os perdidos nos desembarques atrapalharam os planos de descarregamento. Durante a manhã do dia inicial da operação, os trabalhos de descarregamento se arrastaram. Registraram-se vários ataques por parte dos aviões franceses. Os depósitos de munição, de gasolina, de rações e de água foram preparados com dolorosa lentidão. O oficial responsável pelo controle do material utilizado nos desembarques desenvolveu enorme esforço no sentido de reunir as barcaças num ponto em que a rebentação era mais fraca.

Os navios-transporte deslocaram-se para mais perto da costa, a fim de reduzir o tempo gasto pelas barcaças no vaivém que faziam. Mesmo assim, aí pelas 17:00 h, embora quase dois quintos dos soldados estivessem em terra, inclusive nove décimos dos batalhões de ataque, somente 16% dos veículos e 1,1% dos suprimentos haviam sido descarregados. Sem veículos, as unidades avançadas não podiam ser abastecidas. Os canhões para as baterias de artilharia leve, os autopropulsados de 105 mm e outros equipamentos pesados estavam faltando. Seriam grandes os esforços feitos durante a noite para trazer para terra o material necessário e colocá-lo nos depósitos sob proteção; mas naquela noite Anderson reteve suas tropas, planejando ir em frente na manhã seguinte, contando com o que pudesse ser desembarcado para apoiá-las.

Apesar de todas as dificuldades encontradas enquanto desembarcavam, a subitaneidade e o poder de ataque da força americana destruíram os planos de defesa do exército francês, que se mostrou inclusive incapaz de concentrar suas reservas móveis; de manhã cedo, um oficial do Estado-Maior do General Patton, Coronel William Wilbur, tentara chegar até o Almirantado em Casablanca sob a proteção da bandeira de trégua; mas ele chegou ouvindo o troar de canhões navais. Quando Patton desembarcou em Fedala, à tarde, o comandante francês lhe pediu que enviasse um mensageiro para pedir a rendição de Casablanca: o exército francês não desejava lutar com os americanos. Assim, o Coronel Gay partiu com a bandeira branca. Foi cordialmente recebido pelos líderes do exército, mas o Almirante Michelier recusou-se a recebê-lo.

As forças navais e aéreas francesas entraram em ação pouco depois de clarear o dia. Ao amanhecer, o porta-aviões Ranger tinha um esquadrão de bombardeiros de mergulho e dois de caça em vôo, com nove hidraviões lançados de catapulta das belonaves, para ficarem atentos ao aparecimento de submarinos, atacar baterias antiaéreas ou aeródromos. Pouco depois das 07:00 h, aviões franceses decolaram para repelir aviões de observação que estavam dirigindo a artilharia naval. Dois submarinos começaram a deixar o porto. Os grandes canhões do Jean Bart dispararam contra os cruzadores do grupo de cobertura naval, apoiados por baterias costeiras instaladas no cabo El Hank.

Os tiros das belonaves americanas puseram os canhões principais do Jean Bart fora de combate em meia hora. Eles também travaram combate com as baterias de defesa costeira, silenciando-as temporariamente. Os bombardeiros de mergulho e os caças atacaram aeródromos e derrubaram aviões franceses, estabelecendo a superioridade aérea sobre a área até Port-Lyautey, no norte. Enquanto os grandes navios combatiam o Jean Bart e as baterias costeiras perto de Casablanca e em Fedala, sete destróieres franceses escaparam do porto, protegidos por uma cortina de fumaça, e atacaram dois dos navios-transporte e algumas barcaças de desembarque que rumavam para a praia Amarela, obrigando os dois navios, sendo um deles atingido, a recuar para junto dos cruzadores americanos. As belonaves francesas, diante disso, não conseguiram penetrar mais entre os navios-transporte e foram obrigadas a retornar à baía. Cerca de uma hora mais tarde, três dos destróieres tentaram novamente, mas foram repelidos.

O cruzador francês Primanguet saiu do porto. O grupo de cobertura americano esteve envolvido, durante a maior parte da manhã, num complexo combate com as baterias costeiras e com vasos de guerra e submarinos que tentavam fazer surtidas. Os destróieres foram massacrados; o Primanguet ficou seriamente avariado e acabou por incendiar-se. Pelo final da tarde, a marinha americana superara a ameaça das forças navais francesas; mas as baterias em El Hank ainda estavam em ação.

No dia seguinte, o Dia "D" + l, às 07:00 h, a tropa começou a avançar para oeste, sobre Casablanca, com quatro batalhões deslocando-se pelas estradas de Rabat-Casablanca e Fedala-Casablanca. Um outro batalhão foi colocado a leste de Fedala, para cobrir qualquer tentativa de contra-ataque que viesse de Rabat. A força principal que rumava para Casablanca encontrou poucos soldados franceses e fraca resistência, além de alguns ataques rasantes dos aviões franceses, mas o avanço foi detido a 8 ou 10 km da cidade, por falta de armas de apoio, transportes e comunicações. À parte o equipamento de comunicação da artilharia, o grupo de desembarque regimental da direita não estava em muito boas condições; o da esquerda, além de carente de canhões, em matéria de transporte possuía apenas cinco jipes médios. Durante a noite, foram retirados transportes do grupo que guardava Fedala, para dar mobilidade à artilharia e trazer munição; o avanço sobre Casablanca foi reiniciado à meia-noite.

Durante o dia 9 de novembro, parte do porto de Fedala começou a ser usada, de modo que o trabalho de descarga melhorou. À tarde, os veículos de um regimento blindado começaram a ser descarregados. Os homens incumbidos dos trabalhos do porto envidaram grande esforço para descarregar o máximo possível com certa dose de ordem. Por volta das 17:00 h, 55% dos homens, 31% dos veículos e 3,3% dos suprimentos já estavam em terra, o que tornou possível o reinício do ataque a Casablanca.

O objetivo do General Anderson, ao ordenar a marcha noturna, era aproximar suas tropas das defesas da cidade. Os soldados estavam cansados, e a maior parte das armas e munições ainda estava sendo carregada às costas deles. O grupo regimental da direita, com a estrada costeira na sua linha do centro, encontrava-se ainda a 88 km das defesas francesas e o grupo da esquerda tinha um percurso ainda maior. Este devia dobrar para sudoeste, na direção de uma serra que corre por trás de Casablanca, tomando um posto avançado francês no caminho, e depois avançar até a extremidade sul da cidade, sobre a estrada principal para Marrakesh.

A tropa que avançava pela ala costeira chegou aos subúrbios pouco depois de clarear o dia, mas daí por diante não conseguiu conservar a velocidade do avanço, porque o terreno, plano e inteiramente aberto, era dominado pelas armas portáteis dos franceses. Os que estavam no centro, passaram pela aldeia de Ain Sebaa, no entroncamento da estrada costeira com a rodovia principal de Rabat, pouco antes de clarear o dia, vencendo importante posto avançado francês no caminho. Também ao amanhecer, ele foi alvo do fogo de armas portáteis e de artilharia. Dois comandantes de companhia foram feridos; o batalhão dividiu-se em três, com uma parte indo para o terreno mais alto, à esquerda, dirigida pelo comandante do batalhão, e o restante abrigando-se em prédios dos arredores. Um batalhão de artilharia de campanha tomara posição em Ain Sebaa durante a noite. Quando ele abriu fogo, ao amanhecer, para apoiar a infantaria, os canhões franceses de 75 mm e 90 mm, alguns deles situados a menos de 800 m de distância, começaram a martela-lo violentamente, enquanto a infantaria atacava as guarnições dos canhões com metralhadoras e granadas. Meio desordenadamente, o batalhão de artilharia recuou 1.000 m para o leste, e os pelotões de infantaria que se haviam dispersado pelos prédios das proximidades, recuando também, prepararam defesas em torno da artilharia. Na parte da manhã, duas corvetas francesas bombardearam essas posições pelo flanco do mar, até que o Augusta as rechaçou, forçando-as a retornar ao porto.

Aí pelo meio-dia, o terceiro grupo do batalhão que se dividiu passou pela posição de Ain Sebaa, com apoio de tanques, e abriu caminho na direção do quartel de Camp de la Jonquière, que tinha a protegê-lo uma concentração de canhões franceses. Pelo anoitecer, tomando posição a poucas centenas de metros do objetivo, ele preparou-se para o ataque que se realizaria ao amanhecer do dia seguinte. Prisioneiros franceses revelaram ter recebido ordens para recuar.

À esquerda, patrulhas de reconhecimento informaram sobre a existência de uma posição que os franceses haviam organizado perto da encruzilhada em Tit Mellil. O comandante do grupo deteve então o avanço, para agrupá-lo para o ataque. A defesa estava fortemente defendida por anteparos de concreto, mas, aplicando os canhões antitanques de 37 mm como canhões de assalto, metralhadoras pesadas e morteiros de 81 mm, o grupamento de ataque, já agora contando com três batalhões, acossou os franceses por dois lados da aldeia e os expulsou dali. Recuando em direção à cidade, através de terreno muito acidentado e sob pesado fogo de metralhadoras e dos canhões de 37 mm, que disparavam granadas de alto explosivo, os franceses conseguiram impedir o avanço durante a maior parte do dia, de modo que o grupo atacante só se aproximou das principais defesas de Casablanca pouco antes do anoitecer.

Patton estava sob forte pressão de Eisenhower: a luta já terminara em Oran e Argel. Um ataque coordenado, apoiado por bombardeio naval, aviões dos porta-aviões e artilharia de campanha, foi planejado para as 07:30 h do dia seguinte, 11 de novembro. Às 02:00 h, um carro chegou aos arredores de Fedala, vindo da direção de Rabat, com os faróis acesos. Um dos ocupantes do carro, tocando vigorosamente uma corneta, trazia bandeiras brancas desfraldadas. Eles vinham com ordens do General Lascroux para que as forças francesas de Casablanca cessassem fogo. O carro obteve permissão para atravessar as linhas americanas, com a advertência de que se iniciaria um ataque ao amanhecer. Pouco antes da hora "H", quando os navios tomavam posição para o bombardeio inicial e os aviões se preparavam nos porta-aviões, mensageiros dos comandantes franceses chegaram com um acordo para suspender a luta imediatamente e propondo uma conferência naquele mesmo dia para acertar os termos.

Além das dificuldades verificadas nos desembarques dos veículos e suprimentos, a operação, de três dias de duração, foi também prejudicada pela falta de apoio de aviões baseados em terra, que deveriam estar disponíveis no aeródromo em Port-Lyautey, que devia ser tomado no Dia "D". O que acontecera a eles?

O propósito do ataque a Port-Lyautey, situado a quase 150 km para o norte, era obter o uso de um bom aeródromo para apoiar o ataque principal a Casablanca. A cidade de Port-Lyautey fica a cerca de 7 km da costa, numa das inúmeras curvas do sinuoso rio Oued Sebou, que vai desembocar 15 km além, no mar. O aeródromo está situado logo ao norte de Port-Lyautey, numa planície junto ao rio. Na foz do Sebou fica Mehdia, uma pequena baía artificial onde há um balneário. Fechando o Sebou, havia cerca de 1.600 m antes da entrada da baia uma barreira de troncos flutuante. As praias de Mehdia eram dominadas por dunas íngremes. A entrada para a baía e o ponto de cruzamento do rio eram protegidos por posições de artilharia e metralhadoras. Do outro lado da baía propriamente dita, um banco de areia limitava a passagem a navios com menos de 5,70 m de calado.

Excetuando-se um ataque aeroterrestre maciço, Port-Lyautey e seu aeródromo só poderiam ser tomados por um ataque por terra. Quando o Grupo de Ataque Norte se separou do corpo principal da Força-Tarefa Ocidental, na tarde de 7 de novembro, foi para dar cumprimento à ordem de execução de um plano que dependia do desembarque rápido dos grupos de assalto e de um ataque às instalações de defesa antes do amanhecer. Se bem sucedido, ele estaria pronto para liberar a foz do rio e atravessar rapidamente a região para tomar o aeródromo.

O que não faltava na área de Mehdia eram praias: ao sul da foz do rio havia uma cujo lençol de areia se estendia por quilômetros costa abaixo; ao norte, a faixa de areia, embora mais estreita, tinha também quilômetros de comprimento. Mais para o interior, havia uma pequena lagoa com cerca de 6 km de extensão, cercada por bosques de pinheiros e tendo ao fundo uma crista íngreme de rochedos de arenito que corria para o sul, paralela à costa. Uma estrada passava pela extremidade sul da lagoa e cruzava um dos raros desfiladeiros da crista, uma passagem de cerca de 200 metros de largura. Apenas 1 km separava a extremidade norte da lagoa do rio. Essa área era coberta de pinheiros de um lado e, do outro, era dominada pelos rochedos que se aproximavam até 200 m da margem do rio. Nesses rochedos havia pesadas baterias costeiras, protegidas por verdadeiros ninhos de metralhadoras, inclusive antiaéreas. Na extremidade do rochedo, acima do rio, ficava o Kasba, o velho forte mourisco, ligado às fortificações mais modernas por um sistema de trincheiras. Esse sistema de defesa dominava os acessos pelo mar até o Oued Sebou; as praias; a baía, cujos dois molhes, ao sul e ao norte da entrada, se estendiam quase 1.000 metros mar adentro, e a entrada do próprio rio, com sua barreira de troncos.

O plano do General Truscott tinha de levar em conta não só a tomada do aeródromo como também a abertura do rio, por onde seria transportada a gasolina necessária ao abastecimento dos aviões. Ele visava a desembarcar cinco grupos de assalto, de início com efetivos de companhia, duas horas antes do amanhecer. Os desembarques teriam lugar ao sul do rio, para penetrar pelo desfiladeiro e dominar as defesas estáticas antes que pudessem reagir, e ao norte do rio, para apoiar o ataque sul, tomar as defesas das proximidades da barreira de troncos e ir rapidamente para o interior, a fim de dominar o aeródromo a distância, desde os rochedos ao longo da margem oposta do rio. À luz do dia, seria possível levar o grupo de desembarque blindado, com 65 tanques leves, às praias e ao interior da baía. Um batalhão desembarcaria nas praias situadas ao sul da lagoa para atacar velozmente no sentido do interior, na direção da área mais elevada onde se erguia a cidade de Port-Lyautey e atacar o aeródromo pelo sul. Pelo anoitecer do Dia "D", o aeródromo já estaria tomado.

Oito navios-transporte levavam 9.000 soldados, escoltados pelo couraçado Texas, pelo cruzador leve Savannah, pelo porta-aviões de escolta Sangamon e por nove destróieres. Também no grupo iam o porta-aviões Chenango, transportando 76 P-40, para serem transferidos para o aeródromo; o Contessa, um navio especial de abastecimento de gasolina, que chegou à última hora para juntar-se aos outros no Dia "D", e o destróier Dallas, que foi preparado para fazer o transporte de um grupo de incursores até o rio.

Luzes fortes brilhavam em terra quando o comboio chegou, pouco antes de meia-noite, e manobrou a cerca de 15 km da costa, para dispor os navios-transporte em suas áreas de desembarque. No processo, os navios-transporte saíram de posição e não conseguiram reagrupar-se. Desses navios, cinco deveriam fornecer as barcaças de desembarque para transportar as tropas dos outros três. Na escuridão da noite, tudo quanto fizeram redundou em confusão e atraso. O general-comandante foi de navio em navio para verificar o desenvolvimento do trabalho e decidiu adiar a hora "H" das 04:00 h para as 04:30 h, usando todas as barcaças de desembarque que pudessem ser corretamente agrupadas.

Perdera-se o elemento surpresa. Enquanto o comboio estava ancorado na área de reunião, alguns vapores franceses passaram, e pelo menos um deles mandou um aviso para terra. Os atrasos verificados na colocação dos grupos de desembarque em suas respectivas barcaças significavam que eles só chegariam a terra quando já quase clareando o dia. Os franceses tinham, assim, tempo bastante para reforçar as defesas, normalmente pouco guarnecidas, pois tomaram conhecimento com boa antecedência dos desembarques. Eles dispunham, na área, de um grupamento de infantaria, com cerca de 3.000 homens, com artilharia. A poucas horas da costa, em Rabat, havia uma unidade de cavalaria mecanizada, composta de 1.200 homens, e parte de um batalhão de tanques, com 45 tanques. Em Meknes, cidade situada a mais ou menos 120 km por estrada, encontrava-se a parte restante daquele batalhão de tanques. Em cinco dias, mais dois regimentos poderiam ser trazidos desses dois lugares.

Cinco praias foram designadas para os desembarques: a Amarela, cerca de 3 km ao sul da lagoa; a Azul, no fundo da lagoa; a Verde, logo abaixo da entrada da baía; a Vermelha 2, imediatamente ao norte da baía; e a Vermelha 1, a cerca de 5 km costa acima. Dentro do rio situavam-se as praias Marrom 1, perto da barreira de troncos, e a Marrom 2, mais para cima, próximo do aeródromo.

Apesar da perda da surpresa e dos atrasos causados pela confusão que se estabeleceu no momento de largarem, o que fez que os ataques só tivessem início já clareando o dia, e muito embora o plano proibisse qualquer bombardeio de apoio da marinha, o General Truscott decidiu que o melhor a fazer era ir em frente com o plano, ainda que o horário sofresse atraso. Os elementos componentes daquele grupo de desembarque eram três batalhões do 60o Regimento (9a Divisão de Infantaria), um grupo blindado de desembarque, formado do 1o Batalhão do 66o Regimento Blindado, e vários grupos de sapadores e de comunicações, além de um contingente do 12o Comando de Apoio Aéreo, que estava interessado em pôr o aeródromo em ação. O mar era incomumente calmo e fraca a rebentação.

Quem primeiro desembarcou, a escuridão começava a dissipar-se, foi uma comissão de não-combatentes, encarregada de evitar a luta. Dois bravos homens, o Coronel Demas Craw e o Major Pierpont Hamilton, desembarcaram, com um jipe, quando as baterias costeiras começaram a disparar contra a concentração de grupos de ataque. Iam, com uma bandeira branca, à procura do Coronel Charles Petit, o comandante francês de Port-Lyautey. Encontraram soldados franceses, perto do Kasba, que os orientaram no rumo da cidade. Alguns minutos depois, numa encruzilhada situada nos arredores da cidade, um metralhador francês abriu fogo sem qualquer aviso. Craw foi morto, mas Hamilton foi levado para o Q-G de Petit. Embora recebido de modo amistoso, ele não recebeu uma resposta direta. Um telefonema para o Major-General Mathenet, em Meknes, produziu apenas mais alguns comentários favoráveis, mas somente isso.

Considerando-se o mau começo das tarefas, os grupos de ataque trabalharam tão bem que conseguiram chegar às praias pouco antes de clarear o dia, e com apenas hora e meia de atraso. Infelizmente, a maioria bateu em praias erradas. À direita, o 1o Grupo de Desembarque de Batalhão, que se dirigia para as praias Amarela e Azul, foi desembarcado cerca de 2 km mais ao norte, perto da praia Verde, com a segunda leva chegando antes da primeira. Sua missão era atravessar velozmente a brecha ao sul da lagoa, para atravessar a elevação em que se situava Port-Lyautey, deixando uma cabeça-de-praia estabelecida para as levas seguintes do grupo blindado de desembarque. Eles começaram a desembarcar e a organizarem-se pouco depois das 05:30 h, marcharam 5 km para o sul, circundando a extremidade da lagoa; por volta das 10:30 h o corpo principal estava na crista e dirigindo-se cautelosamente para a cidade. Até então não tinham encontrado resistência alguma. Um destacamento foi ali deixado para criar obstáculo a qualquer deslocamento que os franceses tentassem pela estrada principal de Rabat e uma bateria de obuseiros de dorso de 75 mm foi instalada no começo da descida para dar cobertura ao avanço.

Em vez de ir em linha reta, no sentido norte-leste, a força descambou um pouco para o norte, ao longo da crista, onde, por volta do meio-dia, encontrou posição de metralhadoras francesas que a deteve até o fim da tarde. Pouco antes do anoitecer, a artilharia de campanha conseguiu fazer mudar a posição dos franceses. Ali mesmo o 1o GDB entrincheirou-se para passar a noite.

No centro, o 2o GDB atingiu a praia certa, com a primeira leva chegando mais ou menos ao mesmo tempo que o 1o GDB, que a atrapalhou bastante antes de se mudar mais para o sul. Quando a segunda leva chegava, um holofote iluminou o barco de reconhecimento que lhe marcava o caminho; o inimigo lançou um foguete de aviso e as baterias costeiras abriram fogo contra o barco de reconhecimento e os destróieres de escolta. Mas os disparos de um dos destróieres o convenceram a silenciar por algum tempo. Quando clareava, dois aviões franceses fizeram várias surtidas pelas praias, atirando contra as barcaças de desembarque e os soldados.

Assim que puderam ver, as baterias costeiras começaram a disparar contra os navios-transporte, obrigando-os a afastarem-se mais da costa, duplicando a distância que as barcaças tinham de cobrir para levar às praias soldados, tanques e canhões.

Sob os disparos que começaram com o primeiro desembarque, os grupos de ataque do 2o Grupo de Desembarque de Batalhão protegeram-se perto da estrada costeira para se reagruparem. Ali, um destacamento especial, mandado para romper a barragem de troncos que havia no rio, juntou-se a eles; violento fogo de metralhadora e de armas portáteis o havia rechaçado antes que pudesse alcançar o objetivo.

Quando saíram para campo aberto, foram contidos por fortes explosões de granadas disparadas por seus próprios navios e que caíam a poucas centenas de metros à frente, numa demonstração de que não estava havendo apoio coordenado. Os soldados, sem saber o que fazer, por falta de experiência, compreensivelmente correram a abrigar-se. Reorganizaram-se uma vez mais; a artilharia naval cessou e eles puseram-se novamente a caminho, rumando para as trincheiras, nos rochedos e no Kasba, apenas para tornar a recuar quando a marinha reiniciou os disparos, sem qualquer aviso.

Muito abalados, eles finalmente conseguiram reagrupar-se, mas uma confusão de ordens levou-os demais para o leste, ultrapassando o Kasba e chegando a um grupo de cabanas marroquinas, onde enfrentaram um contra-ataque que ficou ainda mais forte durante a tarde, com a chegada de mais soldados franceses. Quando anoiteceu, a maioria dos soldados havia retornado em grupos; bom número foi aprisionado e o restante estabeleceu uma posição muito precária em torno de um farol, no topo da crista, acima do Kasba.

Durante a noite, os franceses continuaram atirando e sondando; mas em grande parte foram desencorajados por um único homem, o Segundo-Tenente Sprindis, oficial do esquadrão antitanques, que, correndo de um lado para o outro, disparando sua bazuca, dava impressão de que uma bateria de canhões estava em ação.

À esquerda, o 3o GDB foi o que mais sofreu com a descoordenação do serviço de transportes. Ele só se organizou por volta das 05:00 h e já era claro quando se aproximou das praias, que estavam cobertas pela neblina. O comandante decidiu abandonar o plano de desembarcar parte do grupo na praia Vermelha 2, logo depois da entrada da baía, para desembarcar mais acima, na costa, na praia Vermelha 1. Eles foram atacados por dois aviões franceses enquanto demandavam às praias, perdendo dois barcos, mas nenhum homem. Uma vez em terra, descobriram estar cerca de 8 km mais ao norte do que deviam. Todos os grupos de desembarque subiram correndo as dunas, para se protegerem dos disparos feitos pelos aviões em vôo rasante, agora mais numerosos. Desse grupo, dois foram derrubados com fogo de metralhadora.

Não houve oposição em terra; uma vez reunidos sobre os rochedos, eles rumaram para o sul, chegando às colinas que dominavam o rio e o aeródromo, na outra margem, sem encontrarem vivalma. Ali, instalaram postos de rádio para controlar a artilharia naval e puderam orientar os canhões do cruzador Savannah contra os 155 mm montados perto do aeródromo e contra os depósitos de munição da mesma área. Grupos de reconhecimento não encontraram tropas ou posições nas vizinhanças, mas descobriram que a ponte sobre o Sebou estava minada, além de fortemente defendida. Sem serem perturbados por qualquer contra-ataque, eles abriram um caminho através das dunas e dos rochedos e construíram uma estrada até a margem do rio. Antes da meia-noite já tinham trazido e posicionado uma bateria de canhões de campanha. Meias-lagartas também transportaram barcos de borracha para uso num ataque à outra margem do rio.

Quando anoiteceu o Dia "D", o General Truscott estava em posição nada agradável. Embora houvesse chegado à praia pouco depois do meio-dia, os problemas de comunicação criaram-lhe grande dificuldade para assumir o controle. A principal força atacante não lograra aproximar-se de qualquer dos seus objetivos e estava ameaçada de violento contra-ataque. A força do flanco direito encontrava-se ao sul de onde deveria ficar. A barreira de troncos que havia no rio não fora rompida. Pelo anoitecer, começara a ventar e a rebentação ficara mais forte; os navios-transporte estavam afastados demais para manter o ritmo adequado de abastecimento. Poucos tanques e equipamento pesado haviam sido desembarcados. Somente o 3o Grupo de Desembarque de Batalhão estava mais ou menos onde deveria estar, aí pelo meio-dia, na posição certa para cumprir sua missão.

Durante a noite, ele reagrupou todos os soldados que se encontravam nas praias para reforçar o 2o GDB, no centro, e trouxe seus sete tanques leves, tudo o que dispunha, para dar cobertura contra qualquer força francesa que atacasse pela rodovia de Rabat. Ao clarear o dia, o Savannah deveria ajudar, com o fogo de sua artilharia, a destruir os ataques de blindados franceses. Durante a noite, mais alguns tanques começaram a ser desembarcados e, pela manhã, foram auxiliar a repelir um ataque que se desenvolvia na estrada de Rabat. Essa luta prosseguiu durante quase todo o dia, só arrefecendo no fim da tarde, mas o flanco resistiu.

Em torno do Kasba (o bairro antigo) houve uma luta confusa durante a maior parte do dia. O 2o GDB, reforçado e de certo modo reorganizado, pôde rechaçar vários contra-ataques com a ajuda de apoio naval, embora cedendo posição junto ao farol; mas não pôde avançar nada. O 1o GDB alcançou uma colina que dominava Port-Lysutey, apoiado por artilharia naval e por bombardeios de hidraviões. No fim da tarde, ele se estava organizando para outro ataque na direção do aeródromo, ajudado por pequeno grupo de tanques leves, quando um avião americano lançou duas bombas sobre ele e alguém começou a disparar contra o aparelho.

Através do rio, o 3o GDB bombardeou o aeródromo com os canhões de 105 mm durante o dia e também realizou disparos de contrabateria. Os barcos de borracha foram preparados para tentar à noite a travessia do rio.

Assim terminou o segundo dia, com a maioria dos soldados em terra ainda aquém dos objetivos do Dia "D". Durante a noite, uma companhia do 3o GDB cruzou o rio e entrincheirou-se na margem sul: duas outras tentaram tomar a extremidade ocidental da ponte sobre o rio, que leva a Port-Lyautey, mas fracassaram. Entrementes, o 1o GDB avançou, um pouco erraticamente, para tomar as elevações que do lado sudoeste dominam o aeródromo. De manhã cedo, o Coronel Petit foi capturado, juntamente com um oficial de Estado-Maior do 1o de Tiraileurs Marocains. Ele ordenou que o regimento cessasse fogo. Aliás, houve vários indícios de que a maioria dos franceses relutava em resistir com vigor.

No começo da noite, um grupo de demolição conseguiu chegar a uma extremidade da barreira de troncos sobre o rio e rompe-la, completamente, segundo julgaram. Pouco antes de clarear o dia, o Dallas, tendo a bordo um grupo incursor, começou a dirigir-se para a foz do rio, em mar agitado e contra a maré. Levava no comando um prático em navegação bastante conhecedor daquela área, tirados do Marrocos, algum tempo antes, pelo Departamento de Serviços Estratégicos para esse trabalho. Ele chegou à barreira de troncos quando o dia clareava, descobrindo que esta não estava completamente solta. Raspando o fundo e sob o fogo dos canhões do Kasba, ele a abalroou, cortou-a e continuou subindo o rio. As granadas o perseguiram até que ele saiu do campo de visão do posto de observação do Kasba. Das colinas, postos de metralhadora despejavam fogo contra ele, mas o navio revidou com seus próprios canhões; prosseguiu ileso, dobrando a curva em ferradura que o rio ali descrevia, passando pela companhia do 3o GDB, entrincheirada na margem sul, descendo o estreito em frente à pista de pouso, encalhando, finalmente, do lado oposto da extremidade sul do aeródromo. O grupo incursor embarcou rapidamente nos barcos de borracha, desceu em terra e atacou o aeródromo. A companhia do 3o GDB que já se encontrava naquela margem do rio atacou também. O aeródromo ficou livre de soldados franceses, e em mãos dos americanos, por volta das 08:00 h do Dia "D" + 2.

A artilharia de campanha, os canhões navais e os bombardeiros de mergulho fizeram ataques coordenados contra as baterias que podiam atacar o aeródromo. Por volta do meio-dia, patrulhas americanas, incluindo tanques leves, controlavam a cidade e as elevações próximas do aeródromo. Às 10:30 h, os P-40 do Chenango começaram a aterrissar ali.

Enquanto isso, o ataque contra o Kasba finalmente começara. Apoiado pelos bombardeiros de mergulho do porta-aviões, o ataque foi eficiente; as tropas de assalto invadiram o forte e a guarnição se rendeu. Depois de reagrupado, o 2o GDB avançou para fazer cessar toda a resistência na área em que se situava o aeródromo. Às 22:30 h, o General Mathenet, pelo telefone, solicitou uma reunião com o General Truscott, tendo ficado estabelecido que o encontro se daria às 08:00 h do dia seguinte. Toda a luta parou às 04:00 h de 11 de novembro. O moderno aeródromo e base de hidraviões de Port-Lyautey estava em poder e dos americanos; mas Casablanca já negociava sua rendição.


Oran

Quando os grandes comboios penetraram no Mediterrâneo, rumando para leste, sinais de alerta percorreram toda a costa da África do Norte Francesa. Na área de Oran, as defesas costeiras foram guarnecidas na noite de 6 de novembro; mas os navios prosseguiram, sempre para leste. Aliviado o alerta, o movimento nos postos de defesa foi voltando à normalidade. À tarde de 7 de novembro, o Comodoro Troubridge, da Marinha Real britânica, reunira numa só frota as seções rápida e lenta da sua força, cerca de 100 navios ao todo, e as grupou em colunas operacionais. Às 18:15 h, as colunas se dividiram, desviando-se para o sul, na direção das suas praias.

Para esses desembarques, foi aplicada a rotina operacional britânica, que previa o envio de um submarino-farol para cada local de desembarque, a fim de marcar o ponto de encontro dos navios-transporte de tropas. Lanchas a motor despachadas desses navios se apresentariam ao submarino-farol para embarcar grupos de pilotos para cada praia. Enquanto estes retornassem para juntar-se às flotilhas de barcaças de desembarque, o submarino-farol, aproximando-se mais da terra, lançaria grupos de homens em barcos portáteis para marcar posição próximo da praia. Os grupos de pilotagem conduziriam as primeiras levas de barcaças de desembarque para entrar em contato com esses barcos portáteis que marcavam as praias. Assim que os primeiros grupos de desembarque chegassem às suas praias, os navios-transporte se aproximariam, atentos aos campos minados porventura existentes, ancorando a cerca de 8 km da costa.

Às 21 :45 h, o grupo da direita encontrou seu submarino-farol, o P-54, a uns 26 km da costa. Ali o comboio se dividiu pelas praias X e Y.

A praia X, situada, na baía, a leste do promontório de Mersa Bou Zedjar, era o flanco direito do ataque, o ponto de desembarque da força-tarefa blindada de 2.250 homens, sob o comando do Coronel Paul Robinett. A praia dividia-se em duas partes por um pequeno promontório rochoso. A praia Verde X, a oeste do ponto, tinha uma faixa de areia fofa, com cerca de 30 m de extensão, até as altas dunas. Em certo ponto dessas dunas havia uma trilha que conduzia a uma estrada que passava pelas colinas costeiras, indo até a aldeia de Lourmel, na extremidade sul de Sebkra d'Oran. A praia Branca X era mais estreita, mais abrigada e de acesso mais difícil.

Os navios-transporte que se destinavam à praia X atrasaram-se por terem que evitar um pequeno comboio de cinco navios franceses que rumavam para Oran escoltados por uma traineira armada, chegando ao ponto de ancoragem às 23:15 h. Com todas as luzes acesas, esses navios dirigiram-se rapidamente para leste, até que avistaram os navios-transporte e escoltas que iam para a praia Y, quando então se desviaram, passando novamente pela praia X, e ancoraram ao largo do cabo, a oeste de Mersa Bou Zedjar. Eles tinham atravessado o caminho dos caça-minas e atrapalhado seu programa de desembarque.

A lancha-guia de um dos seis navios-transporte perdeu o caminho e as barcaças de desembarque desse navio tiveram de fazer sozinhas a travessia de uma hora. Como resultado, as levas que se dirigiam para a praia Verde X desembarcaram fora de ordem.

Esses contratempos atrasaram os trabalhos em apenas meia hora; por volta de 01:31 h, as primeiras barcaças de desembarque tocavam a terra firme. Em cada setor, uma companhia de infantaria blindada estabeleceu uma cabeça-de-praia e assegurou-se de que o promontório que havia entre os setores estava realmente deserto de inimigos. A ela seguiu-se um grupo de sapadores que marcou as saídas das praias, as áreas de reunião para unidades e veículos e os locais para a fixação dos depósitos de suprimentos. O primeiro a deixar a praia foi um pelotão de reconhecimento do 13o Regimento Blindado. Pouco depois das 06:00 h ele estava em plena estrada, no alto das dunas, rumando para Lourmel, tendo como objetivo fazer o reconhecimento das estradas a leste e a oeste dali e instalar nessas rodovias obstáculos a eventuais ataques à coluna volante que seria a próxima a desembarcar.

Vinte tanques leves destinados a integrar a coluna volante foram embarcados no navio-tanque Bachaquero, que rumou para a praia Verde X assim que informado de que estava desimpedida. Apesar do seu calado, ele chegou a cerca de 120 m da praia, por volta das 04.00 h. Em três horas, a engenharia de combate conseguiu construir uma ponte flutuante para permitir que os tanques chegassem a terra; aí pelas 08:15 h todos eles estavam em terra firme. Entrementes, as barcaças de desembarque iam e vinham, transportando soldados e veículos leves. Muitas barcaças sofreram avarias ao tentar atravessar os baixios da baia.

Embora se tivesse perdido o elemento surpresa pelo encontro com o comboio francês, os desembarques não sofreram oposição. Depois de muito trabalho, estava na praia toda a coluna volante (um batalhão blindado, parte de uma companhia de infantaria blindada, um pelotão de destruidores de tanques e um pelotão de sapadores). A organização da coluna realizou-se de tal maneira, que por volta de 09:00 h ela já se deslocava na direção de Lourmel. Ao deixar a praia, uma mensagem radiofônica do pelotão de reconhecimento informou ter feito contato com um carro blindado francês perto daquela aldeia. Entrementes, o Q-G da força-tarefa foi instalado no promontório existente entre as praias Verde X e Branca X.

Por volta do meio-dia a coluna volante, depois de ultrapassar Lourmel, estava pronta para avançar paia leste, pela estrada principal, ao norte do Sebkra. O pelotão de reconhecimento colocara um obstáculo rodoviário a mais ou menos 10 km do ponto onde se encontrava a coluna, na estrada que vai para Tlemcen. O contato pelo rádio com o Q-G da força-tarefa ficou ruim depois que a coluna volante venceu as colinas e desceu para a planície, junto ao lago salgado; mas o comandante da coluna levou-a para leste com determinação. Ela rompeu um obstáculo rodoviário francês, a 13 km de Tlemcen, na encruzilhada da estrada de Bou Tlélis, e outro, 5 km mais adiante em Bredea. Ao anoitecer, a força chegou às proximidades de Misserrhin, uma aldeia de onde a estrada principal, desviando-se para nordeste, se estendia na direção de Oran, 14 km à frente, e uma estrada secundária, correndo na direção leste, levava ao aeródromo de La Sénia, a uns 11 km de distância. Este era o principal objetivo imediato.

Cinco navios-transporte, escoltados pelo cruzador HMS Aurora, levavam o Grupamento de Combate 26o, com mais de 5.000 homens, sob o comando do General-Brigadeiro Theodore Roosevelt, para a praia Y, travando contato na hora aprazada com os elementos que lhes serviriam de orientação. Às 23:20 h, eles começaram a arriar na água as barcaças de desembarque. Como acontecera em Casablanca, os homens, inexperientes e excessivamente carregados, demoraram a descer às barcaças. As escadas de um dos navios-transporte tinham degraus a intervalos de 60 centímetros. A primeira leva ficou pronta para embarcar às 23:45 h e demorou mais de uma hora para cobrir os 10 km de distância até a praia.

Não houve oposição armada, mas um inesperado banco de areia, ao largo da costa, deteve as três primeiras barcaças de desembarque, que transportavam veículos. Sem se darem conta de que logo adiante a água era novamente profunda, eles descarregaram jipes e canhões que afundaram e desapareceram. Descoberto o obstáculo, procuraram um modo de contorná-lo, e a segunda leva de assalto desembarcou à 01:38 h. Duas horas depois, os navios-transporte, aproximando-se mais, chegaram a menos de 3 km da costa. Por volta das 05:00 h, metade dos soldados e 33 veículos estavam em terra.

A praia Y também foi dividida em dois setores, Verde e Branco, desembarcando em cada um deles um batalhão. Logo depois de clarear o dia, a chalupa francesa La Surprise, que conseguira escapar despercebida de Oran, tentou atacar os transportes, mas foi combatida e afundada pelo destróier HMS Brilliant. Já então, o pelotão antitanques tomara El Ancor, aldeia situada a uns 1.600 m para o interior, cobrindo a estrada que vai para Bou Tlélis pelo sudoeste. Por volta das 08:00 h, três carros blindados franceses arriscaram-se, chegando ao alcance dos canhões antitanques de 37 mm e dos morteiros pesados, sendo destruídos.

Protegido por essa guarda de flanco, o 2o Batalhão do 26o Grupamento de Combate avançou para leste, deslocando-se ao longo da orla sul da Plaine des Andalouses, visando a limpar o Cap Falcon e a costa leste, na direção de Mers el Kébir. Pelo anoitecer, ele já estava na aldeia de Ain et Turk, na baía rasa, entre Cap Falcon e Mers el Kébir.

Seguindo pelo sopé das colinas de Djebel Murdjadjo, o 3o Batalhão ocupou uma aldeia situada a uns 150 m acima da planície, onde deixou um destacamento de infantaria e uma bateria de obuseiros de dorso de 75 mm. Rodeando as encostas do Djebel pelo leste, o corpo principal do batalhão avançou para seu objetivo mais importante, a Ferme Combier, situada numa faixa de terra elevada, a 270 m acima do porto de Oran. Antes das 08:00 h, ele foi detido por fogo de canhões e metralhadoras nas proximidades do objetivo, onde ficou entrincheirado pelo resto do dia.

Na parte da manhã, depois que quase todos os soldados combatentes já haviam desembarcado, as baterias do Cap Falcon começaram a bombardear os navios-transporte, obrigando-os a se afastarem mais da costa. O fogo de contrabateria do couraçado HMS Rodney foi parcialmente eficaz, mas não pôs fora de combate os canhões franceses, que impediram o desembarque de veículos e equipamento pesado.

A leste de Oran, a força de ataque principal, com 34 navios-transporte e 20 vasos da Marinha Real, encontrou-se com o submarino Ursula, pontualmente às 21:30 h, a 24 km ao norte do Cap Carbon. Ali o comboio alterou ligeiramente seu curso, colocando-se aproximadamente a uns 10 km ao largo das praias Z às 23:15 h. O objetivo imediato era tomar o pequeno porto de Arzew, de modo a desembarcar os tanques médios. Para realizar isso, a força-tarefa incluía o 1o Batalhão Ranger.

Divididos em dois grupos, os Rangers foram os primeiros a rumar para a praia. Duas companhias, em barcos pequenos, foram enviadas diretamente para a entrada da baía; desembarcaram no molhe, mataram duas sentinelas e surpreenderam a guarnição adormecida. Correndo para o lado norte da cidade, elas tomaram o Forte de la Pointe, no sopé da colina, que dominava a baía com sua bateria costeira.

Ao mesmo tempo, quatro companhias desembarcaram no extremo oposto do promontório, numa pequena praia existente abaixo do Cap Carbon. Conduzidas pelo seu comandante, Tenente-Coronel Darby, elas subiram rapidamente os rochedos. Cerca de 1.600 m ao sul, encontraram uma ravina por onde chegaram a uma colina situada na retaguarda da bateria principal de canhões de 105 mm do Fort du Nord. Ali, embasaram morteiros pesados, fizeram uma barragem de fogo e atacaram a posição, tomando os canhões; entrincheiraram-se e por volta das 04:00 h já estavam em condições de anunciar, através de um foguete luminoso, que a bateria fora tomada. Estabeleceu-se contato entre os dois grupos de Rangers.

Uma barcaça de desembarque, tripulada por marinheiros americanos e britânicos, veio logo atrás dos Rangers, penetrando silenciosamente na baía interna. Constatando que os Rangers estavam em ação junto do Fort de la Pointe, eles abordaram quatro pequenos navios ali ancorados e ficaram em posição de controlar a área. Ao clarear o dia, a zona portuária da cidade e a colina que a dominava estavam sob o controle dos americanos.

Para os desembarques principais, a praia Z foi dividida em três setores, cobrindo uma faixa de mais ou menos 5 km, que ia das proximidades de Arzew até um pouco além de uma pequena aldeia cortada pela estrada costeira, St.-Leu. Dois Grupamentos de Combate Regimentais, o 16o e o 18o, e uma força-tarefa blindada, baseada no Comando de Combate B da 1a Divisão Blindada, compunham as formações de assalto, com um efetivo total de 15.400 homens.

O Grupamento 18o começou a desembarcar na praia Verde Z por volta de 01:20 h; pouco depois das 03:00 h, o 3o Batalhão estava a caminho de Arzew, para ajudar os Rangers e garantir a posse da cidade. Houve alguma resistência perto do quartel e na base naval, no molhe sul; mas pelo meio da manhã a cidade estava desimpedida; 13 hidraviões foram tomados intactos, com os tanques cheios de combustível e carregados de torpedos. O 1o Batalhão rumou direto para o interior, pela estrada principal Arzew-Oran. Pouco depois de passar por Renan, uma aldeia distante 8 km da costa, ele destruiu, em rápido combate, cinco carros blindados franceses. Três quilômetros mais adiante, as patrulhas avançadas encontraram um grande povoamento em que havia prédios de concreto e de pedra defendidos por metralhadoras pesadas e armas portáteis várias, apoiadas por canhões de 75 mm e 155 mm. Apesar de contar com canhões autopropulsados de 105 mm e de ser reforçado pelo 2o Batalhão, que desembarcara durante a manhã, o ataque montado à tarde fracassou. Pelo anoitecer, o 3o Batalhão, menos uma companhia, que ficara para trás, para defender Arzew, também foi deslocado para o local. St.-Cloud estava ameaçada por três lados; o ataque seria desfechado na manhã seguinte.

Exatamente à hora "H", 01:00 h, o Grupamento 16o começou a desembarcar nas praias Branca Z e Vermelha Z. Partindo da Branca Z, o 3o Batalhão enveredou por um caminho que, fugindo à estrada, passava ao sul de St.-Cloud, margeando um grupo de pequenos lagos salgados, para chegar a Fleurus, situada a uns 20 km para o interior. A aldeia ergue-se na parte mais elevada do istmo ali existente, voltado para nordeste, para St.-Cloud, a cerca de 6,5 km de distância, e para os subúrbios de Oran, a uns 15 km a oeste. Ela domina a estrada St.Cloud-Oran e a que corre no sentido sudoeste, de Arzew para o aeródromo de Tafaroui. Ali, o 3o Batalhão estabeleceu um ponto forte para dominar o sistema rodoviário e proporcionar guarda de flanco para o avanço do Grupamento 18o.

À esquerda, o 1o Batalhão desembarcou na praia Vermelha Z; pegou de surpresa as aldeias de Damesme e St.-Leu, estabelecendo uma cabeça-de-praia segura para o desembarque da força-tarefa blindada. A seguir, ele dirigiu-se para leste, descendo pela estrada costeira. Cerca de 15 km mais além, em La Macta, uma aldeia plantada à margem do rio de mesmo nome, que corre por uma área pantanosa, encontrou alguma oposição. Pouco depois do meio-dia, num ataque que contou com o suporte de fogo da artilharia do HMS Farndale, tomou a aldeia e se organizou em posição defensiva, para bloquear a passagem de quaisquer reforços que Mostanagem, no leste, pudesse enviar.

Inicialmente designado para funcionar como reserva do Corpo, o 2° Batalhão foi desembarcado durante a manhã, sendo despachado para juntar-se ao 3° Batalhão em Fleurus.

Dois navios-transporte, o Misoa e o Tasajera, seguiram as levas de ataque do 1° Batalhão até bem perto da terra firme. Elas conseguiram manobrar até a praia Vermelha Z e lançar, por volta das 04:00 h, pontes flutuantes para que os tanques leves pudessem descer à praia. O desembarque começou duas horas mais tarde. Houve alguns disparos da bateria instalada perto de St.-Leu, mas todos os tanques já estavam em terra por volta das 08:00 h. Entrementes, os soldados, o equipamento e veículos leves tinham sido trazidos até a praia pelas barcaças de desembarque. Utilizando os primeiros veículos descarregados, uma força de reconhecimento, consistindo da Companhia de Reconhecimento do 13o Regimento Blindado, menos o pelotão que estava operando no flanco oposto a Mersa Bou Zedjar, deixou a praia às 08:20 h, dirigindo-se para sudoeste, para uma aldeia situada a 32 km dali - St.-Barbe-du-Tlélat - ponto de encontro de cinco estradas, incluindo as rotas principais para Sidi Bel Abbes e, finalmente, Marrocos, e de Perrégaux e Mascara, no leste. A aldeia ficava a 6 km do principal objetivo da força blindada, o aeródromo de Tafaroui.

Com apenas 15 minutos de diferença da companhia de reconhecimento seguia uma coluna volante pela mesma linha de centro, entre dois grupos de lagos salgados, e descendo pela estrada Arzew-St.-Barbe. Integravam a coluna a maior parte do 1o Batalhão do 1o Regimento Blindado, com uma companhia da 6a Infantaria Blindada, um pelotão de destruidores de tanques, sapadores e uma seção de reconhecimento. Tendo despachado, antes, um grupo de reconhecimento, distribuído em patrulhas, pelas estradas que saíam de St.-Barbe, a coluna volante passou pela aldeia, chegando ao perímetro do aeródromo às 11:14 h.

Não havia indícios da presença de tropas aeroterrestres e um ataque dos tanques leves e da infantaria, feito por dois lados do aeródromo, rompeu a defesa e fez 300 prisioneiros. Passada uma hora, um comunicado chegou ao Q-G do Comando de Combate B, em St.-Leu, informando que Tafaroui estava pronto para receber aviões de Gibraltar. Às 16:30 h, dois esquadrões de Spitfires da 12a Força Aérea aterrissaram ali.

Cerca de 40 km para oeste, grupos de homens da Força-Tarefa de Pára-quedistas andavam, exaustos, lentamente pelo lado sul do Sebkra d'Oran, vítimas de um plano mal concebido. Na Inglaterra, na noite anterior à partida dos pára-quedistas, veio a informação de que eram esperados desembarques sem oposição; com isso, adiou-se a hora da decolagem, e os aviões de transporte só se reuniram sobre a costa da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, para seu vôo de 3.200 km, às 22:00 h. Eles foram prejudicados pela chuva e pelo nevoeiro; voando muito alto, acima das nuvens, para cruzar as montanhas do norte da Espanha, a formação perdeu contato com a base. Um navio ancorado ao largo de Oran, para mandar um sinal de orientação, usou a freqüência errada, motivo por que os aviões ainda em vôo não receberam a comunicação de que os desembarques seriam feitos com oposição, o que significava que deveriam lançar os pára-quedistas, e não tentar a aterrissagem, como pretendiam.

Muito espalhados e já meio sem combustível, os aviões aproximaram-se da costa norte-africana ao amanhecer. Seis deles voavam muito a oeste de Oran; um pousou em Gibraltar, dois no Marrocos Francês e três no Marrocos Espanhol, onde outro avião lançou os pára-quedistas que conduzia. Trinta e dois aviões chegaram à Argélia, com 12 destes voando sobre a extremidade errada do lago salgado, onde os homens saltaram, indo descer a sudeste de Lourmel. Finalmente esses infelizes chegaram a Tafaroui, no dia seguinte. Os aviões restantes pousaram, na maioria, entre 08:00 h e 09:00 h na extremidade oeste do Sebkra, onde se entrincheiraram os pára-quedistas que tinham a bordo, mas alguns que haviam lançado seus pára-quedistas pousaram nas planícies salgadas ao sul de Oran, juntando-se a outro avião que ali havia descido com os homens ainda a bordo. Todos os americanos que iam nesses aviões foram aprisionados pela polícia civil francesa. Depois da tomada de Tafaroui,, tentou-se trazer os aviões de transporte de tropa da extremidade oposta do Sebkra; vários destes foram obrigados a pousar pelos aviões franceses saídos do aeródromo de La Sénia, que ainda não havia sido capturado. Outros foram avariados pelo fogo de artilharia partido das colinas após aterrissarem em Tafaroui.

A operação aeroterrestre, além de não ter alcançado qualquer de seus objetivos, nada fez para ajudar as forças de terra. No fim do Dia "D", apenas 14 aviões-transporte ainda estavam em condições de operar. Quando se necessitou de forças aeroterrestres em Argel, uma semana depois, para o estágio seguinte das operações, menos de três quintos dos homens estavam disponíveis.

Nenhum dos desembarques feitos nas praias, no Dia "D" sofreu oposição realmente séria. A chegada de certo modo tranqüila da primeira barcaça de desembarque à praia e o sucesso dos Rangers em Arzew levaram os comandantes da Força-Tarefa a enganar-se sobre o aspecto mais perigoso do seu plano - o ataque frontal à baía de Oran pelas unidades da marinha. Havia navios da marinha francesa na baía; o porto era defendido por baterias costeiras e por unidades terrestres com armas automáticas. Somente a surpresa total poderia dar qualquer chance de sucesso a um ataque desse tipo. Isto teria significado a sua realização antes do início dos desembarques nas praias.

Com base na suposição de que houvesse resistência apenas simbólica, a ordem para o ataque naval só foi dada às 02:45 h. Já então o alarma geral soara em Oran; as defesas estavam guarnecidas. Dois ex-navios guarda-costas americanos, rebatizado como HMS Walney e HMS Hartland, tripulados pela Marinha Real mas desfraldando grandes bandeiras americanas, bem como o Pavilhão Branco - a Bandeira de Guerra britânica -, transportavam uma força de quase 400 homens do 6o de Infantaria Blindada. No comando estava o Capitão Peters, da Marinha Real, um oficial reformado que se apresentara como voluntário para essa tarefa. O Walney levava a bordo equipes especialmente treinadas para, transportando-se em pequenos escaleres, tentar a tomada dos navios franceses para impedir que a tripulação deles os afundasse.

Quando o Walney se aproximou da entrada da baía, holofotes se acenderam e o inimigo abriu fogo contra ele. As lanchas a motor de escolta lançaram fumaça que o ocultou parcialmente enquanto ele passava pela barreira e penetrava na baía. Mal entrou, encontrou a chalupa francesa La Surprise, que estava saindo. Quase abalroado pelo Walney, o navio francês disparou todos os seus canhões a queima-roupa. Com os motores destruídos e muitos feridos a bordo, e mortos também, soldados e membros da tripulação, o Walney foi à deriva baía adentro, caindo sob devastador fogo cruzado, de submarinos, atracados ao norte, e de um destróier, ancorado ao sul. Os sobreviventes receberam ordens de abandonar o navio, sendo presos todos os que chegaram às praias. Depois de por algum tempo errar pela baía, ardendo, o Walney emborcou e afundou.

O Hartland vinha logo atrás do Walney. Quando este entrou na baía, a artilharia voltou-se para o Hartland que, já seriamente atingido, tentou também penetrar a baía. Na primeira tentativa que fez, bateu no molhe sul. Dando marcha à ré, o comandante tentou novamente, apesar da violência do fogo de que estava sendo alvo. Enquanto rodeava o molhe, ele caiu diretamente na mira dos canhões do destróier Typhon, sendo detido, tentando inutilmente ancorar ao lado de uma traineira. Em chamas de proa a popa, ele vogou para o meio da baía, onde seu comandante, ferido antes de entrar na baía, ancorou e mandou que todos abandonassem o navio. Eram poucos os que não estavam mortos ou feridos. Alguns sobreviventes conseguiram escapar em duas lanchas a motor. O Hartland explodiu nas primeiras horas da manhã.

A operação foi um completo fracasso: um desperdício de bravura, de determinação e de habilidade demonstradas por aqueles designados para realizá-la.

Pouco depois do amanhecer os destróieres franceses começaram a tentar deixar o porto para dar combate aos navios-transporte. Três deles foram afundados e um foi obrigado a retornar à baía pelo HMS Aurora e seus destróieres de escolta. À luz do dia, os Albacores do HMS Furious atacaram os aeródromos de La Sénia e Tafaroui. Cerca de 70 aviões franceses foram destruídos ou seriamente avariados em terra, em La Sénia, perdendo os americanos um Albacore e um Sea Hurricane. Quando o aeródromo foi capturado, um exame demonstrou que esses aviões estavam totalmente armados e prontos para decolar. A ação francesa limitou-se a tentativas de defender os aeródromos; não houve nenhum ataque sério contra os desembarques. Quando os esquadrões de Spitfires americanos tentavam pousar em Tafaroui, á tarde, quatro caças franceses os atacaram, derrubando um Spitfire e perdendo três dos seus.

Pelo final do Dia "D", a coluna blindada ocidental estava acampada na margem norte do Sebkra, a uns 13 km do aeródromo de La Sénia, a força avançada da coluna blindada oriental se encontrava na posse de Tafaroui e rumando cautelosamente para La Sénia, esperando que seu corpo principal se juntasse a ela durante a noite. Na baia a oeste de Oran e Mers el Kébir, o 26o Grupamento de Combate estabelecera uma base firme na costa, em Ain et Turk, e perto do seu primeiro objetivo, Ferme Combier, nas colinas que dominavam Oran. No flanco leste, Arzew e as praias Z estavam firmemente defendidas; unidades dos Grupamentos 16° e 18o haviam chegado ou ultrapassado a linha da cabeça-de-praia em todos os pontos, exceto no norte, onde o 18° foi detido em St.-Cloud. Vinte e quatro Spitfires baseados em terra já estavam disponíveis para apoiar os aviões dos porta-aviões.

Após os desembarques, só se encontrara resistência francesa séria nos importantes entroncamentos rodoviários de Misserrhin e St.-Cloud, nos altiplanos próximos de Oran e nos aeródromos. Para a força principal, no flanco leste, mais de 10.000 soldados de infantaria, mais de 1.000 homens do grupo blindado e 2.500 soldados de corpo haviam sido desembarcados. Mas, pelo anoitecer, eles tinham apenas 340 veículos ao todo. No fim da tarde e durante a noite, a rebentação aumentara tanto que todos os desembarques nas praias, exceto em Mersa Bou Zedjar, foram suspensos. Tudo tinha de ser escoado pelo limitado espaço do porto de Arzew. As unidades de combate ainda careciam de veículos, canhões e munição; a força blindada tinha poucos tanques médios, meias-lagartas, destruidores de tanques e caminhões de abastecimento.

A Força-Tarefa Centro obtivera êxito em várias iniciativas tomadas em seu primeiro dia; tinha unidades em posição em pontos-chaves, mas estava muito dispersa e com poucas armas de apoio; além disso, as comunicações eram ruins. Não havia virtualmente contato algum com a guarda do flanco esquerdo, em La Macta. O contato entre as duas colunas blindadas também era intermitente.

No flanco direito, o Tenente-Coronel Todd, em seu acampamento abaixo de Misserrhin, tivera apenas contatos ocasionais com o Coronel Robinett e a coluna blindada principal, a apenas 16 km de distância; mas não conseguira qualquer contato com a cabeça-de-praia, da qual dependia para receber suprimentos. Contudo, antes do amanhecer ele já estava em marcha. Deixando a aldeia ocupada pelos franceses no seu flanco, ele passou pela margem norte do Sebkra, dobrou para o norte e atravessou a ferrovia na direção da rodovia Misserrhin - La Sénia. Sentindo muito a falta dos destacamentos que havia deixado em vários pontos-chaves, a coluna volante desceu a estrada, chegou à extremidade sul do aeródromo pouco depois do nascer do sol. Deslocando seus poucos tanques leves e canhões autopropulsados para causar a melhor das impressões, o Tenente-Coronel Todd avançou arrojadamente para o campo. No decurso de sua aproximação, vários aviões decolaram para oeste sem atacá-lo e parte da guarnição partiu para Oran. Por volta das 10:00 h ele estava de posse do aeródromo, sem ter sofrido qualquer perda, e com uns 160 prisioneiros e 60 aviões em suas mãos.

Mas a permanência no aeródromo tornou-se desagradável, por causa dos bombardeios de duas baterias de canhões de 175 mm situadas fora do alcance dos canhões dos tanques, perto de Valmy, a uns 3 km ao sul. Ali, os franceses haviam estabelecido uma das suas principais posições defensivas, para cobrir os acessos a Oran. Esse estado de coisas só foi resolvido à tarde, quando parte da coluna blindada do flanco esquerdo trouxe apoio de Tafaroui e numa surtida conseguiu tomar a posição e destruir os canhões.

O Coronel Robinett, vindo atrás com sua coluna blindada, chegou ao alcance da posição de Misserrhin pouco depois de clarear o dia e teve de lutar. A aldeia ergue-se sobre a estrada principal, na íngreme colina de Djebel Murdjadjo. Ela domina a estreita faixa de terreno transponível ao longo da margem do Sebkra, e estava fortemente defendida por canhões de 75 mm bem colocados e cobrindo posições de metralhadoras.

A primeira tentativa de penetração da aldeia pela estrada principal fracassou. Foi deixado ali um tanque danificado para bloquear o caminho. Ao meio-dia, Robinett mandou um destacamento tentar varar a vegetação enfezada da colina situada ao norte das defesas; também essa tentativa falhou, pelas dificuldades do terreno, pelo fogo de artilharia e pela escassez de soldados de infantaria. Pelo final da tarde chegaram mais tanques e canhões, mas a infantaria blindada ainda estava atrasada. Em vez de esperar, o comandante dos blindados decidiu prosseguir assim que escurecesse, tomando o caminho da margem do Sebkra para juntar-se à sua coluna avançada em La Sénia.

O Grupamento de Combate 26o não progrediu muito durante o Dia "D" + 1, por dispor de pequena quantidade de munição. A rebentação suspendera todos os desembarques nas praias e somente ao meio-dia é que um grupo de desembarque conseguiu chegar às praias carregado de munição. O fogo de artilharia aumentou muito, sobretudo do Cap Falcon, quando se reiniciou o avanço pelas colinas junto da Ferme Combier. As tropas foram alvo de violento fogo cruzado dos zuavos entrincheirados nas colinas acima de Mers el Kébir e ainda estavam aquém do objetivo quando anoiteceu.

No centro, a maior parte da coluna blindada que se encontrava no aeródromo de Tafaroui dirigiu-se para o norte, para La Sénia, mal amanheceu. Ela foi detida pelo informe, mandado por um destacamento que cobria o acesso sul - 12 km a este de St.-Lucien, na estrada para Sidi bel Abbès, onde ficava a guarnição central e o depósito da Legião Estrangeira - de que uma força blindada francesa se aproximava. Uma companhia blindada prosseguiu firme para o norte, sob o fogo de artilharia das colinas; o restante retornou para defender o aeródromo. Chegou também uma informação de que reforços constantes de tanques leves, destruidores de tanques, dois tanques médios e artilharia antiaérea estariam a caminho por volta das 10:00 h, partindo de Arzew. Mais tarde, porém, esses reforços foram desviados para enfrentar uma ameaça do leste.

Sob a proteção de uma cortina de fumaça lançada pelo pelotão de reconhecimento que travara contato com os blindados franceses ao norte de St.-Lucien, reuniu-se uma força de contra-ataque de uma companhia blindada de destruidores de tanques. Avançando dois pelotões, protegidos pelo fogo cruzado dos artilheiros antitanques, os tanques leves americanos atacaram os franceses, que deixaram, ao se retirar, 14 tanques destruídos no campo de batalha. A companhia perdeu um homem, um tanque e um meia-lagarta e defenderam St.-Lucien até que foi substituída pela infantaria blindada, à noite.

St.-Cloud foi atacada de três lados, logo que amanheceu, por unidades dos Grupamentos 16o e 18o, que chegaram a penetrar na aldeia, mas foram detidas, sofrendo baixas consideráveis, por volta do meio-dia. O comandante do Grupamento 18o planejava recuar e desfechar novo ataque, precedido de violento fogo de artilharia. Mas o comandante-de-divisão interveio e mandou que St.-Cloud fosse contida por um batalhão; todas as unidades evitariam a posição pelo oeste, aprontando-se para o ataque a Oran, na manhã seguinte.

Durante a noite os franceses trouxeram parte do 2° Regimento de Tirailleurs Algériens de Mostaganem para reforçar suas posições nos arredores de La Macta, no flanco leste. Um de seus batalhões atravessou o rio La Macta e os pântanos, chegando, ao amanhecer, bem próximo da retaguarda do batalhão americano que defendia a aldeia de La Macta. Ao fazerem os americanos um ataque na direção da costa, a princípio confundiram os argelinos com uma companhia de Rangers cuja chegada estava prevista para aquela noite. As comunicações entre as tropas de La Macta e os Q-Gs da divisão e do grupo de combate estavam interrompidas. O oficial-de-ligação naval, que ainda se mantinha em contato com elas, pediu apoio de artilharia. Uma mensagem confusa chegou ao Q-G da Força-Tarefa Centro, que despachou uma companhia de sapadores e pediu ao Comando de Combate B que desviasse para La Macta as formações blindadas de que pudesse dispor. A coluna que estava a caminho de Tafaroui para reforçar o aeródromo recebeu ordens para voltar.

Informes de várias fontes davam conta de que os canhões franceses estavam bombardeando do leste de La Macta, sendo, por isso, despachados aviões Albacore para bombardear a suposta posição. A marinha enviou os cruzadores HMS Jamaica e HMS Farndale para, se necessário, entrar com o apoio naval. Em meio a grande agitação, os soldados que estavam no local, o 1o Batalhão do 16o Regimento de Infantaria, esclareceram a situação, repeliram o ataque e mantiveram suas posições. Quando a coluna blindada chegou, já tudo estava resolvido. Os blindados partiram novamente para Tafaroui. Depois de escurecer, o 1o Batalhão foi substituído pelo grupo de sapadores da reserva do corpo e pela artilharia de campanha, sendo despachado para juntar-se ao resto do Grupamento 16o para o avanço sobre Oran.

O Dia "D" + 1 fora decepcionante; o aeródromo de La Sénia fora tomado, mas, devido aos problemas verificados no desembarque de equipamento e suprimentos, ao cansaço dos elementos participantes da investida e aos contra-ataques dos franceses, não se registrara avanço significativo na direção de Oran. Perdera-se tempo com o fracassado ataque a St.-Cloud, que poderia ter sido cercada e evitada com mais facilidade do que Misserrhin.

Contudo, já à noite de 9 de novembro, as forças americanas ou estavam em posição ou se reunindo para um ataque concêntrico ao porto. Robinett obteve êxito em sua marcha noturna ao sul de Misserrhin e chegou ao aeródromo de La Sénia pouco depois da meia-noite. De manhã cedo, a infantaria blindada, que rodeara Misserrhin também com sucesso, juntou-se a ele. Durante a noite, unidades dos Grupamentos 16o e 18o realizaram um complexo reagrupamento que, entretanto, não foi totalmente bem sucedido. Nem todos puderam estar em posição para o avanço geral planejado para as 07:15 h de 10 de novembro.

Deixando em seu flanco o ponto fortificado que os franceses tinham em Valmy, a força blindada deslocou-se, ao amanhecer, de Tafarohi para juntar-se aos blindados em La Sénia, para um ataque conjunto a Oran pelo Norte. As duas seções do Comando de Combate B a princípio foram perturbadas pelo fogo de artilharia da área de Valmy e das baterias costeiras que voltaram seus canhões para a terra. Alguns dos canhões de Valmy foram destruídos pela artilharia de campanha que se encontrava em La Sénia e outros o foram pelos blindados que vinham de Tafaroui; as baterias costeiras foram bombardeadas pelo mar.

Em pouco, as duas seções do Comando de Combate B estavam prontas para avançar. Uma coluna formada por duas e meia companhias de tanques leves, uma companhia de infantaria blindada e uma seção de destruidores de tanques foi despachada com ordens de rumar para o Q-G militar francês e para a baía. Numa estrada paralela, situada a 1.600 m de distância, a segunda coluna recebeu ordens de se deslocar para o lado leste da cidade. Quando as duas percorriam terreno aberto em direção aos arredores da cidade, foram alvo de fogo de artilharia, fraco e ineficiente, e entraram na cidade pouco depois das 10:15 h. A única oposição que encontraram foi de tocaias. A coluna da direita deixou uma seção patrulhando as ruas do centro e desviou-se para leste, em direção aos subúrbios, que a 1a Divisão de Infantaria estava prestes a atacar, chegando a tempo de evitar, encontrando-se com o comandante da divisão, fossem feitos os ataques de artilharia e aéreos que haviam sido providenciados.

As outras colunas partiram diretamente para o Q-G, onde encontraram o General Boissau, que aceitou os termos de um armistício provisório. Às 12:15 h foi ordenado o cessar-fogo, mas tudo aconteceu tão depressa, que não foi possível fazer que todas as unidades cumprissem a ordem a tempo. O Grupamento de Combate 26o ainda estava lutando perto de Mers el Kébir uma hora mais tarde.

A Força-Tarefa Centro fez a tomada de Oran em dois dias e meio. Ela foi o único episódio da "Operação Tocha" decidido inteiramente pela força das armas. Seu sucesso deveu-se em grande parte ao senso de improvisação de seus comandantes, porque muitos foram os problemas causados pelas más condições do tempo e das comunicações. Os únicos fracassos importantes foram as duas operações posteriormente aditadas ao plano, ou seja, o ataque aeroterrestre e o ataque naval à baía. Ambas foram um desperdício, não resultando de nenhuma delas qualquer coisa de útil.


Argel

Argel era a chave, do ponto de vista político e militar, do projeto de conquista da África do Norte Francesa. Ali, as esperanças de desembarques sem oposição ou com resistência apenas simbólica eram mais fortes do que em qualquer outro ponto. Mas a prudência ditava que se fizesse a aproximação em formação de ataque.

Pelo anoitecer de 7 de novembro, o Almirante Moreau, comandante naval francês da região de Argel, visitou o General Juin e chamou-lhe a atenção para o fato de a armada aliada que navegava ao longo da costa de Argel encontrar-se em posição de desviar-se para o sul durante a noite e promover desembarques nas praias argelinas. "Isto realmente preocupava", comentou Juin em suas memórias, "mas se Argel estava ameaçada, havia muita chance de que a operação tivesse lugar em Sidi Ferruch, o local de desembarque do corpo expedicionário em 1830, e as defesas costeiras nos avisariam a tempo. Nesse caso fui ingênuo porque, precisamente naquela noite, as defesas daquele setor não estavam guarnecidas, por terem recebido ordens falsas os que delas se incumbiam".

Na verdade, uma hora após o pôr do sol, a seção rápida da força de ataque a Argel desviou-se para o sul, dividindo-se logo depois em dois grupos, um deslocando-se para sudeste e o outro para sudoeste. Este grupo, por sua vez, dividiu-se em duas colunas, que se separaram às 21:30 h para formarem os dois grupos que desembarcariam a oeste. Cada grupo travou contato com o respectivo submarino-farol e posicionou-se adequadamente, por volta das 22:30 h, entre 10 e 12 km da costa. O céu estava claro, as luzes, na costa, brilhavam e soprava uma brisa fraca; o mar era fraco, mas havia uma corrente para oeste que afastou os navios até 8 km da sua posição durante os trabalhos de baixar e carregar as barcaças de desembarque. À 01:00 h em ponto, os navios do comboio lento, que tinham seguido uma rota mais curta, mais perto da costa, juntaram-se aos demais. Três horas depois, todos os navios-transporte aproximaram-se mais das praias e ancoraram.

No ponto mais para o ocidente o desembarque foi feito pelo 11o Grupo da Brigada de Infantaria em duas praias, Maçãs Verdes e Maçãs Brancas, perto da aldeia de Castiglione, na estrada costeira para Oran e ao norte do aeródromo de Blida. O carregamento e a reunião das barcaças de desembarque começaram pouco antes das 23:00 h e elas partiram para as praias cerca das 23:50 h. As barcaças orientavam-se por um farol instalado num barco desmontável situado a algumas centenas de metros da praia Maçãs Verdes. As levas de ataque começaram a desembarcar bem na hora "H", 01:00 h; o comandante da brigada e o Estado-Maior da corporação estavam na praia por volta das 02:30 h. Não houve oposição; firmou-se a cabeça-de-praia, com um perímetro que se estendia 8 km para o interior, na direção de Blida, incluindo a pequena cidade de Koléa, onde a guarnição declarou ter recebido ordens para não resistir; todo o 11° Grupo encontrava-se já em terra por volta do meio-dia.

Dez quilômetros costa acima situavam-se as praias Cerveja Verde e Cerveja Branca, a primeira ao lado do promontório de Sidi Ferruch e a segunda a uns 3 km a leste, na curva da baía. Parte do 1o Comando, embora se atrasasse no desembarque, chegou à praia Cerveja Verde antes das 03:00 h, tomou o forte de Sidi Ferruch sem que houvesse qualquer resistência. O General Mast os recebeu e rendeu formalmente a posição, com suas baterias costeiras, ao Tenente-Coronel Trevor, comandante do destacamento.

Mas o Grupamento de Combate 168o enfrentou dificuldades devido à aplicação defeituosa da rotina de desembarque. Não se foi buscar nenhum piloto no submarino-farol para conduzir as levas de ataque à praia, e com isto algumas foram levadas para as praias Maçãs, outras foram desembarcadas entre as praias Cerveja Verde e Cerveja Branca. Dispersados em cerca de 24 km de costa, sem veículos e armas pesadas suficientes, com aparelhos de rádio funcionando muito mal, quando funcionavam, os comandantes de unidades e subunidades fizeram enormes esforços para reunir suas forças, e com tal resultado que um batalhão já estava indo para o interior, na direção do subúrbio de Lambiridi, em Argel, por volta das 08:30 h.

Ponto importante do plano para o setor Cerveja era um desembarque do 6o Comando (os 1o e 6o Comandos eram unidades ad hoc com uns 620 oficiais e soldados britânicos e 230 americanos) num grupo de pequenas praias, Cerveja Vermelha, em enseadas existentes na costa rochosa logo a oeste de Argel, em Pointe Pescade, com o objetivo de tomar as baterias costeiras e pontos de controle de tiro, no cabo. Infelizmente eles seriam levados em barcos que tiveram de vir de outros navios, causando atrasos. Os enguiços também pioraram as coisas. Além disso, havia entre as levas espaço de tempo muito grande, chegando algumas às praias com duas horas de atraso, outras com até cinco horas. Muitas, por se verem forçadas a alcançar as praias sem auxílio dos pilotos, só se acercaram do objetivo principal, o Forte Duperré, às 08:15 h, em plena luz do dia. O forte resistiu, só se rendendo à tarde.

Quando o 168o grupava todos os seus elementos que se encontravam dispersos e se aproximava de Lambiridi, o Tenente-Coronel Trevor levou parte do seu comando até o aeródromo de Blida em veículos franceses conseguidos com a ajuda do General Mast. Chegando ao aeródromo por volta das 08:00 h, entrou logo em negociações com o comandante francês local, que era amistoso. Aí pelas 09:30 h, um destacamento de Fuzileiros de Lancashire, da 11a Brigada, chegou para juntar-se à tropa que ali se encontrava. Quando ele chegava, um avião Martlet do HMS Victorious aterrissou, pois seu comandante notara os lenços brancos acenando em terra. O comandante francês deu o seu consentimento por escrito para o pouso de aviões aliados.

No leste, o Grupamento de Combate 39o, com um destacamento do 1o Comando, chegou às proximidades do Cap Matifou às 22:30 h. Ele não tinha um só veículo, pois o Thomas Stone, a única baixa do comboio, fora atingido, pelo ar, no dia anterior, a 240 km de Argel. Este grupamento, que zarpara de Nova York a 25 de setembro, teve apenas mais dez dias de treinamento na Escócia, antes de partir com o comboio de ataque. A perda do Thomas Stone provocou mudanças de último minuto no plano de desembarque; somente três das quatro praias destacadas seriam usadas. Em conseqüência da alteração feita assim de improviso e dos enganos havidos no tráfego das barcaças de desembarque, algumas unidades foram deixadas em praias erradas. Apesar disso, o 1o Batalhão, já organizado, preparava-se para sair da praia por volta de 01:30 h, saindo o 3o Batalhão apenas 15 minutos mais tarde. Não houve oposição em terra nesse ponto, porém, mais ou menos por essa hora, os holofotes do Cap Matifou iluminaram os transportes que se tinham aproximado a menos de 5 km da praia e as baterias costeiras abriram fogo contra eles. O fogo de resposta dos destróieres de escolta apagou os holofotes e calou os canhões. Segundo o plano, o destacamento de Comandos deveria, já então, estar operando contra os fortes e as baterias existentes no cabo. Suas barcaças de desembarque deixaram tarde o navio-transporte, encontraram forte nevoeiro ao largo da costa e diminuíram a velocidade para manter a formação, chegando à praia por volta das 03:00 h, com duas horas de atraso. Uma vez em terra, o destacamento avançou para o cabo, ocupou a estação de comunicações e o quartel e passou a controlar os acessos para a bateria costeira e o forte. Mas, apesar do bombardeio naval e aéreo, estes resistiram até o fim da tarde.

Uma vez fora da praia, o 3° Batalhão dirigiu-se para leste, ao longo da estrada para Argel. Dez quilômetros adiante, em Fort de 1'Eau, a meio caminho para Maison Carrée, ele foi detido por infantaria francesa, apoiada por três tanques. O 1o Batalhão, sem esperar pelos seus canhões antitanques e pelos canhões autopropulsados, lançou-se na direção do aeródromo de Maison Blanche, percorrendo os 16 km que o separavam dele, chegando lá às 06:15 h.

Uns poucos tanques franceses dispararam alguns tiros contra os atacantes nas proximidades do aeródromo, afastando-se logo depois, deixando-lhe o campo livre. Maison Blanche rendeu-se às 08:30 h.

Infelizmente as comunicações ainda eram ruins e Gibraltar não foi informado disso. A hora marcada para a captura do aeródromo no plano operacional era 07:30 h. Não tendo recebido notícia alguma, o Marechal-do-Ar Welsh decidiu arriscar-se e mandar seus caças para lá, embora não transportassem combustível suficiente para voltar, se as coisas saíssem erradas. O primeiro esquadrão decolou às 08:00 h e pousou em Maison Blanche às 10:00 h, seguido de outro, duas horas mais tarde.

Todos os desembarques tiveram pouca ou nenhuma resistência. Porém, o mesmo não aconteceu com o ataque naval à baía. Este começou à 01:30 h. Dois destróieres britânicos, o Broke e o Malcolm, transportavam grupos de desembarque do 3o Batalhão do 135o Regimento de Infantaria (34a Divisão Americana). As luzes ainda brilhavam em Argel quando eles se aproximavam da costa, mas quando se acercaram ainda mais, tudo apagou na cidade e os holofotes começaram a varrer a baía. Os feixes de luz iluminaram os dois navios, iniciando-se o fogo de artilharia. Os tiros então disparados interromperam as conversações tensas entre Darlan, Juin e Murphy, na Villa des Oliviers. Ofuscados pela luz dos holofotes e pelos clarões dos canhões, o Broke e o Malcolm não puderam encontrar a entrada da baía. Os navios por duas vezes tentaram e falharam. Na investida seguinte, o Malcolm foi tão seriamente atingido que teve de retirar-se. Estava clareando quando o Broke, por fim, conseguiu penetrar a baía e, a grande velocidade, desviou-se para bombordo e desembarcou seu grupo no cais mais próximo. Este ocupou a usina geradora de força e as instalações petrolíferas, mas foi detido por fogo de metralhadora. Durante algum tempo as coisas se acalmaram. Alguns grupos rumaram para a base de hidraviões e para as ruas vizinhas. Mas, pouco depois das 08:00 h, violento bombardeio de artilharia obrigou o Broke a mudar de um ancoradouro para outro. Depois de mais de quatro horas na baía as coisas esquentaram mesmo, e ele teve de sair. Quando tentava dar o fora, foi atingido repetidamente, afundando no dia seguinte.

Cerca de 250 homens do grupo de desembarque ficaram em terra, defendendo suas posições durante a maior parte da manhã. Entretanto, a escassez de munição e a chegada de carros blindados franceses tornaram finalmente a posição insustentável. Eles se renderam às 12:15 h e permaneceram prisioneiros durante dois dias; mas os franceses nada fizeram para sabotar o porto.

Os acontecimentos muito estranhos do dia tornaram-se claros à luz do que estava acontecendo do outro lado. Em Villa des Oliviers, Juin agiu com rapidez no sentido de sustentar-se no comando; seu objetivo era impedir luta séria e chegar a um acordo com os americanos o mais depressa possível. O estratagema que usou para manter consigo as forças ali existentes foi a "resistência simbólica" (Caroud d'honneur). Alterando o seu procedimento em relação a Murphy, ele o submeteu à prisão domiciliar na Villa, obteve a libertação do General Koeltz, do General Mendigal e do prefeito, e em seguida foi para seu Q-G, na cidade, em Fort 1'Empereur. Ali, às primeiras horas, ele demitiu Mast do comando da Divisão de Argel e o substituiu pelo seu subcomandante, General Toubertie, ordenando-lhe que mantivesse "contato elástico, mas não agressivo", com os soldados americanos na colina a oeste de Argel e nos subúrbios orientais da cidade. Mandou Koeltz reunir um destacamento de soldados fora da cidade, com a mesma diretiva "elástica, mas não agressiva".

Mais tarde, naquela manhã, Juin percorreu abertamente a cidade, com seu estandarte de comando desfraldado, para visitar o Almirante Darlan, que estava então no comando naval da área, instalado no Hotel Saint-Georges. Entrementes, o Almirante recebera uma mensagem de Pétain expressando sua total confiança nele - mensagem que em última análise não ajudava nada. As notícias do Marrocos e de Oran eram vagas e o contato, difícil. O ataque americano parecia realmente muito amplo, pois ia de Safi a Argel.

Em suas divertidas memórias, Juin fala das hesitações e ansiedades de Darlan, da sua responsabilidade para com Pétain e, por outro lado, da sensação de estar nas mãos do destino. Juin ponderou junto a ele que aquela situação de "resistência simbólica" não poderia ser mantida por muito tempo. Se se prolongasse, alguém acabaria fazendo algo precipitado. Finalmente, já adiantada a tarde, Darlan deu a Juin permissão para negociar um cessar-fogo, limitando-o à área de Argel e vizinhanças. "Não pedi mais", escreve Juin, "acreditando que um cessar-fogo em Argel redundaria na suspensão completa das hostilidades na África do Norte, mas me enganei redondamente".

A caminho de seu posto de comando, o general foi ao encontro de Murphy, encontrando-o bastante preocupado; ele tentou tranqüilizá-lo, dizendo que tudo daria certo. Juin chegou a seu posto a tempo de cancelar os preparativos que estavam sendo feitos para um contra-ataque de tanques contra uma unidade americana na estrada que vinha do forte. Colunas americanas começavam a aparecer nas colinas situadas a oeste de Argel, havendo então alguns disparos. Juin determinou o cessar-fogo, estabelecendo que a ordem fosse transmitida aos demais postos através de toques de corneta. Então, voltou à Villa para propor a Murphy que procurasse o comandante americano e lhe oferecesse um cessar-fogo. Mas o comandante não estava ali. Preocupado com a possibilidade de os acontecimentos tomarem rumo pior, Murphy "lançou-se corajosamente entre as linhas dos contendores, conclamando seus compatriotas a não atirar". Ele acabou encontrando o General Ryder e pouco depois do anoitecer levou-o a Fort 1'Empereur. Juin e Ryder concordaram em que os soldados franceses, conservando suas armas e munição, retornassem aos quartéis, onde ficariam até novas ordens.

No fim do Dia "D" a situação parecia boa. Argel rendera-se. Os bombardeiros alemães começaram a atacar no fim do dia, danificando seriamente um destróier e um navio-transporte americanos. Mas o porto estava funcionando. Durante á noite, o mar agitado e o vento forte impediram o uso das praias. O navio de comando da força-tarefa, HMS Bulolo, ancorou na baía na manhã seguinte, bem cedo, e todos os navios receberam ordens de penetrá-la também. Com o Almirante Darlan em Argel, havia esperanças de que fosse possível obter rapidamente o cessar-fogo, antes que os alemães tivessem tempo de reagir na Tunísia.

Mas as coisas foram diferentes. O próprio Darlan, embora cedendo ante a força que se encontrava em Argel, estava incerto sobre a extensão e o peso da operação aliada. Havia informes de que no Marrocos e em Oran as forças francesas resistiam aparentemente com sucesso e ele estava sendo cada vez mais pressionado por Vichy. Darlan não tinha muitas simpatias pelos britânicos, mas, embora toda a sua carreira o apresentasse apenas como oportunista e velhaco, ele realmente parecia, à sua maneira, amar a França.

Na manhã do Dia "D" o Marechal Pétain recebeu uma mensagem do Presidente Roosevelt, através do Encarregado de Negócios Americano. A rejeição da nota por parte do marechal levou ao corte das relações diplomáticas dos Estados Unidos com o governo de Vichy. A princípio, os alemães, procurando obter colaboração direta de Vichy, reivindicaram o uso de aeródromos na Tunísia e em Constantine, na Argélia oriental. Laval contemporizou; pela meia-noite, eles passaram ao ultimato, insistindo num acordo, a ser estabelecido dentro de uma hora, para usar essas bases aéreas e convocaram Laval para um encontro com Hitler, em Munique. Durante a noite o governo de Vichy recebeu de Darlan a notícia de que aceitara o cessar-fogo para a área de Argel e que na manhã seguinte um general americano iria com ele discutir, a sua ampliação para toda a Argélia e Tunísia. Pétain e Laval cederam à exigência alemã e na manhã seguinte, 9 de novembro, 40 aviões alemães pousaram em El Aquina, perto de Túnis.

Tudo isto teve um lamentável efeito sobre Darlan. Juin desdobrava-se para que se ampliassem as negociações e fossem feitas outras concessões; para que Darlan consentisse em que não houvesse resistência aos desembarques americanos. Juin, no entanto, esbarrou com outra dificuldade. Murphy disse-lhe que não tinha poderes para negociar, e que por isso tinham de esperar a chegada do General Mark Clark. Murphy encontrava-se num dilema, porque não sabia se os aliados negociariam com Darlan. Giraud era o homem que tinham escolhido e este devia chegar a qualquer momento, na companhia de Clark, para ser o salvador da África do Norte Francesa.

O salvador mostrara-se um associado difícil. Ao chegar ao QG de Eisenhower, em Gibraltar, na véspera do Dia "D", exigiu que lhe dessem o comando da operação e que, no seu desdobramento, fossem feitos desembarques no sul da França. Ofereceram-lhe o comando das forças francesas, sob o Comandante Supremo aliado. Ele considerou o oferecimento incompatível com a honra de seu país. Muitas horas de discussão se passaram na tentativa de levar Giraud a agir, mas somente na manhã do Dia "D" é que ele concordou em cooperar.

Afinal, os Generais Clark e Giraud chegaram a Argel, em aviões separados, na tarde de 9 de novembro. Darlan recusou encontrar-se com Giraud, pois nesse ponto seu nome nada significava. Os Aliados tinham calculado mal; o chefe era um risco, e não uma ajuda. "Os americanos acreditavam ingenuamente" que todos deporiam armas à sua chegada, Juin escreveu, "confiando na lenda que cercava o nome do glorioso veterano do Exército da África desde sua fuga da fortaleza de Königstein, menosprezando, no entanto, o espírito de disciplina do Exército da África, ao imaginar que Giraud, um general sem cargo, fosse recebido como Napoleão retornando de Elba".

Naquela noite, Clark, na companhia de Murphy, reuniu-se com Darlan e Juin, entregando-lhes uma nota estipulando as condições do armistício. Sem discuti-la, marcaram um encontro para a manhã seguinte. O dia terminou sem que se registrassem progressos nas negociações e com a luta prosseguindo no Marrocos e em Oran. Durante a noite, Juin teve demorada discussão particular com Giraud, na qual finalmente concordaram em que a única saída possível seria tentar obter algo por meio de Darlan.

As conversações começaram às 09:00 h do dia seguinte e foram tensas. Do lado francês havia indignação, ante os informes de que oficiais americanos estavam ameaçando unidades francesas nos quartéis com represálias - que Murphy prometeu pôr a limpo. Do lado americano havia impaciência e desconfiança. Darlan afirmou que ele pessoalmente concordava com os termos do armistício propostos, mas que não estava em condições de ordenar o cessar-fogo geral sem antes conseguir de Pétain a autorização. Naturalmente, Clark recusou-se a reconhecer qualquer autoridade em Pétain, que já rompera relações com o governo americano. A discussão caiu num círculo vicioso. Clark, cada vez mais irritado com as procrastinações do almirante, dava murros na mesa de conferência cada vez mais fortes.

Clark faz um relato vívido, em seu diário de guerra, da frustração que experimentava, da raiva mesmo, diante do que ouvia no transcurso da conferência. Não lhe era possível ver senão evasivas, barganhas e desonestidade em tudo quanto lhe falava Darlan sobre honra, lealdade para com os comandantes e juramento de fidelidade ao marechal. Enquanto Darlan procurava ganhar tempo, Clark não havia ainda começado a penetrar o estado de espírito dos oficiais franceses, nem pudera mostrar força suficiente em terra para convencê-los. Ele subestimou Juin, que manobrava em favor dos Aliados junto a seu comandante superior - convencido de que só poderia controlar efetivamente as forças sob seu comando conseguindo autoridade superior para agir - isto é, Darlan.

No auge da discussão, Juin pediu aos americanos tempo para que pudesse conversar com o almirante e seu Estado-Maior. Com Clark, Murphy e seus assessores fora da sala, Juin começou a apelar vigorosamente para que Darlan assinasse o cessar fogo antes de notificar Vichy, argumentando que qualquer mensagem que de lá viesse teria que ter a chancela alemã. O tempo era curto e só duas coisas pesavam na África do Norte: a própria pessoa de Darlan, porque ainda podia falar em nome do marechal, e o Exército da África, que se encontrava dividido, e tinha de ser transformado numa força unida e coerente o mais breve possível. Era preciso ver os fatos através da óptica da realidade. A ajuda dos anglo-saxões estava ali e era vital para eles chegar ao verdadeiro objetivo - a Tunísia. A honra do exército francês exigia que ele se concentrasse para combater os alemães que já estavam obtendo um ponto de apoio. Na presença dos membros do seu Estado-Maior, Darlan rascunhou uma ordem para suspender a oposição às forças americanas, despachada ao meio-dia para Oran, Marrocos, às forças da Argélia e para a Tunísia. A este comunicado Juin acrescentou um pós-escrito dirigido aos comandantes das unidades sediadas na Tunísia, lembrando-lhes de que as ordens para combater "outras forças" permaneciam em vigor.

Oran já se havia rendido quando a mensagem de Darlan foi recebida. Ela chegou a Casablanca a tempo de impedir o bombardeio e o ataque final à cidade.

Até então, tudo ia muito bem; mas naquela noite Darlan recebeu um comunicado de Pétain repudiando a sua atitude e nomeando Noguès seu representante na África do Norte. Em conseqüência, Darlan informou a Clark que não tinha mais poderes e pôs-se à sua disposição como prisioneiro. Felizmente, já então o cessar-fogo estava em vigor no Marrocos e na Argélia. O problema era a Tunísia.

No dia seguinte, as coisas ficaram mais fáceis, com a notícia de que forças alemães haviam invadido a zona desocupada da França. Mas a honra e o fantasma de Pétain tornaram a ocupar o palco. Juin procurou convencer a Darlan de que a invasão alemã o liberara de toda responsabilidade para com Vichy, agora agindo sob as ordens dos alemães. Na opinião de Darlan, nada poderia ser feito até que Noguès chegasse do Marrocos, pois Pétain transferira toda a autoridade para ele!

Juin trabalhou Darlan. Clark esmurrou a mesa com mais violência ainda, ameaçando prender todo mundo. Finalmente, Darlan e Giraud se encontraram - e ambos decidiram esperar a chegada de Noguès para solucionar tudo. Entrementes, os alemães, levando soldados para a Tunísia de avião enquanto Darlan procrastinava, fizeram que Clark não conseguisse o controle sobre o Residente-Geral e o comandante das tropas da Tunísia, ambos almirantes.

Aproximava-se o fim do quarto dia: embora ordenado o cessar-fogo, as forças francesas ainda eram oficialmente neutras, posto que não haviam recebido qualquer ordem para cooperar com as forças aliadas, embora para isso muito insistisse Juin. Ele estava preocupado com a situação que surgia na Tunísia, onde o comandante do exército, General Barré, também simpático aos Aliados, vinha sendo pressionado por ordens conflitantes. À tarde, Juin conseguiu afinal que Darlan concordasse no envio de ordens diretas a todas as forças armadas sob seu comando na Argélia para que se opusessem a qualquer intervenção do Eixo e, em particular, impedissem os desembarques de soldados que a força aérea inimiga vinha fazendo e entrassem em contato imediato com as forças americanas. A primeira reação dos comandantes do exército e da força aérea de Argel foi recusar obediência até que Noguès desse a ordem. Isto resultou em violenta discussão de Clark com Juin, que foi por ele acusado de traição. Somente no dia seguinte é que os escrúpulos dos Generais Koeltz e Mendigal foram superados.

Noguès só chegou na tarde de 12 de novembro. Embora pessoalmente disposto a cooperar, tornava-se necessário pô-lo a par de tudo quanto fora discutido e assentado, para que ele se inteirasse da cadeia de comando. Impunha-se também persuadi-lo a conversar com Giraud. Finalmente, a 13 de novembro, Clark conseguiu estabelecer um acordo: Darlan seria Alto Comissário e Comandante Naval; Giraud seria Comandante-Chefe das forças de terra e ar; Juin comandaria o setor oriental (Argélia e Tunísia); Noguès seria o Residente-Geral do Marrocos Francês e comandante do setor ocidental; os franceses começariam imediatamente a apoiar os Aliados na libertação da Tunísia e, depois, da França Metropolitana - coisa que, apesar do reduzido recurso que possuíam, realmente fizeram.

Para aqueles que concertaram o acordo, ele parecia ser a única maneira de repor os franceses na guerra e de criar condições para derrotar o Eixo na África do Norte. Para os países que não se encontravam sob o domínio do Eixo era pura traição. Os líderes das forças mandadas para combater as potências fascistas haviam feito um acordo com Darlan, um arquitraidor, um colaboracionista que ajudara a dobrar os joelhos da França, um criptofascista inqualificável que representava tudo quanto os povos aliados vinham combatendo. Uma tempestade política abateu-se sobre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Numa sessão secreta do Parlamento, Churchill foi atacado de todos os lados. A reação foi compreensível e, na verdade, admirável. Mas Churchill e Roosevelt apoiaram Eisenhower nessa crise. É difícil ver o que mais poderiam ter feito - muito embora, durante algumas semanas sob o regime de Darlan, franceses leais que haviam ajudado os Aliados fossem perseguidos e presos!

Enquanto se prolongavam as negociações, surgiu o drama da esquadra francesa. Desde o começo das discussões, Clark e Juin insistiram em que Darlan desse ordens para que a esquadra francesa, em Toulon, zarpasse para a África do Norte. Durante a discussão desse problema, Darlan tergiversou muito, mas acabou enviando não uma ordem, mas um pedido, dirigido ao Almirante Laborde, que, aliás, tinha pelos britânicos muito menos simpatia que a maior parte dos comandantes da força naval francesa. Nos dois dias seguintes, ele mandou duas outras mensagens, mas nunca uma ordem direta.

É bem possível que Laborde obedecesse, se lhe fosse dirigida uma ordem direta. De qualquer modo, ele não agiu, confiando numa declaração dos alemães de que deixariam a esquadra em paz. Por algum tempo, a promessa foi cumprida. mas, já na segunda metade do mês de novembro, eles ocuparam Toulon e a 27 de novembro tentaram tomar a esquadra, empregando a 2a Divisão Panzer SS "Das Reich" e enviando de trem guarnições de marinheiros alemães vindos de Cherburgo, Brest e Lorient. Já então era tarde demais para zarpar. Os próprios franceses afundaram na baía de Toulon a esquadra que ali se encontrava: um couraçado, dois cruzadores de batalha, quatro cruzadores pesados e três leves; 24 destróieres e 16 submarinos.

Enquanto se desenrolavam as discussões com os franceses, foram realizados grandes esforços, já com Argel rendida, no sentido de acelerar o desembarque de tropas e equipamento. O Tenente-General Kenneth Anderson desembarcou na noite de 9 de novembro e assumiu o comando da Força-Tarefa Oriental, agora transformada em 1o Exército. A 10 de novembro, o 36o Grupo de Brigada de Infantaria zarpou de Argel para o leste, rumo a Bougie. Os aeródromos de Bougie, Djidjelli e Bône foram ocupados. O Estado-Maior do 1o Exército esforçou-se por reunir e equipar unidades para a longa marcha através da Tunísia, prejudicada pelo fato de que haviam sido embarcados equipados para ataque, e não para longas marchas. A 14 de novembro, o primeiro comboio de acompanhamento aportou em Argel, transportando um grupamento regimental blindado da 6a Divisão Blindada, uma brigada de pára-quedistas e reforços e equipamento para as duas brigadas de infantaria, já em terra. Pelo dia 15 de novembro, Anderson pôde despachar duas colunas móveis, uma força de infantaria à esquerda, uma força blindada à direita.

Esses dois grupos, "Hartforce" e "Bladeforce", avançaram com grande energia. Pelo dia 16 de novembro, houve o primeiro contato com tropas de terra alemães no norte da Tunísia a 28 do mesmo mês, a "Bladeforce" e partes da 11a Brigada de Infantaria chegaram a 24 km de Túnis. Mas os alemães conseguiram, através da Sicília, cumprindo rota marítima curta, concentrar tropa e material muito mais rapidamente que os Aliados, obrigados a cobrir centenas de quilômetros, por estrada, desde a Argélia, e com poucos aviões. Os britânicos, com a ajuda dos franceses, formaram uma linha defensiva pelo norte da Tunísia, com seu ponto mais avançado em Medjez el Baba, a 48 km, em vôo direto, de Túnis. Somente no mês de maio seguinte, um semestre mais tarde, é que Túnis finalmente caiu para os Aliados, que tinham então em Batalha, dos Estados Unidos, cinco divisões de infantaria, duas blindadas e uma aeroterrestre; da Comunidade Britânica, nove divisões de infantaria e três blindadas. Durante a campanha, os aliados haviam reequipado, para o Exército Francês da África, duas divisões de infantaria, dois regimentos blindados, três batalhões antitanques, três batalhões de reconhecimento e 12 batalhões antiaéreos. As perdas aliadas na campanha tunisiana foram: franceses, 2.156 mortos, 10.276 feridos e 7.007 desaparecidos; americanos, 2.715 mortos, 8.978 feridos e 10.599 desaparecidos; britânicos, 6.233 mortos, 21.528 feridos e 10.959 desaparecidos. Os prisioneiros do Eixo em mãos aliadas montavam a uns 250.000 homens.

A "Operação Tocha" não saiu exatamente como havia sido planejada. Muitos erros se registraram durante os desembarques. Por outro lado, falharam os Aliados, ao golpear as forças do Eixo na Tunísia, em limitar à cidade de Argel o deslocamento feito para o leste, decisão muito combatida, na época, por diferentes homens de visão, embora alguns fatos justifiquem a medida, tomada em nome da cautela. Todos esperavam, por exemplo, que os desembarques sofressem oposição dos defensores da área onde seriam tentados, repercutindo isso na velocidade do avanço feito na direção da Tunísia.

Avaliando mal o verdadeiro estado de espírito dos franceses, os comandantes da força aliada não lhes dispensaram na África do Norte a confiança que mereciam, motivo por que foram eles menos eficientes do que podiam no apoio à tropa de invasão.

Assim, em Casablanca, seus esforços no sentido de ajudar, na verdade redundaram em oposição mais intensa. Em Argel, eles deram assistência decisiva nas primeiras horas. Quando o comando americano descobriu o erro em que incorria em subestimar a influência da lealdade para com Pétain, reorientou-se com rapidez e eficiência, aproveitando a chance da presença de Darlan no local para fazer um trato, aparentemente vergonhoso, mas cujos efeitos foram por certo benéficos.

Pesadas todas as falhas, todos os erros de julgamento e de avaliação criticados, a "Operação Tocha" foi, bem feitas as contas, uma extraordinária realização do ponto de vista estratégico e de planejamento de ação de forças combinadas. Pela primeira vez, uma operação de invasão reuniu em seu planejamento comandantes e Estados-Maiores de duas nações com diferentes pontos de vista, diferentes organizações e diferentes experiências militares. A escala da operação foi verdadeiramente singular, não guardando analogia com qualquer outra até então tentada. Ela uniu em um só plano a marinha, o exército, e a força aérea das duas nações sob um só comandante, para constituir uma força de ataque integrada por dois grandes grupos que partiram de pontos distantes um do outro 6.400 km. Vencendo a hostilidade do mar e vencendo as dificuldades e perigos que a guerra nele punha, os dois grupos chegaram à área de reunião na hora prevista.

Houve erros devido à falta de treinamento e acidentes provocados pelas condições do tempo. Algumas partes do plano revelaram-se excessivamente complicadas. Podemos criticar a decisão de desembarcar na costa oeste do Marrocos: este foi o aspecto mais arriscado do plano. Entretanto, a medida parecia ser, e provavelmente era, politicamente essencial. O fato notável é que todo o planejamento da "Operação Tocha", cujas partes essenciais foram estabelecidas em apenas três meses, mostrou-se irrepreensível no dia em que foi disparada.

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